A política ocidental atravessa um momento verdadeiramente inquietante. A esquerda radical e a direita radical entrincheiraram-se em campos opostos, mas simétricos, ao ponto de o diálogo se ter tornado quase impossível.

Há uma sensação física, quase visceral, que reconheço instantaneamente quando entro nas redes sociais ou assisto a debates parlamentares nesta nova legislatura. É um aperto no estômago que me transporta para a minha vida passada. Durante décadas, vivi dentro de uma estrutura mental hermética onde a realidade era binária: havia a “Verdade” (a nossa) e a “Mentira” (a de todo o mundo exterior). Não existia espaço para a dúvida, para a ambiguidade ou para a legitimidade do outro. O “outro” não estava apenas errado; estava moralmente corrompido.

Ao observar a reconfiguração política do Ocidente, temo que tenhamos permitido que esta mentalidade, tão típica de sistemas fechados, tenha transbordado para a praça pública e, em especial, para a política.

Convém ser claro desde já: isto não significa que todos os actores políticos, propostas ou riscos institucionais sejam equivalentes. Significa, sim, que os mecanismos psicológicos de pertença, exclusão e sacralização da identidade se tornaram perigosamente semelhantes em campos ideológicos opostos. E é isso que corrói a democracia por dentro.

O messianismo e a validação do ressentimento

À direita, é tentador reduzir o fenómeno ao fanatismo ou à ignorância. Mas essa leitura é intelectualmente preguiçosa e politicamente desastrosa. Muitos eleitores aderem a projectos populistas porque sentem que o contrato social foi quebrado: perderam segurança económica, identidade cultural e reconhecimento simbólico.

Quando líderes prometem “limpar” o sistema, proteger as fronteiras ou restaurar a ordem, estão a responder a ansiedades reais. O problema surge quando essa resposta assume contornos messiânicos e o líder deixa de ser um mero actor político sujeito a escrutínio para se tornar uma extensão da identidade do eleitor. Criticar o líder passa a ser vivido como um ataque pessoal.

Validar estas angústias não é subscrever todas as soluções propostas. É reconhecer a humanidade de quem vota. A demonização moral do eleitor — tratá-lo como fascista, atrasado ou perigoso — apenas reforça a convicção de que o sistema o despreza e de que só o Líder o defende.

O culto da pureza e o colapso da esquerda identitária

À esquerda, o problema assumiu uma forma diferente. Não a lealdade a um líder, mas a submissão a um ideal de pureza moral. O colapso eleitoral de forças da esquerda radical e a sua crescente irrelevância não foram acidentes. Resultaram de um afastamento progressivo das preocupações materiais da maioria da população e de uma obsessão com guerras culturais importadas dos Estados Unidos.

A vigilância permanente da linguagem, a obsessão com determinadas agendas identitárias e morais e a redução do debate político a testes de virtude afastaram vastos sectores do eleitorado. Muitos cidadãos deixaram de se sentir representados — sentiram-se julgados. Ao tratar valores tradicionais, culturais e preocupações quotidianas como sinais de atraso moral, a esquerda tem contribuído activamente para empurrar eleitores para projectos alternativos.

Preferiu a ideologia a ter eleitores. E com isso pagou o preço.

A hipocrisia do “bem”

A mentalidade sectária revela-se com particular nitidez na aplicação selectiva de princípios. A dificuldade persistente em condenar de forma inequívoca regimes autoritários, quando estes não colidem com determinadas narrativas ideológicas, mina qualquer pretensão de superioridade moral.

Este duplo critério — em que os crimes “dos nossos” são contextualizados e os dos “outros” absolutizados — é típico de sistemas fechados. Para o eleitor comum, esta incoerência é devastadora. Não gera reflexão; gera desconfiança. E isso resulta em perda de votos.

O “cordão sanitário” e a ilusão da profilaxia democrática

Perante a ascensão de forças populistas, o centro político respondeu com exclusão institucional: o chamado “cordão sanitário”. Importado da saúde pública, este conceito funciona politicamente como ostracismo. É a ilusão de que se combate uma ideia isolando quem a representa.

A exclusão simbólica não corrige convicções; cristaliza-as. Tratar votos como ilegítimos ou silenciar representantes eleitos apenas porque não estão alinhados com determinada ideologia não fortalece a democracia. Alimenta a narrativa de perseguição e empurra os cidadãos para bolhas informativas cada vez mais impermeáveis ao contraditório.

Como alguém que viveu o ostracismo na pele, deixo um aviso simples: isolar nunca cura. Radicaliza.

Conclusão: sair da sala de espelhos

Estamos presos entre dois espelhos ideológicos que se refletem mutuamente. Por um lado, uma direita radical que cresce porque valida medos reais, por vezes promovendo soluções institucionais arriscadas. Do outro, uma esquerda radical que encolhe porque se fechou numa lógica de pureza moral, confundindo uma alegada virtude com superioridade.

Ambos os campos usam o medo como ferramenta de coesão: o medo do caos e da substituição; o medo do fascismo e do colapso democrático. E, como em qualquer sistema fechado, o medo desliga o pensamento crítico e leva a encarar o próximo como inimigo.

Uma democracia saudável não se constrói com excomunhões, mas com conflito civilizado – diálogo e debate. Exige humildade, escuta e a coragem de encarar problemas reais — imigração, segurança e justiça social — sem tabus nem arrogância moral.

Se queremos preservar a sociedade aberta e plural, temos de voltar a tratar todos os eleitores como cidadãos legítimos — não como apóstatas a silenciar.