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Aperte o cinto, ouvinte da Rádio Observador, até porque está na hora de mais uma viagem pelos cinco continentes, um programa em que analisamos a geopolítica internacional. Eu sou o João Costa e Silva, comigo está o José Rafael Lopes e como sempre junta-se a nós o historiador Bruno Cardoso Reis. Na edição de hoje contamos também com o especialista em assuntos africanos, Fernando Jorge Cardoso, e vamos por isso dar foco especial ao continente africano. Muito bem-vindos. Como é que estão?

Olá, bem-vindos. Como estão?

Tudo bem, obrigado. E obrigado ao Fernando Jorge por ter aceito o convite.

E obrigado por me convidarem.

Vamos a isto.

Vamos então começar a olhar para o continente africano. Fernando Jorge Cardoso, começo por si. Que tendências mais se destacam nas diferentes regiões da África Subsaariana?

Vejamos. Em termos globais, antes de começar com as regiões, eu diria que temos três elementos que convém destacar. O primeiro desses elementos é que a generalidade dos países africanos, apesar de contraditoriamente terem aumentado a respetiva fragilidade, do ponto de vista do indicador da produção de riqueza e rendimento, ou seja, daquilo que nós chamamos o PIB, continua a crescer a ritmos interessantes. Com muito raras exceções. Isto significa que, na verdade, exista um comércio externo, particularmente a exportação de matérias-primas, que sustenta exatamente esses ritmos positivos. Em segundo lugar, indo agora para os espaços regionais, que é a vossa pergunta, eu diria dizer que em termos da África do Norte, a preocupação principal é uma preocupação que se liga bastante àquilo que está a acontecer no Médio Oriente e tem a ver com o Egito. Como penso que falaremos sobre esse assunto um pouco mais à frente, vou passar para as outros espaços. Se passarmos à África do Norte, depois na zona do Sahel, persistem, apesar de ter havido um conjunto de golpes de Estado no Sahel, no Grande Sahel, para ser mais específico, e um pouco também para o lado da África do Nordeste, em sete países desde 2020 até 2023. Apesar desses golpes de Estado, a situação da existência de diversos grupos militarizados que se reclamam de várias obediências de natureza religiosa, Al-Qaeda ou Daesh, reclamam-se de tudo, mas operam, mantêm a região a ferro e fogo, vamos dizer assim, particularmente nas zonas fora das cidades. E nesta área, não só do Sahel, mas particularmente a África Ocidental, há um fenómeno que esse sim é novo, porque a questão do terrorismo é algo que já vem de trás. E aquilo que é novo é o virtual desaparecimento da influência francesa. Aquilo que se considerou e que foi sempre o país com maior influência, a potência externa com maior influência política em África, a França, desapareceu do mapa. Desapareceu do mapa através de um conjunto de golpes de Estado, onde os golpistas puseram fora do país, sem que a França estrebuchasse, as principais empresas francesas a operar nesses mesmos países, terminaram os acordos militares que existiam desde o tempo da independência, que permitiam aos franceses terem bases militares e operar militarmente a partir dos territórios, e estão a pôr em causa alguns deles, embora isso seja um pouco mais difícil, também um pressuposto que tinha sido definido na altura das independências por França, que era a moeda externa. As divisas dos países que eram antigas colônias francesas eram depositadas no Banco Central de França, por troca de a França garantir a estabilidade do chamado franco CFA, que circula em três regiões africanas com valores diferentes, mas todo ele suportado do ponto de vista dessa mesma estabilidade pelo euro, e o euro suportado, neste caso, pelo orçamento da França. Esse aspeto não está ainda, digamos, é um pouco mais complicado de atuar. Os franceses também não estão interessados em terminar com isso, mas esse é o aspeto que eu considero, talvez do ponto de vista do relacionamento externo, mais relevante e mais novo na África Subsaariana, e particularmente na África Sahel e na África Ocidental, que estamos a assistir, se é que já não aconteceu, ao fim da França-África. Fora disso, avançando mais para a África Central, neste momento, aquilo que eu destacaria é o never ending conflito na República Democrática do Congo, com um conjunto de países que estão envolvidos nesse mesmo conflito, também com um conjunto relativamente grande de grupos militares e militarizados, e que se situa esse conflito principalmente nas fronteiras entre o Congo, o Uganda, Ruanda e o Burundi. E em que, neste momento, entre 2024 para 2025, em que o aspeto central é a reentrada de cena, desde o final de 2023, do movimento de ruandeses Ruandeses, vamos ser claros. Ruandeses que há gerações que vivem naquilo que se chama República Democrática do Congo hoje. Ou seja, quando as fronteiras da África foram traçadas e se tornaram efetivas na passagem do século XIX para o século XX, há um conjunto de etnias diferenciadas que vivem em vários países que hoje são contíguos. E uma dessas etnias são, de facto, os chamados Banya-Rwanda, que se chamavam Banya-Muleke, ou seja, tutsis e hutus que existem basicamente no Ruanda e no Burundi, mas que também existem no leste da República Democrática do Congo, no sul do Uganda. O que acontece é que esses ruandeses organizaram-se no movimento militar apoiado Kigali, Kigali é a capital de Ruanda, e são neste momento a força militar mais poderosa a atuar no leste do Congo, de tal maneira que o relacionamento da República Democrática do Congo com Ruanda é absolutamente perto de uma guerra direta entre os dois países. Isto envolve interesses muito amplos, que não são só regionais, mas são também externos. Os apoiantes do governo de Kinshasa, portanto, da República Democrática do Congo, são basicamente os Estados Unidos da América, ou pelo menos eram até o Trump, ninguém percebe o que é a política externa do Trump. A Bélgica, obviamente, e a China. E são por quê? Porque os três países são aqueles que têm empresas mais atuantes em regiões mineiras, particularmente na região do Cobalto, que está fora desta área, está mais na zona sul, perto da fronteira com Angola. E a apoiar Ruanda, nós não vemos assim diretamente, vemos uma espécie de França dividida entre dois amores. Por um lado, o relacionamento da França com Ruanda é um relacionamento que levou inclusivamente à assinatura de acordos de cooperação económica e de segurança com Ruanda, mas ao mesmo tempo a França enquanto país, independentemente de quem sejam os governos da altura, está interessada num bom relacionamento com Kinshasa. Por quê? Por uma razão muito simples, porque a República Democrática do Congo, com os seus dois milhões de quilômetros quadrados, é o país que tem não só reservas já confirmadas, mas também produções muito significativas e muito importantes, algumas entrando nos circuitos formais, outras não. A República Democrática do Congo produz 60% do cobalto. O cobalto é absolutamente fundamental pra estabilização das baterias de íon-lítio e também é um país produtor e exportador de columbite, tantalite, que vêm juntos numa coisa chamada coltan, de tungstênio, de ouro e de estanho. Isto para falar de alguns dos minerais que neste momento são objeto não só de produção por companhias, mas também por garimpeiros e de viagem. Portanto, eu diria que na África Central este será o aspecto mais importante. Na África Austral, mais para Sul, eu destacaria que a situação política em Moçambique neste momento é a situação mais visivelmente disruptora.

E Moçambique é um dos temas para onde vamos olhar já daqui a pouco.

Iremos então entrar mais tarde.

Sim, para já vamos trazer também aqui o Bruno Cardoso Reis. Que mais tendências podem ser importantes no continente africano, Bruno?

Sim, o Fernando Jorge falou do essencial com grande profundidade e conhecimento. Eu destacaria, de facto, a interrogação sobre o que será a postura de Donald Trump e dos Estados Unidos. Se houver, de facto, um desinvestimento significativo, isso abre espaço, eventualmente, a outros protagonistas no conjunto da região. É muito importante este aspecto que foi referido, que é genericamente as grandes economias africanas vão continuar a crescer e a crescer muito, por regra acima dos 3%. E portanto, há aqui um enorme dinamismo econômico, apesar de muitas vezes a imagem que temos do continente ser de grandes problemas. A questão dos recursos estratégicos vai continuar a ser fundamental, ou seja, o grande interesse da África para o resto do mundo é a questão dos conflitos, ou seja, ser eventualmente fonte de problemas, de conflitos que se arrastam, por exemplo, na zona do Sahel ou este conflito na República Democrática do Congo, mas também ser fonte de uma enorme riqueza em termos de matérias-primas, que são cada vez mais importantes pra economia mundial e, portanto, no fundo, eu diria que as grandes potências, os principais atores da economia e da política internacional não podem ignorar completamente o continente africano. Ele continua a ser relevante, pelo menos por estas duas razões negativas e positivas.

Vamos também olhar agora para as relações africanas com os Estados Unidos. Em África, Donald Trump é mais popular do que em outros continentes. Já foi tema de conversa também aqui no "Cinco Continentes". Fernando Jorge Cardoso, há algum motivo para isto acontecer?

Eu diria que Donald Trump seria mais bem-visto por parte dos governantes e elites acadêmicas, empresariais, etc, no continente africano, não propriamente por causa das qualidades do Donald Trump, mas por causa de ressentimentos que a generalidade dos países africanos têm para com, por um lado, a França e em segundo lugar também pelo tipo de cooperação econômica. Existe desde o final do colonialismo uma relação de amor-ódio entre os países africanos e os países europeus, antigas potências coloniais, e agora vamos dizer assim, a União Europeia. Então, esta olhada para o Donald Trump que Enfim, que põe a União Europeia em sentido, que diz que faz isto, que faz aquilo, é algo que do ponto de vista televisivo é muito bem visto em termos de África. Mas do ponto de vista prático, isto se não mudou já, vai mudar nos próximos dias, porque o virtual encerramento da United States Aid, a agência de ajuda norte-americana, significa que todos os programas com que as elites governantes contavam para resolver uma parte importante, que não têm capacidade ou interesse em resolver, de populações fragilizadas ou pela fome ou pela doença, o financiamento para isso vai desaparecer. E ao desaparecer, a população vai-se virar contra os governos. Portanto, eu penso que a popularidade de Donald Trump, neste momento, está em queda livre, a pique. Não estou seguro se neste momento, em perguntarmos a alguma pessoa em África, em qualquer país africano que esteja atento àquilo que se está passando nos Estados Unidos, se essa pessoa não dirá que Donald Trump, com o seu Miguel Ângelo, endoideceram de vez. Só para lhe dar um exemplo, só para Moçambique, há 300 milhões de dólares por ano para financiar a luta contra a AIDS. E por uma razão muito simples, porque Moçambique é um dos maiores focos de AIDS, por causa da guerra civil na altura em que o essencial da AIDS em África estava no Zimbábue e na Zâmbia, e as tropas zimbabuianas ao entrar em Moçambique ajudar a FRELIMO contra a RENAMO, fizeram com que a AIDS entrasse como pão e manteiga. O fechar deste programa e o fechar de programas de ajuda humanitária que têm a ver com alimentação da população em vastíssimas partes, campos de refugiados, por exemplo, só para dizer, isto não vai acontecer só em África, vai acontecer no Médio Oriente. Campos de refugiados. Quer dizer, há pessoas cuja vida e morte depende da chegada ou não chegada da ajuda norte-americana.

Precisamente. E Bruno, o que é que podemos então esperar desta presidência de Donald Trump em relação ao continente africano, sendo que no primeiro mandato do presidente norte-americano acabou por ficar quase esquecido?

Sim, e se calhar foi melhor assim, ou seja, agora lembrou-se, mas para de facto acabar aqui com o programa fundamental. Eu diria, do ponto de vista estratégico, por exemplo, a suspensão da ajuda e até no fundo forçar os países a voltar a mostrar interesse por essa ajuda, até podia ser uma manobra inteligente, porque no fundo esta ajuda americana é crucial para muitas organizações internacionais, a Organização Internacional das Migrações. Os financiamentos americanos, aqui nem estamos a falar de USAID, mas são cruciais, por exemplo, para a Organização Mundial de Saúde, etc. E muitas vezes isso quase que parece que é dado por adquirido e é esquecido este papel vital dos Estados Unidos, por exemplo, na ajuda humanitária, no combate a doenças infecciosas, na ajuda aos refugiados, a resolver crises alimentares, por exemplo, em África. Obviamente, isto também leva a colocar-se a questão que é: nalguns destes países africanos, que estão cada vez mais a ter crescimentos econômicos interessantes, etc, seria se calhar importante também ter garantias que os governos começam a procurar providenciar alguns destes serviços básicos, por exemplo, de saúde, e não contam apenas com a ajuda externa. Mas mais uma vez, isto teria de ser feito de uma forma gradual e em conversa com esses países. Portanto, acho que faz todo o sentido que haja aqui uma quebra de popularidade significativa. Em todo caso, eu sublinhava só, de facto, é significativo, se olharmos para as últimas sondagens que temos, que são de alguns meses atrás, comparando Biden e Trump, na Europa, por exemplo, Donald Trump, mesmo num país como a Polônia, tem alguma coisa como 15% de popularidade e num país como o Quênia tem 59%, ou na Nigéria 63%, ou no Gana 57%. O único país africano onde não é assim tão popular destes grandes é a África do Sul, com 31%. Agora, apesar de tudo, era menos popular do que Joe Biden. Portanto, também não é verdade que esta ideia de um homem forte é muito mais popular em África. Joe Biden era mais popular do que Donald Trump, se calhar porque havia alguns que percebiam que havia estes riscos. Agora, continua a haver aqui uma enorme incerteza. Eu diria, Donald Trump será muito pragmático nas relações com a África, quer acordos de curto prazo e sobretudo irá centrar-se em questões como a questão das matérias-primas críticas. Aí pode ser que haja espaço para alguns acordos se manterem. Por exemplo, um teste interessante será este corredor do Lobito, que é um grande investimento norte-americano em Angola, e, portanto, vamos ver se isso se mantém, mas para se manter terá de ser com garantias de que Donald Trump terá vantagens, por exemplo, em termos de acesso a essas matérias-primas críticas.

E entretanto, o tempo voa. A nossa primeira parte tem que ficar por aqui. Vamos atualizar as notícias, mas na segunda parte vamos continuar a olhar para o continente africano, um programa especial onde contamos com o Bruno Cardoso Reis e também com o Fernando Jorge Cardoso. Regressamos já a seguir às notícias. Até já. Estamos de volta aos Cinco Continentes com o estreador Bruno Cardoso Reis e hoje contamos também com a presença do especialista em assuntos africanos, Fernando Jorge Cardoso, para olharmos com especial atenção para o continente africano.

Precisamente. Antes, contudo, vamos olhar também para o papel da Europa na influência que tem no continente europeu e Fernando Jorge Cardoso, não só a Europa, mas também as grandes potências, como por exemplo, a Rússia e a China. Há pouco já falámos dos Estados Unidos. Vejamos. Situando-nos no momento atual, eu diria que o ator mais importante para os países africanos mantém-se a Europa. Mantém-se a Europa por uma razão muito simples, porque o tipo de relacionamento econômico, comercial, político, diplomático, na educação, na saúde, etc., ou seja, a diversificação do apoio europeu à África é muito superior à diversificação do apoio de qualquer outro país, até porque a Europa são vários países, como é óbvio. Independentemente dos altos e baixos, vai pra frente, anda pra trás, o que é um facto é que é muito mais fácil compreender que do ponto de vista da Europa, há uma espécie de fluxo mais ou menos garantido de financiamento, particularmente em relação a um conjunto de projetos que são muito importantes para vários países africanos. O que também leva a uma contradição que é manter esses países dependentes da ajuda. Mas enfim, a vida é mesmo assim e a realidade neste momento é essa. Portanto, eu direi que neste momento o principal problema que existe entre a Europa e a África são dois problemas. O primeiro problema é a França. E o problema da França, de certa maneira, os dados estão lançados. O neocolonialismo francês finalmente chegou ao fim, está moribundo. A França nunca mais vai recuperar a influência que teve em África. Isso pode ser um pau de dois bicos, porque do ponto de vista europeu, a França sempre foi o país líder do relacionamento com a África, quer no que respeita aos fundos da própria Comissão Europeia, quer no que respeita ao essencial do relacionamento bilateral. Portanto, a fraqueza da França, a forma como a França acabou por ser, de certa maneira, humilhada, e não foi só nos países onde houve golpes de Estado, foi em países que eram considerados baluartes da presença francesa em África, como Senegal, onde não houve golpe de Estado nenhum, mas o Senegal denunciou os acordos firmados à data da independência com a França, tendo dito que os franceses tinham que abandonar o território senegalês com os soldados que lá estavam e fechar a base militar. Portanto, na verdade, eu creio que, em termos da Europa, a influência mantém-se mais ao nível cultural e econômico do que do ponto de vista político. Outros países que têm influência neste momento em África são a Rússia, mas a Rússia aonde? A Rússia como uma espécie de substituto dos franceses e dos norte-americanos em países que vivem problemas internos complicados por causa das insurgências e da atuação de grupos terroristas, particularmente na África Ocidental, na zona do Sahel e em alguns países também da África mais para Oriente. Os russos, através daquilo que resta do Wagner Grupo e do novo destacamento militar que foi criado dentro do Ministério da Defesa russo chamado Africa Corps, que aliás é muito interessante, porque é exatamente o mesmo nome que tinha o grupo alemão da Segunda Guerra em África. Mas o que é um facto é que eles estão lá. Mas atenção, não vamos dizer que neste momento os russos estão a substituir os franceses, ou melhor, vou pôr isto de outra maneira. Neste momento, a mercadoria mercenários em África é uma mercadoria muito procurada. E neste momento nós temos companhias norte-americanas, companhias russas, companhias romenas de mercenários, francesas e irlandesas, por exemplo, a atuar em República Centro-Africana. E os dirigentes da República Centro-Africana, que têm um país que é um território mais do que um Estado, são, apesar de tudo, suficientemente inteligentes para conseguirem gerir este conjunto de forças que não se gostam umas das outras. E como é que eles o fazem? Põem-nas em diferentes áreas dos territórios e põem-nas a serem financiadas por concessões minerais que dão a cada uma destas empresas. Então, o que é que nós estamos a assistir? Estamos a assistir a isto.

Qual é que é o papel da China, Fernando Jorge?

O papel da China neste momento, a China foi até 2022, desde o início do século XXI, rapidamente tornou-se, do ponto de vista individual, o principal parceiro comercial dos países africanos e seguramente o principal financiador. Mas interessantemente, na segunda década deste século, começaram a entrar as chamadas novas economias emergentes em força em África, com destaque à Turquia, à Malásia, à Tailândia, a alguns países árabes, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Qatar. E neste momento há um fluxo muito grande de financiamento e de investimento destes países, exatamente para aquilo que tu disseste há bocado, Bruno, para aquilo que lhes interessa, que no caso do árabe não é somente materiais críticos, é também a questão das terras e da produção agrícola alimentar. Também ressalvo que um elemento muito interessante que eu denoto naquilo que está a acontecer em África é uma certa desestruturação e desorganização maior Dos Estados africanos, é por um lado uma consequência e uma causa que leva a que a África comece a ser olhada por muitas destas empresas e destes grupos como espaços territoriais mais do que como países. Porque como nós sabemos, particularmente as empresas de mineração, as grandes empresas multinacionais, quando operam num território onde existe risco político ou risco de segurança, estão habituadíssimas a proteger o chamado perímetro. Contratando o quê? Contratando mercenários, que neste momento se chamam empresas de defesa ou qualquer outro nome, ou serviços de defesa, etc. É o que acontece, por exemplo, em Moçambique. Neste momento existe uma empresa ruandesa contratada pela Total Energies, são cerca de mil homens para proteger o perímetro de Afungi. Portanto, não são os 4 mil soldados ruandeses que estão neste momento a proteger o perímetro de Afungi, começaram por ser eles, mas neste momento há uma empresa mesmo militar. O que eu digo é o seguinte: as principais potências internacionais são a União Europeia continua a ter a importância que eu referi, não vou voltar a referir. Os Estados Unidos da América nesta altura operam através das suas multinacionais, particularmente em algumas minerações e nos hidrocarbonetos. O corredor de Lobito, falado há bocado pelo Bruno, parece-me bastante importante. O corredor de Lobito significa a ligação não só à zona do cobre da Zâmbia, mas também através depois de ligações ferroviárias que já existem, à rede ferroviária congolesa, a todos os depósitos de cobalto no sul do país. E, por outro lado, os chineses estão a construir do lado da Tanzânia, a modernizar, aliás, o chamado TAZARA, Tanzania Zambia Railways, que faz a ligação de Dar es Salaam até à zona do Cobre. Portanto, nós vamos ter do Atlântico ao Índico, vamos ter neste momento duas linhas de caminho de ferro, uma delas a ser construída pelos chineses, outra delas a ser construída com dinheiros norte-americanos e europeus.

E vamos então agora olhar para Moçambique, um país bem próximo de Portugal em vários níveis. Ainda esta semana, novos protestos após as eleições presidenciais resultaram mesmo em tensões. E agora, Bruno Cardoso Reis, vou começar por ti. Esta crise eleitoral e política foi uma surpresa para ti? O que é que podemos esperar em termos de evolução?

Só pegando ainda no ponto anterior, eu diria só que vai ser realmente muito interessante perceber aqui a posição da Europa em relação à ajuda ao desenvolvimento. Como dizia o Fernando Jorge, a França tradicionalmente era o grande país europeu que nas discussões orçamentais defendia a importância dessa fatia do orçamento e de uma parte importante dela ir para a África. Portanto, realmente a Europa continua a ser o grande doador, seja ao nível da União Europeia, seja depois dos diferentes países. Portanto, vai ser interessante perceber se a França vai desinvestir, vai defender menos isso num contexto em que o orçamento europeu está sob grande pressão por causa também da questão da necessidade de investimento em defesa, da ameaça russa, e também desta percepção que, no fundo, a ajuda europeia muitas vezes é dada como adquirida, traduz-se em pouca influência política, em pouca capacidade de influência dos países, precisamente porque há muito esta ideia de que é algo que vai continuando independentemente do que aconteça, de decisões concretas em termos de política externa do país A ou B. Em relação a Moçambique, aqui o Fernando Jorge é um país que conhece particularmente bem, onde aliás viveu durante muitos anos, mas eu diria, é realmente uma crise, um teste interessante, no fundo, a esta nova política internacional. Ou seja, pareceu muito revelador a reação muito prudente, muito contida, mesmo dos países ocidentais em relação a dúvidas sérias sobre o grau de fraude das eleições, sobre quem é que estará realmente a ganhar, etc. Isso foi sobretudo assim da parte dos países europeus, de Portugal, mas da própria União Europeia, etc. Mas mesmo da parte dos Estados Unidos, não houve propriamente aqui uma reação muito forte. A administração também, Biden estava de saída. E em contrapartida tivemos, por exemplo, a China, por exemplo, a Rússia, rapidamente a darem os seus parabéns pela vitória da Frelimo, portanto, a afirmarem, no fundo, a sua prioridade às boas relações com quem está no poder. Desse ponto de vista, parece-me que Moçambique é revelador, de facto, de uma mudança muito grande em relação ao que era a realidade, por exemplo, nos anos 90, em que a democracia multipartidária foi introduzida em muitos países africanos, inclusive em Moçambique, em que, no fundo, não havia grande alternativa em termos de exportações, em termos de investimento, em termos de ajuda externa ao Ocidente democrático e muito empenhado nessa dimensão democrática. Hoje em dia há muitas outras alternativas, como a China, como a Rússia, em diferentes dimensões, econômica, militar, etc. E o próprio Ocidente, enfim, com Donald Trump, sabemos que esta questão da democracia não será certamente uma grande prioridade.

Temos cerca de 10 minutos até ao final e Fernando Jorge Cardoso, pergunto-lhe também, a crise em Moçambique já dura há vários meses, tem sido também um tema recorrente aqui neste Cinco Continentes. O que é que podemos esperar, na realidade, nestes próximos tempos?

Coisas feias, coisas complexas. E, na verdade, o que se está a passar neste momento não augura nada de bom para o próximo futuro. Custa-me muito começar desta maneira, mas nós não temos muito tempo para discutir isto e acho bem ir direto ao fim. Neste momento existe uma quebra total do contrato social entre o governo moçambicano e o povo. Neste momento, o que nós verificamos em Moçambique, e eu recebo informações de Moçambique de várias fontes, e não são informações filtradas, são informações que vêm em vídeos postados por pessoas do povo, quer dizer, pelos camponeses, pelos habitantes de Tete, de Manica, da Zambézia, de Mantula, de Cabo Delgado, etc. Fazendo o seu caminho. Ou seja, são fake news, não são informações superficiais. Ainda hoje, ontem, anteontem, etc, praticamente todos os dias há pelo menos uma ou duas sedes da FRELIMO queimadas, há pelo menos uma ou duas esquadras de polícia queimadas, há pelo menos um tribunal ou dois queimados em distritos. Em distritos, em vilas, em subúrbios de cidades, etc. E em todo o país, isso não é um problema de Maputo e de Matola. O que acontece é que nós, neste momento, temos um governo ilegítimo, porque claramente foi eleito fraudulentamente. Quer dizer, ninguém sabe quem votou em quem, aquilo que se sabe é que houve uma fraude eleitoral massiva em todo o país. Se existem países na Europa que têm a força para dizer que não aceitam as eleições na Venezuela e consideram que o legítimo presidente da Venezuela é o opositor ao atual presidente que lá está, eu posso lhe dizer uma coisa: a votação na Venezuela é feita eletronicamente. A votação em Moçambique, não, é feita por cartão de eleitor e a votação em Moçambique foi 10, 15, 20, 30 vezes mais evidente, mais visível do que foi na Venezuela. Portanto, nós temos um governo ilegítimo. O problema para as diplomacias, incluindo para a diplomacia portuguesa, do meu ponto de vista, é que do lado lá, do lado daqueles que não gostam deste governo, que é a maioria do povo moçambicano, em todo lado, não tem uma estrutura de oposição que se possa dizer assim: "Ok, mas se não for a FRELIMO, é o quê?" Porque aparece o financio Mondlane, que de facto tem um carisma e uma capacidade de mobilização imensa, mas que não dá, entre aspas, garantias a investidores, a diplomacias, a Estados, etc. É por isso que nós temos alguma timidez do lado internacional em condenar um Estado que apesar de contas trata bem os investidores, que trata bem aqueles que lá estão. Eu sinceramente acho que o governo moçambicano não consegue governar, nenhum ministro consegue sair à rua, porque não é poupado. Neste momento nós temos vídeos em que as esquadras de polícia, as pessoas estão a levar para lá os caixões das pessoas mortas e a fazerem velórios dentro das esquadras das polícias, com as polícias ao lado a olharem para aquilo e tudo isto aparece visionado. Nós estamos neste momento num país que corre um grave risco de implosão. E atenção, não há mão externa nisto.

É sem dúvida.

Não há mão externa nisto. Não há aqui os russos a operarem, não há aqui os chineses a operarem, não há aqui os Estados Unidos da América a operarem. A União Europeia, de facto, tem uma parte positiva que não tem nada a ver com isto, que é a formação de Forças Armadas moçambicanas para combaterem o terrorismo em Cabo Delgado. Mas tirando isso, a influência externa, neste momento, em Moçambique, só se pode exercer sobre o governo. Como é que tu influencias um país, ou o que se passa num país, através de um governo que não consegue agir no quotidiano?

É sem dúvida uma questão pertinente.

De facto é uma situação muito complicada.

Sem dúvida, uma situação pertinente e complicada em Moçambique. E Bruno Cardoso Reis, que papel é que pode ter Portugal no meio disto tudo?

Foi aqui referida a questão da Venezuela, que é uma queixa dos moçambicanos que são críticos do governo, por que não se faz como na Venezuela? Do meu ponto de vista, a razão não é porque haja menos interesses econômicos europeus ou até uma comunidade imigrante europeia ou portuguesa menos significativa na Venezuela. Até havia muitos mais portugueses na Venezuela do que há em Moçambique. Mas o processo da Venezuela demorou muito tempo, foram muitas tentativas. Desta vez a oposição conseguiu comprovar a fraude de uma forma completamente indesmentível, que não aconteceu em Moçambique, embora me parece que nenhum observador independente acredita naqueles números, que a FRELIMO tenha conseguido um resultado muito melhor até do que em anos anteriores. Mas a questão aqui é, parece-me que também o balanço da Venezuela tende a ser que este tipo de pressão extrema não resulta. Portanto, se calhar não vale a pena voltar a repetir isso. E como dizia o Fernando Jorge, também há esta ideia que é: qual é a alternativa de governo viável? E há garantias para a segurança das comunidades estrangeiras, dos investimentos estrangeiros? Isso para Portugal é claramente muito importante. Também há uma tradição na política externa portuguesa, que eu acho que é preciso questionar, muitas vezes um alinhamento quase automático com quem quer que esteja no governo em países de língua portuguesa. Isso realmente é uma tendência talvez excessiva. Agora, Portugal tem que ter aqui alguma prudência, algum cuidado. Claramente não é uma grande potência. Não é evidente que nenhuma grande potência conseguisse ter aqui uma influência decisiva, mas certamente não será um país como Portugal. Eu diria, alguma prudência da parte do governo seria avisada, sobretudo não fazer declarações que não são credíveis, do gênero grandes elogios à democracia moçambicana, evitar isso o mais possível, mostrar disponibilidade para ajudar em processos de diálogo, no caso dos moçambicanos quererem. Mas, sobretudo, acho que o protagonismo tem que ser da parte da sociedade civil, inclusive dos partidos, mas sobretudo da sociedade civil, muito mais do que propriamente do governo, porque isso depois também pode ser lido ou translido em Moçambique como uma espécie de interferência indevida.

E Fernando Jorge Cardoso, num minuto e meio, estamos mesmo quase a terminar, que leitura é que se pode fazer da posição portuguesa em Moçambique?

Portugal poderia ter tomado uma posição diferente nos corredores, mas não tomou. Portugal não agiu. Portugal partiu do princípio que as coisas seguiriam o seu próprio caminho e que naturalmente a FRELIMO conseguiria, como sempre conseguiu, tomar conta da situação. Isso não aconteceu E quando Portugal tenta agir já não tem credibilidade para o fazer. Portanto, de facto, eu estou de acordo com o Bruno, o melhor que Portugal neste momento tem a fazer é manter-se o mais discreto possível. Termino dizendo o seguinte: não há uma solução para Moçambique, mas há uma condição "sine qua non". Essa condição "sine qua non" é que o atual presidente, nomeado, eleito, o que nós quisermos dizer, em Moçambique, Daniel Chapo, tem que se sentar sem condições com o Venâncio Mondlane e a mesma coisa relativamente ao Venâncio Mondlane, e tem que chegar a um acordo, porque um tem ao lado dele o carisma junto à população, em toda a população moçambicana. O outro tem junto a ele as Forças Armadas e a polícia, ou seja, tem as armas. Então os dois têm que se sentar e deixar os egos de lado e dizer assim: "O que é que nós podemos fazer para tentar estabilizar esta situação e de alguma maneira melhorar e aumentar algum grau de confiança que as pessoas perderam completamente nas instituições estatais?"

Antes de colocarmos um ponto final neste episódio do "Cinco Continentes", falta a recomendação. Fernando Jorge Cardoso, hoje enquanto convidado, tem a honra de deixar uma sugestão aos nossos ouvintes.

Há um livro muito interessante que eu li nas minhas últimas férias e que explica bastante bem, do meu ponto de vista, qual foi o papel do tráfico transatlântico de escravos e da mão de obra escrava na formação do capitalismo na Europa. E isso é normalmente completamente olvidado da história mundial. Esse livro chama-se "Born in Blackness". Peço desculpa, mas só existe a versão em inglês. "Born in Blackness", depois tem o subtítulo, mas não vou dizer. Basicamente, é "Africans and the Making of the Modern World", de 1470 até a Segunda Guerra Mundial. E é escrito por um nacional da Martinica chamado Howard French. É de 2022, é da Norton & Company, para quem quiser. Eu recomendo. De facto, estão lá coisas que nós não aprendemos na escola, nem costumamos ler.

Fica aqui esta sugestão do Fernando Jorge Cardoso, "Born in Blackness", Howard French, aqui a fechar este "Cinco Continentes". Muito obrigado ao Fernando Jorge Cardoso por se ter juntado a nós e também aqui ao Bruno Cardoso Reis, que já é presença assídua no "Cinco Continentes". Nós estamos de regresso para a próxima semana. Até lá. Um abraço.

Boa semana. Obrigado.

Um abraço. Obrigado