Na madrugada de 1 de outubro de 2025, pela primeira vez na história da Serenata Monumental de Coimbra, ouviram-se vozes femininas a ecoar na Sé Nova. Constança Peixoto e Tânia Fonseca, do grupo Honoris Causa, protagonizaram um momento simbólico e emocionante: as primeiras mulheres a cantar o Fado de Coimbra. Foi um instante de celebração, sem dúvida, mas também de reflexão. Porque, se é verdade que este passo representa progresso, é igualmente certo que peca por tardio. Passaram mais de cinquenta anos desde o 25 de Abril de 1974 e, só agora, Coimbra ouviu as suas mulheres na serenata.
Durante séculos, a Universidade de Coimbra foi um bastião de saber e tradição, mas também de desigualdade. As mulheres demoraram a conquistar o direito de estudar, de investigar, de ensinar e, como agora se confirma, também de cantar. Mesmo depois do 25 de Abril, a academia coimbrã manteve muitas das suas práticas e símbolos presos a uma ideia de masculinidade ritualizada, onde a mulher tinha presença tolerada, mas raramente central.
O Fado de Coimbra é um dos exemplos mais evidentes dessa herança. Durante demasiado tempo, considerou-se que esta expressão musical pertencia aos homens, pelas suas vozes graves, contidas e rituais, onde não se adequava o timbre feminino. Como se o sentimento académico e a saudade coimbrã tivessem género. As mulheres, mesmo quando integravam grupos de fado ou acompanhavam serenatas, eram relegadas para os bastidores, cantavam “nos corredores”, mas não nos palcos da tradição. E é precisamente isso que torna este momento tão importante e, ao mesmo tempo, tão revelador da lentidão da mudança.
Cinco décadas depois da Revolução dos Cravos, ainda estamos a celebrar primeiras vezes que já deviam ser história antiga. O 25 de Abril trouxe a liberdade política e o fim da censura, mas as liberdades culturais e simbólicas avançam a um ritmo mais lento. Há sempre quem diga que certas mudanças “descaracterizam” o espírito de Coimbra, quando na verdade o rejuvenescem. Tradição não é imobilismo, mas sim continuidade com consciência crítica. E uma tradição que exclui, que silencia, que se fecha, transforma-se em museu, não em cultura viva.
As vozes femininas que finalmente se fizeram ouvir na Serenata Monumental representam, por isso, mais do que um gesto artístico: representam o derrubar de uma fronteira simbólica. Coimbra, a cidade dos amores cantados e das despedidas eternas, demorou demasiado tempo a reconhecer que também as mulheres têm direito à palavra, à guitarra e à emoção pública do fado. E se o fizeram agora, foi porque outras antes delas o tentaram, o desejaram, o mereceram.
O mais grave é que esta conquista chega quando já devíamos estar a discutir outros horizontes. Depois de meio século de democracia, de igualdade consagrada na lei e de mulheres a liderar universidades, ministérios e orquestras, é chocante que a presença feminina no Fado de Coimbra ainda precise de ser “autorizada” ou noticiada como exceção. O atraso é gritante e diz muito sobre como, mesmo nas instituições que se orgulham de ser faróis de cultura, o conservadorismo continua a ser a regra.
Ainda assim, é justo reconhecer a importância deste passo. Porque cada tradição que se abre é uma tradição que sobrevive. E talvez o futuro do Fado de Coimbra passe justamente por acolher mais vozes, mais timbres, mais histórias. Não se trata de apagar o passado, mas de o prolongar de forma justa e plural.
Naquela madrugada, quando as primeiras vozes femininas subiram as escadas da Sé e se misturaram com as guitarras, Coimbra deu um pequeno grande passo na direção certa. Tarde, demasiado tarde, mas ainda a tempo de se reinventar. Porque o que importa, no fim, é o amor pelo fado de Coimbra e o amor, tal como a liberdade, não tem género.