Há uma simetria preocupante na política atual que poucos reconhecem: a esquerda identitária e o populismo de direita alimentam-se mutuamente. São adversários, mas, na prática, comportam-se como parceiros essenciais. Cada lado precisa do outro para existir; um justifica o outro. E, no meio deste fogo cruzado, a maioria silenciosa — aquela que não se revê em trincheiras nem em gritos de guerra — fica cada vez mais sem voz e sem representação.

Por um lado, vemos um discurso que se diz progressista, mas que, na sua forma mais radical, transformou a política numa mera gestão de identidades. É a lógica das minorias contra a maioria, de grupos contra indivíduos, onde o reconhecimento simbólico parece valer mais do que as soluções concretas para a vida das pessoas. O controlo da linguagem é vendido como libertação, mas a verdade é que a linguagem imposta raramente liberta; pelo contrário, afasta e aliena. O resultado prático foi entregar, de bandeja, argumentos à direita populista, que sabe explorar este ressentimento com uma eficácia eleitoral que não podemos ignorar.

Por outro lado, esse populismo — que vemos um pouco por todo o mundo — construiu o seu apelo a partir do instinto de pertença tribal: o “nós contra eles”, a nação contra os de fora, o povo puro contra as elites corruptas. É uma política que oferece o conforto da segurança emocional a quem se sente, muitas vezes com toda a razão, abandonado pelo sistema. O erro não está no diagnóstico, mas na solução proposta: a exclusão nunca foi, em momento algum da história, o caminho para o progresso.

Aristóteles dizia que “o homem é um animal político”, mas avisava que a comunidade só é justa quando serve o bem comum e não os interesses de uma fação. Dois mil anos depois, parece que ainda não aprendemos a lição. No entanto, existe uma alternativa. É mais antiga, mais sólida e, curiosamente, mais exigente do que qualquer um dos extremos. É o liberalismo — não o económico, cinzento e estreito, mas o liberalismo filosófico que põe a pessoa no centro: com direitos que ninguém pode tirar, com dignidade própria e com a responsabilidade de viver numa sociedade plural. Uma visão onde somos todos diferentes e, precisamente por isso, merecemos o mesmo respeito.

A história oferece-nos lições valiosas que esquecemos depressa. Os antropólogos mostram que as primeiras trocas comerciais entre tribos pré-históricas não foram apenas transações económicas; foram atos de paz. Ao transacionar, comunidades que antes guerreavam, passaram a depender uma da outra para prosperar. O comércio não foi apenas utilidade; foi civilização, o reconhecimento de que o outro possui algo valioso.

Daron Acemoglu e James Robinson, no seu livro Porque Falham as Nações, demonstraram que não é a geografia ou a raça que divide o sucesso do fracasso — é a qualidade das instituições. Nações com instituições inclusivas prosperam; as extrativas, que concentram o poder numa elite, colapsam. A conclusão é desconfortável: a prosperidade exige abertura, não muros; exige inclusão, não pureza.

Karl Popper, em A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos, já nos tinha avisado contra o tribalismo e o totalitarismo, mesmo quando este se apresenta com boas intenções.  Escreveu isto observando o fascismo e o comunismo, mas o aviso permanece atual.

A questão não é se queremos uma sociedade justa — isso todos dizemos querer. A questão é o “como”. A resposta liberal é clara: a inclusão não se faz por decreto ou por separar as pessoas em “caixinhas” identitárias. Faz-se garantindo que todos têm o mesmo ponto de partida — educação, saúde, segurança e um Estado de Direito que funcione — e exigindo que todos respeitem as regras do jogo. A inclusão é uma estrada com dois sentidos.

Amartya Sen defendia que a justiça não é um modelo ideal de perfeição, mas a capacidade de resolver injustiças reais e visíveis. É uma visão terra-a-terra que rejeita utopias e imobilismos. É, talvez, a única forma de criar uma coligação onde caibam todos os que querem combater a pobreza e proteger as liberdades civis, desde que aceitem o método: o diálogo, o compromisso e a tolerância.

A polarização atual não é inevitável. É, em grande parte, disseminada por algoritmos que valorizam o choque e por líderes que prosperam na divisão. Mas também é alimentada por nós, quando nos deixamos seduzir pela simplicidade das trincheiras. O “nós” e o “eles” é uma narrativa que conforta, mas é quase sempre errada. O caminho liberal não é utópico; a humanidade já percorreu grandes distâncias, da abolição da escravatura ao sufrágio universal, provando que os princípios são mais duradouros do que os desvios.

O que se espera de nós hoje é apenas honestidade: recusar a lógica tribal e insistir em perguntar “o que é que funciona?”. Defender o indivíduo como a base de qualquer projeto comum e construir uma sociedade que inclua porque deseja que todos participem, e não porque espera que todos sejam iguais.

Os extremos precisam um do outro para sobreviver. A alternativa liberal precisa apenas de nós.

Referências Bibliográficas
Acemoglu, Daron & Robinson, James A. (2013). Porque Falham as Nações: As Origens do Poder, da Prosperidade e da Pobreza. Lisboa: Temas e Debates.
Aristóteles (1998). Política. Lisboa: Vega (Edição bilingue com tradução de António Campelo Amaral e Carlos Gomes Barbosa).
Popper, Karl (2013). A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos. Lisboa: Edições 70.
Sen, Amartya (2010). A Ideia de Justiça. Coimbra: Almedina.