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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a nova arma de Donald Trump que parece ficção científica. O que está a ouvir é o som da operação americana na Venezuela. Bombas a rebentar no meio da noite em Caracas, helicópteros a sobrevoar o espaço aéreo venezuelano e Nicolás Maduro retirado para os Estados Unidos para ser julgado. Provavelmente lembra-se de que esta foi uma operação relâmpago. Os americanos entraram, retiraram Maduro e a mulher e saíram ilesos, sem uma única baixa.
"So we sort of got him a little by surprise, but it was brilliant tactically, it was an incredible thing".
Brilhante, incrível e todos os outros adjetivos que Donald Trump aplica às coisas que têm o seu próprio nome escrito. Eles foram apanhados de surpresa, dizia o presidente dos Estados Unidos nestas declarações feitas logo depois da intervenção militar. Mas houve sempre dúvidas. Como foi possível aos americanos levarem a cabo uma operação desta envergadura tão facilmente? Há suspeitas de que o próprio regime foi conivente com os Estados Unidos, mas agora o próprio Donald Trump deu uma entrevista ao New York Post, onde veio acrescentar mais uma pista. Ele fala de uma arma secreta usada pelos militares, sobre a qual não pode dizer muito, a não ser o nome, por sinal, bastante difícil de dizer. He called it the discombobulator. Eu não vou repetir a palavra em inglês, fiquemos pela versão em português, uma arma desconcertante, desorientadora, capaz de neutralizar os adversários antes mesmo que eles possam reagir. Exatamente que arma é esta e como é que funciona? Bom, isso já são os tais detalhes que Donald Trump garante não estar autorizado a revelar.
And I say it's probably good not to talk about it, but we have some amazing weapons.
Será mesmo esta uma arma secreta ou Trump está a ser criativo com a verdade? E se existir mesmo, o que podem os militares norte-americanos fazer com ela e o que é que isto significa para as guerras do futuro, que neste mundo em que vivemos podem estar mais próximas do que imaginamos? Eu convidei o major-general João Vieira Borges para nos responder a estas e outras perguntas. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 27 de janeiro. Major-general João Vieira Borges, bem-vindo.
Muito obrigado pelo convite.
Deixe-me perguntar, já alguma vez tinha ouvido falar desta arma, antes de Donald Trump lhe dar este nome?
Já tinha ouvido falar, efetivamente, porque eu tive acesso, na altura do ataque à Venezuela, a relatos anônimos de venezuelanos, que diziam que havia uma arma, mas não diziam que tipo de arma. Por outro lado, sendo eu oriundo de artilharia, em particular antiaérea, fui acompanhando ao longo dos anos aquilo que os Estados Unidos estavam a produzir, mas era algo que não se tem falado nos últimos anos, as chamadas armas acústicas ou outras armas.
Então vamos começar pelo princípio. O que é uma arma acústica? O que exatamente é suposto acontecer com este tipo de armamento?
Sim, uma arma acústica é uma arma que tem a ver com infrassons ou sons de frequência muito baixa. E portanto, ao terem sons de frequência muito baixa, quer dizer que eles podem percorrer mais distâncias do que o som normal. Penetram, inclusivamente, em edifícios, em veículos, claro, aqui com algumas limitações. O problema é que isto tem efeitos biofísicos muito complicados, designadamente náuseas, arranjos intestinais, desorientação, vômito e outras coisas.
O que no contexto de um ataque até dá jeito, não é?
Dá jeito e foi realmente aquilo que os relatos dos tais anônimos referiram. Entre outras coisas, referiram estes efeitos, o que é muito estranho. Pode haver a combinação de armas, mas estas armas acústicas são armas que estavam em desenvolvimento, designadamente a partir de 2023, eu fui pesquisar e havia grande investimento. Aliás, havia um alerta do departamento agora de guerra, que era defesa no sentido de reduzir os custos. E por quê? Porque também havia uma preocupação muito grande não só com a questão da saúde, como é óbvio, mas também com questões éticas, obviamente, que depois poderão ser julgados se houvesse prova da utilização destas armas.
Ou seja, o que me está a dizer é que os Estados Unidos estavam a investigar, fazer desenvolvimento de armas novas de guerra, mas ao mesmo tempo havia uma preocupação ética, porque apesar de tudo, na guerra não vale tudo, e havia ali um corte nas despesas para essa investigação. Era isso?
Exatamente, porque as convenções de Genebra impediriam a utilização deste tipo de armas, mas como sabemos, os valores éticos desta administração deixam-nos muitas dúvidas a vários níveis.
Portanto, desse ponto de vista, acredita que possa ter sido desenvolvida, de facto, e posta a uso essa arma. Mas já tinha ouvido falar de uma arma que fizesse exatamente isto que Donald Trump está a dizer, que tivesse este nome, porque há vários relatos que dizem que ele pode estar a fazer uma confusão e a misturar várias armas que os militares americanos têm, e que todas juntas dariam este efeito.
Sim, eu fui ver em pormenor o que é que ele referiu. Ele dizia que eles nunca conseguiram lançar rockets, tinham rockets russos e chineses, nunca os conseguiram lançar. "Nós chegamos, eles pressionaram os botões e nada funcionou". Ora bem, esta frase é uma frase perfeitamente normal no caso de um ataque, por exemplo, ao sistema de defesa aérea, designadamente ao S-300, que é semelhante ao Patriot, é o grande sistema de origem russa que está a ser utilizado na guerra na Ucrânia com grande eficiência e eficácia. Mas isto é tecnologia de guerra eletrónica, ou seja, isto é o que nós já fazemos há alguns anos, os ataques cibernéticos aos computadores do sistema, lança-se também interferências que inutilizam radares e comunicações. Portanto, esta frase não tem nada de mais. O problema não é esta. O problema é quando ele diz que é uma arma desorientadora, e é quando fala em arma desorientadora, que ele depois não pode desenvolver, aí é que poderá ser outra arma. Isto foi tudo uma combinação. Nós estamos a falar da utilização das cinco dimensões da guerra naquela operação. Terra, mar, ar, espaço e ciber. E, portanto, pode haver, e houve certamente, um conjunto, não só de guerra eletrónica, e poderá ter havido também deste sistema, designadamente a tal arma sónica, mas não temos dados concretos. Agora, os dados dos tais anônimos que dizem que cria problemas de natureza cognitiva, as dores de cabeça, insônia e tonturas, se não me engana, alguns estavam a vomitar sangue, caímos no chão incapazes de nos mexer, nem sequer conseguíamos levantar, depois daquela arma sónica. Ou o que quer que tenha sido. Isto é uma expressão, não sabemos também, foi instrumentalizado no sentido de dizer a isso, se foi realmente o que sentiram ou se o grande objetivo neste âmbito seria até de ser dissuasor de uma nova arma, tendo em conta que Putin anda a apresentar novas armas todos os três meses.
Então acha que isto também pode ter aquilo que se chama uma retórica ou propaganda de guerra misturada?
Pode. Certamente que tem, porque senão não anunciavam. Certamente que tem. Agora, a reação do Kremlin também a estes relatos e a este anúncio do Trump também foi de grande curiosidade, não é? Porque nos últimos quatro anos, os únicos que produzem novas armas são os russos, e sempre armas que são impossíveis de detetar e destruir. E, portanto, era tempo de os Estados Unidos também começarem a relevar aquilo que têm e aquilo que têm feito em termos de investigação. E aqui é um teatro de operações muito especial, porque a maior parte dos sistemas, designadamente defesa aérea, e que ainda têm os venezuelanos, são chinesas e russas. E, portanto, isto foi uma derrota estrondosa que obviamente, os russos estão certamente a fazer inspeção para ver o que é que aconteceu, porque realmente foi estranho.
Foi estranho, foi rápido e foi sem grandes consequências para o lado americano. Major-General, vou já voltar a conversar, até porque tenho perguntas para fazer sobre se tecnicamente hoje já é possível uma arma fazer aquilo que foi descrito, e já agora, para também refletirmos um pouquinho qual é a consequência e como é que serão as guerras do futuro com estes avanços tecnológicos. Até já.
Até já.
E já estamos de regresso. Major-General João Vieira Borges, hoje, independentemente de haver avanços no armamento americano que até agora desconhecíamos e que podem estar a ser revelados agora, já era tecnicamente possível fazer isto que os americanos fizeram, ou seja, neutralizar os sistemas militares de um país sem disparar nenhum tiro?
Sim, claramente. E posso dizer que isso é algo que não são só os Estados Unidos que têm essa capacidade, porque isso tinha sido anunciado por Israel, a seguir aos últimos ataques desenvolvidos pelo Irão, designadamente a questão dos sistemas laser. Os sistemas laser é um sistema que estamos a estudar há mais de 40 anos, a sua utilização. E estes sistemas que acabamos de falar também, são sistemas que energiam os chamados Active Denial Systems, as armas não letais que são utilizadas pelas forças de serviço de segurança, a chamada energia dirigida com micro-ondas de alta frequência. Tudo isto implica uma grande concentração de energia, dependem da geração de energia. Eu lembro-me dos sistemas de armas de antiaérea com sistema laser, implicava ter várias viaturas, uma grande fonte energética para concentração do raio laser, de alta energia, para que fosse possível destruir aeronaves Agora o há, na altura não havia. Isto é algo que, em termos tecnológicos, tem sido desenvolvido nas duas dimensões. Se me permite, a dimensão da segurança, como eu referi, acho que é ADS, de armas não letais, porque isto rapidamente, uma temperatura de 54 graus a menos dois segundos até 1000 metros, isto é mais para, em termos de missão, é negação de áreas e controle de multidões, mas pode ser utilizado também em termos militares. Em termos militares é o Direct Energy Weapon, são sistemas militares que utilizam energia altamente focada, aqui é para danificar, neutralizar e destruir alvos. Ou seja, são duas dimensões de novas tecnologias que naquele caso até poderão ter sido utilizadas as duas.
As duas ao mesmo tempo. Essa que falava, por exemplo, para controlar multidões, é aquela que os próprios norte-americanos têm, que é uma espécie de energia que se sente debaixo da pele e que dá uma sensação de calor enorme a quem leva isso aí. E a tendência é para se afastar da fonte de calor.
Exatamente. Aquilo tem uma frequência de 95 gigahertz, penetra-se a cerca de 0,4 milímetros na pele. O feixe é invisível, claro. E as pessoas sentem rapidamente, por isso é que é uma arma não letal, porque a seguir deixa de haver qualquer efeito nas pessoas.
Tem o efeito imediato que se pretende, afastar o alvo.
Exatamente, mas depois as pessoas não ficam afetadas, pelo menos até onde sei.
Deixe-me perguntar-lhe se acha que estamos a entrar numa fase em que a guerra é menos visível, menos física e mais tecnológica. Acha que é possível que esteja a acontecer isso?
Está a acontecer. Aquilo que nós estamos a ver ao fim de quatro anos na guerra na Ucrânia, designadamente, mas também depois em Israel, com o sistema Lavage, os sistemas de deteção com base na inteligência artificial. A inteligência artificial acelerou todos os processos de investigação das novas tecnologias e dá uma capacidade não só para os sistemas de armas, mas para aquilo que é o C4I. Tudo o que é comunicações, controlo, computadores, tudo isto foi acelerado. Hoje há uma capacidade enorme dos sistemas melhorada, mas também há novos sistemas, não só nas armas hipersônicas, que atingem maiores velocidades. Isto é uma exigência muito grande quando as pessoas falam em inteligência artificial, tem uma exigência muito grande a nível de chips. Nós quando falávamos nos chips, em Taiwan, nos Estados Unidos, empresas produtoras, grande luta entre os Estados Unidos e a China, sobretudo entre estes dois, são chips muito mais pequenos, com muito mais capacidade e a busca desses chips é uma luta tremenda entre as grandes potências, nomeadamente entre os Estados Unidos e a China, para a produção deste armamento de alta tecnologia. Portanto, está tudo associado: inteligência artificial, os novos chips, fontes energéticas, é preciso muito maior capacidade em termos energético, mas obviamente obtêm-se sistemas de armas com muito maior eficácia e eficiência, uma coisa muito diferente da outra, e sistemas que provocam aquilo que pretendem, que é o desequilíbrio entre as duas partes em guerra.
E ainda não se sabe muito sobre esta arma desconcertante, até porque naturalmente não foram divulgados muitos pormenores por Donald Trump, mas a verdade é que estamos a falar dela. A minha última pergunta é se faz sentido que já se fale sobre isto ou se esta divulgação propositada ou inadvertida do presidente dos Estados Unidos pode pôr em risco a própria segurança dos Estados Unidos ao divulgarem o tipo de armas que têm.
Eu diria que era preciso cautela da nossa parte, acompanhar estas situações. Podemos estar a ser instrumentalizados por contrainformação, por um lado, e por outro lado, concordo consigo. Trump, se não foi essa a intenção, e se foi um lapso que tem a ver com a sua personalidade egocêntrica de mostrar que é o maior em tudo, é complicado para quem está no departamento de guerra agora, defesa. Portanto, duas dimensões. Vamos esperar, porque estes relatos foram transmitidos pela venezuelanos, por órgãos de comunicação social norte-americanos, o que me deixa algumas dúvidas.
A própria credibilidade ainda não é garantida.
Exatamente. Eu tenho cautela, vou ter alguma cautela no acompanhamento, mas vou estar atento com a consciência de que efetivamente, como referiu há pouco, a tecnologia avançou de tal modo com o apoio da inteligência artificial, que hoje certamente seria possível este cenário ser verdadeiro.
Cautela é um ótimo conselho para terminarmos esta conversa. Major-general João Vieira Borges, muito obrigado.
Muito obrigado pelo convite.
O major-general João Vieira Borges é presidente da Comissão Portuguesa de História Militar e vice-presidente da Comissão Internacional de História Militar, é coordenador de Segurança e Defesa da SEDES e ajudou-nos a perceber mais sobre o que é retórica e o que é avanço verdadeiro na indústria militar. Esta terça-feira começa oficialmente a campanha eleitoral e começa em grande, porque à noite há o primeiro e único frente a frente entre os dois homens que seguem na segunda volta das presidenciais. O debate Seguro Ventura é às 20h30 em simultâneo na RTP, na SIC e na TVI. Também hoje, eu próprio vou dar arranque à segunda volta da sondagem diária, o famoso e polémico Tracking Poll da TVI e da CNN Portugal, quem sobe e quem desce todos os dias até ao fim da campanha eleitoral. Ontem chegou a depressão Joseph a Portugal. "O Observador" descreve-a como a mais grave das tempestades desta semana, que vêm em comboio até domingo. A Joseph está a alimentar-se de um rio atmosférico. E se não sabe exatamente o que é um rio atmosférico, fique-se só estas três palavras: vento, chuva e neve. Tudo em doses fortes que se agravam precisamente esta terça-feira. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.