A forma e velocidade como a pandemia Covid-19 está a afectar o mundo mostra um lado adverso da globalização.

A especialização da produção trouxe muitos ganhos de eficiência nos processos de produção e distribuição de bens e serviços que, em conjunto com a abertura à maior circulação dos mesmos, foram factores que contribuíram para o processo de globalização. No entanto, se muitos defeitos lhes são apontados, o facto é que também foram estes factores que contribuíram para o bem-estar generalizado, uma vez que permitiram que a grande maioria da população pudesse ter acesso a bens e serviços, sejam eles alimentares ou de conforto que, de outra forma, não obteriam.

A pandemia que vivemos, resulta exactamente da facilidade de circulação dos bens, serviços e pessoas de que o mundo tem beneficiado, apesar de outros efeitos negativos que lhe estão associados.

A adversidade actual encerraria um conjunto de consequências ainda mais terríveis, se não fosse outra realidade que ocorre em paralelo e que é de natureza tecnológica: a digitalização.

A frase de Adam Smith, conhecido como o pai da economia, que refere que não é de benevolência do talhante, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar a nossa refeição, mas antes da consideração que eles têm pelos seus proprios interesses, explica muito do que resultou na globalização. Ao constatar que todos os elementos de uma refeição, provenientes das mais diversas paragens, surgem no prato em função de um conjunto de esforços que se alinharam para que tal acontecesse. Hoje, também constataria que até os ingredientes mais básicos da refeição, não são analógicos mas incorporam processos digitais.

A realidade da produção alimentar que permite garantir a sobrevivência de toda uma  população, acima de um patamar  nunca antes conseguido, resulta precisamente do facto de a  produção alimentar e não só, utilizar processos de produção e distribuição altamente sofisticados, que vão desde a mecanização à inteligência artificial.

Hoje, para suster uma crise pandémica, vários países podem manter toda uma série de processos produtivos e continuar a assegurar  o abastecimento de bens essenciais a populações inteiras. Isto acontece porque os processos de produção são suportados, já não tanto apenas por processos físicos, mas também e sobretudo por tecnologia.

Seguindo o exemplo dos ingredientes servidos ao almoço, a ideia bucólica do agricultor de outros tempos, que continua a existir, deu lugar à tecnologia que está cada vez mais presente através de sistemas informáticos que gerem a rega, o controlo de pragas, o reconhecimento de imagens com recurso a inteligência artificial, os drones e a mecanização de processos.

Na distribuição, sofisticados sistemas electrónicos de gestão asseguram o encaminhamento de produtos para repor stocks onde eles são necessários.

O transporte guiado por GPS e monitorizado por redes móveis, num futuro próximo utilizará a condução autónoma. Isto, num momento em que se testam drones para a distribuição de produtos ao domicílio.

O desafio da digitalização é um dos mais importantes no mundo em que vivemos.

Como é possível constatar na crise actual, a digitalização permite-nos comunicar, trabalhar e aprender sem a presença física. A robótica permite que o trabalho físico seja, em grande medida, substituído, libertando as pessoas para a produção de conhecimento.

A aposta no mundo digital vai-nos permitir vencer muitos dos desafios como os que hoje se colocam. Mas este esforço de digitalização pressupõe muita inovação e ela só está ao alcance de sociedades com elevado grau de conhecimento e educação, abertas à criatividade e premiando o esforço individual.

A utilização da tecnologia, como se viu agora em Taiwan, é um bom exemplo de luta contra a pandemia. Neste território, as autoridades utilizaram a tecnologia para analisar BIG DATA e  encontrar potenciais focos de infecção, rastrear movimentos que pudessem conduzir à sua propagação e com isso obter resultados positivos no controlo do foco de infecção. A inovação tecnológica faz parte da solução para muitos problemas, mas esta só ocorre em ambientes colaborativos e competitivos, como o de uma economia global. Ambientes que, em simultâneo, podem e devem escrutinar estes procedimentos, salvaguardando assim limites de privacidade e liberdades individuais.

Portugal, à semelhança do que outros também estão a fazer, não pode deixar de olhar para o desafio da digitalização com mais dedicação e motivação para se poder afirmar numa escala global e não ficar para trás num processo já em andamento há muito. É fundamental o estímulo à produção e fixação de conhecimento, com uma política fiscal, bem como redução de burocracias, que favoreçam a atracção e retenção de cérebros, que permita quer a indivíduos, quer a empresas desenvolver as áreas de valor do presente que serão fundamentais para o futuro.

A aposta no mundo digital é a que nos permitirá vencer os desafios como os que hoje se colocam. Os discursos anti-capitalismo não trazem solução para os problemas actuais, a menos que se pretenda o regresso da espécie humana à idade das cavernas. Tal como os discursos anti-empresas só irão levar à efectivação de desemprego generalizado, as atitudes desenfreadas anti-globalização serão obstáculos ao encontro de soluções para a crise, começando no combate à pandemia e os desejos extremos de presença estatal poderão criar barreiras e muros que poderão, ironicamente, derrubar as democracias liberais.

Ao Estado cabe apenas criar as condições para que a sociedade liberte a capacidade criativa e produtiva, de forma concorrencial e sem corporativismos. Esse será um enorme contributo para a reconstrução económica, tão necessária após a crise que já se faz sentir em resultado desta pandemia.