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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A guerra na Ucrânia está a virar? "Друга нарада, фактично загальнодержавна, щодо фортифікації". O anúncio foi feito por Volodymyr Zelensky na semana passada, depois de uma reunião com os comandantes militares de algumas das zonas da linha da frente. A Ucrânia tem uma nova prioridade: construir e reforçar estruturas de defesa nos pontos mais problemáticos da guerra. "Куп'янськ, Лиман і вся Харківщина, і Сумщина, і Чернігівщина, і Київська". Depois de meses de contraofensiva com resultados pouco animadores, foi o primeiro sinal claro de que o tempo, agora, pode ser de uma maior aposta na defesa. E isto numa altura em que a Ucrânia pode estar a enfrentar outras dificuldades. A guerra na Faixa de Gaza está a dividir a atenção dos aliados. O dinheiro dos Estados Unidos pode estar a acabar. O consenso interno à volta de Zelensky começa a perder força e a Rússia pode resistir melhor a uma guerra longa. Vou conversar com Liliana Reis, investigadora e diretora do curso de Relações Internacionais da Universidade Lusófona. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia, quinta-feira, 07 de dezembro. Bem-vinda, professora Liliana Reis.
Muito obrigada.
Podemos dizer que, nesta altura, a Ucrânia está mais a pensar na defesa do que no ataque?
Seguramente. Os russos lançaram medidas ofensivas mais ativas nos últimos dias, especialmente no leste, e não é surpresa para a Ucrânia, até porque as dificuldades que têm vindo a revelar nos últimos tempos têm sido cada vez maiores. O vice-comandante das Forças Armadas da Ucrânia, Maxim Sorin, afirmou recentemente no Telegram que os ataques russos se têm concentrado agora nas frentes de Avdiivka e Bakhmut, na região de Donetsk, mas também na região de Kupyansk, na região de Kharkov. É necessário perceber o que é que, neste momento, está a ser planeado pelas Forças Armadas russas, mas não seria surpresa que viesse a ser agravada a ofensiva e que, porventura, viessem a ser recuperados territórios por parte da Rússia que a Ucrânia, com a sua contraofensiva, tinha conseguido recuperar e alguns até que tinha conseguido segurar. Mas neste momento, com a dificuldade na aprovação de uma maior ajuda. Nós vimos ontem que a aprovação do novo pacote de assistência militar dos Estados Unidos à Ucrânia, que a administração Biden tinha proposto, foi muito limitado.
Nós já vamos olhar para os problemas que a posição dos aliados podem colocar à Ucrânia. Vamos só voltar um pouco ao terreno e para percebermos se este momento que a guerra está a viver, com essa maior ofensiva do lado russo, acontece porque a contraofensiva ucraniana, sobre a qual havia uma grande expectativa, fracassou?
Ainda é prematuro avançarmos para a derrota, ou seja, apresentar como um fracasso a contraofensiva, desde já, é apontar para uma derrota militar da Ucrânia. E nesta fase, parece-me ainda bastante prematuro que o façamos. E por quê? Porque ao fazê-lo, empurraríamos necessariamente a Ucrânia para uma mesa de negociações para a cedência, pelo menos, das quatro províncias que foram anexadas, e falo Donetsk, Lugansk, Zaporizhzhia e Kherson, além da Crimeia, que estava anexada desde 2014. E não me parece que já tenhamos chegado a esse ponto. Agora, que não devem ser escamoteadas as dificuldades que neste momento se vivem do lado da Ucrânia, é um facto, até porque estamos, como eu disse, a falar daquilo que neste momento se vive e das dificuldades com as quais os militares ucranianos se defrontam permanentemente.
E no meio dessas dificuldades que se sentem no terreno, que papel é que desempenha a chegada do inverno? Nós ouvimos também sempre isto, que a chegada do inverno é um momento importante para a decisão da guerra.
O inverno compromete sempre a manobra militar do ponto de vista tático, compromete sempre a manobra militar para os dois lados, não apenas para o lado ucraniano. Agora, o domínio dos céus pela Rússia. Repare que nós ainda há pouquíssimo tempo discutíamos o fornecimento de F-16 e de caças para a Ucrânia e a formação de pilotos, que tem estado a acontecer. Naturalmente, com a chegada do inverno e com a manobra ao nível operacional e tático do teatro de operações comprometida, a superioridade russa é muito mais visível e, por isso, aquilo que nós podemos antecipar é que ataques a infraestruturas críticas, como aqueles que aconteceram também no ano passado, nomeadamente ao nível da rede elétrica e também infraestruturas energéticas, que preocuparão, naturalmente, a esta altura, Zelensky. Podem ser mais intensos ainda do que no ano passado.
Como é que em todo este contexto devemos interpretar a notícia desta quarta-feira de que os serviços secretos ucranianos reivindicaram o assassinato dos dois políticos pró-russos em território russo?
Essa notícia deve ser inserida também naquilo que é a guerra híbrida. Ou seja, a guerra híbrida não inclui apenas a manobra militar que nós há pouco falávamos. Zelensky, ao longo deste período, utilizou a comunicação a seu favor, mas aquilo que nós observamos, segundo aquilo que foi relatado, nomeadamente pela morte de Akiva Que foi encontrado com um ferimento na cabeça perto de Odintsovo. Aquilo que os serviços de segurança ucranianos vieram declarar à própria agência noticiosa France Presse, foi que se tratava de um funcionário local pró-russo e que todos ou possíveis aliados do Kremlin, e também Oleg Popov, que era um antigo deputado local, aquilo que lhes poderá acontecer, por essa aproximação ao Kremlin e de serem efetivamente funcionários locais eleitos, quer em Donetsk, quer em Lugansk, nas regiões ocupadas, é que as vidas correm perigo, porque neste momento talvez a forma mais fácil ou de um ponto de vista meramente utilitário, seja mais fácil através das forças especiais ucranianas identificar possíveis alvos que causem a nível daquilo que pode ser o compromisso com o Kremlin, baixas maiores do que efetivamente ganhos territoriais que estão muito mais difíceis de conquistar.
Já voltamos à conversa com a professora Liliana Reis, diretora do curso de Relações Internacionais da Universidade Lusófona. Vamos tentar perceber se os aliados da Ucrânia estão a ficar mais distantes e se internamente o lugar de Zelensky também pode estar em causa. Estamos de regresso à conversa com Liliana Reis, professora e investigadora em Relações Internacionais. Professora, este impasse aparente acontece numa altura em que se volta a falar muito da fadiga da guerra, mas agora especificamente uma fadiga nos decisores políticos dos países aliados, que sempre garantiram que nunca iam falhar à Ucrânia. A Casa Branca avisou esta semana que se o Congresso não desbloqueasse o novo pacote de ajuda, ficaria sem dinheiro para apoiar a Ucrânia, por exemplo. O dinheiro dos aliados pode estar a acabar?
Não é apenas o dinheiro, é o compromisso dos aliados e isso é que neste momento, provavelmente, se preocupará mais Zelensky. O pacote que foi aprovado foi de 175 milhões de dólares, muito aquém daquilo que tinha sido previsto e Biden veio dizer que a Ucrânia já não pode esperar mais e que o melhor presente de Natal que podia ser dado a Vladimir Putin seria efetivamente esta dificuldade na aprovação. Mas repare, neste momento, e não sei se se trata tanto de fadiga, eu acho que se trata mais de processos eleitorais. Nós não nos podemos esquecer que em fevereiro começam as primárias nos Estados Unidos e neste momento, por um lado, e há pouco como eu dizia, o Partido Republicano, a partir do momento em que aconteceram as eleições intercalares e que ganha a Câmara dos Representantes, começa a colocar a questão da ajuda à Ucrânia na agenda e a dizer que não apoiaria o reforço continuado e permanente da ajuda militar. Isto por um lado. Depois quando é eleito o Mike Johnson como speaker da Câmara dos Representantes, esse assunto começa a ser ainda mais verbalizado, exatamente, de certa forma, e de um ponto de vista mais uma vez instrumental, de crítica àquilo que tem sido a atuação e a política externa dos Estados Unidos para a Ucrânia. Mas neste momento, há outra questão que se coloca, é que o próprio Partido Democrata, com o apoio a Israel contra o Hamas, também veio destapar feridas dentro do próprio Partido Democrata, e isso é que seguramente, neste momento, também começa a revelar preocupações à administração Biden.
A propósito de Israel, numa entrevista à Associated Press na semana passada, Zelensky também se mostrou preocupado com o facto de os países amigos terem a atenção dividida com a tragédia no Médio Oriente. O presidente diz que a atenção dividida é igual a zero ajuda à Ucrânia. Tem razão?
Tem, naturalmente que tem razão. Repare, mas a preocupação dele neste momento, e desde o dia 7 de outubro, não é apenas hoje, a preocupação dele não tem apenas resultado naquilo que tem sido a transferência e a possibilidade de hipotecar efetivamente essa transferência de ajuda militar para a Ucrânia, mas tem aqui outro ponto. Repare que do ponto de vista mediático e do ponto de vista da política internacional, da agenda da política internacional, dos órgãos de comunicação social ocidentais, a guerra na Ucrânia saiu da agenda. E com essa saída da agenda, é muito mais difícil hoje, europeus, norte-americanos, compreenderem a necessidade de apoio à Ucrânia do que antes do dia 7 de outubro. Por isso, as suas preocupações, podemos dizer assim, são bicéfalas. Por um lado, a comunicação social e o controle da guerra da informação Que estava a ser ganha por Zelensky. Muito mais, e permita-me que faça este sublinhado, do que em relação a Israel. Nós percebemos desde o primeiro dia, e que provavelmente também foi um dos fracassos de Vladimir Putin, que provavelmente contava com fraturas entre os europeus e fratura entre os europeus e os Estados Unidos, e aquilo que nós fomos observando foi que a guerra tinha sido até um catalisador para a aproximação entre os dois lados do Atlântico. Mas, por outro lado, aquilo que a guerra entre Israel e o Hamas veio destapar foram feridas profundas, não apenas entre os europeus, como dentro de cada Estado da União Europeia. E por isso, Zelensky deve estar preocupado relativamente a esta questão dos media e do controle da comunicação. Por outro lado, do ponto de vista financeiro e de apoio militar, vê agora os esforços divididos. Aliás, Biden em outubro, quando apresentou este pacote ao Congresso, no final de outubro, falou não apenas na Ucrânia, mas falou na necessidade também de atender efetivamente às preocupações do Médio Oriente e antecipou já também uma possível ajuda a Taiwan. Por quê? Porque Taiwan vai ter eleições dia 14 de janeiro e nós não sabemos o que é que virá. O que sabemos é que amanhã o presidente russo Vladimir Putin vai estar com o presidente iraniano, Ebrahim Raisi, e aquilo que começamos a perceber, se não formos ingénuos, é que há efetivamente um eixo, um bloco que está a ser construído, se não estava já. O Irão também é apontado como um dos possíveis desafiadores do sistema internacional e é próximo também por causa da questão dos BRICS. Mas aquilo que se observa é efetivamente uma contestação à hegemonia da ordem liberal ocidental por vários actores. E o Hamas, como sabemos, é também financiado pelo Irão, tal e qual como o Hezbollah e os Houthis no Iémen, que têm estado a atacar também Israel.
Sendo que, a par disto tudo, Zelensky também enfrenta problemas internos, que se traduzem, por exemplo, numa queda na popularidade do presidente ucraniano. Há dias o presidente da Câmara de Kiev veio até acusar Zelensky de estar cada vez mais isolado e de ser cada vez mais autocrático, culpando-o por erros decisivos. E na verdade, ele só veio juntar-se a um conjunto de vozes que se têm tornado mais audíveis nas últimas semanas. Que consequências para a guerra poderá ter uma liderança mais fragilizada?
Consequências negativas, mas atenção que essas vozes têm sido várias, não apenas o presidente da Câmara de Kiev.
Começaram a ser mais audíveis nas últimas semanas, aliás.
Exatamente. Aquilo que nós temos observado, e isso é decorrente dos fracassos do ponto de vista militar. Naturalmente que Zelensky, se conseguisse apresentar ganhos militares com a contraofensiva que iniciou, muito mais significativos, era muito mais fácil mobilizar não apenas a população ucraniana, mas também as elites políticas ucranianas em torno da sua liderança. Ora, com as perdas táticas e com aquilo que se observa do ponto de vista militar, naturalmente que o próprio apoio ao presidente ucraniano começa a ficar fragmentado e isso é possível que aconteça ainda com maior contundência nos próximos dias e nas próximas semanas. Ainda mais se, porventura, a torneira do apoio militar dos aliados fechar. Claro que haverá aqueles que, porventura, poderão explorar do ponto de vista político, para maximizar os ganhos a nível da discussão política interna.
Obrigada, professora Liliana Reis.
Muito obrigada.
Liliana Reis é investigadora e diretora do curso de Relações Internacionais da Universidade Lusófona. Esta foi a História do Dia. O episódio de hoje contou com a colaboração da jornalista Maria Nunes. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até segunda.