As eleições presidenciais são, por natureza, um exercício de visão. Não basta aos candidatos anunciar medidas para gerir o dia-a-dia. Pelo contrário, devem definir um rumo, um tom e um nível de exigência para o país que queremos ser. Num tempo marcado por várias transições, da ambiental à económica, da tecnológica à social, essa dimensão estratégica torna-se ainda mais relevante.
Neste debate por uma estratégia nacional, a sustentabilidade ambiental e a economia circular não são temas laterais. São questões estruturais, com impacto direto na competitividade do país, na gestão do nosso território, na qualidade de vida das pessoas e na responsabilidade que assumimos perante as próximas gerações. Dito isto, devem estar na agenda política. Não podemos ignorá-las nem tratá-las como mais um “assunto técnico”.
Portugal enfrenta hoje desafios claros na gestão de resíduos e no cumprimento das metas ambientais europeias. Apesar dos progressos alcançados, continuamos em risco de falhar objetivos já no curto prazo, em particular na reciclagem de embalagens e na redução da deposição em aterro. Este atraso não resulta da falta de diagnósticos nem da ausência de planos. Deriva, isso sim, de um desfasamento persistente entre ambição, execução e resultados.
Nos últimos anos, o sistema beneficiou de um reforço significativo de financiamento. Só em 2025 o financiamento ao sistema aumentou 80%. Nunca houve tantos recursos disponíveis para a gestão de resíduos. Ainda assim, esse investimento adicional não se traduziu, até agora, num aumento proporcional da reciclagem. Este facto deve ser encarado com frontalidade, pois problemas estruturais como este requerem mais que aumentos de orçamento. Sem eficiência operacional, inovação, clareza de responsabilidades e avaliação rigorosa, o risco é perpetuar um modelo que consome recursos sem produzir resultados e sem atingir metas e objetivos.
A pressão crescente sobre os aterros é um dos sinais mais evidentes dessa fragilidade. O país continua excessivamente dependente da deposição de resíduos indiferenciados, em particular de biorresíduos, comprometendo metas ambientais, sustentabilidade financeira e confiança no sistema. Isto não se resume a uma questão ambiental: traduz-se num problema de credibilidade e de visão de longo prazo.
Num tempo em que tanto se discute a Agenda para o Clima, não podemos ignorar que a transição para uma economia verdadeiramente circular exige mais do que soluções de fim de linha. Exige estabilidade regulatória, decisões baseadas em dados fiáveis e uma aposta consistente na inovação tecnológica e organizacional. Além disso, pressupõe uma relação mais clara entre comportamentos individuais e resultados coletivos, valorizando o papel dos cidadãos enquanto parte ativa da solução.
É neste contexto que o papel do Presidente da República assume particular relevância. Não como decisor direto, mas como garante de continuidade, moderador do debate público junto dos territórios e dos seus agentes, e promotor de consensos duradouros. Uma economia circular não se constrói num ciclo político nem com medidas avulsas. Precisa de tempo, previsibilidade e compromisso intergeracional.
As próximas eleições presidenciais são, por isso, uma excelente oportunidade para reafirmar essa ambição. Para colocar a sustentabilidade no centro da estratégia nacional, reconhecendo que as grandes transformações se fazem com visão e consistência.
A forma como hoje gerimos os nossos recursos diz muito sobre o Portugal do futuro. Esse futuro começa nas escolhas que fazemos agora. É do interesse público que não as adiemos.