A Inteligência Artificial (IA) é o tema tecnológico mais falado da actualidade. O chatGPT foi provavelmente o “momento iPhone” da IA, na medida em que massificou o contacto público com uma das muitas facetas desta tecnologia, promovendo a sua aceleração exponencial.
As tecnologias de IA são, porém, muitíssimo mais abrangentes. Rapidamente evoluíram para modelos multimodais, ou seja, capazes de aceitar áudio, texto ou vídeo ou outro tipo de input. Está também cada vez mais em voga o conceito de agentes de IA, potencialmente capazes de mimetizar um ser humano em tarefas concretas, agindo proactivamente de acordo com o solicitado. Compreender esta rápida evolução é essencial para percepcionar o potencial de mudança que está a acontecer, incluindo, naturalmente, na saúde. Como médico cardiologista com experiência e investigação em IA, é para mim particularmente relevante focar o impacto desta tecnologia na Medicina, nomeadamente na área cardiovascular.
Se tudo isto lhe parece uma realidade ainda distante, é porque, presentemente, o impacto da IA em quem recorre à saúde ainda não se faz sentir de forma muito explícita, até porque grande parte das aplicações são ainda nascentes, carecendo de validação para pleno uso clínico no terreno. Porém, basta reflectir no trajecto clínico que percorremos quando recorremos a cuidados de saúde para perceber em que medida a IA já intervém ou poderá intervir no processo.
Num contexto de consulta, já se terá decerto deparado com teclado, PC, quiçá impressora e eventuais adereços tecnológicos adicionais na secretária, não raras vezes entre si e o médico. A consulta segue o seu curso dialogante, não obstante o médico despender tempo assinalável em interacção com o teclado, ao invés de, ou em simultâneo, consigo. É necessária uma nota clínica, solicitar exames e prescrever terapêutica. Contudo, se existir um assistente “chatGPT” que ouve a consulta e faz os registos, o médico terá uma interacção mais directa e temporalmente folgada consigo. Esta tecnologia já existe – os “escrivas” médicos – existindo até uma startup portuguesa que treinou modelos especificamente para o contexto português — a Medgical. Agora imagine que em vez de um “mero” chatGPT, o médico tem IA versão 2026 consigo – um verdadeiro “agente” de IA médico.
No final da consulta, o médico poderá ter não apenas o registo clínico, mas os meios complementares de diagnóstico e prescrições terapêuticas pré-executados, carecendo somente de ajuste/validação. Paradoxalmente, a IA terá tornado a consulta mais humana, efectivamente eliminando a interacção directa com o computador e realinhando integramente médico e doente. Se este agente possuir adicionalmente algoritmos com capacidade ainda mais avançadas, inferindo potenciais diagnósticos de forma não explícita — aquilo que designaríamos por intuição clínica num médico – através de tons de voz, visualização do paciente, etc. — o potencial é ainda maior. Parece ficção científica, mas já existem estudos sugerindo que é possível.
Num contexto de urgência, imagine que está a ser socorrido um doente com suspeita de enfarte agudo do miocárdio e é submetido a um ECG. Já existem ferramentas que indicam com elevada acuidade se se trata de um enfarte ou não, bem como a sua potencial severidade e necessidade de intervenção imediata. Encontram-se em fase de validação clínica — e muito em breve deverão estar formalmente disponíveis como dispositivo médico.
Para exames de imagem, existe já software validado capaz de fazer as medições em tempo real, sem que o médico tenha de anotar manualmente as imagens para obter os cálculos, carecendo somente de pequenos ajustes e validação humana, com ganhos claros de reprodutibilidade e eficiência.
Em procedimentos terapêuticos — uma angioplastia coronária, ou uma ablação de uma arritmia — procedimentos em que “desentupimos” uma artéria ou “queimamos” uma arritmia de forma minimamente invasiva, respectivamente, os algoritmos de inteligência artificial poderão tornar a capacidade de interpretação ou decisão mais célere ou objectiva. Por vezes, durante estes procedimentos, os dados em que nos baseamos começam por ser como um quadro impressionista: temos uma boa ideia do que estamos a ver, mas faltam detalhes. Alguns algoritmos de IA conseguem, de modo automático e rápido, tornar a tal imagem de pinceladas grosseiras numa fotografia de alta resolução, quando em contexto normal precisaríamos de muito processamento manual ou de tecnologias adicionais, não raras vezes mais invasivas, para clarificar o quadro.
A IA está também a ter um impacto cada vez maior na investigação. Estão a aparecer ferramentas de previsão de risco de enfarte ou AVC baseadas em IA. bem como potencialmente novas terapêuticas “concebidas” por IA. Recentemente, a gigante Google divulgou as capacidades do seu sistema AlphaFold, que permite prever e modelar estruturas de proteínas, com potencial avassalador de gerar novos fármacos.
Em suma, facilmente se verifica que a IA pode ter um papel transformador em todas as fases do percurso clínico da medicina cardiovascular, com enorme potencial na inovação em novas ferramentas diagnósticas e terapêuticas também.
Importa, contudo, reflectir sobre os riscos. Tal como nós, a IA é falível, e por vezes, nas suas modalidades generative, “mente” ou “inventa”. É imperioso que todas as ferramentas validadas para uso clínico tenham o mesmo crivo de exigência que qualquer dispositivo médico convencional, sempre com supervisão humana. É também importante compreender os mecanismos de IA conducentes a um resultado — o conceito de explainable AI.
O excesso de reliance (dependência) na IA não deverá tão pouco levar os médicos a reduzir os seus níveis de conhecimento ou raciocínio, tornando-se menos capazes. Este risco é particularmente relevante nas gerações mais jovens, que ainda não atingiram um nível profissional pleno. Alguns estudos em outras áreas — por exemplo, a programação informática — têm sugerido que programadores juniores se tornam menos proficientes com IA, por “pensarem menos”.
Importa ainda garantir que o acesso a estas novas ferramentas respeita princípios de universalidade e igualdade tão importantes em saúde, criando a infraestrutura em larga escala que o permita — caso contrário, teremos hospitais presos no século XX, enquanto outros entraram definitivamente neste século. É necessário ter o pragmatismo de aceitar que dificilmente conseguiremos criar ferramentas de alta qualidade in house, tendo de trabalhar com as empresas líderes em IA mundo fora. Ao fazê-lo, é fundamental assegurar o sigilo e protecção dos dados clínicos, uma vez que a IA exige enorme capacidade computacional e energia, muito superiores à capacidade instalada nas estruturas de saúde em Portugal e não só.
Com tudo isto, impõe-se a pergunta – tomará a IA o lugar do médico? É seguramente uma das mais difíceis profissões de substituir, dado que implica o uso de todas as faculdades humanas. Com efeito, é necessário empregar raciocínio e memória alicerçados num vasto e complexo nível de conhecimento, comunicar com empatia, perspicácia, intuição e ainda executar gestos técnicos muito finos – não raras vezes tudo concomitantemente ou em rápida sequência.
E ainda não descobrimos nenhum bom substituto para o contacto humano (felizmente!), tão essencial a todos nós. Há por isso quem defenda o termo inteligência aumentada e não artificial. Mas seguramente a medicina deste século, como a recordarão os nossos descendentes, passará por aqui. Se, efectivamente, chegarmos a um ponto em que conseguimos substituir os médicos por IA, teremos questões bem mais complexas para resolver enquanto sociedade, pois provavelmente nenhuma profissão sobreviverá.
Miguel Nobre Menezes é médico cardiologista de intervenção, assistente hospitalar do Hospital de Santa Maria. É também professor auxiliar convidado de Cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e um dos cronistas convidados do Arterial, a secção do Observador totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
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