Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Estreia de A Caminho de Belém, por onde se vão cruzar os apoiantes às principais candidaturas presidenciais até às eleições. Vamos aqui discutir notícias, tendências de voto, enfim, a atualidade relacionada com as presidenciais e comigo tenho a Judite França. Judite, quem são os nossos convidados?
Bernardo Blanco, ex-deputado da Iniciativa Liberal e apoiante de João Cotrim Figueiredo, Bruno Nunes, deputado do Chega e apoiante de André Ventura, e Bernardino Soares, antigo deputado do PCP, antigo presidente da Câmara de Loures e apoiante de António Filipe. Bem-vindos, obrigada por terem aceitado o nosso convite e estarem conosco em estúdio. Bernardino Soares, vou começar por si. Com António José Seguro, Catarina Martins, António Filipe e agora Jorge Pinto, do LIVRE, a esquerda não está a fazer o mesmo que a direita, ou seja, a dividir o eleitorado?
Boa tarde, obrigado pelo convite. Eu acho que há nestas eleições uma situação clara que é a existência de um conjunto vasto de candidatos à esquerda e à direita, não há menos à direita, podemos dizer assim, o que é bom pra diminuir a abstenção e também garante que não vai ficar nada resolvido à primeira volta. Não há vencedores antecipados. E o debate à esquerda tem sido muito interessante. Ainda hoje, como há pouco no noticiário aqui referiram, Eurico Brilhante Dias voltou a tergiversar sobre a eventual hipotética desistência de António Filipe, que não vai acontecer. É evidente que se ele se foca em António Filipe, isso também quer dizer, e é essa também a minha opinião, que é a candidatura que se está a destacar mais à esquerda de António José Seguro. Eurico Brilhante Dias, para além de outras coisas erradas, diz pra olhar pra experiência de Lisboa. Mas a experiência de Lisboa o que nos diz é que não é com ataques à esquerda que se constrói uma votação maior.
Mas diz-nos que se a CDU estivesse na chamada frente de esquerda com Alexandre Leitão, a vitória de Carlos Moedas teria sido roubada.
Mas quem é que diz isso?
Enfim, podemos dizer que aritmeticamente ela não é somável.
Mas a aritmética também nos dizia que os partidos que se juntaram na coligação de Alexandra Leitão e do PS teriam mais votos que Carlos Moedas, porque foi o que aconteceu há quatro anos atrás, e isso não aconteceu. Quem teve mais votos do que há quatro anos atrás foi a CDU e João Ferreira.
Conclua, por favor.
Portanto, esta ideia de que há uma espécie de baú onde cada candidatura tem os votos e que o vai entregar ou que o pode entregar a outra candidatura é completamente errada e, aliás, desrespeitosa com as opções dos eleitores, porque o que nós temos que ter é a opção de cada eleitor por aquele candidato que considera ser o mais adequado àquilo que entende ser a Presidência da República. E muitas pessoas disseram, quando António Filipe lançou a sua candidatura, que finalmente tinham alguém em quem votar. E esta candidatura que tem vindo a alargar, isso é público, muito para além do espaço do PCP, é uma candidatura que se apresentou independentemente da existência ou não de outras candidaturas. Portanto, não ficou à espera. Não é uma candidatura supletiva. É uma candidatura que se quis apresentar e tem um espaço próprio. E quem não compreender isso, não está a perceber muito bem a dinâmica das presidenciais.
Bruno Nunes, não temos aqui demasiadas candidaturas partidárias e não apartidárias. Os três que aqui estão defendem e apoiam três candidatos que no fundo são também o rosto dos partidos a que pertencem.
Mas deixe-me dizer só uma coisa. É que o António Filipe é, tirando um outro candidato à direita, o único que não é nem foi líder partidário nestes candidatos.
Sim. Não era nesse sentido que eu estava a dizer.
Se vamos falar de candidaturas partidárias, há outras mais partidárias do que esta.
Não era nesse sentido que eu estava a falar.
Antes de mais, boa tarde, obrigado pelo convite, cumprimentar o Bernardino e o Bernardo Blanco. Deixe-me dizer que eu acho que não é novidade nenhuma. Nós passamos a vida a dizer que as presidenciais têm um espírito diferente, mas todos nós sabemos que representam sempre alguma franja do eleitorado. Ainda para mais com esses microciclos na política que ultimamente temos vivido, com sucessivos governos em tão pouco espaço de tempo, é normal que as pessoas estejam identificadas com determinado posicionamento ideológico, mais à esquerda, mais à direita. Eu acredito que o bipartidarismo acabou, mas a polarização que existe entre a esquerda e a direita cada vez está mais acentuada e, portanto, nesta altura parece-me perfeitamente normal. Aquilo que não conseguimos entender, na realidade, de algumas candidaturas acaba por ser que fação dentro dos próprios partidos defende. Porque, por exemplo, quando eu escuto hoje Eurico Brilhante Dias, eu não sei se ele está a falar pelo nome de António José Seguro, se está a falar por José Luís Carneiro, se está a falar pela fação da fila de trás de Pedro Nuno Santos, que apoia Duarte Cordeiro, que está lá para aquecer pra entrar em breve como secretário-geral do Partido Socialista, ou mesmo de António Costa, que está na Europa a manietar algumas das figuras dentro do PS e a controlar as facas longas da noite do Largo do Rato.
Não entende que há aqui partidos a mais nesta candidatura?
Acredito que obviamente era possível termos uma discussão mais centrada, mas a democracia dita isso, a democracia dita a liberdade do cidadão se candidatar desde que consiga preencher os requisitos. Portanto, sempre foi assim. Sempre assim será e eu acredito que dificilmente mudaremos este espectro. E obviamente os partidos políticos, sejamos honestos, e no nosso caso em concreto, quando sentimos que as nossas bandeiras e que o nosso posicionamento ideológico pode não ter uma defesa palpável ou nenhuma figura que o possa defender, ou alguma figura que eventualmente possamos ter considerado ao início que até poderia defender, mas depois percebemos que cada vez que vai abrindo a boca, vai perdendo votos e vai dizendo asneiradas consecutivas.
Está falando do almirante Gouveia e Melo.
Eu acho que também devíamos deixar de chamar almirante ao Gouveia e Melo enquanto candidato, porque aos outros não chamamos professor doutor, não chamamos doutor, não chamamos o que quer que seja. Portanto, o almirante poderíamos deixar cair essa história, até para não denegrir a imagem da Marinha com alguns dos posicionamentos que têm sido tomados por Gouveia e Melo. E portanto, acho que Gouveia e Melo deve continuar a falar, porque quanto mais falar, mais votos irá perder, apesar de eu considerar que a segunda volta será entre André Ventura e Gouveia e Melo
Já vamos à segunda volta. Bernardo Blanco, vamos ver João Cotrim Figueiredo desistir com o aproximar das eleições? Mais uma vez, porque com este número de candidaturas é quase certa uma segunda volta.
É quase certa uma segunda volta e a nossa convicção é que o João estará lá. Obviamente, não será o caminho mais fácil do mundo, porque ao contrário de outros candidatos, não temos grupos de comunicação social por trás e por isso é um caminho das pedras que demora mais.
Que candidatos têm?
Quem é que tem grupos de comunicação social por trás?
Inúmeros candidatos. Temos o empresário Mário Ferreira a apoiar o almirante Gouveia e Melo. Podemos deixar cair o almirante, como o Bruno disse. Temos o Dr. Marques Mendes com bastantes ligações ao grupo Imprensa. Sobram poucas televisões, não tenho problema nenhum em dizer isso aqui. De qualquer forma, o trabalho será mais longo, será mais direto nas redes sociais, na rua, etc. Mas o que eu vejo é que efetivamente, desde agosto, quando apareceu a primeira sondagem, o João tinha 6%, agora em duas praticamente já tem 10%. Na próxima, se subir e começar a ficar mais perto dos candidatos que hoje estão à frente nas sondagens, tem uma real chance. E aí eu até dezembro, se calhar ainda venho aqui fazer o desafio ao contrário e dizer a outros candidatos que se calhar esteja na hora de desistir.
Mas no caso de uma segunda volta e se António José Seguro conseguir passar essa segunda volta, ao centro-esquerda e ao centro-direita não restará outra hipótese, se passar com Ventura ou com Gouveia e Melo, não restará outra hipótese senão apoiar António José Seguro, Bernardo Blanco?
Estamos em outubro, eu apoio o João Cotrim Figueiredo, estou convicto que ele fará tudo para chegar à segunda volta. Não vou especular sobre cenários que não existem, nem apoiar outras pessoas, obviamente.
Bernardino.
Eu acho que a segunda volta será a segunda volta e é aliás um pouco inusitado e original que se esteja a fazer este debate tão intenso sobre quem é que cada um apoia a segunda volta, quando ainda não fizemos a primeira.
Mas quase que temos a certeza que vamos ter uma segunda volta, não é?
Sim, isso eu acho que é certo, não sabemos é com quem.
Exatamente.
Não sabemos é com quem. E portanto, vamos deixar o povo pronunciar-se. Ainda queria dizer isto sobre as questões de alguns dirigentes do Partido Socialista e gente próxima do PS, como o coronel Vasco Lourenço e agora Eurico Brilhante Dias, é que, como disse o António Filipe na declaração que há pouco passaram, uma candidatura não se pode afirmar só à boleia da desistência de outras. Não pode ser. E devo reconhecer que António José Seguro tem sido nisso mais inteligente que os seus apoiantes, porque não fez esse discurso, pelo menos até agora, e ainda bem que não fez. Portanto, nós se por acaso se equacionasse, coisa que não está em cima da mesa, nem vai estar, a desistência de António Filipe, a maioria das pessoas que iria votar no António Filipe iria pra abstenção. Portanto, isso não ajuda a uma estratégia pra derrotar a direita.
Numa segunda volta acha que essas-
Numa segunda volta não sei. Mas é que é completamente diferente.
Falando da segunda volta, esses votos de António Filipe iriam pra onde?
Os votos de António Filipe pra segunda volta eu espero que vão pra António Filipe, que eu penso que também tem hipótese de estar na segunda volta.
Ninguém vai tapar os olhos e votar.
Se isso não acontecer, na altura-
O PCP equaciona endossar.
O PCP não sei, o candidato António Filipe logo verá se vai fazer algum pronunciamento ou não, mas isso é completamente prematuro. E era muito importante que em vez de estarmos a discutir quem é que desiste ou pode desistir pra quem, quem é que beneficia mais com a desistência, discutíssemos o que é que cada um quer pra a Presidência da República, porque esse debate é que tem estado um bocadinho ausente.
Vamos a isso na segunda parte da nossa conversa. Queria ainda perguntar ao Bruno Nunes se o André Ventura quer mesmo vencer estas eleições.
Eu acho que isso é uma questão que não se coloca. Se o André não quisesse vencer as eleições, não se candidatava. Porque corre sérios riscos de ganhar.
Vencer pode ser um sarilho, é ou não?
Um sarilho por quê?
Pergunto-lhe.
Para quem quer ser primeiro-ministro, estar em Belém não é-
Quem quer ter um cargo executivo.
Ouça, nós podemos levantar diversas questões que, tal como foi aqui dito, podemos olhar de facto para aquilo que é o objetivo de cada um, ou podemos dizer questões como: será que o André Ventura não concordando com esta Constituição, está disposto a jurar sobre ela? Está disposto a jurar sobre ela, porque na própria Constituição prevê a hipótese de rever a Constituição. E portanto, o processo de revisão constitucional também não parte do Presidente da República e portanto existem outras questões e acho que temos criado aqui algumas entropias e tirado algumas areias para dentro do motor a tentar criar confusão. Obviamente, o André Ventura, ao sacrificar o seu desejo pessoal à política, tal como o André tem dito, não é a circunstância daquilo que nós queremos, é o que é. E portanto, neste momento, o que se coloca em cima da mesa é que André Ventura é candidato à Presidência da República, o partido está unido e discutiu o que tinha que discutir à porta fechada acerca deste assunto, teve o apoio de quem tinha que ter o apoio, não teve o apoio de quem achava que não era oportuno neste momento candidatar-se, mas o partido uniu-se imediatamente a seguir quando é apresentada a candidatura. E portanto, estamos completamente unidos.
Entre deve ou haver, o Chega e André Ventura concluíram que seria muito pior se não avançasse, é isso?
Não, repara, o espaço não podia ficar vazio, assim como, por exemplo, nós olhando pra algumas das candidaturas, João Cotrim de Figueiredo também tinha a grande ambição de ser deputado europeu, já se cansou de ser deputado europeu e, portanto, o João inclusive, até pra apimentarmos um pouquinho o debate, o João inclusive cansa-se muito rápido das coisas todas. O João cansou-se de ser líder do partido e saiu, depois cansou-se de ser deputado e saiu, agora cansou-se de ser deputado europeu. O João cansa-se muito e inclusive cansa-se às vezes de dizer que também ele teve apoio da imprensa, porque quando esteve ligado à TVI, durante muito tempo foi levado ao colo pelas candidaturas da Iniciativa Liberal. Aliás, a Iniciativa Liberal nasce com muito apoio da imprensa e também com uma página de seguidores que era inclusive do António Costa, que era da mesma agência de comunicação que depois mudou. Bom, e é apenas pra provocar um bocadinho o Bernardo. O Bernardo sabe que isto é verdade e que é factual. E portanto, a candidatura do André Ventura é assumida que queremos e que vem pra ganhar. Depois vamos pra questão de quem será o líder do partido e como é que ficará o partido, etc. Há seis meses atrás dizíamos que não existia nenhuma figura no partido além de André Ventura, que ninguém chegaria aos 20% para além de André Ventura, e foram diversos os candidatos nas eleições autárquicas que ficaram acima da fasquia dos 20%. E portanto, está assumido, é pra ganhar.
Bernardino Soares, olhando para aquilo que poderá António Filipe fazer como presidente, daria posse a um governo do Chega?
Eu acho que António Filipe, ele próprio já respondeu a essa pergunta. Tentaria por todas as maneiras, de acordo com o que a Constituição lhe atribui como poder, tem que olhar para os resultados eleitorais, mas não está vinculado a, como já aconteceu no passado recente, indigitar primeiro-ministro o líder do partido mais votado. Eu acho que o Chega não vai ser o partido mais votado, tenho essa expectativa, mas enfim, o Bruno se calhar tem outra ideia. Mas o que António Filipe julgo que faria, e ele próprio já o afirmou, era procurar outras soluções que impedissem a chegada do partido do Chega ao poder dentro do quadro da Constituição. E isso é perfeitamente possível.
Vamos voltar a esse ponto.
Eu também gostava que perguntassem aos apoiantes de André Ventura se também dariam posse a um governo onde estivesse o PCP.
Temos essa pergunta a seguir.
Vamos falar disso na segunda parte do evento. Ainda temos que dar réplica também ao Bernardo Blanco, àquilo que disse o Bruno Nunes.
Bernardo Blanco queria responder à intervenção que Bruno Nunes fez na primeira parte do debate?
Sim, queria responder a alguns dos ataques de Bruno Nunes. O primeiro a dizer, com a simpatia que eu tenho pelo Bruno, que percebo porque é que está tão entusiasmado com a candidatura de André Ventura a presidente da República, porque se André Ventura for eleito presidente, o Bruno finalmente pode candidatar-se à liderança do Chega, porque André Ventura já não poderia candidatar-se a primeiro-ministro sendo presidente. Uma segunda nota importante, Bruno, é que, ao contrário do que disse a IL, e já agora faço essa justiça também ao PCP, quando comparamos os rankings mensais que há de audiências, menções na imprensa, é constantemente sub-representado. Ao contrário do Chega, que teve a vantagem, também mérito de André Ventura, muitas vezes, falar de assuntos polêmicos, de ser completamente sobre-representado e já o partido tinha sete deputados e depois 12 deputados e era constantemente o segundo e o terceiro em termos de representação, figura política que mais aparecia, horas de televisão, às vezes à frente dos líderes da oposição, dos primeiros-ministros. Uma pessoa que na altura ainda só tinha 12 deputados. Depois um terceiro ponto que me parece importante, já agora fazendo uma clarificação, o João nunca saiu a meio de qualquer mandato público. O João era deputado e o governo caiu. O João concorreu a eurodeputado, já não era deputado. E por falar em concorrer a muitos cargos, eu acho que o Chega é o último partido que pode falar disso, porque o André Ventura foi candidato a presidente da Câmara de Loures pelo PSD, não foi pelo Chega. Depois foi candidato a primeiro-ministro, depois candidato a presidente da República, candidato a deputado municipal de Loures. Eu devo me estar a esquecer de alguma, não sei se das eleições de 2019 também foi eurodeputado.
De Moura.
Deputado municipal de Moura, mas depois também não foi lá.
Ó Bernardino, não vá por aí que você renunciou o cargo em Loures logo no primeiro dia e nem tomou posse.
É quantidade. Carlos, que o André Ventura já concorreu, obviamente que não é uma pessoa que possa falar disso. Eu acho que o André Ventura nem vai usar esse argumento nas eleições.
Já lá vamos.
E por fim, para terminar, falando um bocadinho das presidenciais, mas ainda dando uma última resposta também sobre a competição das candidaturas. Eu acho que os presidentes têm três tipos de funções. Há uma função constitucional, que eu acho que todos que tiverem boas equipes e bons assessores vão conseguir cumprir, de vetar, de analisar, de enviar para o Tribunal Constitucional, também das competências militares. Há depois outros dois tipos de funções. Funções de representação, não tem toda a representação externa, não tem, mas tem alguma diplomacia em que o presidente ajuda. E nesse aspecto, eu acho que pelo currículo de João Cotrim Figueiredo no setor privado, mas também no setor público, está claramente muito à frente da maioria dos candidatos. E eu acho, também o João estudou no Colégio Alemão, tem uma vantagem, mas não iria confundir hambúrguer com cidadão se tivesse a representação Portugal.
Já lá vamos.
E um terceiro ponto que tem a ver com inspiração e confiança, inspirar o país a ser mais do que é hoje, que tem potencial pra muito mais, mas também confiança. Mas eu acho que a maioria do país não consegue também confiar em André Ventura, e eu nunca me vou esquecer deste caso, que é o exemplo perfeito. Uma vez no Parlamento, em 24 horas, André Ventura vetou a mesma proposta do Novo Banco de três formas diferentes: contra, a favor, abstenção. Em 24 horas.
O senhor votaria suavemente, é isso?
Em 24 horas. E por isso eu acho que isto é um exemplo perfeito de como é um político que se adequa àquilo que as pessoas querem e não tem qualquer princípio, e a maioria do país não vai confiar nele. Vou só terminar dizendo, Bruno, acho que pode estar descansado, que o André ainda vai ser líder do Chega, não vai conseguir ser presidente da República, que a maioria ainda vai continuar a rejeitar.
Bernardo Blanco, vamos falar sobre o que faria o presidente Cotrim Figueiredo. Já há pouco, a fechar a primeira parte, o Bernardino Soares falou sobre o que faria António Filipe caso o Chega vencesse umas eleições legislativas e explicava que tentaria todas as soluções constitucionais para evitar que isso acontecesse. Foi o que compreendi das suas palavras.
Não que vencesse, isso é o povo que decide.
Claro. Cotrim Figueiredo daria posse a um governo do Chega?
Eu acho que qualquer presidente, eu não vou responder pelo João, mas qualquer presidente deve analisar os resultados. E há um vencedor, há um vencedor, há um vencedor. Sendo que nós sabemos que é preciso uma maioria parlamentar que não rejeite o programa do governo. Se essas condições estiverem cumpridas, eu acho que o presidente deve respeitar não só a vontade do povo, mas também a vontade, isso é importante dizer, do Parlamento. Se houver condições parlamentares que não rejeitem um programa de governo.
Aceitaria uma geringonça de esquerda?
Uma geringonça de esquerda, de direita, entre vários partidos.
Seria a geringonça do pânico.
Como acontece na maioria da Europa. Os partidos entendem-se, muitas vezes, partidos de espetros diferentes.
A geringonça do pânico, já lá vamos.
E já agora, André Ventura daria posse a uma geringonça de esquerda?
Obviamente, André Ventura respeita a Constituição. Deixe-me só dizer o seguinte, em relação a João Cotrim Figueiredo. João Cotrim Figueiredo, ao contrário do André Ventura, já teve alguns posicionamentos que eu ouvi no início do vosso partido dizer: "Não somos nem de esquerda nem de direita". Aliás, queriam se sentar no meio do Hemiciclo. Calma. Mas como estiveste a tentar focar na questão do André e sobre as histórias do André e do Burger Fest, etc. Vamos lá. Primeiro, sabes dentro do Parlamento, sabes tão bem como eu
Se quiseres ser honesto, sabes perfeitamente que o que vem escrito do gabinete do Presidente da República vem mesmo Burger Fest, ou Burger Fest neste caso. E portanto vinha mesmo a festa, o festival do hambúrguer. Mas não vale a pena bater nisso, o lapso foi assumido, tudo bem. Já o lapso que não é assumido é a própria Iniciativa Liberal que se queria sentar entre o PS e o PSD.
Isso não tem nada a ver com as presidenciais.
Calma, mas depois tem João Cotrim Figueiredo. Eu ouvi-te e agora vais ouvir até o final.
Sim, mas não tem nada a ver com as presidenciais.
Pode não gostar, mas vais ouvir. Inclusive a questão de ter dito: "Não sou nem de esquerda, nem de direita, diziam vocês que era um partido 3D", que eu não sabia o que isso era. Mas eu ouvi essa expressão. Inclusive depois no Polígrafo, João Cotrim de Figueiredo, e pode isto ser confirmado, dizia: "O André Ventura foi o único que disse que nós não éramos direita." Portanto, há uma confusão na sua cabeça, porque na realidade tu sabes que o João defende um posicionamento liberal, que não é bem o liberal progressista que hoje defendemos, mas não vamos maçar as pessoas lá em casa com este tema. Portanto, João Cotrim de Figueiredo é um candidato que vem a jogo com um objetivo claro, que é digno, que é segurar pelo menos alguns 5%, para tu quando fores presidente do partido, teres pelo menos alguns cacos que possas pegar, porque neste momento sabemos perfeitamente que a coisa não vai acontecer.
Vou tentar recentrar aqui o debate. Bruno Nunes, temos que concluir para ouvir o Bernardino Soares.
Mas é que eu fui atacado em relação à questão pessoal e à questão do André.
Então vamos lá fechar esse capítulo.
Quando queremos ripostar, percebemos que a questão nem sempre é possível.
Estamos a falar sobre presidenciais.
Mas eu também estou a falar de João Cotrim de Figueiredo, é candidato a presidenciais.
Esquerda, direita, não estás a falar nada das presidenciais.
Meus senhores, têm que ouvir Bernardino Soares e o Bruno Nunes vai-nos concluir.
Nós atualmente temos uma questão que deve ser centralizada, que é o poder diplomático e a garantia diplomática que o Presidente da República pode dar e não é o que aconteceu nestes últimos anos, que tivemos o Presidente da República que viajou mais do que aquele que mais tinha viajado, que era Mário Soares. Muitas das viagens não se conseguiram entender e nós neste momento temos uma falta de liderança na Europa que tem criado um problema e um processo sério à economia europeia. O Presidente da República, não governando, também tem aqui um papel decisivo. E nós estamos numa altura em que temos que decidir o que é que vamos fazer no futuro europeu e se temos uma proximidade mais ao eixo americano ou mais ao eixo chinês, ou se continuamos com algumas loucuras de não medidas protecionistas e continuamos a abrir ao mercado da Mercosul com o acordo da Mercosul sem qualquer proteção aos nossos produtores, aos nossos agricultores.
Deixa eu rapidamente perguntar quais seriam as viagens que André Ventura escolheria fazer.
Estritamente necessárias e não aquelas que é para ir dançar.
Mas para onde? Para onde? Para quem? Com quem?
Sempre que se justificar. Repara uma coisa, nós não podemos levar a pergunta assim tão simples. Sempre que se justificar por uma medida que seja diplomática, que seja de representação institucional. Eu não quero ver o Presidente da República e dispenso de ver qualquer presidente da República, seja ele quem for, a chegar a Luanda e a primeira coisa da manhã que faz é dar uma conferência de imprensa na praia em tronco nu. Nós temos que ter alguma noção institucional e Marcelo Rebelo de Sousa foi inclusive uma vergonha em alguns dos posicionamentos que teve, porque participou em tudo e mais alguma coisa. Algumas delas que foram um ataque claro à nossa história, como participações em algumas celebrações, quer em Angola, quer na Guiné, que era um ataque claro à forma como foi feita a independência e que Marcelo Rebelo de Sousa devia ter tido bom senso na representação de Portugal.
Deixe-me ir ao Bernardino Soares também para perceber até que ponto estas eleições presidenciais e a candidatura de António Filipe são importantes para o PCP, depois deste resultado autárquico que teve. Em Lisboa teve um bom resultado autárquico, no entanto perdeu algumas Câmaras nestas eleições. Também é uma forma de afirmação do PCP, ou não?
Não, as eleições presidenciais têm uma grande importância e não é por acaso que António Filipe apresentou a sua candidatura bem antes das eleições autárquicas e, portanto, o que se passou nas eleições autárquicas não condiciona as eleições presidenciais. Outros apresentaram só depois e estão ainda a apresentar, mas isso têm que explicar eles por que o fizeram só nessa altura. E outros até, que agora estão muito preocupados com a candidatura de António Filipe, só apoiaram o seu candidato já depois também das eleições autárquicas. Também devem explicar por que é que assim foi. Estava aqui a ouvir esta conversa interessante, sem dúvida, e a pensar que de facto o António Filipe aparece como uma pessoa confiável, uma pessoa que tem um percurso, que é conhecido de todos, transparente, toda a gente sabe o que ele é, não inventou agora uma nova posição, uma nova figura, que é uma pessoa que soube ao longo da sua vida política gerar consensos, que mostrou competência, sabedoria. E eu acho que é isso que tem que ser relevado e que tem, por exemplo, em áreas que são estratégicas para o Presidente da República, como é a ligação às Forças Armadas, é uma pessoa que tem há décadas uma ligação muito próxima com os assuntos militares e uma capacidade de diálogo com as Forças Armadas, que é muito importante num candidato presidencial. E portanto, ele candidata-se, como ele próprio tem dito, com um programa que é a Constituição da República, cumprir a Constituição. Em muitos casos, se estivesse a ser cumprida, de facto, tínhamos um país melhor, defender a nossa soberania, defender os direitos das pessoas, o desenvolvimento do país. E ele deve ser avaliado pelo que é, pelo que mostra ser e que não só.
Mas poderíamos ter em belém um presidente que, por exemplo, não morre de amor esplanada. Como é que o país iria viver nessa dicotomia?
Ele poderá também responder a essa questão, mas vou lhe dizer a minha percepção. O nosso país faz parte da NATO
A nossa Constituição defende a dissolução dos blocos político-militares e a NATO é o que existe neste momento. Mas é evidente, nós temos hoje uma ligação entre as nossas Forças Armadas e a Aliança Atlântica que não é uma coisa que se possa de repente cortar abruptamente.
É por isto que o Bernardo é secretário-geral do PCP.
O que eu acho que António Filipe faria? Defender que as nossas Forças Armadas tivessem um reforço da sua capacidade de acordo com as nossas prioridades, com a nossa soberania, e não com aquilo que nos mandam fazer da NATO. Isso é que é valorizar as nossas Forças Armadas, porque se nós vamos ter um reforço das Forças Armadas só naquilo que nos é subdelegado pela NATO, não estamos verdadeiramente a defender a nossa soberania. Eu acho que António Filipe está em excelentes condições para fazer isso. Portanto, eu diria assim, fazendo aqui uma espécie de trocadilho: se é o melhor candidato, então devemos ter a opção de votar no candidato melhor e não noutro qualquer.
Bruno Nunes, deixe-me perguntar-lhe em relação a André Ventura, lidaria bem com um governo de Luís Montenegro?
Eu acho que qualquer presidente da República está acima da vontade pessoal do próprio presidente da República, ou seja, tem que cumprir e fazer cumprir a Constituição. Por exemplo, eu não quis interromper o Bernardino Soares, mas utilizando uma expressão de um presidente de câmara que eu conhecia há uns anos atrás e que batia muito com ele, é preciso ter topete. Esta expressão era utilizada muito por Bernardino Soares quando era presidente da Câmara Municipal de-
Eu já agora ouvi essa expressão ao professor Freitas do Amaral na Assembleia da República.
Não, mas eu recordo-me do Bernardino.
Quando era ministro da Educação.
Não, eu sei, mas o Bernardino usava isto.
E foi dirigida mais lá para os vossos lados.
Certo, mas o Bernardino utilizava muito isto na Câmara Municipal. É uma expressão que eu acho que era adaptada. Por exemplo, uma pergunta que é interessante fazer a António Filipe.
Foi recuperada em boa hora.
Foi. Uma pergunta que era interessante fazer a António Filipe, apesar de eu achar que obviamente, quer a candidatura de António Filipe, quer a candidatura de João Cotrim de Figueiredo, são respeitáveis, mas não são candidaturas, no meu entendimento, que vão passar à segunda volta. É uma questão de sobrevivência do próprio partido. Uma pergunta que eu achava interessante para o PCP era: na Constituição diz claramente que os regimes totalitários são proibidos em Portugal. Ora, tendo a União Europeia, por exemplo, considerado o comunismo um regime totalitário, considerava que António Filipe poderia ter alguma medida em relação a isto, em relação ao Partido Comunista Português, ou a ideologia do Partido Comunista Português estaria disposta a mudar e a caminhar mais para o socialismo, como não tem feito nos últimos tempos e continua com uma postura que eu sei que muitas vezes nem sequer é a postura de Bernardino Soares. Não é qualquer atitude jocosa, eu acho que se o PCP tivesse conseguido eleger ou Bernardino Soares como secretário-geral, ou João Oliveira, ou João Ferreira, não estaria a passar a tormenta que tem neste momento. Mas depois aquelas alas ortodoxas dentro do partido têm o seu problema.
Os que não estão é que são sempre os melhores.
Claro, mas isso já todos sabemos.
Neste caso é capaz de ser verdade.
Pronto. Mas eu gostava de entender esse posicionamento. Mas para lhe dizer, respondendo à pergunta de uma forma indireta, André Ventura nunca disse outra posição contrária. Eu creio que da parte da esquerda já ouvimos Catarina Martins, já ouvimos os tais que defendem o 25 de Abril e liberdade, e que batem no peito, que depois se esqueceram do 25 de Novembro, mas que batem no peito com liberdade, que não aceitam que o povo possa ter tomado uma decisão e que a representatividade do povo pudesse dar uma maioria, imaginemos, ao Chega, ou uma maioria parlamentar de direita que obrigasse a entrada do Chega, porque a esquerda e a esquerda radical imediatamente voltaria àquele período do PREC, com a influência que eventualmente, ó Bernardino, eu vou lhe contar um segredo, vocês já não têm assim tanta influência junto dos militares. Isso era na altura do MFA e depois da Carvalhida.
Vejo que o Bruno Nunes está tão preocupado com António Filipe como o Henrique me adiantou.
Estou atorado. Gosto de bater consigo, tinha saudades de ver os dois juntos.
Ainda quero ouvir aqui o Bernardo Blanco. Bernardo Blanco, não seria mais eficaz uma concentração de candidaturas no centro-direita? Cotrim Figueiredo, Marques Mendes, Govêa Melo, vou incluí-lo.
Govêa Melo não é direita.
Esquerda ele não é.
Já ninguém o quer.
Fiz de propósito.
Liberal, sempre esteve apoiando o governo.
Olhando aqui para uma confiabilidade-
Já agora dá só uma nota rápida.
Vamos a isso.
Que eu ouvi e ficou-me aqui presa ainda. Eu acho que confiável não é bem a mesma coisa que previsível, no sentido em que nós sabemos o que é que António Filipe vai defender. Isso é previsível no sentido, sem ser negativo, eu sei o que é que vai defender. Isso não quer dizer que as pessoas confiem e apoiem essas posições. É algo muito diferente. E acho que efetivamente os resultados eleitorais têm mostrado isso.
Se António Filipe for eleito presidente da República, não vai ser o presidente do PCP, vai ser o presidente de todos os portugueses.
Eu, tendo em conta as posições de António Filipe, estou muito contente que ele não vá ser presidente.
E naturalmente não poderá, tal como se fosse João Cotrim Figueiredo.
Porque eu lembro-me, olha, Bernardo, eu ainda era deputado e eu lembro perfeitamente que estava a Ucrânia a ser invadida e António Filipe basicamente comparou a Zelenski a Mário Machado. Por isso eu estou certo que a maioria dos portugueses está muito contente que António Filipe não deva ser presidente.
Não é uma caricatura, foi dito.
É uma caricatura.
Mas deixe-me só por agora responder. Eu acho que o fim da pergunta ajuda. Primeiro, porque Govêa Melo, ainda há pouquíssimo tempo, eu vou dizer que o seu modelo para presidente era Mário Soares.
Exatamente.
Por isso logo aí acho que se autoexclui de candidato centro-direita ou da direita.
Mas diz que quer menos Estado
Pois, eu acho que eu também já percebi consoante onde deem a entrevista, as pessoas vão mudando um pouco. E por isso, efetivamente, a pergunta real é: havendo uma candidatura de Marques Mendes, por que é que João Cotrim Figueiredo concorre? E eu acho que concorre exatamente porque o candidato é Marques Mendes. Se fosse uma pessoa que efetivamente nós considerássemos que cumpra essas funções de representação e de inspiração do país.
Diga um.
Exato. Da forma que o país precisa, mas não consideramos. E por isso, não considerando, haveria uma grande vaga de pessoas que não teriam em quem votar. Qual é a porcentagem de pessoas? Eu não sei se vão ser 12%, se vão ser 15, se vão ser 20, mas efetivamente, não sei.
Mas um candidato que podemos discutir se é de direita, se é de esquerda, o que é de centro, não seria um candidato próprio pra Iniciativa Liberal.
Gouveia e Melo?
Sim.
Eu acho que há muita resistência.
Aliás, no início Mariana Leitão chegou a falar no nome de Gouveia e Melo.
Mariana Leitão chegou a ser candidata.
Mariana Leitão não chegou a falar do nome de Gouveia e Melo.
Cotrim Figueiredo assumiu a escolha de ir a uma, estamos a ver.
Oiçam-me porque é pra clarificação. Das poucas pessoas que até disse que o partido deveria refletir se tinha uma candidatura ou não, se apoiava uma candidatura ou não, fui eu. Mariana Leitão disse desde o início que não queria apoiar alguém que tinha sido militar para o cargo de presidente da República, era uma posição de princípio.
Mas para tornar no Blanco, isso não lhe fazia diferença?
Não, o fato de ter sido militar não me fazia diferença nenhuma. O que eu considerei na altura foi que o partido tinha concorrido no passado a eleições presidenciais para aumentar a sua notoriedade e nesta fase, o partido já tem bastante notoriedade, as eleições presidenciais não vão impactar. Se o partido tem que fazer mudanças, certamente terá, mas eleições presidenciais não têm a ver com isso. Agora, estando o João Cotrim Figueiredo com a disponibilidade pessoal de se candidatar, a história é outra. E já agora dar aqui um contexto rápido. O João candidatou-se sem o partido. O partido apoiou o João numa fase posterior. O João em 48 horas arranjou as assinaturas todas sem precisar de nada do partido.
Eu creio que na altura vocês já tinham líder, não é?
Vou terminar. Sem precisar de nada do partido e hoje a candidatura já tem apoio de diferentes partidos, inclusive do PCP não tem, pelo menos que eu saiba, mas inclusive de ex-dirigentes do Chega.
Meus senhores, muito obrigado. Foi um belo fim de tarde aqui na Rádio Observador. Amanhã há mais, a caminho de Belém.