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Mais um episódio de Guerra Traduzida na Rádio Observador. Hoje é quarta-feira, 20 de julho, dia 147 da invasão. Vamos a mais uma análise de jornais, rádios e televisões ucranianos. Como sempre, conosco está a Tânia Orlinik. Tânia, há cerca de três semanas, a Rússia retirou-se da Ilha da Serpente. Agora os militares ucranianos estão a limpar este território. O jornal TCN escreve um artigo com o que os militares ucranianos têm encontrado por lá. De que objetos estamos a falar?
A Diretoria Principal de Investigação do Ministério da Defesa da Ucrânia publica no Telegram que durante a operação foram feitas pesquisas e reconhecimento do território e fortificações subterrâneas na Ilha da Serpente. Foram também realizados trabalhos de desminagem. Durante o trabalho, foram encontradas e apreendidas amostras de armas e equipamento do inimigo, em particular sistemas de orientação e controle, lançadores de granadas, lança-chamas, armas pequenas, registros de combate, documentos pessoais dos militares russos, aparelhos eletrônicos, entre outras coisas. O ministério acrescenta que uma bandeira ucraniana foi erguida na ilha em vez do tricolor racista e, além disso, um gato ucraniano que viveu vários meses na ocupação foi encontrado e evacuado para o território controlado.
A Rússia, na altura, há cerca de três semanas, afirmou que esta retirada foi um gesto de boa vontade. No entanto, a Ucrânia fala numa operação notável, a Ucrânia que recuperou agora este território, a Ilha da Serpente. Tânia, falamos agora de um assunto que já abordamos várias vezes aqui na Guerra Traduzida, em episódios anteriores, recentemente. Falamos do ataque a Vinnytsia. Já falamos sobre uma entrevista polêmica que um canal de televisão italiano fez à mãe que perdeu uma filha no bombardeamento. Agora a mãe anuncia que não vai processar o tradutor que publicou esta entrevista.
A mãe da Lisa, de quatro anos, que morreu em Vinnytsia, Irina Dmitrieva, não vai processar Anton Khodinov após ele, juntamente com a equipe de filmagem do canal italiano, ter registrado a reação da mulher à notícia da morte da filha e ter publicado o vídeo no Facebook. Os familiares da vítima anunciaram imediatamente que processariam Khodinov, mas Irina pediu para não fazê-lo. Isto foi relatado pela esposa do irmão de Irina, Victoria Dmitrichina, ao que ela disse, e passo a citar: "Irina pediu à nossa família que não interferisse, não resolvesse as coisas, em geral, deixasse essa mãe em paz. Ela não quer essas confusões e nós entendemos e aceitamos isso". Portanto, a pedido de Irina, a família não começará uma ação judicial.
Ao que parece, este caso ficará por aqui. Vamos continuar a acompanhar aqui na Guerra Traduzida da Rádio Observador, caso se justifique. E com quase seis meses de guerra, a criminalidade está a aumentar na Ucrânia, Tânia.
O TCN diz que existem menos roubos, mas as armas são utilizadas com mais frequência. Os polícias afirmam que o nível de criminalidade na Ucrânia é menor do que era antes da guerra, mas nos últimos meses começou a crescer. E não se trata apenas das ações dos ocupantes, mas dos próprios cidadãos ucranianos que desrespeitam as leis. Além de crimes de guerra cometidos pelos russos, centenas de milhares de ucranianos fazem ataques armados, roubam ajuda humanitária e tentam lucrar com a guerra. O início da invasão em grande escala surpreendeu por uma queda acentuada nos crimes habituais, em algumas regiões em 50%, 70%, sendo que havia razões suficientes para isso, pois os próprios criminosos sentiram perigo e cuidaram de si mesmos ou das suas famílias, pelo que afirmam os psicólogos. Por exemplo, desde o início da guerra, o número de acidentes rodoviários diminuiu quase três vezes. Os polícias dizem que a guerra afeta diretamente a presença de armas não declaradas nas mãos das pessoas e atualmente, apenas de acordo com estimativas aproximadas, quase 10 mil pessoas têm posse de arma.
E o que a polícia diz mais sobre este caso, sobre estes dados da criminalidade?
A porta-voz da imprensa da Polícia Nacional, Maryna Reva, diz que prevemos que esse número de crimes aumente, mas estamos a preparar-nos para isso. Estamos a trabalhar em métodos de controle e detecção de tais violações para manter a situação sob controle. Por sua vez, os psicólogos sociais dizem que a situação ucraniana não é nova. Em quase todos os países, durante as hostilidades, houve um declínio na criminalidade no início, que foi substituído por um forte aumento depois do término da guerra. Guerra, trauma psicológico e a pobreza, tudo isso afeta as ações das pessoas, portanto, o Estado não deve ficar alheio ao problema. No entanto, os agentes dizem que as pessoas começaram a entrar em contato com a polícia com mais frequência e estão a denunciar ativamente os crimes e o mais importante, em muitos casos, eles até ajudam a evitá-los.
Falamos agora de um prêmio que o povo ucraniano recebeu pela luta contra a agressão russa. Que prêmio é este?
O Memorial às Vítimas do Comunismo em Washington concede anualmente um prêmio relativo aos direitos humanos, sendo que Olena Zelenska informou que todos os ucranianos irão recebê-lo em 2022. Este ano, pela primeira vez, o prêmio foi concedido não a um indivíduo específico, mas a todo o povo da Ucrânia pela sua luta corajosa pela liberdade e contra a guerra agressiva da Rússia, disse ela. A primeira-dama explicou que desde 2015 este prêmio é atribuído a ativistas e separatistas pela sua coragem e luta contra a opressão do comunismo e àqueles que defendem os direitos humanos e a liberdade com as suas atividades. Zelenska diz que embora o memorial seja dedicado às vítimas dos crimes do comunismo, é importante notar que o comunismo é apenas uma das fases do totalitarismo. O sistema que está a atacar pode ser nomeado do que for, mas podemos reconhecer facilmente o totalitarismo pelas suas principais características: agressão, violência, desvalorização completa da vida humana.
E agora damos destaque aqui a uma história um pouco mais insólita, Tânia. Parece que uma mulher russa entregou o marido ucraniano à polícia. Que história é esta? É uma história que está em destaque no jornal Pravda.
A página do site russo Baza relata que, de acordo com a mulher russa, quando o seu marido Maxim ouviu falar sobre a guerra, ele amaldiçoa a Rússia, os seus cidadãos e os familiares da sua esposa. A mulher ainda disse que o homem ucraniano também a espancou. Em abril, Maxim tinha mandado fora o seu passaporte russo e foi para a Europa com um ucraniano. Mais tarde, a russa Natalya descobriu que o irmão do seu marido estava a lutar nas Forças Armadas da Ucrânia e Maxim estava a ajudar o exército ucraniano como voluntário. Baza publica screenshots das conversas entre Maxim e Natalya e nas mensagens o Maxim diz: "Tenho uma enorme vontade de ir ajudar os meus compatriotas e expulsar toda a maldade da nossa terra". Ao que a mulher responde: "A terra é comum". E Maxim afirma: "A tua querida e magnífica cidade de origem não quer perceber, nem vai perceber". Nos outros screenshots, Maxim troca mensagens com a esposa sobre o aumento dos preços dos produtos da Rússia, de como está a sua família na Ucrânia e a necessidade de comprar um colete à prova de balas para o irmão. Isso irritou a mulher, então ela decidiu divorciar-se do marido e apresentou uma queixa contra ele na polícia.
Vamos ver como é que termina este caso, uma história insólita aqui em destaque no jornal Pravda. Por último, Tânia, os ucranianos continuam a ajudar as Forças Armadas do país de todas as formas que encontram, todas as formas possíveis. Desta vez, um triatlo em apoio às Forças Armadas. Um atleta de Kharkiv, uma das cidades mais afetadas pela guerra, percorreu 230 km para angariar fundos para ajudar os militares ucranianos.
O triatleta de Kharkiv, Vadym Kovalenko, participou numa das mais prestigiadas competições internacionais, mas hoje em dia a sua participação no triatlo tem um objetivo solidário e não desportivo. Após um bombardeio de Kharkiv, Vadym levou a sua esposa e filhos para a região de Sumy e foi aí que ele começou a treinar duro e anunciou o seu objetivo de caridade nas mídias sociais. Na linha de chegada, após nove horas de maratona muito difícil, Vadym é recebido pelos seus familiares mais próximos. Aos aplausos dos familiares são contabilizados os fundos arrecadados. Durante a transmissão, as pessoas transferiram 215 mil hryvnia, que são cerca de 8 mil € e mesmo depois disso os fundos continuaram a chegar e agora já são cerca de 10 mil €, os quais Vadym sabe onde gastar, porque ele tem uma lista completa daquilo que é necessário para os combatentes de Kharkiv. Na linha de chegada, Kovalenko disse: "Muito obrigado a todos, obrigada pelo apoio, pelas republicações, pelas visualizações, todos vocês são ótimos, tudo ficará bem, Ucrânia". Foi o terceiro Ironman completo de Vadym e, como ele disse, o mais importante, pois foi uma possibilidade de apoiar o exército ucraniano, o qual ele acredita que irá conseguir limpar por completo a Ucrânia dos russos e ele a sua família e poderão regressar finalmente à sua terra natal, Kharkiv.
É com esta história, esta iniciativa solidária, um triatlo para ajudar as Forças Armadas da Ucrânia que fechamos este "Guerra Traduzida", como sempre com a ajuda da Tânia Olinyk. Tânia, obrigado e até amanhã.