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Esta é a história do dia da Rádio Observador: as novas drogas disfarçadas de diversão inocente. As drogas sintéticas continuam a ganhar terreno na Europa. São difíceis de detectar, algumas são mesmo desconhecidas das autoridades e igualmente letais. Os dados mais recentes apontam para um aumento das quantidades disponíveis no mercado e, claro, do consumo. Até as drogas mais tradicionais estão a aumentar a potência, como a cannabis, devido à mistura com outros produtos. A isto acresce a preocupação de facilidade de acesso a estas drogas, que é grande, e muitas estão disfarçadas de diversão mais ou menos inocente. É sobre isto que vou conversar com o Martim Andrade, jornalista da seção de sociedade do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de sexta-feira, 6 de junho. Bem-vindo, Martim.

Olá, Ricardo.

Martim, os dados que servem de base a esta conversa que vamos ter agora vêm de onde?

A informação é compilada pela Agência da União Europeia contra a Droga, a EUDA, num relatório que é divulgado todos os anos.

Foi divulgado agora.

Foi divulgado agora, esta quinta-feira. Os dados são registados pelas autoridades nacionais dos 27 países da União Europeia, da Turquia e da Noruega.

E por cá?

Por cá, em Portugal, quem é responsável pelo tratamento dos dados é a Polícia Judiciária, que produz também o seu próprio relatório, mas existe esta partilha com a Agência Europeia pra ter um retrato mais compreensivo do consumo e do tráfico de droga na Europa.

Aqui na Europa.

E é interessante, porque permite ter uma ideia geral das substâncias que são mais consumidas, de onde vêm, se são produzidas cá ou se são importadas de fora, em que estados têm maior incidência e, de uma forma geral, é feita uma apreciação do mercado europeu reunindo os dados de todos os países. O relatório de 2025 tem informação relativa a 2023 e 2024, uma vez que não foram conseguidos tratar todos os dados do ano passado. O que diferencia este documento ao do ano passado é o grande foco que é dado ao aumento da quantidade das drogas sintéticas em circulação, das que são produzidas em laboratório, não são derivadas de um produto natural, como a cannabis ou a cocaína, por exemplo.

E esse relatório aponta precisamente para um aumento do consumo de drogas sintéticas. Temos algumas quantidades também pra percebermos a dimensão do aumento do consumo.

É difícil quantificar a quantidade que foi consumida, porque a maior parte das pessoas não revelam o quanto é que consomem. Não é só o consumo, mas também mede-se pelo aumento da quantidade disponível no mercado que foi apreendida pelas autoridades nacionais. As que recebem o maior destaque destas drogas sintéticas são as catinonas, que é um tipo de estimulante, que é uma alternativa à cocaína e às metanfetaminas. E em 2023, porque não há dados de 2024 ainda, houve um aumento de 10 toneladas apreendidas na Europa, ou seja, em 2022 foram 27 toneladas apreendidas, em 2023 foram 37.

Trinta e sete toneladas?

Trinta e sete toneladas.

E estas drogas sintéticas, estou a pensar na palavra sintético e estou a pensar: são mais baratas, são mais acessíveis?

Na sua generalidade, sim, são mais baratas, uma vez que aparecem no mercado por buracos deixados por outras substâncias. Por exemplo, existe uma categoria de opioides sintéticos, agora não são os estimulantes sintéticos, são os opioides sintéticos, que são os nitazenos, que são uma espécie de primo do fentanil, que tem sido o protagonista da crise de opioides nos Estados Unidos estes últimos anos.

Tem tado muito, e o Donald Trump fala muitas vezes nisso. E até usa isso como desculpa para expulsar imigrantes.

Exatamente. E como é que estes nitazenos apareceram na Europa? Foram tomadas medidas pra controlar a importação de fentanil que vinha da China pra Europa. Isto mais ou menos em 2021. Ao mesmo tempo, os talibãs chegaram ao poder no Afeganistão, proibiram a produção de heroína, e como eles são os maiores fornecedores do mercado europeu.

Exato, do ópio.

A quantidade tem vindo a diminuir e surgiu a necessidade de começar a importar uma alternativa, e daí surgiram os nitazenos, que também vêm da China, mais baratos, com menos informações disponíveis sobre a sua composição e por isso passam mais facilmente por baixo dos radares. E o mesmo se aplica a todas as outras classes de drogas sintéticas, que podem ser montadas em laboratórios na Europa, são importados apenas os ingredientes, os químicos que são precursores da substância final. Acaba por ser mais fácil produzi-los cá.

Vou usar aqui uma imagem um pouco tonta, mas se calhar ajuda-nos a perceber isto melhor. Podem ser importadas as peças e depois a droga em si é montada cá e as peças não causam grandes alarmes ao passar individualmente.

Exatamente, os químicos individualmente vêm de vários sítios, tanto da China como da Índia, da América do Sul, do Norte da África, e depois os equipamentos também são montados cá e depois os laboratórios.

E olhando para as leis do mercado, a diminuição de heroína presente no mercado levou ao crescimento destes nitazenos.

Exatamente.

Ora, estamos a falar de drogas sintéticas, mas nem por isso menos perigosas, imagino.

Exatamente. Algumas estão no mesmo nível de perigosidade, têm o mesmo perigo que as drogas naturais, digamos. Outras são menos perigosas, mas de uma forma geral, as autoridades europeias alertam para as que são ainda mais perigosas.

Mais perigosas.

Mais perigosas, porque não existe uma distribuição uniforme daquelas que são mais ou menos fortes, circulam por aí indiferenciadamente. O grande problema é que todos os anos se descobrem dezenas dessas novas substâncias sintéticas da mesma família. Dentro dos nitazenos, como das catinonas, existe uma grande variedade na qualidade dos produtos e torna-se difícil saber exatamente quais é que são os mais fortes, quais é que são os mais fracos. Tudo vem ao mesmo tempo e não se percebe muito bem o que é que se está a consumir.

E já voltamos à conversa com Martim Andrade, jornalista da seção de sociedade do Observador. Temos ainda de falar de drogas disfarçadas de sais de banho e fertilizantes à venda em lojas. Estamos de regresso à conversa com o Martim Andrade, jornalista da secção de sociedade do Observador. Martim, e que história é esta dos fertilizantes, sais de banho, drogas zombie que estão disponíveis em lojas?

Estes estimulantes sintéticos, as catinonas, começaram a aparecer na Europa por volta de 2005, 2004.

Já foi há bastante tempo.

Já foi há bastante tempo. Na altura, era uma substância relativamente nova, porque eram sintéticas, não havia muita informação sobre a sua constituição e por isso estavam num limbo entre a legalidade e a ilegalidade. Por isso não existia grande regulação das autoridades. Começaram a aparecer estas smart shops, que era assim que se chamavam, umas lojas dedicadas à venda das substâncias psicoativas e psicadélicos. Só que os produtos, mesmo não sendo propriamente ilegais, surgiam disfarçados ou mascarados de outras coisas, como fertilizantes, incensos ou os sais de banho, que acabaram por dar o nome a esta categoria de estimulantes. Eram vendidos em pequenos pacotes, muitas vezes de 1 g ou 0,5 g, e as pessoas não tinham muito bem a ideia do que estavam a consumir. Quer dizer, iam às lojas comprar algum tipo de estimulante, porque sabem que as smart shops eram destinadas a este tipo de conteúdo, mas depois acabava por ser uma substância mais potente daquela que estavam à espera. E chegou a haver alguns casos de sequelas graves associadas à inalação destes pequenos cristais ou pós que eram vendidos.

E as drogas zumbi?

As drogas zumbi são um gênero destas catinonas, destes sais de banho. O nome técnico é Alpha PVP, e eram possivelmente as mais fortes que estavam no mercado e que estavam associadas a graves comportamentos paranóicos, incluindo o canibalismo, daí o nome zombie. E estas drogas eram vendidas também nestas lojas, em embalagens coloridas e discretas, vendidas como se fossem fertilizantes ou incensos.

Tu estás a usar o passado, isto quer dizer que entretanto parou, já não estão acessíveis?

Exatamente. Entretanto, vários países da Europa começaram a ter mais atenção a este problema e Portugal aderiu à onda da Europa em 2013. E portanto, a partir de 2013 deixaram de ser vendidas nestas smart shops. As smart shops encerraram e estes psicadélicos ou substâncias psicoativas acabaram por ser proibidas e ilegalizadas.

Mas continua a haver lojas dedicadas à canábis, mas já vamos falar da canábis. Esta aparente facilidade de acesso a este tipo de produtos é preocupante. Imagino, por exemplo, os pais que estão a ouvir agora a história do dia. As redes sociais também vieram facilitar o consumo, ou seja, vieram facilitar uma ligação entre consumidores e vendedores?

Exatamente. Aliás, é um dos pontos que é destacado no relatório da União Europeia. Dizem que existe uma infinidade de plataformas que são utilizadas para organizar o comércio, apelando também tanto aos fornecedores como para os compradores, porque é uma coisa imediata e possivelmente anónima. As redes sociais acabam por ser ainda mais apelativas do que a deep web ou esses fóruns mais recônditos na internet, porque a acessibilidade facilita de facto as coisas. E para além de serem um bom local para a compra e para a venda de drogas, são também um local para fazer recrutamento de mulas ou de transportadores.

É o nome que se dá a quem transporta drogas, geralmente no corpo.

Exatamente, para transportar estas substâncias entre fronteiras, por exemplo. Na grande maioria dos casos, trata-se de químicos que são produzidos no estrangeiro, na China, na Índia, como referi há pouco, e portanto, surge essa necessidade de arranjar pessoas para fazer esse transporte.

E há, obviamente, também um mercado importante de medicamentos falsificados. Não sei se há dados também sobre isso.

É neste parâmetro que se inserem precisamente os nitazenes, que eu referi há pouco, os opioides sintéticos. Não há exatamente um padrão, mas nota-se mais em embalagens de oxicodona, um outro analgésico opioide, que é utilizado para aliviar dores intermédias a severas e que é muito popular no mercado negro. Tem de ser receitado medicamente e, portanto, há pessoas que querem aliviar dores e recorrem ao mercado negro para ter acesso a este medicamento.

Mas é fácil?

É dos mais fáceis, é dos mais populares no mercado negro, e o que as autoridades europeias começaram a reparar é que houve um aumento das embalagens interceptadas do mercado negro que vinham adulteradas na sua composição. A sua composição passa a incluir estes nitazenes, que são naturalmente perigosos, porque são substâncias muito mais fortes do que a oxicodona que vinha nos medicamentos. O relatório dá um aumento destes casos na Europa e alerta também para os perigos associados à compra de medicamentos não receitados em mercados ilícitos, precisamente porque não se sabe o que se está a consumir. Estes opioides não têm grande fama em Portugal, são mais consumidos nos países do Báltico, como a Estónia e a Letónia, mas no ano passado foram interceptados em grande escala numa operação cá em Portugal. Era uma série de caixas, precisamente de oxicodona, que vinha com um dos nitazenes mais fortes, um que não tinha sido ainda detetado na Europa e que não tinha como destino final Portugal, mas acabou por ser interceptado.

Mas entrava por cá.

Exatamente. E foram apreendidos pela Polícia Judiciária.

E no meio disto tudo, Martim, onde é que ficam as drogas mais tradicionais? Imagino que continuam com elevado consumo, como a canábis, a cocaína.

Continuam sempre destacadas como sendo as mais populares na Europa. A canábis, de uma forma geral, foi a mais consumida, tanto através de óleos, extratos ou inalado, com mais de 24 milhões de adultos na Europa a confessar ter consumido algum tipo de produto à base de canábis. A cocaína é o estimulante mais consumido, não é a droga mais popular, mas é o estimulante mais consumido, com quase 5 milhões de consumidores no último ano. E foram registados também, em 2024, valores recordes na quantidade apreendida pelas autoridades europeias. Uma coisa que notam também no relatório é que houve um crescimento da quantidade capturada em Portugal Portugal não é conhecido como sendo um hotspot da cocaína, mas estes dados indicam que Portugal está a começar a ser visto como um ponto de entrada da cocaína na Europa.

Por cá era mais a heroína do que a cocaína. Martim, acho que é importante, acho que nunca é demais nós frisarmos bem isto. Estas drogas são sintéticas, mas têm consequências muito reais, não são nada artificiais e podem ser consequências fatais.

Exatamente. Principalmente porque nunca se sabe aquilo que se está a consumir precisamente. Existem inúmeras variedades de cada categoria de cada substância. Só nas catinonas sintéticas, por exemplo, aqueles estimulantes que são sinalizados no relatório, existem 178 na lista de alerta da União Europeia, todas elas diferentes entre si, com os diferentes perigos, com diferentes escalas de intensidade, mas de uma forma geral estão espalhados pela Europa bastante abundantemente. Mesmo a própria cannabis hoje em dia já é vendida adulterada, com diferentes concentrações de psicoativos e outros químicos artificiais que não constam na composição original da planta.

E obviamente podem conduzir à morte nalguns casos.

Exatamente, sim. Estes opioides sintéticos, na verdade, foram responsáveis pela grande maioria das mortes induzidas pelo efeito drogas.

Estes sintéticos?

Estes opioides sintéticos, os nitazenos. Aliás, na Estónia e na Letónia, como referi que são os países onde são mais populares, mais de 50% das mortes resultantes foram por causa dos nitazenos.

Obrigado, Martim.

Obrigado, Ricardo.

Martim Andrade é jornalista da secção de sociedade do Observador. Ficam ainda três notas para esta sexta-feira. O Presidente da República dá posse aos secretários de Estado do 25º governo no Palácio da Ajuda. O Executivo fica agora completo. E esta sexta-feira e fim de semana abrem em pleno os arraiais em Lisboa e posso confirmar que já cheira a sardinhas nalguns bairros. Ainda esta sexta-feira, ao final da tarde, em Coimbra, há um concerto daqueles de rock and roll puro. É o regresso dos Guns N' Roses a Portugal com Slash e Axl Rose. Em 1992, no Estádio de Alvalade, o primeiro concerto teve polémica e da boa. Garrafas pelo ar, quedas em palco e um Axl Rose muito zangado. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.