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Cinco continentes, como sempre, com o Bruno Cardoso Reis. Eu sou o Luís Soares e hoje temos um programa especial, um programa um bocadinho diferente. Vamos trazer aqui um pouco de história e vamos tentar ir às origens do conflito entre Estados Unidos e Irão, olhando também para alguns marcos nas relações entre Ocidente e Islão. Bem-vindo, Bruno, uma vez mais ao Cinco Continentes.

Obrigado.

E vamos começar bem lá atrás, vamos muito atrás. Quando é que começa este choque, este conflito entre potências ocidentais e orientais na bacia do Mediterrâneo, Bruno?

Se quisermos, podemos recuar até a antiguidade, ou seja, antes do surgimento do Islão e em que já aparece um bocadinho esta ideia de Oriente e Ocidente. Temos basicamente no nascimento da História, no chamado pai da História, o Heródoto, que faz a história das guerras entre gregos e persas. Em que os gregos são obviamente do Ocidente e os persas são obviamente do Oriente, da Ásia. Isto nas primeiras décadas do século V antes de Cristo. Depois, se quisermos, podemos também ver até no conflito entre Cartago e Roma também, naquelas grandes guerras que vão definir quem é que vai dominar o Mediterrâneo, um pouco a continuação disso, embora os cartagineses fossem originalmente da Ásia, portanto eram descendentes de fenícios. Aquilo que é hoje o Líbano, depois vão se estabelecer naquilo que é hoje a Tunísia. Cartago fica muito perto de Túnis atual, da capital da Tunísia, mas obviamente aí já estavam mais no centro do Mediterrâneo. Depois, é verdade que temos, de facto, uma divisão do mundo Mediterrânico que tinha sido unificado, embora pela força com Roma. Basicamente, a partir da consolidação do Império Romano no século I antes de Cristo, isso perde-se definitivamente com a expansão muçulmana, com o califado, com o primeiro grande império islâmico, fundado ainda pelo próprio profeta Maomé. O profeta Maomé, a partir de 622, na verdade, é um profeta armado, portanto é um líder político e religioso, e os seus sucessores, chamados califas, quer dizer sucessor, realmente a partir de 632, começam a expandir-se primeiro para norte, ou seja, para aquilo que é hoje Israel, a Síria, o Iraque, mas depois também para Ocidente, começando com o Egito. Jerusalém, por exemplo, vai ser conquistada em 638 e depois o Egito, 642, já está o Egito e a Síria. E depois, obviamente, vamos ter uma rápida expansão por todo o Norte da África e a partir de 711 temos as invasões da Península Ibérica. No fundo, vamos ter, durante vários séculos, as penínsulas europeias mais ocidentais, mas mais a sul, um pouco ameaçadas. A Península Ibérica vai ser basicamente quase toda conquistada pelos muçulmanos, como nós sabemos, em poucos anos, entre 711, mais ou menos 718. Há ali um pequeno núcleo de resistência em torno das Astúrias, que depois vai ser o núcleo da chamada Reconquista, que é um período muito longo. Basicamente 722, Covadonga é supostamente a primeira batalha, é o primeiro exemplo de resistência cristã até 1492, a conquista de Granada. A Península Ibérica é um exemplo disso, mas sempre a península Itálica está sob ataque no século IX. A Sicília é conquistada, Roma é ameaçada, há um saque de Roma em 846. A Basílica de São Pedro, que estava fora das muralhas na altura, é saqueada, por exemplo. E depois, sobretudo, temos um período muito longo também de conquista, de domínio da península Balcânica, que ironicamente, sendo a mais oriental, é a que demora mais tempo, porque entretanto o Império Romano reconstitui-se, reorganiza-se. O Império Romano do Oriente, baseado em Constantinopla, naquilo que é hoje Istambul, e obviamente Constantinopla só vai cair em 1453. Mas a partir do século XV vamos ter também vários séculos de expansão e domínio otomano na península Balcânica.

E embora estejas a destacar, Bruno, alguns momentos de conflito, também houve alianças, certo?

Sim, esse é um ponto aqui importante. Nós vamos destacar mais alguns marcos que muitas vezes são realmente momentos de conflito, mas é muito importante deixar isto claro, que é obviamente um enorme simplismo dizer que há uma espécie de séculos, de mais de mil anos, a partir de 632, de choque constante entre potências cristãs e potências islâmicas. Há imensas alianças na própria história portuguesa, na Reconquista temos muitos exemplos disso. O famoso Desastre de Badajoz, em 1169, em que o nosso primeiro rei, Afonso Henriques, é ferido, parte uma perna, fica até incapacitado. Os portugueses estavam a tentar conquistar Badajoz, usando até métodos pouco convencionais. O famoso General Sem Pavor faz um ataque surpresa, supostamente sem o envolvimento direto do rei português, D. Afonso Henriques, mas depois ele não consegue conquistar o castelo, conquista a cidade, mas não o castelo. Quem é que vem ajudar os muçulmanos de Badajoz e provocar a derrota dos portugueses? É o rei Fernando II de Leão, que se alia com os muçulmanos de Badajoz porque quer evitar que os portugueses conquistem demasiado território e eventualmente condicionem depois também os interesses do Reino de Leão. Temos uma famosa aliança que dura vários séculos entre o Reino de França e o Império OtomanoContra os Habsburgos de Espanha e da Áustria, que eram os grandes inimigos geoestratégicos dos interesses franceses e também dos interesses dos sultões otomanos. Portanto, de facto, temos muitos exemplos. Portugal também, mais uma vez, já falámos disso aqui um bocadinho numa série de episódios especiais sobre a história do Irão. Por exemplo, o Afonso de Albuquerque vai ocupar Ormuz, que é reino periférico, mas o Irão está a reunificar-se nessa altura com o Xá Ismael e os portugueses vão estabelecer, durante quase um século, uma aliança com essa nova dinastia persa contra um inimigo comum que são os turcos otomanos. Sendo que antes disso, no início da expansão portuguesa, por exemplo, na Índia, o grande adversário muçulmano é o império ainda mamluco do Egito, que depois vai ser conquistado pelos otomanos. Os mamlucos estão aliados a Veneza, que mais uma vez tem um inimigo comum nos portugueses, ou seja, a Veneza interessa-lhe que o comércio das especiarias continue a fazer-se pelo Mediterrâneo, através do Egito, Mar Vermelho, etc. Tal como interessa, obviamente, ao reino mamluco do Egito e obviamente aos portugueses interessa o contrário, é mais possível bloquear aqueles estreitos do Áden e de Ormuz e dominar o comércio das especiarias.

Bruno, e falando também nas Cruzadas, são realmente o início da expansão colonial europeia?

É uma questão interessante, porque hoje em dia é uma visão que tem muito peso e que é dado até quase como adquirido, sobretudo pelos historiadores mais do período colonial, não tanto pelos historiadores medievais ou do período das Cruzadas. Mas é verdade que ela corresponde claramente a uma dinâmica mais expansiva, a uma Europa já mais reconstituída, reforçada, se quisermos, dinâmica e que consegue começar a expandir-se para o exterior, inclusive também na Europa de Leste. Há Cruzadas aqui na zona da Reconquista, com o mesmo tipo de ideologia, de argumentos, mas também há Cruzadas contra os pagãos, naquilo que é hoje a Europa de Leste, por exemplo, a Lituânia, aquilo que vai ser depois a Bielorrússia, etc. E depois há este período, sobretudo um século, as Cruzadas são mais ou menos 1095, é o concílio em que o Papa Urbano II faz este apelo à Cruzada, mas 1099 é a conquista de Jerusalém, que depois é perdido para o Saladino, basicamente um século depois. Mas temos Cruzadas no Oriente até ao final do século XIII, sobretudo São Luís ainda faz algumas Cruzadas importantes já no século XIII. Mas esse período, sobretudo os chamados Estados Cruzados, o Reino de Jerusalém, o Reino de Chipre, são um bocadinho apontados um pouco como modelo daquilo que depois vai ser a expansão colonial. É verdade que isso é facilitado, porque sobretudo em francês, que é muito a língua dominante nestes Estados Cruzados, porque são sobretudo cruzados daquilo que vai ser a França, que vão para essa região, ou Bélgica. Mas fala-se muito "outremer", no fundo, o ultramar. Portanto, a expressão ultramar aparece em relação a estes reinos cruzados. Mas realmente isso é uma enorme simplificação. Há muitas diferenças. Há um outro aspecto também que acaba por influenciar depois a questão colonial, que é a chamada economia de plantação. Por exemplo, as plantações de açúcar com escravos, que vão ser muito importantes depois na expansão colonial nas Américas. Isso é realmente algo que vem do Mediterrâneo Oriental, mas de influência inclusive árabe ou islâmica, se quisermos. Portanto, é realmente uma simplificação muito grande, a história é muito diferente e, por exemplo, não há uma enorme migração de pessoas, não há substituições de populações. Na verdade, continuava a haver imensas populações cristãs, que entretanto muitas tinham sido arabizadas, mas cristãs nesta região, que remontavam ao tempo de Cristo e algumas dessas comunidades, aliás, sobrevivem até hoje, sobretudo no Líbano ou na Síria. Há os chamados palestinianos cristãos ou árabes cristãos, que são, no fundo, sobreviventes dessas comunidades. E portanto, realmente é uma simplificação dizer isso, embora realmente possamos ver aí uma primeira fase de expansão de uma Europa mais dinâmica, mais forte e mais expansionista.

E entretanto, a última vaga de expansão islâmica é a otomana. Quando é que é travada, Bruno?

Ela realmente inicia-se em relação à Europa ainda no século XIV. Em 1354, os otomanos vão conseguir passar o Estreito de Bósforo e ocupar Galípoli, que no fundo são aquelas penínsulas que controlam precisamente uma parte dos estreitos, aproveitando os terramotos e também uma crise muito prolongada do Império Romano do Oriente, que inclusive tinha sido um dos pretextos, uma das justificações das Cruzadas, foi a ideia de recuperar Jerusalém, onde uma série de soberanos muçulmanos tinham restringido muito as liberdades religiosas dos cristãos. Aliás, Saladino, que é quem vai reconquistar Jerusalém, uma das coisas inteligentes que faz é, no fundo, garantir a liberdade de acesso dos peregrinos cristãos. Isso vai se manter durante muitos séculos. Mas realmente os otomanos vão aproveitar o enfraquecimento do Império Romano do Oriente. Como eu estava a dizer, vai apelar às Cruzadas, mas depois em 1204, há uma disputa e essa Cruzada vai acabar por conquistar, digamos, o Império Romano ou Grego, vai conquistar Constantinopla e criar depois também uma série de Estados, digamos, latinos, naquilo que é hoje a Grécia, nessa zona, que depois vão entrar em conflito com o que restava desse Estado greco-romano, que depois acaba por recuperar Constantinopla. Mas está muito enfraquecido, de facto, o Império Romano e portanto, aproveitando isso, os otomanos começam essa expansão para os Balcãs em1389 temos a grande Batalha do Kosovo, que ainda hoje também é um marco na história sérvia. A partir dessa altura, o Império Otomano, embora ainda não tenha conquistado Constantinopla/Istambul, já é um império bicontinental. Domina grande parte daquilo que é hoje a Turquia, a Ásia Menor, e depois vai se expandir também pela Síria e pelo Egito no século XVI, mas vai ser cada vez mais uma grande potência na zona dos Balcãs, da Europa Oriental, e vai consolidar isso ainda mais depois com a conquista de Constantinopla em 1453 e depois também com a conquista da Hungria, em 1526, a Batalha de Mohács é outro grande desastre para os europeus. Isso é travado basicamente em Viena, o que nos diz bem até onde é que chegaram os otomanos. Portanto, em plena expansão colonial europeia, séculos XVI e XVII, a Europa está realmente ameaçada pela última grande potência imperial islâmica, que são os otomanos, os turcos, que se vão expandir também no Norte da África. Há uma guerra primeiro no Mediterrâneo. Aí é muito importante esta vitória naval, por exemplo, de Lepanto em 1571. Antes disso, também o Cerco de Malta, em 1565. Há uma travagem, uma divisão do Mediterrâneo em dois, e o Mediterrâneo ocidental não fica completamente seguro, porque há uma série de Estados vassalos dos otomanos que se dedicam à pirataria: Argel, Túnis, Trípoli, tudo isso são Estados que ameaçam a segurança da navegação cristã durante vários séculos, até o século XIX, mas apesar de tudo, não se conseguem expandir aí, também graças a Marrocos, que é uma barreira contra a expansão otomana no Norte da África. Mas na Europa balcânica, a travagem é em Viena, em 1529, é um grande cerco de Viena que os otomanos não conseguem tomar. E depois temos vários séculos de escaramuças, tréguas, até 1683, o último cerco de Viena. Em 1683, final do século XVII, Viena está à beira de cair quando chega um exército polaco para ajudar a quebrar esse cerco. Como resultado disso, há um colapso militar otomano e, em 1699, uma parte importante da Turquia é recuperada pelos Habsburgos de Viena. É aí que começa o recuo, mas mais uma vez extremamente lento. Territórios como aquilo que é hoje a Albânia, a Macedônia, etc., são otomanos, turcos otomanos até ao século XX, até 1911, 1912, as chamadas Guerras Balcânicas. A Grécia só se torna independente em 1830, por exemplo, que é o início desse recuo maior para novos Estados cristãos na zona balcânica. É um recuo muito lento, mas pode-se dizer que começa a partir de finais do século XVII, mas até lá, a Europa vive com este medo de eventualmente perder a sua independência, ou grande parte dela, para esta nova grande potência islâmica em expansão, que é o Império Otomano.

E já vamos perceber como é que tudo isso muda, esse equilíbrio de poder muda, na segunda parte do "Cinco Continentes". Segunda parte do "Cinco Continentes", com o Bruno Cardoso Reis. Estamos hoje a olhar para as origens do conflito entre Estados Unidos e Irão e também para alguns dos marcos nas relações entre Ocidente e Islão. E agora, Bruno, vamos um pouquinho mais à frente no tempo, olhando para já no final do século XVIII, 1798. Geralmente, a invasão napoleônica do Egito é vista como um dos grandes momentos da mudança no equilíbrio de poder que falavas no final da primeira parte. É realmente assim?

Sim, eu acho que estes marcos valem o que valem, o processo é sempre mais complicado, mas tal como eu acho, por exemplo, em relação a Portugal, se pode dizer que as grandes mudanças revolucionárias em Portugal começam realmente com as invasões napoleônicas de 1807, 1808, de fato, no mundo muçulmano, no Médio Oriente, também é assim. É a primeira vez, desde o período das Cruzadas, que realmente um grande centro de poder no coração daquilo que os muçulmanos e os árabes, que não são exatamente a mesma coisa, como nós sabemos, os turcos também são muçulmanos, os persas também são muçulmanos, mas não são árabes. Mas em todo caso, este coração árabe e muçulmano, que é no fundo o Levante e em que o Egito realmente tem um papel central, Cairo é uma grande cidade muçulmana, tem uma das grandes universidades tradicionais sunitas. É a primeira vez que um desses grandes centros de poder realmente é conquistado, é ocupado por potências não muçulmanas, não islâmicas, cristãs, ocidentais. Isso realmente vai de par com esta noção, que as elites muçulmanas também têm, que isso resulta de um processo de modernização econômico, industrial, tecnológico, militar, que é um enorme desafio crescente realmente para o equilíbrio de poder tradicional. O Egito era um território otomano desde o século XVI, e isso vai levar ao chamado período das reformas do Tanzimat, de várias décadas de tentativas de reformas no Império Otomano, que continua a ser o grande poder islâmico, domina basicamente tudo que é o Médio Oriente atual, o Iraque, a Síria, a Arábia Saudita, pelo menos as principais cidades, as cidades sagradas. Tudo isso continua a ser parte do Império Otomano. E realmenteEu diria que é um marco importante, talvez tão ou mais importante ainda, porque isso é uma ocupação temporária. Depois o Egito na verdade torna-se um Estado formalmente ainda parte do Império Otomano, mas basicamente independente, com os chamados Cedivas ou reis do Egito, Mohamed Ali, etc., que são também grandes modernizadores, participam muito nesse esforço de modernização. Mas a ocupação de Argel em 1830, no fundo, é o início de uma certa expansão colonial europeia, mas que é muito lenta, limitada no tempo, parcial no mundo islâmico. A maior parte dos Estados muçulmanos atuais não tiveram uma presença colonial mais do que algumas décadas. Ou seja, a grande viragem realmente é a Primeira Guerra Mundial, que vamos falar já a seguir.

Daqui a pouco. E como é que no meio de tudo isso, estamos a falar aqui muito da Europa, do mundo árabe, como e quando é que os Estados Unidos aparecem aqui no meio?

Sim, nós podemos achar que, e é muito a tendência, até nos próprios Estados Unidos, que é muito uma coisa bastante contemporânea, ou seja, eventualmente a partir da Segunda Guerra Mundial. Mas realmente não é assim. Quase desde a independência, desde muito cedo, que realmente há esta preocupação. Os Estados Unidos são muito dependentes do comércio, são desde o início um país que aposta muito no empreendedorismo e têm, de facto, esta vontade de comerciar de forma livre com o resto do mundo. É uma das razões, aliás, da guerra da independência é essa. Um dos problemas nesta ideia da liberdade de comércio, liberdade de navegação, que é central em toda esta história do Estreito de Ormuz, isso é uma prioridade da ação externa dos Estados Unidos desde a independência. Isso vai levar realmente à chamada Barbary War, ou seja, uma guerra com, sobretudo, Trípoli, com este Estado pirata, se quisermos, que se dedica sobretudo à pirataria naval no Mediterrâneo no início do século XIX, a partir de 1805. E é mesmo isso que vai levar ao estabelecimento da Marinha Norte-Americana, que vai ter, durante todo o século XIX, o chamado Esquadrão do Mediterrâneo, que embora se chame assim, vai muito a Lisboa, usa muito o Porto de Lisboa como ponto de apoio, mas no fundo para tentar garantir a segurança da navegação nesta região, diga-se sem grande sucesso, eles tentam mudar o regime em Trípoli, enfim, depois acabam por chegar a um certo acordo. Mas, por exemplo, ainda hoje no hino dos Marines, dos fuzileiros navais norte-americanos, o hino é "From the walls of Montezuma", que é a cidade do México, "to the shores of Tripoli", às praias de Trípoli. Nós podemos achar: "Bem, isto deve ser uma coisa ou da Segunda Guerra, ou já destas guerras mais recentes".

Não, é mais antigo.

Mas não, é realmente desde o século XIX. E na verdade, durante muito tempo, apesar deste episódio bélico, até à Segunda Guerra Mundial, mesmo depois, os Estados Unidos têm uma presença sobretudo comercial, portanto investimentos, por exemplo, vão ser muito importantes na indústria do petróleo na Arábia Saudita, a partir dos anos 30. A Aramco, que é a grande empresa de petróleo saudita, chama-se Aramco porque é Arab American. Muita presença de missionários que muitas vezes vão ser muito importantes na criação, por exemplo, de escolas, hospitais, universidades. A Universidade Americana do Cairo ou de Beirute, que são grandes universidades ainda hoje muito importantes para as elites árabes modernas, contemporâneas, são criações desses missionários. E como também já falámos, por exemplo, naqueles episódios sobre a história do Irão. O Irão, como vários destes Estados, apostam nas boas relações com os Estados Unidos para terem um parceiro ocidental, mas que não são as potências europeias, a Rússia, a Grã-Bretanha, a França, que muitas vezes têm outros interesses e que são vistos como uma ameaça colonial, se quisermos colonizadora. Em relação a esse período, até à Segunda Guerra Mundial, as relações com os Estados Unidos são sobretudo comerciais, culturais, às vezes religiosas, obviamente a questão da presença também na Terra Santa, o apoio das comunidades judaicas americanas, depois ao início também da presença dos judeus na Palestina. Portanto, são muito esse tipo de relações econômicas, culturais, religiosas e menos propriamente uma dimensão militar.

E apesar desse envolvimento precoce, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial são uma grande viragem nas dinâmicas regionais, mas também no que diz respeito a um papel mais direto dos Estados Unidos.

Sim, é exatamente assim. Os Estados Unidos resistem muito àquilo que nós hoje vemos com Donald Trump, esta cultura estratégica isolacionista, de não nos vamos meter em conflitos, que depois o próprio Trump não conseguiu muito observar. Mas isso, de facto, é o pilar da forma como os Estados Unidos veem, como as elites americanas veem o seu lugar no mundo durante mais de um século, durante todo aquele período de consolidação dos Estados Unidos como um país independente, que implica inclusive passar por uma guerra civil de expansão pro Oeste. Realmente percebe-se que os norte-americanos deem prioridade a isso, à consolidação, à expansão continental num território imenso. E de facto, a partir do final do século XIX, os Estados Unidos já são uma grande potência, claramente são a primeira economia do mundo já, têm um potencial enorme de recursos de produção industrial, capacidade tecnológica, que podem usar para projetar poder militar, mas isso realmente só começa a acontecer na Primeira Guerra Mundial. Vai levar a uma reação de resistência a isso, a um regresso ainda com força redobrada do isolacionismo nos anos 20 e 30, e depois só se quebra realmente com a Segunda Guerra Mundial. E aí, realmente, na Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos vão ser importantes em limitarA dimensão colonial no Médio Oriente, porque o presidente Wilson insiste que estes territórios que vão ser ocupados ao Império Otomano, é o Império Otomano, importa dizer isso, que toma a opção errada de se aliar com a Alemanha e portanto entrar em choque com as potências ocidentais. A França que era o seu aliado tradicional de muitos séculos e mesmo a Grã-Bretanha, quando é derrotada em 1918 perde muitos territórios, aquilo que vai ser a Síria, a Palestina, ou Israel, os territórios na Arábia, etc. E o Iraque. Mas estes territórios, nos casos em que são governados por potências ocidentais, por exemplo, a Síria e o Líbano pela França, a Palestina, o Iraque pela Grã-Bretanha, é como mandatos da nova Sociedade das Nações, a antecessora das Nações Unidas, que é muito uma iniciativa americana. E a ideia desses mandatos é que sejam ocupações durante um período, enquanto se organizam as coisas, mas que à partida esses territórios deverão ser independentes. E portanto, desde muito cedo, logo desde 1918, os nacionalistas árabes começam a insistir nisso. O primeiro caso em que isso acontece é o Egito, formalmente em 1922, embora mantenha-se uma presença militar britânica importante até depois da Segunda Guerra Mundial. Em relação à Segunda Guerra Mundial, o que também é interessante é que realmente ela começa para os americanos, no Médio Oriente, entendido em sentido amplo, no norte da África islâmica, ou seja, as primeiras grandes operações de desembarque, de combate, são Marrocos, Argélia, a chamada Operação Torch, no final de 1942. Isso é muito uma insistência britânica. Churchill dá muita importância ao Mediterrâneo, porque é no fundo vital para manter a ligação entre a Grã-Bretanha e o seu império, sobretudo a Índia, que é parte do império britânico até 1947. Mas os norte-americanos acabam por aceitar isso. E portanto, é nessa altura que o presidente americano se reúne com o sultão de Marrocos, quando está em Casablanca, ou às famosas cimeiras também no Cairo, em 1943, nomeadamente com o rei da Arábia Saudita, o rei fundador da Arábia Saudita e o presidente Roosevelt e Nasser. Mas portanto, os Estados Unidos basicamente são o grande vencedor da Segunda Guerra Mundial, a par da União Soviética, e desde essa altura que se afirmam como uma potência hegemônica naval, aeronaval, nomeadamente, por exemplo, no Mediterrâneo, vão continuar a ter aí uma certa presença.

E falavas aí dos Estados Unidos e da URSS na altura. Quais são os momentos-chave também na Guerra Fria, nesse período que era dominado pela competição global entre Estados Unidos e a URSS no Médio Oriente?

Apesar do que eu estava aqui a dizer, a verdade é que os Estados Unidos não se apressam a avançar para o Médio Oriente. Esta é uma região que os americanos continuam a ver como uma esfera de influência mais britânica ou até francesa. Francesa no norte de África, Marrocos, Argélia, Tunísia são parte do império francês. Depois o Egito, a Palestina, o Iraque, são zonas de influência de presença militar britânica. O grande parceiro dos Estados Unidos é realmente a Arábia Saudita, sobretudo por questões económicas do petróleo, esta questão da ARAMCO, mas realmente há uma presença naval, sobretudo na Itália que depois se vai formalizar no contexto da NATO, a partir de 1949. Mas realmente os norte-americanos parecem dar uma certa prioridade aos seus parceiros, aos seus aliados, a França e a Grã-Bretanha. Isso vai mudar primeiro com o envolvimento no golpe no Irão em 1953, que já vamos ver. Vai mudar sobretudo em 1956, quando os Estados Unidos, para se distanciarem do colonialismo europeu, que eles veem como cada vez mais tóxico politicamente a nível global, há a crise do Suez. Portanto, a Grã-Bretanha e a França, em ligação com o Egito, vai intervir contra Nasser que tinha tomado o poder, tinha derrubado a monarquia egípcia em 1953, portanto é um homem forte, nacionalista, militar, que é um modelo que vai depois espalhar-se por vários países do Médio Oriente nos anos 50 e 60. Mas Nasser realmente nacionaliza o Canal de Suez, que era um ativo estratégico, ainda hoje é absolutamente crucial. Os franceses e os britânicos controlavam o canal, sobretudo os britânicos vão reagir militarmente e os norte-americanos vão publicamente distanciar-se, criticar isso, fazer uma espécie de guerra económica usando já o dólar e a libra contra os britânicos, e portanto vão forçar a retirada dessas tropas. E basicamente, a partir daí, quando há problemas, os britânicos vão dizer: "Bem, isso agora é com vocês". Por exemplo, logo em 1958, no Líbano, é a primeira intervenção militar importante pós-Segunda Guerra Mundial dos norte-americanos. E obviamente, depois temos outros marcos importantes. A revolução islâmica no Irão em 1979 é um desafio quer à União Soviética, quer aos Estados Unidos. Mas temos em 79 a invasão soviética do Afeganistão. Isso vai criar uma reação antisoviética, anti-Rússia comunista em muitos países islâmicos, que os Estados Unidos vão aproveitar. É muitas vezes a propósito disso que depois surgem estas ideias que os Estados Unidos é que criaram a Al-Qaeda ou que financiaram a Al-Qaeda. Isso, mais uma vez, não é verdade. A Al-Qaeda só apareceu já depois do final da Guerra Fria, no início dos anos 90. Mas é verdade que essas redes, inclusive o próprio Bin Laden, estiveram a apoiar a resistência, por exemplo, islâmica no Afeganistão, os chamados Mujahideen, com o apoio saudita, dos serviços secretos sauditas, de vários países árabes e dos Estados Unidos tambémEsses são alguns dos marcos mais importantes. A própria criação de Israel também é um marco importante, em 1948, e as várias guerras em que Israel se envolve: 1967, a Guerra dos Seis Dias, ou 1973, o Yom Kippur.

Então vamos precisamente aí, Bruno, a essas questões incontornáveis e algo controversas, às vezes, que importa esclarecer, começando precisamente por Israel. Realmente é uma criação ocidental?

Como de costume, a resposta é: é mais complicado do que isso.

Exato.

Ou seja, desde logo é importante explicar isto, se os judeus têm alguma terra de onde são nativos, e hoje em dia há muito toda essa discussão de que temos de devolver coisas aos nativos. Eles são nativos da Judeia, como o nome indica, e a Judeia claramente é pelo menos uma parte do território do atual Israel. Sempre houve judeus também nessa região, apesar das várias expulsões por vários impérios, em particular o Império Romano, que aliás vai mudar o nome da região de Judeia para Palestina, mas realmente sempre houve aí alguma população judaica, e havia muitos judeus por todo o Médio Oriente. Mais de metade da população de Israel atual é descendente não de judeus que vieram pra Europa há muitos séculos e que depois acabaram por emigrar para aquilo que era a Palestina a partir de 1918, mas são descendentes de judeus que emigraram voluntariamente, entre aspas, estou aqui a fazer umas aspas no ar, emigraram de países do Médio Oriente, sobretudo a partir de 1948, de onde basicamente foram expulsos, de onde deixaram de ter condições de segurança. Desde logo, não é verdade que sejam apenas os judeus ocidentais, que vêm da Europa, que vão criar Israel. É verdade que o processo tem uma ligação grande à história europeia, ao antissemitismo, ao Holocausto, ao fato dos judeus, nomeadamente Theodor Herzl, que é o fundador do sionismo, no fundo, chegar a esta conclusão que é: nós nunca somos aceitos plenamente nestes novos Estados nacionais, porque no fundo somos a nossa própria nação e o que é natural é nós também criarmos o nosso Estado-nação, e criá-lo na nossa pátria nativa. É verdade que depois isso é possível com a expansão colonial, com a expansão britânica a seguir à Primeira Guerra Mundial, embora seja importante voltar a recordar que não é a Grã-Bretanha que toma a iniciativa de atacar a Turquia otomana, é o contrário. É o Império Otomano que decide aliar-se com a Alemanha, declarar guerra, declarar jihad contra o Império Britânico e o Império Francês, e é como resultado disso que os britânicos aliás vão aliar aos árabes também e à comunidade judaica, num contexto de guerra, numa guerra pela sua sobrevivência também, e chegam a acordos um pouco contraditórios. Prometem aos árabes a criação de um reino árabe, mas não dizem aonde exatamente, com que fronteiras, etc. E prometem à comunidade judaica, nomeadamente aos Rothschild, que são grandes financiadores do esforço de guerra, a criação de uma homeland, ou seja, de um local, mas também não será um Estado. No fundo, a ideia britânica é criar um sistema imperial subordinado à hegemonia britânica. Essa é que é a ideia. A isso opõem-se os árabes, que vão depois tornar-se palestinianos, como também sírios, egípcios, que querem a sua independência e vão lutar por isso nos anos 30, nos anos 40. E também cada vez mais se opõem os judeus, que não aceitam as regras, as restrições à imigração, por exemplo, que os britânicos depois tentam impor, e que também vão combater. Em 1948, quando a Grã-Bretanha se retira do seu mandato na Palestina e o devolve às Nações Unidas, há uma guerrilha judaica contra os britânicos e há uma resistência nacional judaica contra o império colonial britânico e há uma resistência árabe, uma guerrilha árabe também contra os britânicos e também, por sua vez, estas duas guerrilhas lutam entre elas. Já agora, vale a pena dizer que a potência colonial imperial britânica, a solução que tentou em 1948 e nos anos anteriores, era a solução que hoje em dia toda a gente aparentemente está de acordo, pelo menos na Europa, que é a solução dos dois Estados. Infelizmente, nessa altura, em 1948, os líderes judaicos aceitaram essa solução, os líderes árabes e palestinianos não aceitavam essa solução.

Bruno, temos ainda mais duas perguntas para responder para quem nos está a ouvir em podcast. Para já, quem nos ouve em FM, ficamos por aqui nesta verdadeira viagem pela história nos cinco continentes com Bruno Cardoso Reis, que está de regresso na próxima semana. Continuamos então aqui em podcast, Bruno, com estas questões incontornáveis e controversas que importa esclarecer. E vamos agora às fronteiras, a divisão do mundo árabe, do islão, tudo isto é uma imposição colonial e ocidental?

Mais uma vez, isso é uma enorme simplificação e um enorme exagero do poder da Europa Ocidental, da Europa Cristã. Vamos lá ver. A divisão no mundo árabe e no mundo islâmico não começa em 1918 ou em 1945. Começa pouco tempo depois da criação deste grande Estado, deste super Estado, deste enorme império, o chamado califado, que vai daquilo que é hoje a Índia ou Paquistão até Espanha. Isto é, de fato, um Estado muito difícil de manter unificado, até naquelas condições da época. E as primeiras divisões surgem com uma espécie de golpe de Estado no derrube da primeira grande dinastia califal islâmica dos chamados omíadas, a chamada Revolução AbássidaEm torno de 750. O resultado disso é que um desses príncipes omíadas vai se refugiar aqui na Península Ibérica, nomeadamente em Córdoba, e vai criar o Emirado de Córdoba. Portanto, desde meados do século VIII que começam a surgir divisões. Depois vemos, por exemplo, naquilo que é hoje o Irão, o surgimento de dinastias persas que se tornam de fato independentes. Algumas dessas dinastias até continuam a reconhecer formalmente o califa, pelo menos como líder religioso. Mas, por exemplo, mais uma vez na Península Ibérica, passamos a ter um califado rival a partir do século X, o chamado Califado de Córdoba. Portanto, mesmo em termos religiosos, começamos a ter divisões. Os fatimidas, por exemplo, que são xiitas, vão também tomar o poder no Egito nessa altura. Essas divisões são muito antigas. Enfim, nada impedia, e há aliás esforços nesse sentido, que depois da independência destes territórios, da Síria, do Egito, nos anos 50, que eles se tornassem um país unido, uma federação, uma confederação. Ora, a verdade é que, por exemplo, a Liga Árabe é muito menos unida, muito menos federalizada que a União Europeia, apesar de partilharem a mesma língua, pelo menos ao nível das elites. Na verdade, sempre houve esta tensão no mundo muçulmano, o ideal da Uma, da grande comunidade islâmica unida, e depois a realidade que muitas vezes as elites locais, sobretudo, querem dominar o poder para si, não o querem partilhar com outros. O próprio Nasser, que tentou criar, no fundo, uma República Árabe Unida, com o Egito e a Síria, e na verdade, isso depois acaba por colapsar e, por exemplo, os egípcios festejam em 1970, quando o nome oficial do país volta a ser Egito, a República do Egito, e não a República Árabe Unida. Portanto, há aqui, de facto, esta tendência para um certo ideal de unidade, mas na prática, por razões de elites que desejam controlar recursos, poder por si, ou também por nacionalismos locais. Por exemplo, no caso do Egito, obviamente os egípcios têm um enorme orgulho na longuíssima história, na brilhante civilização egípcia desde a antiguidade. A mesma coisa, obviamente, no Irão, com a herança cultural estatal linguística persa. Marrocos tem uma longuíssima tradição estatal também. Tudo isso, de facto, é bastante mais complicado. Não quer dizer que os ocidentais não tenham utilizado uma estratégia muito típica das potências imperiais, que é dividir para reinar. Isso é verdade, mas se os árabes realmente quisessem voltar a unir, ou mais ainda, se os muçulmanos quisessem voltar a unir, realmente, sobretudo hoje em dia ou nas últimas décadas, é evidente que não seriam certamente os países europeus a conseguirem impedir isso.

Claro. Bruno, e relativamente ao Irão, é verdade que os Estados Unidos impuseram o governo do Xá Pahlavi num golpe em 1953, que foi derrubado em 1979 pelo atual regime. Seria, no fundo, isso a origem e justificação de todo este choque inevitável?

Isso, mais uma vez, é uma enorme simplificação. Desde logo, esta ideia de que isso implica que tenha de haver um conflito, porque no passado os Estados Unidos fizeram algum tipo de intervenção, apoiaram um golpe. Quer dizer, se fosse assim, por exemplo, na Guatemala ou no Brasil, teria necessariamente de haver uma guerra, um conflito armado com os Estados Unidos. Ora, mesmo em Portugal, os Estados Unidos, por exemplo, apoiaram o chamado Golpe do Cartalho Menezes em 1961. Isso não levou depois necessariamente a um conflito armado ou uma guerra. Criou algumas tensões, obviamente. É evidente que muitos brasileiros, muitas pessoas na Guatemala ou na Costa Rica recordam-se dessas intervenções. Há um golpe logo a seguir, contra o presidente Arbenz, na Guatemala, em 1954, portanto, um ano a seguir ao golpe no Irão. Agora, é verdade que o regime atual, o regime que é criado em 1979, o regime dos Aiatolas, fundado pelo Aiatola Khomeini, usa muito esse argumento da intervenção, da interferência, do golpe em 1953. Aí, o que é irônico e que eu acho que vale a pena desmontar um pouquinho é que realmente, vamos lá ver, os Estados Unidos tentaram intervir na política interna de vários estados e às vezes apoiaram golpes. Esses golpes umas vezes resultaram, outras vezes não. Por quê? Bem, por causa de relações de equilíbrios de poder internos, por causa do grau de apoio que esse golpe muitas vezes tinha ou não tinha. Aliás, atualmente, a interpretação dominante é que o golpe inicial apoiado realmente pela CIA, isso é verdade, não há dúvidas sobre isso, e pelos serviços secretos britânicos também, a chamada Operação Ajax, falhou. Portanto, o primeiro golpe falha, é o segundo golpe, que é basicamente uma reação a esse falhanço por parte dos iranianos que estavam envolvidos, que vai acabar por ser bem-sucedido. A ideia, por exemplo, que é também popular, de que as multidões, as manifestações a favor do Xá contra o primeiro-ministro Mossadegh eram multidões compradas, alugadas. A ideia de que os iranianos são todos marionetas que são facilmente manipuladas, isso realmente parece-me um manifesto exagero. Na verdade, nós sabemos que os Aiatolhas apoiaram esse golpe em 1953. Estavam muito preocupados com a viragem à esquerda do Mossadegh, com as suas relações muito próximas com o Partido Comunista, com o Tudeh. Sabemos que os militares apoiaram o golpe e foram cruciais. Sabemos que muitos empresários, os chamados bazaris, apoiaram também o golpe de 53, sendo que o que muda em 1979 é que os bazaris vão apoiar o Aiatola Khomeini contra o Xá Pahlavi em 79, que uma parte dos militares não vai defender o regime do Xá Pahlavi em 79 e que obviamente os Aiatolas, sobretudo esta rede com enorme poder dos clérigos xiitas no Irão, vai mudar a sua posição. Em 53, apoiou o Xá, que eles consideravam mais conservador contra um primeiro-ministro, que eles viam como excessivamente revolucionário, pró-comunista, etc. No fundo, demasiado modernizador. Em 1979, é o Xá que é visto como demasiado modernizador, como hostil ao poder desta elite religiosa, e eles vão apoiar essa mudança. Mas eu acho que sem dúvida que há um papel dos Estados Unidos, sem dúvida que isso se tornou importante na cultura política iraniana e justifica, de facto, um peso muito grande, um certo antiamericanismo no Irão, esse envolvimento no golpe de 53. Agora dizer que foi os Estados Unidos que impôs o Xá contra a vontade dos iranianos, isso parece-me que é um manifesto exagero, faz parte aqui de uma certa leitura também ideológica da história.

E fica por aqui este "Cinco Continentes", nesta viagem pela história, também neste extra em podcast, o "Cinco Continentes" com o Bruno Cardoso Reis, que está de regresso na próxima semana.

Obrigado.