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Esta é a história do dia da Rádio Observador: 36 horas nas urgências do Amadora-Sintra.
Antes de ir à internet e antes de ir às urgências, antes de madrugar e antes do trânsito, antes da triagem e da senha de vez, antes de dizer 33.
Esta história começa exatamente como diz no anúncio da linha SNS 24.
Antes de mais nada, ligue 808 24 24 24.
Uma chamada antes das urgências. A história começa aí e começa logo mal e depois é sempre a piorar. O que vai ouvir hoje é um episódio extremo de um homem que entrou no sábado à tarde no Hospital Fernando Fonseca, com sintomas que podiam ser de AVC, e só saiu de lá na alta madrugada de segunda-feira. O que se passou nestas 36 horas é um compêndio de tudo o que corre mal no SNS. E eu vou falar sobre isso com o jornalista que trabalha a área da saúde no Observador, o Tiago Caeiro. Vamos acompanhar hora a hora aquilo que foi acontecendo com este homem e perceber por que é que no Amadora-Sintra as coisas são ainda piores que noutros hospitais públicos. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de segunda-feira, 7 de setembro. Olá, Tiago, bem-vindo.
Olá, Pedro.
Vamos fazer aqui uma viagem até este dia, que é de certa forma a porta de entrada naquilo que se está a passar hoje em dia no Serviço Nacional de Saúde, especificamente neste hospital, que é o Hospital Fernando Fonseca, antigo Hospital Amadora-Sintra, ou conhecido como Hospital Amadora-Sintra. Nós temos um senhor que se sente mal. Quem é ele, que idade tem, o que é que lhe está a acontecer?
Este caso que contamos é, diria eu, um caso extremo, embora nós não saibamos bem quantos casos extremos existem na urgência do Hospital Amadora-Sintra todos os dias. Estamos a falar de um homem de 70 anos que se sentiu mal em casa, em Massamá, no dia 29 de agosto, foi um sábado. Este homem tinha um quadro de falta de força numa das pernas, tinha tonturas, não conseguia se sustentar em pé, tinha também vômitos, sinais que poderiam indicar que podia estar a ter um AVC. A mulher, Maria do Céu, com quem falamos, ligou para a linha SNS 24.
E como é que isso correu?
Começou logo a correr mal neste momento, porque ficou 40 minutos à espera.
Só para que lhe atendessem o telefone.
Só para que atendessem a chamada na linha SNS 24. Ela depois descreveu os sintomas, e a chamada foi transferida para o INEM, o que indicava logo que seria uma situação de maior gravidade. O INEM acionou depois os bombeiros de Queluz, que transportaram este homem para o Hospital Amadora-Sintra.
Depois dessa espera toda, depois desses sintomas, ele entra no Hospital Amadora-Sintra via INEM, com um quadro que podia ser um quadro de AVC. E o que acontece quando ele chega ao hospital?
Exatamente. Este senhor, a que chamamos João, protegendo o nome real dele, entrou na urgência do hospital às 15h05 de sábado. Foi à triagem, foi-lhe atribuída uma pulseira amarela.
Pulseira amarela que, na triagem de Manchester, que é aquela que é seguida pelo Serviço Nacional de Saúde, significa que um doente, quando lhe é atribuída essa pulseira, deve ser atendido em quanto tempo?
No máximo numa hora.
Numa hora.
Embora este tempo nunca seja cumprido, diria que praticamente em nenhum hospital do SNS. O senhor chegou à urgência, depois fez um eletrocardiograma e aguardou para ser chamado por um médico, como todos fazemos quando vamos a uma urgência.
Claro!
Mas, neste caso, essa espera durou muito tempo.
Estamos a falar de quanto tempo?
Estamos a falar de 23 horas, quase 23 horas foi o tempo que este senhor esteve à espera de ser visto por um médico.
O senhor com a pulseira amarela, que indica que deve ser visto nos próximos 60 minutos. Quando ele entra com o quadro de AVC, e eu sei por experiência própria, não por tenho tido um AVC, felizmente, mas porque já me aconteceu entrar no hospital com sintomas que poderiam indicar uma situação dessas, há logo procedimentos que são tidos em conta para se despistar a possibilidade de haver um AVC, porque há aquilo que se chama a via verde do AVC para o doente ter atendimento prioritário.
Que neste caso não foi ativada, porque nós percebemos depois junto do INEM que essa via verde não foi ativada porque houve o entendimento de que os sintomas não seriam compatíveis com AVC, o que depois até se veio a confirmar, porque este senhor não sofreu um AVC. Mas nessa altura, quando o senhor entra na urgência, o portal do SNS dava a indicação de que o tempo de espera seria alguma coisa próximo das sete horas. E se tudo corresse dentro do esperado, o senhor e a mulher estariam fora do hospital nessa noite ainda, noite de sábado.
Porque entraram às 15h, portanto, vá, 22h, 23h.
Exatamente.
No limite, estaria fora do hospital.
Mas não foi assim, nem de perto nem de longe. E a noite de sábado para domingo foi passada à espera. Segundo o relato que a mulher deste senhor nos fez, quase ninguém foi chamado durante a noite. As pessoas que lá estavam no sábado, à espera, continuavam lá à espera, as mesmas pessoas, no domingo de manhã.
Portanto, a fila não andava.
Não andava. E este senhor esperou numa cadeira de rodas e a senhora, a mulher dele, numa cadeira ao lado. O João só foi chamado às 13h44 de domingo
Portanto, quase 24 horas depois de terem dado entrada no hospital.
Quase 23 horas, neste caso, sim, depois de ter dado entrada na urgência. O médico que o viu pediu uma TAC, pediu um raio-X, pediu também análises. Depois o processo foi relativamente rápido. Este senhor foi chamado por um médico de neurologia, que estava a dar apoio à urgência, que lhe explicou que não tinha tido um AVC e que as análises indicavam, por outro lado, a possibilidade de uma infecção, mas que a equipa médica não tinha ainda um diagnóstico final para lhe dar. O João e a mulher voltaram para a sala de espera e esperaram.
À espera de serem chamados-
Exato
...por outro médico.
Pelo médico que o tinha visto inicialmente.
Que os tinha reencaminhado para outro serviço.
Exato.
E então, o que aconteceu nessa altura?
Para lhes ser dado depois o diagnóstico final. O que aconteceu foi que voltaram a esperar muito tempo. Esperaram várias horas, até à madrugada de segunda-feira. E foi já aí, por volta das 2h30 da manhã, que a mulher deste senhor decidiu ir ao gabinete onde estava o médico que o viu pela primeira vez, para perceber o que se passava.
E o que se passava?
O que se passou, neste caso, foi que o médico tinha esquecido de chamar esse senhor para lhe dar alta e para lhe dar o diagnóstico.
Nós sabemos o que aconteceu, já agora, qual foi o diagnóstico claro desse senhor? Ficou claro o que é que ele teve?
Ele teve uma infecção que não foi determinada a origem dessa infecção. Portanto, o diagnóstico foi esse. Foi para casa sem medicação, ao fim de 36 horas no hospital.
Isto é inacreditável, é um caso extremo, eu diria. No entanto, tu dirias, sendo que cobres habitualmente esta área, dirias que é um caso isolado. Não é um caso isolado. Há muitos casos parecidos, talvez não tantas horas, mas há muitos casos parecidos.
Infelizmente, não é um caso isolado. Aliás, nos picos de procura, que nós sabemos que incluem tanto o período de inverno, o pico da gripe, como também o período de verão, por razões diferentes, no verão, mais por falta de profissionais, no inverno, mais pela questão do aumento da afluência. A verdade é que estes casos não são isolados. É como dizes, talvez não se atinjam as 36 horas com muita frequência, mas há pessoas, e eu ainda esta semana vi esses dados, que ficam 24, 25 horas no serviço de urgência do Amadora-Sintra, e este hospital é claramente aquele que está mais pressionado.
É isso. É porque a ideia que dá, e os números confirmam, é que neste hospital as coisas são piores do que nos outros. Isto eu imagino que terá a ver também com problemas de gestão do hospital, de competência ou incompetência de quem gere estas coisas. Não tenho dados para aferir sobre isso, mas efetivamente, este hospital tem mais problemas do que os outros. Por que isso acontece?
Sim, é neste momento, claramente o que tem os tempos de espera mais elevados. Em média, para doentes urgentes com pulseira amarela, como era o caso deste senhor, há 12, 13 horas de espera pela frente. E, portanto, este tempo de espera chega a ser o dobro dos tempos de espera que se registam noutros hospitais da zona de Lisboa, que já é a pior zona do país no que diz respeito às urgências.
E por quê?
Há aqui duas explicações que creio que são importantes para responder a isso. Nós quando questionamos o Hospital Amadora-Sintra, a resposta que nos foi dada para estes elevados tempos de espera, foi a questão da elevada afluência à urgência. E de facto, isso é verdade.
Há muita gente a ir às urgências naquele hospital.
Exatamente. Sobretudo depois deste período de férias, a partir do final de agosto, o hospital tem sentido esse aumento da procura pela urgência geral. E estamos a falar, neste momento, de uma urgência que recebe 300 pessoas ou mais todos os dias. E, portanto, há sempre 80, 100 doentes em permanência naquela urgência.
Por que há tanta gente a recorrer às urgências deste hospital?
Bem, porque isso tem a ver com a falta de médicos de família que temos naquela região.
Portanto, a urgência é uma espécie de porta de entrada.
Exatamente. Para teres uma ideia, cerca de um terço da população que é abrangida por esta ULS, por esta Unidade Local de Saúde de Amadora-Sintra, não tem médico de família. Estamos a falar de 200 mil pessoas. E portanto, essas pessoas veem na urgência a porta de entrada, a única que têm para o SNS. E portanto, não tendo médico de família, acabam por ir à urgência, porque sabem que esperando mais ou menos, vão sair de lá com um diagnóstico, pelo menos.
Estamos a falar de uma zona, para quem não tem essa referência, é uma zona com muita população.
Muita população, sim, com uma densidade populacional muito grande. E depois, isso acaba por pressionar também bastante este hospital, que está subdimensionado, ou seja, que não foi construído para dar resposta a uma população desta dimensão. Exato. Foi construído para dar resposta a 300 mil pessoas e serve 600 mil.
Tu falavas há pouco de durante a madrugada a fila não anda. Por que a fila não anda durante a madrugada? Eu imagino que seja porque não há-
Essa foi uma questão a que nós não conseguimos obter uma resposta ainda. Portanto, não te sei dizer. É normal que durante a madrugada, durante a noite, as urgências tenham menos médicos, mas também não é normal que ninguém seja chamado durante esse período, até porque isso depois vai comprometer a resposta e as equipas que entram no dia seguinte.
Uma das questões que é falada sempre quando falamos destes problemas do SNS é a falta de médicos. Isso imagino que também se verifique no Amadora-Sintra.
Sim, essa é a outra parte da explicação para estes elevados tempos de espera. A falta de profissionais, a falta de médicos. Nós no ano passado tivemos notícia da saída de 11 médicos desta urgência, da equipa fixa de urgência. Não é muito comum, mas este hospital tem uma equipa que só trabalha na urgência, de médicos internistas Saíram 11 desde o verão do ano passado, ao longo do segundo semestre do ano passado, e desde aí que a situação se tem vindo a agravar. E já este ano, na primavera, o diretor de serviço demitiu-se, também em protesto contra a falta de condições no serviço. E, portanto, cria-se aqui uma instabilidade muito grande. Para teres ideia, nos últimos dois anos e pouco, este hospital já teve três conselhos de administração diferentes. O que também não ajuda a criar estratégias e a definir planos para resolver este problema.
Pelo menos de médio prazo para olhar para isto. Só que tu falavas da dimensão deste hospital, que está subdimensionado para o acréscimo de população que passou a ter de servir, mas foi entretanto inaugurado um hospital, o Hospital de Sintra, que supostamente viria aliviar o Amadora-Sintra, o Fernando Fonseca.
Exatamente.
Mas não está a acontecer.
Não está a acontecer. Estamos a falar do Hospital de Sintra, que foi inaugurado no verão do ano passado, em Algueirão-Mem Martins, e que de facto foi construído também com essa promessa de aliviar a urgência sobrelotada do Amadora-Sintra. E portanto, a expectativa que havia, até por parte do anterior conselho de administração, era que parte da afluência do Amadora-Sintra fosse desviada para ali, sobretudo os casos menos graves, aqueles que podem ser tratados num hospital menos diferenciado.
E então o que está a acontecer?
Na altura, o que aconteceu foi que o conselho de administração decidiu abrir o Hospital de Sintra, e nós acompanhámos esse processo também ao pormenor, sem os profissionais necessários para o abrir. E portanto, tomando essa decisão, a solução que encontraram foi transferir médicos e enfermeiros da urgência do Amadora-Sintra para a urgência do Hospital de Sintra.
Urgência essa que já estava caótica e que, presume-se, ficou ainda mais difícil depois disso.
Exato. Aliás, essa transferência de profissionais foi uma das razões que levou alguns médicos a decidirem sair, porque não queriam andar a deslocar-se entre os dois hospitais, que parecendo que não, ainda distam cerca de 20 km ou mais. E portanto, o Hospital de Sintra nasceu com essa promessa de desviar parte da afluência do Hospital Amadora-Sintra, mas isso não está a acontecer, até porque nós sabemos que no primeiro ano de funcionamento, só foram feitas, nesse novo hospital, 36 mil urgências, quando a capacidade instalada é de 60 mil, ou seja, está claramente subaproveitado. As pessoas não vão a essa urgência.
O que temos é um hospital sobrelotado e outro com lotação a mais para a procura que tem, o que é mais um sintoma de como as coisas andam pelo SNS.
Exatamente.
Tiago, obrigado.
Obrigado, Pedro.
Eu conversei hoje com o Tiago Caeiro, jornalista do Observador, que cobre política de saúde, sobre as 36 horas de caos na vida de um doente nas urgências do Hospital Amadora-Sintra. O diretor do SNS, Fernando Almeida, já se referiu a este e a outros casos que envolvem este hospital em particular, e as palavras que disse não são muito animadoras. Ele explicou que os problemas deste hospital são estruturais. Há muitas formas de os resolver, mas nenhuma delas no curto prazo. Esta foi a história do dia. A sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.