O wokismo apresenta-se como um despertar moral, mas funciona cada vez mais como uma ortodoxia que não admite dissidência. Não tem um fundador, nem uma hierarquia formal, nem um livro sagrado e, ainda assim, impõe dogmas, define pecados e pune hereges. Quem questiona não é debatido; é silenciado. Quem discorda não é refutado; é rotulado. Como em qualquer seita destrutiva, a causa torna-se intocável, a dúvida transforma-se em falha moral e o medo da exclusão substitui o pensamento crítico.

À partida, os objectivos proclamados até parecem legítimos: denunciar as injustiças, proteger as minorias, corrigir as desigualdades. O problema surge quando esses objectivos passam a justificar qualquer meio e quando a sensibilidade moral se converte num critério absoluto de verdade. O wokismo deixa então de ser uma consciência crítica e passa a funcionar como um sistema moral fechado, completamente imune ao escrutínio.

Como explica Jonathan Haidt em The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion, quando uma causa entra em “modo sagrado”, deixa de poder ser avaliada racionalmente. Qualquer crítica é percebida como ataque moral. É exactamente isto que se observa hoje em dia: certas ideias tornaram-se indiscutíveis, não por serem verdadeiras, mas por serem consideradas virtuosas.

Este funcionamento é ainda mais visível na forma como o wokismo lida com os factos. Raramente os nega; antes, subordina-os à narrativa. A História é julgada com categorias morais actuais. A ciência é aceite ou rejeitada conforme confirma determinadas ideologias. A linguagem é policiada como se fosse um campo minado ético. A realidade torna-se assim negociável.

Um exemplo revelador e sintomático foi a classificação recente de Jesus como “palestino” na televisão portuguesa. Historiadores como Geza Vermes, em Jesus the Jew, ou E. P. Sanders, em The Historical Figure of Jesus, são claros nas suas obras quanto ao anacronismo, e para não dizer o ridículo da afirmação. Ainda assim, ela é feita. Porquê? Porque serve uma narrativa contemporânea. Uma suposta causa benevolente. Não se procura compreender o passado; procura-se instrumentalizá-lo. Ao ponto de ser feito revisionismo histórico.

Na academia, este padrão traduz-se numa autocensura crescente. Investigadores aprendem rapidamente quais os temas “seguros” e quais os que podem comprometer carreiras. Peter Boghossian e James Lindsay descrevem, em How to Have Impossible Conversations (2019), um ambiente intelectual onde certas perguntas deixaram simplesmente de poder ser feitas. O saber deixa de ser exploratório e passa a ser confirmatório.

Este mesmo mecanismo tornou-se particularmente visível durante a pandemia de covid-19. Vários cientistas de reconhecido mérito académico que ousaram questionar aspectos da gestão pandémica — como a proporcionalidade dos confinamentos generalizados ou a ausência de avaliações custo-benefício — foram rapidamente marginalizados. Não se tratou de figuras marginais, mas de investigadores de topo, como John Ioannidis, em textos publicados no European Journal of Clinical Investigation, ou Jay Bhattacharya, co-autor da Great Barrington Declaration (2020). Independentemente de se concordar ou não com as suas conclusões, o padrão foi revelador: em vez de debate científico aberto, assistiu-se à desqualificação moral. A ciência, que progride pelo confronto de hipóteses, foi substituída por uma ortodoxia sanitária onde questionar passou a ser tratado como perigo social.

É precisamente neste contexto que o debate em torno da chamada ideologia de género e do transgenerismo revela, de forma ainda mais clara, a lógica sectária em funcionamento. Questões ontologicamente e cientificamente complexas — como a distinção entre sexo biológico e identidade de género, a medicalização de menores ou a solidez empírica de certos pressupostos — passaram a ser tratadas como verdades morais indiscutíveis. Pedir prudência, dados de longo prazo ou simples debate passou a ser interpretado como falha ética. Como alerta Steven Pinker em Enlightenment Now, quando afirmações empíricas se tornam imunes à crítica por razões morais, a ciência deixa de procurar a verdade e passa a proteger as crenças. Não se refutam argumentos — pune-se a dúvida.

Este encerramento do debate não é exclusivo do espaço anglo-saxónico. No Reino Unido, a filósofa Kathleen Stock, autora de Material Girls: Why Reality Matters for Feminism (2021), foi alvo de pressão académica e activista após defender a relevância ontológica do sexo biológico, acabando por abandonar a Universidade de Sussex. Nos países nórdicos, tradicionalmente associados a políticas sociais avançadas, relatórios oficiais na Suécia e na Finlândia levaram à revisão de protocolos de transição médica em menores — não por ideologia, mas por prudência científica — contrastando com o clima de silenciamento observado noutros contextos europeus.

Nos media, a fronteira entre jornalismo e activismo tem-se esbatido perigosamente. Como denunciou Bari Weiss na sua carta de demissão do The New York Times (2020), instalou-se um ambiente onde a verdade deixou de ser descoberta colectivamente e passou a ser filtrada por uma ortodoxia informal ditada pelas redes sociais. O contraditório tornou-se suspeito; a dissidência, perigosa.

Na educação, o padrão repete-se. Greg Lukianoff e o já citado Jonathan Haidt mostram em The Coddling of the American Mind como a protecção excessiva contra ideias desconfortáveis ensina que palavras são violência e que discordar é causa de dano. O resultado é fragilidade intelectual e medo do pensamento autónomo.

Como em qualquer seita destrutiva, questionar tem custos reais: ostracismo social e profissional, cancelamento público, destruição reputacional, vigilância linguística permanente e auto-censura crónica. O dissidente não é refutado; é neutralizado. O “apóstata” permanece marcado e banido do grupo.

Criticar-se o wokismo não é negar as injustiças nem defender o imobilismo social. É afirmar algo básico: nenhuma ideologia deve estar acima do escrutínio racional. Quando a moral substitui a verdade e a causa se torna intocável, o resultado raramente é libertador.

As seitas destrutivas não começam com abusos. Começam com boas intenções absolutizadas. O wokismo, ao recusar limites, corre exactamente esse risco.