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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A queda do governo alemão deve deixar-nos preocupados? Olaf Scholz sabia que ia perder e quis perder para derrubar o governo que ele próprio lidera. No discurso que fez no Parlamento alemão esta segunda-feira, antes da votação da moção de censura que o derrubou, queixou-se de sabotagem interna, numa referência a um dos dois parceiros de coligação. A Alemanha entra agora numa crise política, numa altura em que o motor econômico da Europa está a arrefecer e a Rússia continua a manter a esperança de conquistar a Ucrânia, ou pelo menos uma parte do território ucraniano. Esta crise política vem em muito má altura para a Europa. Que consequências poderá ter? Esta é a grande pergunta para Madalena Meyer Resende, professora universitária na Universidade Nova e que conhece muito bem a realidade e a política alemãs. Madalena Meyer Resende é também presença assídua na Rádio Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de terça-feira, 17 de dezembro. Bem-vinda, Madalena.
Obrigada, Ricardo. É sempre um prazer estar de volta à Rádio Observador.
Madalena, este governo alemão resultou de uma negociação que foi difícil, diria mesmo muito difícil conseguir chegar a esta solução, que agora se desfez e que se chamava Semáforo. Explica-nos lá que governo era este.
Sim, foi uma coligação chamada Semáforo, porque verde, amarela e vermelha. Vermelha do Partido Social-Democrata, amarela dos Liberais e verde do partido ecologista Os Verdes. Portanto, foi uma novidade no sistema político alemão, que é muito atraído a coligações no pós-guerra, mas de qualquer maneira, esta foi a primeira a nível nacional, que foi negociada em 2021. E de facto, desde o princípio que o acordo entre estes três partidos foi muito difícil, porque Os Verdes e o SPD, o Partido Social-Democrata, mais à esquerda, a favor da despesa, para fazer face à questão do Covid e à suspensão do travão da dívida a nível europeu, e os Liberais sempre a não querer parecer de esquerda, sempre rigorosos face ao déficit e a travar estas soluções.
O que levou, depois, Olaf Scholz, o chanceler, o chefe do governo, a mostrar a porta da rua ao Ministro das Finanças. Isto é um dado importante para esta história, quem era o Ministro das Finanças e que saída foi esta.
Exato, o Ministro das Finanças era o líder do Partido Liberal, do FDP, e que é exatamente o mau da fita, no sentido de estar sempre a travar a despesa pública, ser altamente rigoroso e o debate entre os partidos azedou ainda mais à volta de todo este debate de como fazer face à crise econômica que está a assolar a Alemanha, com quase uma estagnação econômica desde há quatro semestres, crescimento nulo. Os partidos mais de esquerda a quererem aumentar a dívida pública para dar mais gasolina à economia e os liberais a travarem isso. Isso levou a este momento de impasse, que calhou exatamente no dia da eleição de Donald Trump e, portanto, foi ainda mais dramático.
E agora vem a confirmação de que tudo se desfaz, através do chumbo de uma moção de confiança apresentada no Parlamento alemão, no Bundestag. Mas Scholz, ele próprio, já estava à espera disto. Foi ele próprio que desencadeou este processo.
Sim, Christian Lindner, o Ministro das Finanças, em novembro, pôs realmente os pés à parede face ao orçamento federal apresentado por Scholz e também apoiado pelos Verdes. Scholz demitiu e aparentemente tinha-se chegado ao fim da linha deste entendimento entre estes três partidos. Scholz aceitou este desfecho ou provocou-o. A priori, o que aconteceu na terça-feira no Bundestag, com a votação a favor da moção de censura ao governo, era já esperado e as eleições, já todos os partidos estão em campanha há bastante tempo.
Em modo eleições. Mas de resto, o som que ouvimos no arranque desta história do dia, de Olaf Scholz, ele fala mesmo de sabotagem. Portanto, ele não é meigo na forma como nesta segunda-feira se dirigiu aos deputados no Parlamento. Ou seja, isto é algo que é conhecido e é discutido abertamente. Ele queixa-se de sabotagem dentro do próprio governo.
Sim, eu penso que realmente esta é a posição do Partido Liberal. É verdade que o partido está a lutar um pouco, como está sempre, pela vida, para ultrapassar a barreira dos 5%, para estar no Parlamento, está sempre a tentar mostrar o seu perfil e a distinguir-se não só da esquerda como do Partido Cristão-Democrata, mais centrista, e agora também com o partido da extrema-direita à perna. Portanto, Christian Lindner foi, de facto, muito pouco flexível e a solução para este governo não era claramente muito fácil. Sendo que a Alemanha está num momento crítico com esta crise económica do seu modelo, não só uma crise transitória, mas aparentemente o seu modelo de crescimento posto em causa, e isso é realmente grave.
Madalena, esse pormenor dos 5% é muito interessante. Ou seja, o partido que não conseguir mais de 5% dos votos não consegue eleger deputados, é isso?
É, exatamente. É uma medida para impedir ou para diminuir a fragmentação no Parlamento, que foi um dos fatores que nos anos 30 aprofundou a crise política que se vivia na República de Weimar e foi instaurado na Constituição de 1949 exatamente para estabilizar o sistema político. Portanto, os partidos que não chegam aos 5% não têm representação parlamentar.
Já voltamos à conversa com a Madalena Meyer Resende, professora da Universidade Nova, que conhece muito bem a realidade alemã. O que virá a seguir na Alemanha? É a pergunta que fica para a segunda parte. Estamos de regresso à conversa com a professora Madalena Meyer Resende, presença habitual também na Rádio Observador. Madalena, o mais provável é agora a Alemanha ir a eleições já em fevereiro. O que é expectável que aconteça?
As sondagens são bastante estáveis, no sentido de que dão cerca de 30%, um pouco mais de 30% ao partido de centro-direita, ao partido de Merkel, os cristãos-democratas, e portanto, provavelmente será exatamente sob a liderança de um cristão-democrata, Friedrich Merz, que o governo alemão vai ser constituído. É muito provável que a CDU venha a governar com o SPD, ou seja, que eles voltem à grande coligação que se tornou, como alguns dizem, quase clássica nestes últimos anos.
Um bloco central.
Exato. E foi a fórmula que também Merkel encontrou a certa altura e nos anos 60 também tivemos episódios desta grande coligação. Portanto, é muito provável que tenhamos esta coligação de volta com Olaf Scholz num lugar mais secundário.
E ele permanecerá num lugar secundário ou sairá?
Há uma grande disputa dentro do Partido Social-Democrata. Olaf Scholz não é um político muito popular, aliás, até é muito pouco popular na Alemanha. O seu estilo não é nem muito carismático, nem muito eficaz. Portanto, a sua popularidade é muito baixa. Há um ministro do SPD, o ministro da Defesa, Boris Pistorius, que é muito popular, mas Olaf Scholz não deu qualquer hipótese a Pistorius e de facto o SPD vai a eleições sob a liderança de Olaf Scholz, não há dúvida.
E qual vai ser o papel da AFD no meio disto tudo? E já agora, explica também aos ouvintes da "História do Dia", o que é a AFD.
A AFD é um partido de extrema-direita, um partido nacionalista, racista, antieuropeu, que nasceu no contexto da crise do euro. Inicialmente era um partido que, para Portugal também tem algum interesse, porque nasceu exatamente na oposição à ajuda aos países do sul da Europa. Até alegando que se deveria acabar com o euro e constituir uma nova moeda entre os países ricos do norte da Europa, e que nesta última década se tornou cada vez mais radical, no sentido de se tornar, de facto, um partido com algumas inclinações neonazis, muito arraigado na Alemanha de Leste e com uma agenda anti-imigração, uma agenda antieuropeia muito preocupante, que neste momento tem cerca de 18% dos votos.
Exatamente, é uma fatia considerável do eleitorado, não é?
Sem dúvida. Quase 20%, um quinto do eleitorado. É verdade que é muito concentrado na Alemanha de Leste e aí é que se tem tido que fazer uma maior ginástica para tentar impedir que a AFD se torne o maior partido. Quer dizer, já é o maior partido em alguns dos Länder, mas tem havido um cordão sanitário por parte dos outros partidos democráticos para que não entrem no governo Mas eles já marcam muitíssimo a agenda política na Alemanha, não só dos partidos de centro-direita, mas de todas as políticas que tenham alguma coisa a ver com os seus temas fortes.
Esta instabilidade política, Madalena, não é alheia à guerra na Ucrânia. A Alemanha vem logo a seguir aos Estados Unidos na lista dos que mais contribuem no apoio a Kiev. O próximo governo alemão poderá não ser tão generoso para com Kiev? Isto é uma possibilidade?
De facto, é um debate muito aceso que está a ter lugar na Alemanha. Há bastantes esperanças que se o partido Cristão-Democrata for o líder do governo, que a ajuda alemã à Ucrânia se mantenha ou até que se torne mais corajosa. Ou seja, Scholz foi sempre generoso, mas muito cuidadoso, nomeadamente em relação aos mísseis de longo alcance. Embora seja difícil ver exatamente como é que o novo governo, em particular, se for um governo de coligação com o SPD, que já tomou posições muito fortes em relação a este assunto, se o SPD vai ser mais moldável e vai seguir Merz na sua atitude de falcão em relação à Ucrânia ou não. Mas neste momento há alguma esperança, apesar das circunstâncias serem muitíssimo diferentes com a tomada de posse de Donald Trump, que a Alemanha se mantenha uma apoiante acesa da Ucrânia, embora não saibamos se isso é suficiente.
Exatamente, porque temos Trump na Casa Branca, sempre com aquela dose característica de imprevisibilidade. França a lidar com uma crise política também severa, agora também a Alemanha. Madalena, que Europa vamos ter nos próximos meses dentro deste contexto?
Eu estou bastante apreensiva e com bastante medo de que a Europa realmente não esteja à altura e se apresente muito dividida perante assuntos tão graves para o seu futuro como a questão da guerra da Ucrânia e, em geral, com a necessidade de investir muito mais na sua defesa e de fazer face de forma decisiva à crise económica e à crise do modelo europeu a que estamos a assistir. E de facto é muito necessário que haja uma liderança forte. Há alguma esperança neste governo da CDU, no sentido em que venham a fortalecer, de certa maneira, a maioria do Partido Popular Europeu de centro-direita no Parlamento Europeu e, por inerência, a presidência de Ursula von der Leyen na Comissão, e que se crie aqui algum momentum para as reformas que são necessárias para fazer face a esta crise, nomeadamente as que são apontadas no relatório Draghi. E a CDU é muito a favor destas medidas, não só de melhoria da competitividade da Europa, de um ambiente mais favorável aos negócios e à indústria. E também na questão do travão da dívida, Merz não vai tão longe como o SPD, mas está favorável também a alguma reforma deste travão. E talvez sejam boas notícias este novo governo, se ele realmente se materializar. Mas de qualquer maneira, eu vejo realmente a Europa numa situação muito precritante face ao segundo mandato de Donald Trump, quando era necessário uma grande liderança neste momento.
Obrigado, Madalena.
Obrigada, eu.
Madalena Meyer-Resende é professora universitária na Nova. Conhece muito bem a realidade e a política alemãs. É também presença assídua na Rádio Observador. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é de Artur Costa, a música do genérico de João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.