Esperámos alguns dias, pacientes, depois da restrita conferência da rentrée socialista que reuniu em Coimbra a elite dirigente do PS. Não escondemos o egoísmo da expectativa – vivemos o maior período de desinvestimento público no SNS de que há memória em Coimbra. Bastariam, por isso, 2 ou 3 sinais sérios de compromisso e a centelha de esperança despertaria deste pesadelo que a pandemia agravou.

Mas nada. Nem uma ideia de Marta Temido. Nem uma promessa de António Costa. Nada. Ficou o silêncio sepulcral e a ausência premeditada de tudo o resto. A saúde navega hoje na espuma dos dias, como todos os doentes portugueses vão reconhecendo se têm o azar de adoecer sem Covid.

Coimbra é um barómetro nacional da política de Saúde. A superespecialização de conhecimento nas ciências da saúde foi construída por gerações sucessivas de académicos e profissionais nos mais diversos domínios técnicos e científicos, tendo alcançado relevo internacional em áreas clínicas de ponta e democratizado o acesso a cuidados de elevada qualidade assistencial aos doentes nacionais. A cidade assiste, incrédula, à desqualificação e omissão consecutivas dos seus serviços de saúde, antecipando a morte lenta mas significativa de um SNS avançado, universal e multipolar.

Os casos sucedem-se: em Abril de 2018, o ministro Adalberto Campos Fernandes anuncia em Coimbra investimentos “a rondar os 100 milhões de euros”, com a tristemente célebre nova Maternidade ou uma nova Unidade de Doente Crítico que incluiria respostas clínicas para Queimados, depois dos trágicos incêndios de 2017. O ministro sairia do governo sem qualquer investimento concretizado.

Ou este: Coimbra tem especiais méritos nos cuidados materno-infantis bem expressos numa das mais baixas taxas de mortalidade infantil a nível europeu. Espera há anos por uma nova Maternidade, única e pública, que se auto-financia no tempo próprio. Todos os estudos técnicos estão prontos e todos os responsáveis clínicos subscrevem a solução. Aguarda decisão desde 2015.

O pior: o silêncio sobre o Hospital dos Covões é absolutamente chocante. A ministra da Saúde foi cabeça de lista pelo PS nas eleições de 2019 no círculo de Coimbra e ex-gestora deste hospital. Tem perfeito conhecimento da desqualificação em curso das suas valências mais nobres e da imperiosa necessidade de recolocar a autonomia dos Covões para benefício dos doentes da região centro do país. O Hospital dos Covões é um pólo indiscutível da assistência clínica regional e nacional, com um historial clínico e formativo relevantíssimo em várias especialidades médicas. Manter uma fusão impreparada de 2 hospitais centrais, crescentemente disfuncional para ambos e sem ganhos de saúde para a população, só porque se tratou de uma iniciativa socialista do governo de Sócrates, é um dos silêncios mais ensurdecedores que podemos sentir.

“Recuperar Portugal” passa seguramente por não perdermos mais oportunidades de desenvolvimento humano, estrutural e equilibrado do país. O silêncio de morte sobre a saúde de Coimbra é também um silêncio sobre o bem comum. Por isso mesmo temos que o rasgar, agora, num grito vivo de justiça e mudança.