A União Europeia está num impasse. O modelo normativista de soft power colocou o projeto político europeu em compasso de espera e refém dos custos de contexto e transação geopolíticos atuais. As fragilidades do sistema de poder europeu são especialmente notórias e preocupantes no atual contexto geopolítico, a saber: o frágil policy-making decision das instituições e a fragilidade das lideranças políticas (1), os obstáculos à plena realização do mercado interno europeu (2), a baixa dotação orçamental de recursos próprios em percentagem do PIB europeu (3),a ausência de um cluster tecno-digital de dimensão mundial e sua dependência de terras raras e materiais críticos (4), o baixo investimento europeu nas indústrias de defesa e segurança (5), a debilidade do mercado de capitais europeu (6), a frágil projeção do poder europeu no mundo multipolar e a debilitação do universalismo dos valores ocidentais (7).  Estas fragilidades não são resolúveis a curto prazo e não se compadecem com a débil diplomacia europeia nesta fase. Isto dito, todos os cenários estão em aberto para 2026. Senão, vejamos:

  1. A continuação da guerra na Ucrânia e o início de uma nova guerra fria: o cessar-fogo temporário e o eventual congelamento da situação na frente de guerra, os pacotes de sanções já aplicados, os ativos russos congelados, o alargamento da guerra convencional às guerras híbridas e por procuração, o eventual abandono das negociações por parte dos EUA, não permitem concluir por qualquer desanuviamento geopolítico durante 2026.
  2. A erosão transatlântica irá continuar, pelo menos, até às eleições intercalares de novembro de 2026: a presidência americana utiliza a diplomacia da ameaça e do medo para obter contrapartidas favoráveis dos seus adversários, quando diz, por exemplo, “que não nos interessa a ordem internacional, é muito cara para nós, é preciso mudar a relação com os aliados tradicionais por causa dos custos excessivos do multilateralismo ocidental”; como se observa na estratégia nacional de segurança, o Presidente americano iniciou uma estratégia revisionista do Ocidente Global, doravante baseada na lei da força, da segurança e da riqueza e numa atitude transacional e mercantilista que ninguém sabe como irá acabar; nesta sequência, talvez um mau resultado nas eleições intercalares de novembro mude a orientação republicana para a política doméstica.
  3. A política europeia continuará a oscilar ao sabor das diversas coligações de vontades: no plano político-institucional, esta oscilação pode traduzir-se em algumas cooperações reforçadas que acabem por desenhar uma Europa à la carte e de geometria variável, sobretudo nas áreas da política externa, segurança e defesa; esta Europa a várias velocidades pode abrir algumas brechas na unidade do projeto político europeu que serão exploradas pelos partidos populistas e nacionalistas.
  4. O mundo multipolar em busca de um novo normal para a ordem internacional: políticas de potência, áreas de influência, direito da força, diplomacia transacional, estendendo-se agora, também, ao G20, o Sul Global e algumas organizações regionais, enquanto o velho multilateralismo convencional procura sobreviver e articular-se com este mundo multipolar em formação; é neste contexto geoestratégico em profunda transformação que a União Europeia terá de formular e operacionalizar a sua política de relações exteriores, sabendo nós que os EUA, a China e a Federação russa não atribuem prioridade ao direito internacional, aos direitos humanos, às organizações internacionais e aos espaços públicos democráticos como é aquele que a União Europeia representa.
  5. Estes cenários aumentam a inércia político-institucional, o número de Estados relutantes e a balcanização da política europeia: as eleições nacionais em 2026 aumentam a radicalização política interna e a legitimação dos populismos autoritários, é o caminho mais curto para o fim anunciado do projeto político europeu tal como o conhecemos até agora; mais um compasso de espera europeu nestas circunstâncias e não é impossível que as tendências europeias se aproximem, em 2026, de um limiar crítico muito perigoso.

Aqui chegados, vivemos uma cultura de contingência e incerteza geopolíticas. Nas condições atuais, a decisão política torna-se modesta e muitas são absolutamente irrelevantes em face do risco sistémico, dos efeitos colaterais, da ingovernabilidade e do radicalismo político-partidário. Sem um mínimo de ordem política orientada para o futuro, que o federalismo cooperativo e os bens comuns europeus poderiam garantir, vivemos numa espécie de campo minado. Nada é pensado para durar, tudo é pensado para ser consumido, por isso, todos os cenários de futuro estão, simultaneamente, postos em causa e prontos a explodir em qualquer momento. Face à incerteza do futuro, e sem um mínimo de discussão séria e consequente sobre o aprofundamento do quadro político-institucional europeu, a política é uma atividade de responsabilidade limitada e ninguém estará muito interessado em fazer esta ligação ao futuro responsabilizando-se por isso. Em certo sentido, e face à contingência e ao risco, a política torna-se irresponsável e inimputável, é mais um dispositivo de comunicação do que um pensamento inovador e articulado. No final, vivemos todos uma espécie de fadiga ou melancolia político-institucional, em especial no plano europeu. Digamos que o futuro fica irremediavelmente enleado num labirinto de processos, procedimentos e atos normativos onde só alguns atores são verdadeiramente peritos e poderosos.

Ora, perante os cinco cenários enunciados para 2026 que envolvem, todos eles, muitos efeitos externos e danos colaterais não-intencionais e imprevistos, a política europeia e a política doméstica podem ser atiradas para um jogo político, bastante viciado, de socialização de prejuízos e privatização de benefícios. Dito de outra forma, perante tal contingência e tantos efeitos cruzados, a opacidade e a dissimulação, a cumplicidade e a corrupção estão, de algum modo, protegidas nos termos de uma teoria geral da responsabilidade difusa ou inimputabilidade política.

Dito isto, fica por saber se o despertar dos europeus acontece por vontade própria ou por via do acaso, digamos, de um grande susto ou cisne negro. No primeiro caso, a vontade pode expressar-se por via de uma revisão dos tratados, ou, então, seguindo o método Monnet dos pequenos passos e das decisões concretas. No segundo caso, e apesar da fadiga e melancolia políticas já referidas há, ainda, muito espaço no campo dos regimes autocráticos para a eclosão de alguns cisnes negros em 2026. Já não falo, sequer, dos acidentes climáticos que são de uma gravidade recorrente. Refiro-me, por exemplo, ao abandono das negociações por parte dos EUA em relação à guerra da Ucrânia para tomar conta do seu hemisfério ocidental. A Federação Russa aproveita a oportunidade para invadir um Estado Báltico ou, por exemplo, a Moldávia. Em consequência deste abandono, a Europa e alguns Estados da União Europeia são levados a criar uma comunidade europeia de defesa e segurança que abranja o vetor nuclear, cibernético e a cibersegurança. Mas também podem eclodir algumas guerras híbridas no Ártico envolvendo os EUA, o Canadá, a Dinamarca e a Rússia. Os cisnes negros no Grande Médio Oriente estão, igualmente, em fila de espera e à espreita de oportunidade, por exemplo, uma mudança no regime iraniano. No continente africano tudo pode acontecer, a todo o tempo e em qualquer lugar. Finalmente, na grande área do Índico-Pacífico tudo pode acontecer, desde uma guerra entre as duas Coreias com o envolvimento do Japão, à invasão de Taiwan, às guerras híbridas no mar do sul da China. Em todos os casos referidos, há um fator em comum, a saber, a profunda interpenetração dos fatores segurança, economia e política, o que significa que a liberdade, o bem-estar quotidiano e a vida coletiva das sociedades serão profundamente afetadas, se estas nuvens sombrias sob a forma de cisnes negros se vierem a confirmar.