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Guerra traduzida na Rádio Observador. Hoje é dia 24 de maio, terça-feira. Passam três meses desde o início da guerra na Ucrânia, desde o início da invasão russa a território ucraniano. Hoje vamos olhar pra imprensa russa com a ajuda da Larissa Tovmasian. Larissa, bem-vinda.
Olá!
Começamos a olhar para essa notícia que surgiu ainda ontem, a renúncia de um dos diplomatas russos na ONU. Vamos olhar pra aquilo que diz hoje a imprensa estatal e a imprensa independente, porque aqui foram feitas algumas declarações fortes por parte desse diplomata. Vamos perceber o que é que sai depois pra imprensa russa. Vamos começar pela imprensa independente, onde é publicado quase na íntegra tudo o que ele disse.
Meduza. O conselheiro russo da ONU em Genebra, Boris Bondarev, decidiu abandonar o seu cargo em protesto contra a invasão russa na Ucrânia. Bondarev, que trabalhou como diplomata durante cerca de 20 anos, explicou a sua decisão numa carta aos seus colegas e nessa carta, Bondarev, em particular, escreve que durante o seu trabalho viu diferentes reviravoltas na política externa russa, mas nunca teve tanta vergonha do seu país como a 24 de fevereiro, quando as tropas russas invadiram a Ucrânia. Diz ele que a guerra agressiva desencadeada por Putin contra a Ucrânia e contra todo o mundo ocidental, não é apenas um crime contra o povo ucraniano, mas também, provavelmente, um crime mais grave contra o povo da Rússia. Diz ele ainda, e enfatiza, que esta letra Z, a famosa letra Z neste momento, em negrito, extingue todas as esperanças e perspectivas de criar uma sociedade próspera. Bondarev já conseguiu dar uma entrevista a vários meios de comunicação, aos quais, em particular, disse que sentia nojo ao representar a Rússia no exterior depois desta atitude de Putin.
Sim. Entretanto, vamos olhar para a imprensa estatal. Pegamos aqui num artigo do Kommersant, onde há muito menos detalhes, principalmente sobre estas declarações dadas por este diplomata.
Sim, praticamente não há grande novidade, simplesmente o Kommersant constata este facto de ele ter renunciado o cargo. No entanto, o Kommersant também decide publicar a reação. E temos a reação de Peskov.
O porta-voz do Kremlin.
O porta-voz de Kremlin. E ele diz que o próprio Bondarev condena as ações da liderança russa, como diz o Dmitri Peskov e significa que este diplomata opõe-se a toda a Rússia. Peskov afirma que as ações das autoridades russas são apoiadas por quase toda a população. E diz ele ainda que aqui provavelmente só podemos dizer que Bondarev não está conosco, mas sim contra nós. Ele condena as ações da liderança russa e as ações da liderança russa são apoiadas por quase toda a população do nosso país. Isso quer dizer que ele opõe-se à opinião geral do nosso país.
Reação de Peskov, neste caso, o porta-voz do Kremlin. Seguimos para uma declaração de Medvedev, antigo presidente, um dos homens fortes de Vladimir Putin, é agora vice-presidente do Conselho de Segurança da Federação Russa. Dmitri Medvedev quis olhar pra região de Donbass para dizer que essa região nunca vai voltar a ser da Ucrânia.
Uma afirmação muito radical avançada por Medvedev. Segundo ele, as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk decidiram finalmente o seu futuro e não voltarão a pertencer à Ucrânia. Diz que é inaceitável para todos que se lembram do destino dos acordos de Minsk e do assassinato de civis de Donetsk e Lugansk, escreveu Medvedev no seu Telegram. Lembrar apenas que a Rússia recebeu uma proposta da Itália para uma solução pacífica na Ucrânia. Em particular, foi proposto assinar um acordo entre a Rússia e a Ucrânia sobre questões territoriais e assinatura também de um novo acordo multilateral sobre a segurança na Europa.
Entretanto, temos também hoje um artigo já um pouco lateral, mas ainda relacionado com a guerra. Desde o início do conflito, a procura por casas de penhores na Rússia disparou.
E após esse início da operação russa na Ucrânia, 24 de fevereiro, no contexto de aumentos acentuados na taxa de câmbio de ouro e aumento dos preços nas lojas, as casas de penhores realmente registraram um aumento na procura pelos seus serviços. Isto é relatado por várias redes de casas de penhores.
Um aumento, principalmente, por causa dessa flutuação dos mercados e muito relacionado, claro, com esta questão do ouro também. Portanto, muitas pessoas a tentarem fazer negócio e a terem algum proveito nestas casas de penhores. Aumentou a procura, diz a imprensa russa neste dia 24 de maio. Vamos, entretanto, seguir pela imprensa independente. Temos hoje dois artigos muito interessantes. Começamos por um que refere que as mães dos soldados do Moskva, o famoso navio de guerra que afundou neste conflito com a Ucrânia, foram recomendadas a assumir a morte dos filhos.
Já falamos aqui sobre a mãe de um dos militares que estava no navio Moskva e que desapareceu. No entanto, são várias as mães que ainda não perderam a esperança e querem encontrar os seus filhos. Só que agora essas mães recebem cartas onde lhes é proposto reconhecer voluntariamente a morte dos seus filhos como resultado de um desastre A Novaia Gazeta da Europa falou com uma das mães que recebeu essa carta onde se diz: "Lamentamos notificá-la de que o seu filho desapareceu como resultado do desastre". E este aviso foi seguido por uma declaração já elaborada, escrita em nome da mãe do soldado, que afirmava que ela reconhece que o corpo do seu filho não foi encontrado devido ao fato de que houve um desastre. A mãe do militar diz que não assinava a declaração, mas insistiram-lhe, ligaram-lhe e diziam que já houve várias famílias que assinaram a declaração para ela assinar também para não atrasar o processo no tribunal. E a mãe do soldado diz ainda: "Nem me perguntaram se eu estava pronta para assinar essa declaração, se eu reconheceria, de facto, voluntariamente, que o meu filho tinha morrido".
Declarações de mães dos soldados do Moskva, esse navio que afundou durante este conflito. Declarações à Meduza, jornal independente. Ainda nesta publicação, na Meduza, hoje um vasto artigo que faz referência àquilo que é o ambiente no Kremlin. Diz esta publicação que no Kremlin há neste momento poucas pessoas a alinhar com Vladimir Putin, ou seja, que há descontentes dentro do Kremlin quanto àquilo que tem sido o posicionamento do presidente russo e também até que, de certa forma, se está a preparar uma sucessão.
Já passaram três meses desde o início da invasão russa na Ucrânia e ao longo desse tempo, muitos representantes da elite russa foram mudando a sua opinião. Isto em relação à guerra e à situação no país, na Rússia. O pessimismo extremo foi substituído pelo otimismo moderado e, por sua vez, este foi substituído pelo mesmo pessimismo, mas também moderado. De acordo com uma fonte da Meduza próxima ao Kremlin, há um clima de desconfiança a circular e agora dizem que há muitas pessoas que estão insatisfeitas pessoalmente com Vladimir Putin. Além disso, essa posição é mantida tanto por aqueles que defendem a continuação da guerra como por aquelas pessoas que querem a paz. Durante os três meses desta tragédia, o clima geral das elites russas conseguiu mudar completamente várias vezes, como já vimos. No início de março, Meduza tinha escrito que a maioria dos funcionários do Kremlin e do governo simplesmente não sabia o que fazer. Em abril, muitos pediram publicamente que a guerra continuasse e que devíamos continuar até ao fim da vitória. E agora, três meses depois do início da invasão, o pessimismo prevalece novamente quando se avalia aquilo que está a acontecer.
Sim, temos de facto diferentes posicionamentos perante aquilo que é o comportamento do Vladimir Putin, mas aqui a Meduza a apontar que já há um grande descontentamento no Kremlin quanto à atuação do presidente neste conflito. Terminamos assim a Guerra Traduzida de hoje, com olhar para a imprensa da Rússia, com a ajuda da Larisa Tovmasian.