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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a linha fortificada no Donbass que Putin não quebra. "Позволю себе только добавить, что по нашим оценкам то, что происходит на Донбассе сегодня, это и есть геноцид." Esta é uma declaração de Vladimir Putin feita a 15 de fevereiro de 2022. A guerra começaria no dia 24. No Kremlin, em Moscovo, ao lado do então chanceler alemão Olaf Scholz, Putin insistia na teoria do genocídio da população russófona do Donbass. Essa teoria serviria como um dos argumentos para a invasão da Ucrânia. Mas três anos e meio depois, há uma linha defensiva montada pela Ucrânia que continua a garantir a integridade territorial naquela região. Putin, porém, não desiste e agora tenta outra via. E é sobre isso que vou conversar com Madalena Moreira, jornalista da seção de internacional do Observador. Eu sou Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de quarta-feira, 20 de agosto. Bem-vinda, Madalena.
Obrigada, Ricardo.
Madalena, temos de começar esta conversa por duas breves explicações que podem ser importantes para perceber melhor esta história do dia. O que é o Donbass, no fundo, e que importância histórica, econômica e industrial tem também esta região?
Quando falamos do Donbass, que é uma coisa que temos ouvido falar muito ao longo dos últimos três anos e meio, estamos a falar da região no leste da Ucrânia, que faz fronteira com a Rússia e que inclui duas províncias que estão na totalidade ou quase totalidade ocupadas pela Rússia, que é Donetsk e Lugansk. E quanto ao valor do Donbass, estamos a falar de um valor geográfico, porque é próximo da Rússia, mas também tem rios muito importantes e chega a ter costa no mar de Azov. Depois tem o valor econômico de ser o coração da indústria ucraniana, que já vem dos tempos da União Soviética, em que era, segundo o Banco Mundial, o principal produtor de carvão da União Soviética, e hoje em dia continua a ter muitas minas ativas e muitos campos agrícolas. Nós já ouvimos falar destas minas do Donbass no acordo das terras raras entre Trump e Zelensky. São estas mesmas minas nesta região ocupada.
São estas.
Exatamente. E depois tem ainda um valor cultural e histórico, porque sendo a região ucraniana mais próxima da Rússia, tem uma grande população russófona, que fala russo, e mais pessoas separatistas e pró-Moscovo, incluindo antigos presidentes ucranianos que acabaram por ser retirados do poder por terem esta posição pró-Kremlin.
Como Viktor Yanukovych.
Exatamente. Mas também temos que notar que apesar de haver muitas pessoas que se reveem neste sentimento pró-Moscovo e separatista, não é a totalidade da população e ele só é grande quando comparado com o resto da Ucrânia.
Mas é precisamente essa região de Donbass mais russófona, se quisermos, que foi também palco destes primeiros confrontos, isto depois da conquista da Crimeia em 2014. Houve ali umas ações de guerrilhas mais russófonas e foi aí também no Donbass que foi encenado aquele referendo que depois serve de desculpa a Putin para invadir a Ucrânia, não é?
Exatamente, é isso mesmo. Portanto, a Rússia anexa a Crimeia no início de 2014 e um mês depois dessa declaração, forças pró-Rússia separatistas com o apoio do Kremlin começam a ofensiva.
Começa uma guerra, basicamente.
Exatamente, nestas duas províncias, e declaram as duas províncias como repúblicas populares, ou seja, República Popular de Donetsk e de Lugansk, depois de terem encenado referendos, porque não foram reconhecidos internacionalmente. Em 2022, Putin reconhece estas duas repúblicas populares que tinham sido proclamadas em 2014 como Estados independentes. Três dias depois, invade a Ucrânia com o pretexto de defender as populações russas que dizia estarem a ser alvo de discriminação por parte do governo de Kiev. E depois, em setembro de 2022, já estas regiões estavam, na sua maioria, ocupadas pelas forças russas, foram encenados novos referendos e o Donbass, juntamente com as regiões que também estavam ocupadas de Kherson e de Zaporizhzhia, foram anexadas à Rússia. E as quatro regiões todas juntas formam o que o Kremlin chama de a Nova Rússia.
A Nova Rossiya.
Em russo é isso, exatamente.
E na sequência dessas ameaças é construída a tal linha defensiva de que vamos falar neste episódio. Madalena, quando falo nestas linhas, lembro-me das linhas de Torres, as nossas linhas de Torres, isto para lidar com as invasões napoleônicas, e da Linha Maginot, que na Segunda Guerra Mundial não serviu de muito.
Neste caso chama-se a Faixa Fortaleza.
Faixa Fortaleza, não tem um nome mais pomposo do que isso.
Eu acho pomposo, Fortaleza.
É pomposo, sim.
E esta faixa está há uma década em construção, porque começou a ser construída em 2014, quando houve os primeiros confrontos, e delimita uma região com 50 km de extensão e que tem quatro cidades que foram tomadas em 2014 e desde aí nunca mais foram tomadas. Ou seja, as forças ucranianas conseguiram retomá-las.
Conseguiram recuperá-las.
Conseguiram recuperá-las às tais forças pró-Rússia. Desde aí nunca mais foram tomadas por causa destas medidas de segurança que eles tomaram. Então, sendo uma zona muito industrial, como nós já dissemos, era uma zona que já era muito urbanizada, com prédios de malha densa, autoestradas, caminhos de ferro, o que por si só já dificulta o avanço de tropas, e Kiev foi acrescentando a toda esta região arame farpado, cimento, gravilha, dentes de dragão, que são aquelas pequenas pirâmides que se põem no chão.
Sim, exato.
Que impedem o avanço de um tanque.
Aqueles X em cimento.
Exatamente.
Aquelas cruzes em cimento grandes.
Além disso, ainda puseram bunkers, trincheiras e depois minas e outras armadilhas antitanque. Portanto, funciona como a grande linha de defesa. Além disso, também é a última linha de defesa, porque depois disso começa o centro da Ucrânia, que é só planícies sem rios ou montanhas que sirvam de obstáculo natural.
Já voltamos à conversa com Madalena Moreira, jornalista da secção de internacional do Observador. Como quer, afinal, Putin quebrar esta linha defensiva ucraniana? Estamos de regresso à conversa com Madalena Moreira, jornalista da secção de internacional do Observador. Madalena, durante todo este tempo de guerra, as tropas russas nunca conseguiram quebrar esta linha, a tal faixa fortaleza?
Não. Desde que ela começou a ser construída, depois de ter sido passada a primeira vez, nunca foi novamente passada por forças russas. De tal forma que foi nesta zona que se lutaram algumas das batalhas mais compridas e mais midiáticas de três anos e meio de guerra. Foi aqui, por exemplo, que em Bakhmut se lutou pelo controle da cidade durante nove meses, ou em Avdiivka, e que mais a sul desta faixa é onde se luta agora pelo controle de Pokrovsk.
Exato.
Mas neste momento os avanços estão a ser muito mais lentos do que foram na parte inicial do primeiro ano de guerra. E os analistas estimam que, ao ritmo atual, esta parte final de Donetsk, que as forças russas ainda não conseguiram tomar, seriam precisos três anos para tomar a faixa fortaleza.
Três anos de mais morticínio.
Exatamente.
E Putin agora tenta na secretaria, é isto, Madalena, se é que eu entendi bem, vencer esta linha fortificada que não consegue vencer com armas, é isso?
Exatamente. Ainda que nunca tenha dito publicamente que isto vá demorar tanto tempo, parece aqui haver um entendimento que a Rússia não tem pessoas suficientes para continuar a matar na linha da frente para conseguir tomar esta faixa fortaleza essencial. E portanto, faz uma sugestão diplomática para conseguir obter este território. A sugestão que fez Donald Trump no Alasca é que a Rússia fique com o controle total do Donbass, incluindo todas as zonas que já ocupam e esta parte final que ainda não conseguiram ocupar. Em troca, para todos os confrontos, congela as linhas da frente na restante Nova Rússia, ou seja, em Kherson e Zaporizhzhia, e diz que até estará disposto a devolver outras partes mais pequenas que também ocupou noutras zonas da Ucrânia, nomeadamente em Kharkiv e em Sumy. Donald Trump apoia esta ideia das trocas territoriais, porque acredita que é impossível fazer um acordo que não passe por isto. Alguém terá sempre que dar o braço a torcer e neste caso, ele acha que esta concessão territorial é uma concessão que vale a pena fazer.
Mas aqui seria claramente uma vitória para a Rússia se conseguisse esta zona que tanto quer, Donbass, e já percebemos, já explicaste o interesse também industrial que esta zona tem. Imagino que essa vontade russa de agora resolver isto num acordo esbarre numa recusa por parte de Kiev, também não está disponível para ceder este território, ou está?
Sim, e aqui não é só a questão estratégica que eu já tinha falado de esta faixa poder funcionar como plataforma de lançamento para um eventual ataque, como já aconteceu, Crimeia em 2014 e depois Donbass em 2022. Há uma justificação que Zelensky utiliza muito, que é a justificação legal da Constituição, de a Constituição ucraniana não lhe permite mudar as fronteiras do país tal como estão definidas. E depois há ainda uma justificação política, que é, segundo o inquérito, 75% dos ucranianos é contra trocar territórios com a Rússia. Ou seja, seria uma grande derrota política para Zelensky estar a ir contra a vontade da maioria da população ucraniana. A isto soma-se ainda a questão social, que é o facto de milhares de pessoas ainda viverem nestas regiões e fazerem a sua vida diária, apesar de estarem tão próximo da linha da frente, a sua vida diária quase normal. Só em crianças, são 18 mil crianças que estão nesta região e, portanto, impõe-se a questão: como é que se tira estas pessoas? Mas claro que aqui Kiev não está sozinho e tem o apoio dos europeus, que continuam a dizer que a sua prioridade é defender a soberania territorial da Ucrânia e que não vão aceitar pressão para que façam cedências territoriais.
Obrigado, Madalena.
Obrigada eu, Ricardo.
Madalena Moreira é jornalista da secção de internacional do Observador. Ficam ainda algumas notas para esta quarta-feira, 20 de agosto. No futebol, primeira mão do playoff da Liga dos Campeões, na Turquia, em Istambul, o Benfica defronta o Fenerbahçe de José Mourinho. E por cá, arranca o mítico Festival de Vilar de Mouros. Este ano, do cartaz, fazem parte nomes como os Sex Pistols, James, Papa Roach e os The Weasel. E nesta quarta-feira também se assinala o Dia Mundial do Mosquito, o animal que mais mata em todo o mundo. Há dados que apontam para mais de 700 mil mortes em todo o mundo por ano, devido a doenças provocadas por picadas de mosquitos. E há centenas de milhões de pessoas que são infetadas por várias doenças. Este Dia do Mosquito foi criado precisamente para alertar para os programas de prevenção. E cá vamos nós para as recomendações de agosto em festas e romarias. Nesta quarta-feira, dia 20, arrancam as festas de Nossa Senhora da Glória, em Glória do Ribatejo. Neste primeiro dia, há missa solene. Quanto à música, quanto aos concertos, esses ficam para os próximos dias. E chega ao fim uma das grandes festas e romarias do ano, a Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Nesta quarta-feira, há procissão no mar. Já o fogo de artifício foi cancelado. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã e boas férias.