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Vamos viajar pelos cinco continentes e analisar os assuntos que estão a marcar a geopolítica internacional na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva, comigo o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo. Mais uma semana. Como é que correu? Tudo bem?

Obrigado. Sim, tudo bem. Já estamos quase a chegar ao Natal, não é?

É verdade. Estávamos a falar disso aqui, que isto passa muito rápido.

É verdade.

Nós vamos começar por falar na guerra da Ucrânia. Na semana passada também iniciámos desta forma, mas falámos do inverno e se o conflito não iria abrandar. Esta semana falamos concretamente do plano de paz norte-americano para a Ucrânia, até porque há aqui problemas, Bruno. Mas o que é que nos diz concretamente esta visão de Donald Trump e dos seus amigos, entre aspas, sobre o mundo?

Realmente é um plano que já conhecemos aparentemente um bocadinho melhor. Já temos a tradução completa dos 28 pontos, embora isso não tenha aliviado as preocupações, em certo sentido, ainda as redobrou. É verdade que algumas das coisas que eram referidas, por exemplo, a ideia de que a Ucrânia seria obrigada a não ter certo tipo de armamento, isso não aparece aqui expresso. A única referência indireta é a ideia de que a Ucrânia não poderia fazer ataques com mísseis de longo alcance contra São Petersburgo ou Moscovo sem razão. Mas esse ponto é um exemplo entre muitos de como é um acordo feito claramente por amadores, portanto, com uma linguagem extremamente descuidada. Chega ao ponto, aliás, de fazer referência a um acordo, o Start Um, de controle de armamento nuclear, que já nem sequer está em vigor, já foi substituído por um novo acordo, um novo Start. Tudo isto parece ter sido feito realmente por Steve Witkoff e por este elemento muito próximo de Putin, que é o responsável por administrar o fundo soberano russo, este senhor Kirill Dmitriev, mas qualquer dos dois não tem grande experiência diplomática. Mas realmente nesse ponto, por exemplo, pergunta-se: mas então se a Ucrânia atacar Rostov ou Astrakhan, que são outras cidades russas importantes, isso já pode ser? Quer dizer, claramente não. Mas obviamente não é assim que se redige um acordo. Portanto, a primeira coisa que podemos tirar daqui é realmente esta ideia de uma espécie de, como se diz em inglês, amateur hour, a hora dos amadores. Temos aqui diplomacia que tem consequências literalmente de vida ou de morte para imensa gente, desde logo na Rússia e na Ucrânia, mas que tem enormes implicações para a segurança, inclusive do conjunto da Europa, para a ordem global, questões como, por exemplo, mas vai-se voltar a reconhecer uma espécie de direito de conquista. Tudo isso é aqui tratado por pessoas que não têm nenhuma experiência deste tipo de temas e o acordo nem sequer foi revisto, aparentemente, depois disso. A segunda conclusão que se pode tirar é que realmente a grande preocupação, confirmar isso, a grande preocupação de Trump nesta questão é o mais possível, o mais depressa possível chegar a um acordo que lhe permita reaproximar-se, retomar relações com a Rússia. Portanto, o que nós temos aqui realmente é o confirmar de que Donald Trump tem sobretudo uma afinidade natural, uma proximidade, uma simpatia com ditadores, com líderes autoritários.

Apesar das posições, às vezes, que vai tomando, tem essa simpatia que é natural e que tu falas.

Ele continua, quer por razões de política interna, porque muitos americanos não gostam disso, não gostam da Rússia, gostam da Ucrânia, gostam dos europeus, não percebem esta ideia de estar a fazer cedências à Rússia, mesmo conservadores, mesmo republicanos, que historicamente eram o partido até com mais ceticismo em relação à Rússia. Há que reconhecer isso. Aquele famoso debate entre Obama e Mitt Romney, o candidato republicano, em que o candidato republicano diz: "A Rússia continua a ser uma ameaça geoestratégica", e Obama diz: "Isso é uma visão do passado". Agora temos esta completa reversão com Donald Trump e o desprezo pelos aliados. Um ponto também fundamental, que fica bastante claro, é a Europa é completamente ignorada. Temos uma cláusula, por exemplo, que diz respeito a uns aviões na Polónia, que também não se percebe muito bem o que é que se quer dizer com isso, mas o primeiro-ministro polaco vem dizer: "Mas ninguém nos perguntou nada". Estão a dizer que vão ficar aviões na Polónia e ninguém falou com a Polónia. Há uma cláusula, a cláusula terceira, que eu acho que desse ponto de vista é bastante reveladora e devia ser o acordar definitivo dos europeus, que é o ponto quatro, em que se diz: haverá um diálogo entre a Rússia e a NATO mediado pelos Estados Unidos. Ora, os Estados Unidos são membro da NATO. Portanto, aparentemente, quem faz este acordo, pelo menos, e aparentemente com a autoridade, com o apoio do presidente norte-americano, do presidente Donald Trump, acha que os Estados Unidos não são membros da NATO. Acham que entre a Rússia e a NATO, os Estados Unidos são uma parte terceira que vai aqui mediar, ver quem é que tem mais ou menos razão. Este acordo diz tudo sobre este dado, que é: nós não podemos contar com os Estados Unidos como um aliado de confiança, não podemos contar com a garantia de segurança que historicamente os Estados Unidos têm dado em relação à segurança europeia, à ordem regional europeia desde 1945. Os europeus têm aqui só más opções, não há alternativas aos Estados Unidos, a verdade é essa, mas não havendo alternativas, elas têm de existir e, do meu ponto de vista, é evidente, têm de passar por um número suficiente de países europeus mostrarem suficiente coesão e maturidade para perceberem que têm de ter aqui uma frente unida, têm realmente de se rearmar, não apenas na retórica e nas promessas futuras, mas na prática e o mais rapidamente possível. E para já, têm esta tarefa, que é tentar travar isto ou pelo menos evitar que as cláusulas mais gravosas venham eventualmente a ser consagradas numa espécie de acordo, que nestes termos seria basicamente uma aceitação das principais exigências russas e inclusive teria esta consequência a nível da ordem global, com que eu ia terminar, que é Há aqui cláusulas também contraditórias sobre a questão das extensões de território. Mas basicamente é dito que vai haver um reconhecimento da ocupação de fato. Mas se esse reconhecimento está num documento legal, qual é a diferença entre isso e um reconhecimento formal? O reconhecimento de fato é: vamos adiar essa questão, não vamos falar nisso, vamos dar por certo que está assim. Mas noutra cláusula diz que vai haver um reconhecimento legal do Donetsk como russo, e da Crimeia, aparentemente. Portanto, mais uma vez, temos aqui uma redação completamente atabalhoada, mas seja de uma forma ou de outra, basicamente o que este acordo consideraria era o fim da regra que está supostamente consagrada desde 1945, que é: não há guerras de conquista. Uma grande potência não pode simplesmente ocupar e anexar o território que quer. Isso seria um incentivo a todas as potências que há pelo mundo, que têm problemas territoriais, que não estão contentes com as fronteiras que têm, que acham que deviam ter aquele território ou aqueloutro, para basicamente resolverem a questão pela força. Isto é uma receita para a paz no curto prazo a qualquer preço, mas para a multiplicação de conflitos armados no mundo e por uma Europa muito mais insegura, com uma Rússia muito mais agressiva e que aparentemente tem razões para achar que os Estados Unidos não vão ter nenhuma intervenção para evitar futuras agressões russas, porque as promessas que aqui existem das tais garantias de segurança dos Estados Unidos são uma coisa completamente vaga e sem nada de concreto que lhe dê o mínimo de credibilidade.

Vamos continuar atentos aos próximos desenvolvimentos. Agora falamos de sabotagem na Polônia. O país acusa a Rússia de estar na origem da sabotagem em linha ferroviária. Será que o general francês, Fabien Mandon, que veio dizer esta semana que era preciso que a Europa estivesse disposta a sacrificar os seus filhos numa guerra com a Rússia, tem razão, Bruno? Onde é que isto vai parar?

De fato, essas duas coisas foram muito comentadas em conjunto e há que dizer que o general francês, que é na verdade o chefe máximo das Forças Armadas, o equivalente ao nosso chefe de Estado-Maior general, o que veio dizer é, e foi-lhe perguntado isso num debate público: a Europa tem todas as condições para se defender da Rússia, tem todas as condições para dissuadir a Rússia, porque apesar de tudo, tem capacidades, meios muito superiores àqueles que tem a Ucrânia, e que apesar de tudo, impôs aqui um enorme custo à Rússia, que ao fim de três anos está muito longe de conseguir conquistar Kiev, quando os russos achavam que iam fazer isso ao fim de três dias. Mas há uma questão crucial que é: para isso não ser sequer necessário, para conseguirmos dissuadir essa agressão, é preciso que os russos acreditem que nós estamos realmente dispostos a usar os meios que temos e inclusive com os custos que implica um conflito armado, ou seja, que é ter baixas. E ele poderia eventualmente ter sido um pouquinho mais hábil e dizer: "Nós vamos tentar o mais possível que não haja baixas entre os nossos cidadãos, entre os filhos da França", como ele diz, mas obviamente é preciso que fique claro que os europeus, os franceses, estão dispostos realmente a combater pela sua liberdade, pela sua pátria, por aquilo em que acreditam, estão dispostos a defender-se, de fato, de armas na mão da Rússia. Se isso não for visto como credível, é muito mais provável que a Rússia tente testar as águas e é isso que a Rússia está a fazer. Não num conflito convencional, portanto, pra já não se põe essa questão. A Polônia não consegue combater isto, que até é dos países mais mobilizados e que mais investe em defesa neste momento, no contexto europeu e até a nível da NATO. Neste momento a Polônia gasta já mais de 4% do PIB em defesa, gasta mais em termos relativos, mais da sua riqueza do que os próprios Estados Unidos. Mas no fundo, isto são os tais ataques híbridos, a tal guerra na zona cinzenta, ou seja, basicamente o que a Rússia, como um bom Estado criminoso que é-

Isso também já é uma própria forma de enfraquecer a Polônia, não é? De certa forma, mantê-la vigilante.

Sim, é fazer pagar aqui algum preço aos países europeus pelo apoio que estão a dar à Ucrânia, e o apoio polaco é especialmente importante, nomeadamente em termos logísticos. É o grande nó onde chega todo tipo de apoio que vai para a Ucrânia, antes de depois ser transferido por via ferroviária ou rodoviária para a Ucrânia. Mas o ponto é que realmente a Polônia até teria os meios militares para enfrentar um ataque convencional mais do que outros países, mas não é esse o tipo de ataque que estamos a ter aqui. A Rússia como um Estado criminoso que cada vez mais é, um Estado cleptocrático, comete crimes de guerra, comete corrupção, basicamente o sistema de governo é um sistema corrupto até ao topo, no fundo o que está a fazer é contratar outros criminosos que já vivem na Europa, redes criminosas que já existem na Europa para subcontratar este tipo de ações de sabotagem, de aparecimento de drones, neste caso, sabotagem de uma linha de caminho de ferro. Os polacos já tiveram mais de 50 pessoas envolvidas nestas atividades. Agora, a questão aqui é se isso é suficiente, se basta andar a correr atrás do prejuízo. E do meu ponto de vista, eu já defendi isso há bastante tempo, acho que não. Acho que tem de haver retaliação mais dura, quer em termos de apoio à Ucrânia, acho que, por exemplo, esta questão dos bens congelados seria crucial para passar essa mensagem, que os europeus não se deixam amedrontar, e para demonstrar, aliás, alguma força até perante, por exemplo, Donald Trump, que também é alguém que claramente respeita muito mais a força do que as alianças. Mas de fato, a Polônia podia pensar, por exemplo, nesta questão de uma defesa aérea avançada, uma espécie de prolongadas defesas aéreas para a zona ocidental da Ucrânia. Parece-me que a reação até agora não tem sido suficientemente robusta e isso encoraja a Rússia a continuar a multiplicar este tipo de ações de ataques híbridos. E de fato, os europeus não podem ficar paralisados pela dificuldade de atribuição. É mais do que evidente que isto não é uma coincidência e que claramente tudo aponta para a Rússia. E também nós não temos de provar essa atribuição para tomar algumas destas medidas de retaliação. Aqui há até uma coincidência que ainda ajuda mais a validar esta ideia de que é a Rússia, é que isto pode ser visto na perspectiva russa, obviamente não legitima, mas pode ser visto como uma espécie de retaliação Ferroviária também de um ataque ferroviário ucraniano, uma ação de sabotagem no Transiberiano, portanto, a milhares de quilómetros da linha da frente e que ainda por cima cria um embaraço particular, porque é a via de comunicação entre a China, a Rússia e o resto da Europa e portanto cria aqui problemas com a China. No fundo, poucas semanas depois disso acontecer, temos este ataque na Polónia e realmente tudo indica que será mais uma ação russa.

Bruno, nós temos ainda cinco minutos até o final da nossa primeira parte. Vamos ainda falar da resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre Gaza. Aqui importa perceber o significado dos 13 votos a favor e das duas abstenções. Isto significa, na prática, que a força de manutenção de paz vai avançar rapidamente?

Infelizmente, não significa isso, mas significa que, apesar de tudo, o Conselho de Segurança não está completamente paralisado. Ou seja, num contexto em que há um conflito mais agudo entre grandes potências, realmente, o número de vetos e, portanto, de impasse, de impossibilidade de aprovar o que quer que seja no Conselho de Segurança aumenta. Como sabemos, o Conselho de Segurança tem cinco membros permanentes, os Estados Unidos, a Rússia, a China e depois a Grã-Bretanha e a França, que já não exercem, diga-se, o direito de veto desde os anos 80, porque estão cientes que realmente, especialmente no seu caso, isto é um privilégio bastante exorbitante, mas no caso dos outros três, realmente isso acontece, sobretudo no caso da Rússia e dos Estados Unidos. E aconteceu muitas vezes no período da chamada Guerra Fria. Mas realmente, aí o pico do número de vetos foi nos anos 80. Na década de 80, houve 37 vetos. Mas neste período de apenas cinco anos, desde 2020, portanto, nesta década de 2020, que ainda vai pela metade, já estamos em 22 vetos. Quando, por exemplo, na década anterior tinha havido apenas três. Realmente há aqui uma tendência para o bloqueio, mas ela não é total, desde que seja um conflito em que realmente estas grandes potências não estão diretamente em choque ou indiretamente em choque, se quisermos. E aí, de facto, os Estados Unidos foram muito hábeis neste sentido de passar esta mensagem, até quando apareceu uma proposta de resolução russa, que eu próprio disse aqui que não me parecia que tivesse condições para avançar, porque a Rússia realmente podia aprovar o que quisesse, mas depois não tinha condições no terreno para implementar o que quer que fosse. E portanto, os Estados Unidos a mensagem que passaram foi exatamente essa, que é: se estamos preocupados com o que se passa em Gaza e se queremos que as coisas melhorem, que haja uma perspectiva realista de paz, isto é a única proposta que está em cima da mesa, que foi minimamente aceite pelos estados da região e portanto, quem vetar isto, quem bloquear isto, vai aqui assumir a responsabilidade de que provavelmente o conflito vai se voltar a reacender. E portanto, claramente, a China e a Rússia não quiseram assumir esse ônus. Apesar de tudo, é importante que os Estados Unidos tenham conseguido o apoio dos outros membros do Conselho de Segurança, porque a par destes cinco membros permanentes, temos 10 membros eleitos das diferentes regiões do mundo, inclusive, obviamente, estados árabes e muçulmanos como a Argélia. Realmente todos esses estados apoiaram a resolução, portanto, temos 13 a favor e apenas estes dois, a China e a Rússia, se abstiveram, alegando que tinham algumas reservas sobre não haver referências explícitas a um Estado palestiniano, enfim, que o plano não está exatamente como devia estar, etc. Portanto, sinalizaram aqui o seu desconforto, não quiseram dar uma completa vitória aos Estados Unidos. Ficam aqui com algum capital de queixa se se resolvem problemas no futuro, que é bem possível. Agora, a questão da força de manutenção de paz. Basicamente, esta resolução anexa, portanto, dá um mandato internacional, dá força de lei internacional ao plano de Donald Trump por dois anos, dá autoridade a este Board of Peace, portanto, a este conselho da paz que ele vai presidir, e que ele vai também nomear os outros membros livremente. Dá aqui um enorme poder realmente a Donald Trump e aos Estados Unidos, também com grande responsabilidade. Em relação à força de manutenção de paz, ela tem um mandato bastante robusto, com a possibilidade de desmilitarizar, desarmar pela força grupos que estejam armados. O grande problema é que não há agora países que se voluntariem para essa missão. Ou seja, os dois países que já tinham anunciado a intenção de participar, o Azerbaijão e a Indonésia, vieram dizer, o Azerbaijão: "Nós só mandamos tropas quando houver paz, quando for para manter a paz e não para impor". A Indonésia disse: "Nós só vamos ajudar na reconstrução". Dando a entender quase que nem é bem uma força militar, que é realmente o que seria. Infelizmente, estamos longe de ter as garantias de que em janeiro, que é o objetivo anunciado, teremos uma força de manutenção de paz realmente eficaz em Gaza, o que seria indispensável para o plano poder continuar a avançar.

E Bruno, nós vamos fazer aqui uma curta pausa no Cinco Continentes. Voltamos já a seguir, logo depois das notícias. A Arábia Saudita é o país em destaque esta semana. Vamos falar sobre isso nesta segunda parte. E também falamos de um encontro que deu muito que falar na Casa Branca. É já a seguir. Estamos de regresso para a segunda parte do Cinco Continentes. Vamos continuar a analisar os assuntos que marcam a geopolítica internacional. E Bruno, vamos falar de um encontro que deu muito que falar ao longo da semana, o Príncipe das Arábias, Muhammad bin Salman, Trump e Cristiano Ronaldo encontraram-se na Casa Branca. Aqui importa perceber se a Arábia Saudita pode cumprir as promessas feitas a Trump de mais investimento e claro, a compra de mais 40 F-35. Pergunto qual é a relevância disto tudo?

Realmente, a presença do Ronaldo não é assim tão relevante. Foi muito relevante cá em Portugal, gerou alguma polêmica. Esta associação dele à Arábia Saudita em si mesma pode ser questionada, mas não é surpreendente, porque era bastante evidente que os sauditas não lhe pagam 200 milhões, enfim, meio milhão de dólares por dia, simplesmente para jogar futebol. Ele também tem esta função, no fundo, de ser uma face.

A cara de um projeto?

Sim, a cara, desde logo, deste projeto do Mundial 2034, que se seguirá ao Mundial aqui em Portugal, Espanha e Marrocos. E também, no fundo, uma cara de uma Arábia Saudita mais moderna. No fundo, isto é uma agenda deste príncipe das Arábias, do Mohammed bin Salman, que é o príncipe herdeiro, o primeiro-ministro, na verdade, o governante de fato da Arábia Saudita, visto que o pai, o rei saudita, parece estar bastante incapacitado, e que tem esta visão de manter um sistema de concentração de poder absoluto na dinastia saudita e, em particular, nele próprio, mas com uma liberalização mais nos costumes. No fundo, permitir às novas gerações sauditas acesso a bens de consumo, a uma certa modernidade econômica, social, desportiva. Coisas como, por exemplo, haver cinemas na Arábia Saudita, coisa que estava proibida.

Coisas para nós quase como garantidas, não é? São evidentes.

Mas Ronaldo é um pouco a face disso. O príncipe saudita claramente também percebe muito bem Donald Trump. Realmente, Donald Trump é alguém que valoriza pessoas famosas, desportistas famosos, com muito dinheiro, com muitos seguidores nas redes sociais.

Elon Musk também estava lá.

Elon Musk também estava pelo lado americano, portanto, a presença dele não é muito surpreendente, mas também não muda muitas coisas. Enfim, fala-se deste conceito de sportwashing, no fundo, usar o desporto para tentar limpar um pouco a imagem. Não tenho dúvida que a Arábia Saudita tenta um pouco fazer isso, inclusive com o Ronaldo. Mas neste caso, isso não parece ser assim tão importante, porque basicamente o Donald Trump não quer saber da questão dos direitos humanos, da democracia na Arábia Saudita, para nada. Deixou isso muito claro, aliás, na sua primeira visita fora dos Estados Unidos neste seu segundo mandato, como aliás também no primeiro, foi à Arábia Saudita precisamente e deixou claro que essas questões são para os sauditas resolverem. Já falamos aqui disso, até na primeira parte. Ele tem uma afinidade natural, uma simpatia natural por homens fortes, líderes ditatoriais que concentram todo o poder neles. Portanto, isso era um problema que não se colocava a Donald Trump. Aquilo que realmente lhe interessa, sobretudo, é esta questão dos investimentos. Aí as promessas são realmente extraordinárias, 600 mil milhões, mas aparentemente durante a própria conversa, o príncipe saudita diz: "Bem, pode chegar a um trilhão", ou seja, um bilhão dos nossos. Na verdade, não é assim tão claro que isso venha mesmo tudo a concretizar-se. Temos aqui um indicador disso, que é o investimento público deste fundo soberano saudita na bolsa americana. Tem estado em queda acentuada desde 2022. Chegou a estar quase nos 60 mil milhões. Agora já está um bocadinho abaixo dos 20 mil milhões, portanto, níveis que não se viam desde 2021. Estas ambições de modernização econômica exigem investimentos colossais. A dívida saudita disparou, o déficit orçamental também, passou para 5% do PIB. A dívida saltou de 5% para mais de 30%. Enfim, são números perfeitamente geríveis pela Arábia Saudita, mas por razões que já vamos ver quando a seguir falarmos da Arábia Saudita como país em destaque. Mas realmente, apesar de tudo, mesmo na Arábia Saudita, não há dinheiro para tudo logo. E portanto, aqui eu diria que o mais importante para Donald Trump são estas promessas, é ele poder publicamente fazer estas promessas e declarar esta vitória. São os negócios que envolvem também familiares próximos de Donald Trump, a própria família Trump, os dois filhos, o grupo empresarial do Donald Trump está a fazer vários investimentos imobiliários na Arábia Saudita, uma torre Trump em Jeda, outra na capital, em Riade. Jeda é a capital econômica, vamos dizer assim. Imensa engenharia saudita também na empresa de Jared Kushner, do cunhado de Donald Trump. E realmente, esse tipo de interpenetração de interesse entre a família real saudita e a família Trump é algo que claramente Donald Trump não vê como um problema, bem pelo contrário.

Vê como oportunidades.

Embora coloque alguns problemas a quem se preocupa com princípios de legalidade democrática, de não haver aqui suspeitas de negócios menos claros. Em relação à Arábia Saudita, apesar de tudo, há aqui questões estratégicas que vão para além disso. Ou seja, é importante ser isso. A Arábia Saudita é um país muito importante e há aqui acordos relevantes, quer para o lado saudita, quer para o lado americano. Por exemplo, um acordo sobre terras raras. A Arábia Saudita está a tentar diversificar a sua economia, apostar no turismo, na inteligência artificial também, e há acordos, mais uma vez, interesses convergentes entre Trump e o príncipe saudita. A Arábia Saudita, os países do Golfo têm imensa energia barata e imenso dinheiro, que são duas coisas cruciais para alimentar a inteligência artificial. As terras raras, como eu dizia, a Arábia Saudita está a diversificar, a procurar explorar a sua riqueza mineral para além do petróleo e do gás. E obviamente, isso é algo também muito relevante no contexto geopolítico e geoeconômico atual. Há um acordo sobre até uma refinação de terras raras lá E depois há esta dimensão de segurança, de uma região como o Médio Oriente, muito propensa a conflitos. E aí interessa sobretudo à Arábia Saudita uma garantia de segurança americana e a venda destes aviões de última geração, os F-35, só Israel é que tem na região. Legalmente, supostamente, há limitações ao fornecimento desta tecnologia militar mais avançada americana a outros países que não Israel. Mas o presidente Trump disse que isso não interessava e que ele achava que eram dois grandes aliados e que os dois mereciam ter F-35. Portanto, vamos lá ver se isso avança, porque em todo caso, mesmo que avance, vai demorar anos até os aviões serem produzidos e entregues. Mas a concretizar-se seria realmente uma alteração muito significativa e preocupante, eu diria, para Israel. E também se falou, por fim, desta questão dos acordos de Abraão, da Palestina. Eu diria claramente que a Palestina não é questão prioritária nem para Trump, nem para o príncipe Mohammed bin Salman, mas este último tem de se preocupar um pouco com a opinião pública árabe, com as ambições da Arábia Saudita se afirmar como líder da região. Desse ponto de vista, a Palestina é importante e portanto, o que ficou é que sim, a Arábia Saudita está disposta a avançar nesse sentido, normalização de relações com Israel, que é isso que significam os acordos de Abraão, mas apenas se as coisas continuarem a avançar bem na Palestina, em Gaza e na Cisjordânia.

Arábia Saudita, que já fizeste questão de dizer, é o país em destaque nesta edição do Cinco Continentes. Quais são os dados ou as datas também, Bruno, que queres pôr aqui em cima da mesa?

Haveria muita coisa realmente a destacar. É um país em muitos aspectos fascinante e cheio de contradições, mas começando pelos dados fundamentais em termos geopolíticos, geoestratégicos. É um país enorme, tem 2,1 milhões de quilômetros quadrados, é o 13º maior país do mundo. Tem também uma grande economia, 19ª maior economia, faz parte por essa via também do G20, bem como, aliás, dos BRIC+. Tem aqui também uma visibilidade, uma influência diplomática crescente como parte destes países emergentes do sul global. Tem, sobretudo, obviamente, é por isso que é mais conhecido, as segundas maiores reservas de petróleo do mundo, a seguir à Venezuela, mas sobretudo tem esta questão, que é petróleo muito facilmente acessível, muito fácil de explorar, muito barato de explorar. Portanto, mesmo neste contexto da transição energética, da ideia de que eventualmente se pode estar a chegar a um pico do consumo de petróleo, apesar de tudo, a Arábia Saudita é dos países onde a extração de petróleo é mais fácil, é mais barata, onde é possível continuar a lucrar com essa exploração, mesmo a preços mais baixos, se for essa a tendência. Tem uma população significativa, 38 milhões de pessoas. É a maior economia desta zona do Médio Oriente e do Norte da África. Sozinha a Arábia Saudita, muito por força também da economia do petróleo, é basicamente 1/4 da economia do Médio Oriente, 25%, só a Arábia Saudita sozinha. E por tudo isso, tem realmente aqui uma enorme importância na geopolítica, na geoeconomia, na geopolítica e na geoestratégia do Médio Oriente, onde também se tem afirmado graças à sua enorme riqueza como um líder regional. Procura ser, no fundo, o líder dos países sunitas, que é a corrente maioritária no Islão. Tem uma importância religiosa muito grande. Foi por aí até que começou a importância da Arábia e da Arábia Saudita, ou seja, controla as duas cidades sagradas mais importantes do Islão, que são o foco daquela grande peregrinação anual do Hajj, Meca e Medina. Tem uma enorme importância na economia global por causa do petróleo. Em termos da sua história, realmente é uma história fascinante neste sentido, que é uma região com uma história muito longa e muito importante, nomeadamente por via do Islão, enfim, desde 622, da famosa peregrinação de Maomé, o profeta fundador do Islão, de Meca pra Medina, mas como Estado, é um Estado bastante recente. O atual Estado saudita, que é o terceiro Estado criado por esta dinastia, que emerge no final do século XVIII, associada a uma corrente fundamentalista chamada o waabismo. Mas o atual Estado saudita basicamente emerge a partir de 1902, uma campanha de reconquista deste Ibn Saud, que vai dar o nome à dinastia e também ao Estado, à Arábia Saudita. Ibn Saud vai ser rei da Arábia Saudita a partir de 1932, portanto, como eu digo, é um Estado recente, vai conquistar vários territórios da Arábia, inclusive Meca e Medina, aos antepassados do atual rei da Jordânia, e em 1932 unifica esses territórios, cria a Arábia Saudita. 1938, a outra data-chave, a descoberta de petróleo, nomeadamente por empresas americanas. A Arábia Saudita vai se apoiar muito nos Estados Unidos pra contrabalançar aquela que era a potência dominante na região nessa altura, que era ainda a Grã-Bretanha. Vai haver um famoso encontro no Cairo entre o rei Ibn Saud e o presidente Franklin Roosevelt, durante a Segunda Guerra Mundial, que vai consolidar essa aliança. E portanto, desde 1953, que é a morte de Ibn Saud, tivemos seis reis da Arábia Saudita, com intervalos mais ou menos de uma década, e todos eles são filhos do rei fundador. Portanto, o atual rei da Arábia Saudita, o pai de Mohammed bin Salman, o rei Salman, é também ele um filho do rei fundador da Arábia Saudita. Este tipo de sucessão entre irmãos é frequente nalgumas monarquias árabes. Aqui, o que é relevante nos últimos anos é que estava a esgotar-se. Obviamente, o rei Ibn Saud tinha um vasto harém, teve muitos filhos, teve dezenas de filhos, mas eles não são imortais e portanto, basicamente, punha-se a questão Quem é que vai suceder na geração seguinte? Não dos filhos, mas dos netos. É aí que Mohammed bin Salman se destaca, vai aproveitar a sorte de em 2015 o seu pai assumir o trono. Ele não é logo o príncipe herdeiro, é um primo dele, Mohammed bin Nayef, que era até o chefe das informações, que foi crucial no combate à Al-Qaeda na Arábia Saudita, mas num autogolpe, num golpe palaciano em 2017, esse primo é afastado, Mohammed bin Salman é nomeado príncipe herdeiro, e basicamente desde aí controla o Estado Saudita e tudo indica que será o próximo rei da Arábia Saudita e o primeiro desta nova geração dos netos de Ibn Saud. É um país que é das poucas monarquias de direito divino que ainda restam. Não tem eleições, portanto, a Arábia Saudita não se dá ao trabalho de organizar eleições fraudulentas. Não há eleições, todo o poder está concentrado no monarca, na família reinante. Os ministros são genericamente, por regra, eles próprios membros da família reinante. Por exemplo, o ministro da Defesa é um irmão do príncipe Mohammed bin Salman e, portanto, um filho do atual rei. E apesar disso, como eu referi, há aqui um certo esforço de modernização mais econômica e também social nos costumes. As mulheres, por exemplo, passaram a ser autorizadas também a guiar, que era algo que era proibido também na Arábia Saudita, mas sem que isso ponha em causa o total controle do poder e da riqueza do país pela dinastia, pela família real e, em particular, por Mohammed bin Salman.

Bruno, nós vamos ter que acelerar, que ainda temos aqui vários temas em cima da mesa. Agora vamos até a América Latina pra falar sobre as relações entre os Estados Unidos e a Venezuela, perceber se os americanos avançam ou não contra o regime de Maduro, e também ir até o Equador e perceber se a derrota no referendo do presidente, nomeadamente na questão de bases estrangeiras, apesar do país e do continente parecerem estar a virar eleitoralmente à direita. Há essa percepção.

Sim, houve também eleições no Chile, uma primeira volta das presidenciais. O candidato que provavelmente ganhará a segunda volta é um candidato também da direita. Portanto, também no Chile, onde tínhamos um presidente de esquerda, Boric, estará a virar à direita. Nobo ganhou eleições em abril, portanto, seis meses depois, organiza este referendo, com muito pouca campanha, aliás, convencido aparentemente que ia ganhar, pelo menos em algumas das questões, era haver uma nova Constituição, menos deputados, não haver dinheiro público para os partidos, e esta questão das bases militares, que estavam associadas a negociações em curso que ele tinha com os Estados Unidos para haver uma ou duas bases militares norte-americanas no país. A ideia é que isso também permitiria aos Estados Unidos terem aqui um apoio que substituía a Colômbia, onde os Estados Unidos estiveram presentes durante muito tempo, mas com o atual presidente Petro, as relações estão num estado terrível, como já falamos várias vezes. E isso permitiria também ao Equador, ao governo do Equador, combater mais eficazmente o crime organizado. Foi muito com essa agenda que Nobo foi eleito, mas ele não está a conseguir controlar o crime organizado. Os homicídios aumentaram 43% este ano já. E, portanto, ele tinha aqui uma espécie de cartada de trunfo. Aparentemente, de fato, ele não conseguiu convencer os eleitores. As sondagens não apontavam pra esta derrota, muito menos com estes números, mas realmente foi isso que aconteceu. E eu acho que isto é revelador de um grande problema que os Estados Unidos têm, é que parecem estar a apostar em sair a todo o custo da Europa, abandonar as bases que têm noutras partes do mundo, nomeadamente na Europa, onde essas bases são bem vistas, são vistas como um elemento estabilizador, uma garantia de segurança adicional, etc. E parecem querer à força toda reforçar a sua presença militar no próprio continente americano, onde não há propriamente grandes ameaças militares que justifiquem isso da parte de outros Estados, onde a opinião pública, como já aqui falámos, em muitos destes Estados, é muito avessa, por causa do histórico de intervenções militares americanas, a que isso aconteça. E, portanto, temos aqui uma confirmação, não é sondagens, é mesmo um voto, de que é assim, mesmo num país que aparentemente tinha virado à direita, os equatorianos não querem, de facto, correr o risco, aparentemente, de ter aqui uma presença militar americana que levanta dúvidas sobre a soberania do país, etc. Em relação à Venezuela, eu diria, a novela continua.

Já falamos aqui várias vezes.

Sim, essa concentração de meios realmente aponta para a necessidade de algum tipo de decisão. Para mim, parece-me evidente que, neste momento, parece-me evidente que Donald Trump apostou que simplesmente o susto, esta ideia de ter o maior porta-aviões do mundo, o navio de guerra mais poderoso, mais custoso, mais capaz do mundo, só por si, no fundo, iria assustar o regime de Maduro e levaria a algum tipo de mudança. Claramente, isso não aconteceu e nunca me pareceu que isso fosse provável que acontecesse. Portanto, agora Donald Trump tem aqui uma decisão difícil pra tomar, se arrisca a algum tipo de ação militar mais musculada, mesmo que não seja uma invasão em grande escala, correndo o risco disso também não resultar, de eventualmente haver algum tipo de escalada, alguma coisa correr mal, ou simplesmente acaba por ser forçado a retirar ou passar esta ideia de que no fundo tem o navio militar mais poderoso do mundo pra caçar pequenas lanchas de narcotraficantes, que é algo que aqui a nossa Marinha ou a Marinha Espanhola também lidam, mas com meios bastante menos significativos e com resultados igualmente eficazes, diria.

E Bruno, o presidente Macron está de visita a vários países africanos e à Cimeira União Africana-União Europeia em Angola. Pergunto se a França e a Europa podem manter alguma presença e, de certa forma, também alguma influência em África.

Podem, mas realmente a França está aí com algumas dificuldades. Ou seja, em 2017, Macron, logo no início da sua presidência, fez um discurso no Burkina Faso a deixar claro que a velha France Afrique, aquela ideia de uma espécie de garantia de segurança para os regimes pró-franceses, que isso tinha acabado. O problema foi que houve uma série de golpes militares, nomeadamente nesta zona do Sahel, no Mali, no próprio Burkina Faso, no Níger, etc. Genericamente, muito antiocidentais, muito antifranceses, até porque percebiam que não iam ter apoio do Ocidente para se manterem no poder, estas juntas militares, e portanto apostaram nas relações com a Rússia e com a China. A França, no fundo, está em retirada na França francófona, em parte até por razões que se percebem. Enfim, muitas destas elites, nomeadamente destes golpistas, usam isto de uma forma absolutamente hipócrita, descarada, como álibi para fazerem aquilo que querem, para continuarem a mandar e desmandar como querem, sem qualquer pressão para haver eleições ou direitos humanos, etc. Mas é verdade também que em muitos destes países, de facto, a cooperação com a França não pareceu bem ser uma opção, foi mais uma imposição. Na altura da independência, a França conseguiu ter suficiente influência econômica e militar para garantir que elites muito alinhadas com Paris assumiam o poder depois da independência e continuavam a manter os interesses, uma presença militar, inclusive também francesa. A França, neste momento, também está a retirar bases militares na Costa do Marfim, este ano no Senegal. Para já, só vai manter no Djibouti e no Gabão, que é um dos países que Macron vai visitar. É o único realmente francófono. Começou pelas Maurícias, que é bilíngue, francófono e anglófono. Mas o que é interessante é que a França está a procurar manter-se diversificando relações, ou seja, apostando na África de língua inglesa e na África de língua portuguesa. E portanto, aí temos visitas à África do Sul, temos visitas à Angola. Na África do Sul também vai para o G20. A Angola também vai para esta cimeira União Europeia-União Africana. Mas em todos esses países há também encontros bilaterais, há protocolos, há acordos, nomeadamente de investimento também bilateral, e parece uma estratégia inteligente da parte da França. E do ponto de vista destes países, é também interessante haver aqui uma possibilidade de diversificação, e não há nenhuma razão para as antigas colônias apenas terem relações de cooperação com a antiga metrópole. Isso aplica-se nos países lusófonos já há muito tempo, mas não há razão para não se aplicar também nos outros.

E Bruno, nós na semana passada falamos da China e do Japão, do choque em torno de Taiwan. Esta semana temos novos desenvolvimentos. A China parece ir mesmo para algum tipo de guerra comercial com o Japão, ao mesmo tempo que avança para tréguas comerciais com os Países Baixos. É isto?

Sim, estas guerras comerciais globais vão evoluindo. Mas aqui no caso do Japão, como vimos na semana passada, há aqui uma dimensão política, mas no fundo há o uso de instrumentos econômicos depois por parte da China. Não é a primeira vez. Numa crise anterior, em 2012, a China estreou esta arma de coerção econômica das Terras Raras precisamente contra o Japão. Mas aqui o que temos, no fundo, para já, parece ser uma escalada limitada, ou seja, turismo, por exemplo, a China está a desaconselhar os chineses de irem ao Japão. Em termos de visitas oficiais ou de funcionários públicos, isso parece estar a ter um impacto, mas não entre cidadãos privados. A imprensa japonesa tem muitos testemunhos de chineses que continuam a visitar o Japão, estudantes chineses continuam a querer ir estudar para o Japão. É verdade que os chineses representam 25% dos turistas no Japão, portanto, são de longe o país mais importante. Potencialmente, isso tem um impacto de alguns milhares de milhões de dólares, mas enfim, parece para já um impacto limitado. Depois algumas limitações também à exportação de produtos da pesca japonesa para a China. Mas enfim, vamos ver é se isso continua a escalar. Também filmes, limitações às estreias de filmes, etc. Eu diria, para já é uma escalada limitada, mas pode continuar. A China tem sinalizado que quer algum tipo de recuo da primeira-ministra japonesa, que não tem muita margem para recuar, porque toda a imagem de marca dela é ser uma dama de ferro. A japonesa ser uma nacionalista. No caso da Europa, aqui dos Países Baixos, os Países Baixos avançaram em coordenação com os Estados Unidos, e não com os seus parceiros europeus, nesta guerra comercial de Donald Trump, com medidas contra a Nexperia, que é esta empresa de fabricação de microchips. O problema é que se percebeu que havia uma dependência da China em relação a esta empresa na Holanda, mas também vice-versa. E, portanto, a China retaliou parando o fornecimento de microchips desta empresa, mas que vinham da própria China. E portanto, isso criou uma crise, nomeadamente na indústria de automóvel europeia, que está muito dependente destes microchips. Isso, e também esta trégua entre Donald Trump e a China, acabou por permitir aos Países Baixos recuarem, portanto, abandonaram esta ideia de nacionalizar a empresa, de intervencionar a empresa, e a China levantou essas restrições. Eu acho que é mais um exemplo, mais um caso que demonstra que a China parece estar a vencer nesta guerra comercial contra os países ocidentais.

E Bruno, nós vamos fechar esta edição. Aliás, vamos voltar à COP 30, em Belém do Pará, no Brasil, onde um incêndio num dos pavilhões obrigou a uma evacuação aparatosa, mas deixamos a análise mais detalhada para a semana. Mas pelo que sei, queres sobretudo falar da gafe diplomática do chanceler alemão.

Do chanceler Merz, que foi lá representar a Alemanha. As relações, nomeadamente econômicas, entre a Alemanha e o Brasil são muito importantes. As empresas alemãs representam quase 10% do PIB brasileiro Apesar disso, Merz comete aqui uma gafe daquelas básicas, que é ao regressar e fazendo um discurso perfeitamente legítimo a dizer que a Alemanha é um país magnífico, depois diz: "Eu perguntei aos jornalistas que foram comigo a Belém do Pará à COP 30, se queriam ficar no Brasil ou se preferiam voltar pra Alemanha e claro que eles disseram que queriam vir pra Alemanha." Isto gerou uma enorme indignação no Brasil, também com declarações inaceitáveis. Por exemplo, o prefeito do Rio de Janeiro, que nem sequer era o prefeito de Belém, veio dizer que o Merz era um nazi ou algo assim, depois apagou essa mensagem. Mas realmente Merz é muito propenso a esse tipo de gafes. A única coisa que eu diria em defesa dele é que ele faz isso não só em relação ao Brasil, mas em relação a toda a gente. Já cometeu muitas gafes também na Alemanha que lhe criaram problemas com diverso eleitorado na Alemanha. Agora, evidentemente, são declarações infelizes, desnecessárias. A Alemanha, aparentemente, em parte para compensar, já anunciou que ia dar 1000 milhões também pra este fundo das florestas tropicais que o Brasil criou. É a única doação significativa à par da Noruega, pra já. Parece-me que realmente era bom que o chanceler Merz tivesse um pouquinho mais de cuidado com a língua. O presidente Lula deu-lhe, aliás, uma boa lição de diplomacia, porque respondeu a isto dizendo: "O problema dele foi que ele ficou muito pouco tempo em Belém e não foi a um boteco, não foi comer a boa comida do norte do Brasil, do Pará, etc." Acho que lidou muito bem com a questão, não criou aqui uma crise também desnecessária com a Alemanha. Acho que o chanceler Merz fazia bem em seguir as lições de diplomacia do presidente Lula.

Ficar mais tempo no Brasil a aproveitar.

Exato.

E Bruno, temos ainda tempo pra tua habitual recomendação. Vamos a isso.

Sim. A minha recomendação desta vez é de um documentário da BBC. Está disponível em vários formatos, às vezes em Portugal não é muito fácil, mas eu imagino que quem nos está a ouvir conseguirá arranjar maneira. Eu por acaso vi quando ainda estava nos Estados Unidos, onde há, de facto, uma espécie de canal de streaming da BBC, esperemos que também apareça pelo lado da Europa, mas basicamente é uma série que se chama "The Kingdom", é sobre o reino da Arábia Saudita, mas o subtítulo é que é mais revelador, "The World's Most Powerful Prince", o príncipe mais poderoso do mundo. São dois episódios de uma hora. O primeiro chama-se "Game of Thrones", também remete praquela série, "O Jogo dos Tronos", mas depois o segundo, "Kingdom Come", tomar posse do reino. Mas basicamente é uma espécie de documentário sobre a vida de Mohammed bin Salman, alguém que é apenas um de centenas de príncipes sauditas, como há a poligamia na família real saudita, não só o rei fundador, mas todos os outros príncipes, ou seja, filhos dele também tiveram múltiplos príncipes. Ele era só um de centenas, mas realmente conseguiu, por uma combinação de ambição, habilidade, brutalidade também, uma capacidade de também usar a força de forma completamente sem limites, conseguiu realmente garantir que será ele, tudo indica, pra já, o próximo rei da Arábia Saudita, e que já é ele que controla este Estado extremamente importante na geopolítica mundial.

Ficamos aqui com a tua sugestão, Bruno Cardoso Reis. Já sabe, se tiver perguntas, dúvidas, é enviar para o e-mail ouvinte@observador.pt. O Bruno Cardoso Reis tem todo o gosto em responder num próximo episódio. Quem sabe já no próximo. Estamos juntos no próximo sábado. Bruno, um abraço. Até lá.

Boa semana a todos. Obrigado.