Quando pensa no Verão em Portugal, todo o português pensa em dias quentes e secos, e noites quentes e suaves. Quem pode vai a praia, disposto a lutar pelo espaço suficiente para pousar a toalha e a bolsa térmica com sandes e iogurtes. Dias em que ninguém consegue fazer nada por causa dos 40ºC lá fora. Dias em que o primeiro cheiro de um churrasco causa uma certa preocupação, porque o dia está tão quente que um incêndio florestal parece inevitável (e começamos a procurar fumo no atmosfera). Horas passadas entre cervejas e sangrias, depois do trabalho. Comboios e autocarros suados e mal-cheirosos. O Verão é assim. Junho, Julho e Agosto são quentes. Devastadoramente quentes. E todos os portugueses esperam que seja sempre assim, não é?

english summer day

Este ano, porém, não tem sido assim. As temperaturas oscilam 15º de um dia para o outro. Há dias nublados, dias frios, dias quentes, dias molhados. Acham que é o fim do mundo? Pois habituem-se. Como nós, os britânicos, já nos habituámos.

Claro, o Verão aqui continua a ser mais quente do que um Verão tipicamente britânico (embora esta semana tenho feito mais calor na Grã-Bretanha…). Mas a sensação geral deste Verão é de um caos glorioso … isto é, glorioso só para mim, claro.

No início de cada Verão, uma ansiedade terrível mas deliciosa apodera-se das ilhas britânicas. Como vai ser o tempo este Verão? Bom? Mau? Nem por isso? Nunca se sabe. E o britânico feliz é o que aprende aceitar o que o Verão acaba por trazer. O britânico infeliz é aquele que nunca aceita o seu destino, e fica, em vão, a espera de uns dias de bom tempo que nunca chegam. Nas ilhas, um Verão com bom tempo é tão raro que fica na memória, assim como o assassinato de Kennedy ou a chegada do homem à lua. Ainda ouvimos dizer: “lembro-me do Verão de 1976…” (e lembro-me, e foi fabuloso).

Se a temperatura bate nos 30ºC, é demais, ninguém consegue dormir e todos começam a queixar-se. A temperatura ideal, com qual a maior parte da gente britânica fica contente, parece ser de 23.5ºC. Nos dias de sol, a Grã-Bretanha é um sítio lindo e feliz. Férias e excursões têm de se fazer, independentemente do tempo. Essas férias, quase sempre mais cinzentas e molhadas do que cheias de sol e calor, trazem maravilhas. Maravilhas para mim, quero dizer. O Verão deste ano em Portugal, com as suas vagas de calor que começam e acabam logo no dia seguinte, com as suas manhãs cinzentas e húmidas, com os seus dias frios e ventosos, trouxe-me memórias deliciosamente Proustianas dos meus Verões britânicos.

O cheiro do relvado logo depois da chuva. O cheiro do interior de uma tenda molhada. Estar deitado dentro da tenda a ouvir a chuva. A sensação de um anoraque ainda húmido porque o metemos na bolsa antes de secar. Caminhar por uma floresta escura e verde, fresca e molhada, com a espécie de escuridão e som que só uma floresta e um céu nublado podem criar. O conforto de um “cream tea” num dia frio e chuvoso: um chá, um scone, doce e as natas “clotted” em cima, tudo consumido ao som dos anoraques a farfalhar e por entre queixas sobre o tempo, num café abafado. Sentar-se na praia com corta-ventos, pullovers e areia nas sandes. Ser criança e receber ordens para tomar ir banho no mar gelado (embora não tão gelado como a água na Arrábida). Ser criança e ter de ir para a cama quando ainda há luz do dia, em dias de verão que começam às quatro da manhã e acabam quase às onze da noite. Piqueniques no carro, com as janelas cheias de condensação porque começou a chover ao chegarmos ao miradouro.

O ano lectivo acabou há já um mês e ainda só fui obrigada a ir à praia uma vez. Tenho conseguido dormir e trabalhar, e até as melgas não me têm melgado demais, por enquanto. Estou a adorar este verão.

É como estar em casa.

(Tradução da autora a partir do original inglês)

 

 

A perfect English Summer in Portugal.

 

You say Portugal in the summer, and every Portuguese expects hot dry days, and warm relaxing evenings. Everyone who can, goes to the beach, clamouring for the space of a towel and a cold box with sandwiches and yoghurt. Days when no one gets anything done because it’s 40ºC out there. The days when the first smell of a barbecue being lit causes a little disquiet because it has been such a hot day that a forest fire seems inevitable. Looking out for smoke in the atmosphere. Hanging out after work over beers and sangrias, just because. Sweaty, smelly metros and trains. It’s just how it is. Everyone knows more or less how June, July and August will be. Hot. Devastatingly hot, and you expect it will always be.

Not this year, though. Temperature swings of 15 degrees from one day to the next. Cloudy days, cold days, hot days, wet days. You’re worried that it’s the end times, aren’t you? Maybe it’s time to get used to it. Like we British.

Of course, it’s still generally warmer here than in an average British summer, although it’s hotter there this week than here, but still, the general feel of it is glorious chaos…. glorious for me, that is.

There exists a terrible but delicious anxiety in Britain at the beginning of any summer. Will it happen? Won’t it happen? The contented Briton learns to accept what summer will bring. The unhappy one never accepts their fate, and waits in vain for a run of good weather that never comes, the good summer that is such a rare thing that is remembered like the Kennedy assassination or the moon landings. “I remember the summer of 1976…” (I do, and it was fabulous).

If the temperature hits 30ºC then it’s just too much and no one sleeps and takes to complaining about it. There is an optimum temperature of 23.5ºC when most people are happy. When Britain is basking in the sun, it is a beautiful, happy place, but holidays and days out happen regardless of good weather. But with those holidays, the ones that are more likely to be grey and wet that sunny and warm, come wonderful things. You might not think them wonderful, of course. This summer in Portugal, with its start stop heatwaves and damp grey mornings and cold windy days has brought me delicious Proustian memories of my British summers.

The smell of freshly rained on grass. The smell of the inside of a soggy tent. Lying in that tent and listening to the rain. The feel of a damp anorak that hasn’t has time to dry properly since you stuffed it back into its own pocket. Walking through a dark green forest, cool and wet, and the special kind of darkness and soundscape that only a forest and a grey sky can create. The comforting cream tea on a wet day: a cup of tea, a scone, jam and the almighty clotted cream dolloped on top, eaten to the soundtrack of rustling anoraks and complaints about the weather, in a dank café. Sitting on the beach with wind breakers and sweaters, getting sand blown into your sausage sandwiches. Being a kid and being ordered to go and swim in the freezing sea (still warmer than the sea off Arrábida, though). Being a kid and having to go to bed when it’s still light on the summer days that begin at four in the morning and end at almost eleven at night. Picnics eaten in the car while the windows steam up because it started to rain when you stopped at the beauty spot.

School has been finished for a month already and I have only had to go to the beach once. I’ve been able to get to sleep, I’ve been able to work, and even the mozzies have been bearable so far. I’m loving this summer.

It’s just like being at home.