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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que são as terras raras e como podem ser essenciais para o futuro da guerra na Ucrânia. O presidente ucraniano acaba de mostrar a dois jornalistas da agência Reuters o que já foi um mapa classificado, o mapa das terras raras ucranianas. O país é rico em metais essenciais à vida moderna. Por certo, alguns desses metais estão agora a ser usados no aparelho em que estão a ouvir este episódio. No som que ouvimos no arranque, Zelenskyy diz que falou com Donald Trump, acrescenta que lhe disse que este é o plano da vitória. A Ucrânia protege os trilhões em terras raras e diminuem o acesso russo e de outros países do eixo do mal a estes materiais. Mas claro, a Ucrânia precisa de armamento, dinheiro e apoio à reconstrução. O que são, afinal, as terras raras e em que medida podem ser essenciais para abrir um caminho para o fim da guerra na Ucrânia? São perguntas para o presidente do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, António Mateus. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de terça-feira, 11 de fevereiro. Bem-vindo, professor António Mateus.
Boa tarde. Muito obrigado, Ricardo, pelo convite para participar neste seu programa. Espero ser útil.
Muito obrigado. Vamos, se calhar, começar pelo início. O que são, afinal, terras raras?
De uma forma simples, mas ao mesmo tempo formal, as terras raras são basicamente um grupo de 15 elementos químicos, também conhecido como o grupo dos lantanídeos, que têm uma massa atômica relativamente elevada e, sobretudo, uma configuração eletrônica particular. É isto que lhes confere interessantes propriedades para um conjunto muito alargado de aplicações.
Mas são metais? Podemos chamar-lhes de metais?
São metais. Basicamente, estão muito próximos dos metais da tabela periódica, que toda a gente viu pelo menos uma vez no secundário.
Pelo menos uma vez.
Pelo menos uma vez. São muito próximos dos chamados metais de transição. Eles partilham, por exemplo, algumas propriedades com o escândio e o itrio, fazem parte do mesmo grupo, mas o escândio e o itrio não são terras raras, formalmente. Partilham características eletrônicas e outras.
E são usados em quê? Já agora, se nos pudesse dar o exemplo de dois ou três deles.
Um conjunto alargado de aplicações, muito alargado mesmo. Desde aditivos para diferentes tipos de ligas metálicas, incrementando a durabilidade destas ligas, a sua resistência mecânica, a condutividade, etc. Catalisadores, cerâmicas especiais, magnetos para motores híbridos ou magnetos para os motores de controle de voo, muito utilizados na indústria militar, por exemplo. Cerâmicas especiais, não sei se já disse. A fotônica e iluminação. Todos os monitores táteis que nós usamos têm quantidades significativas de uma destas terras raras, o europium.
Os ecrãs de telemóvel.
Os ecrãs de telemóveis, os ecrãs de computador, todas estas novas televisões, etc., que têm aquelas cores muito vivas, grandes resoluções, têm todas dopagens ou dosagens significativas de vários elementos de terras raras. E os magnetos. Ouça, não há, por exemplo, energia eólica sem aerogeradores, e não há aerogeradores sem efetivamente magnetos, que consomem quantidades muito significativas, quer de uma terra rara particular, que é o neodímio, quer inclusivamente de boro e ferro. Mas mais simples ainda, e aquilo que toda a gente usa e abusa e tem em casa, às vezes em quantidades que nem sabe muito bem: os auscultadores, aqueles que colocamos nas orelhinhas para ouvir música, todos eles têm neodímio. Que é, de facto, um constituinte importante para esses eletroímanes, que depois pode ser dopado ou doseado com outro, designadamente o disprósio. Mas eu não quero entrar em palavras muito complicadas. Mas, de facto, é um conjunto enormíssimo.
Tenho um par desses agora nas orelhas.
Está a ver? Pois.
Professor, se não houver acesso a esse tipo de materiais, podemos dizer que a nossa vida normal, a nossa vida moderna, seria muito mais difícil e teria, por exemplo, pelo que estava a explicar na questão dos magnetos na energia eólica, a produção de energia renovável ou até de aparelhos que consomem menos energia poderia ser afetada se não tivéssemos acesso a estes materiais, é isso?
Se a vida seria mais difícil ou não, não sei. Seria certamente diferente, não tenho dúvidas nenhumas.
Sim, mas já vivemos sem eles, não é?
Exatamente. E algumas soluções tecnológicas acabarão, mais tarde ou mais cedo, por incorporar outro tipo de soluções. Se bem que as fases de maturação tecnológica, por vezes, podem demorar largos anos, às vezes algumas décadas. E, portanto, o que sabemos é que hoje em dia há um conjunto muito grande de tecnologias que tornam a nossa vida mais simples Mais comunicativa a grande escala. Sem estes elementos químicos, assim como muitos outros, será impossível a manufatura maciça e a custo suportável de uma série de equipamentos, de gadgets. As baterias recarregáveis dos telemóveis não têm só lítio, muitas delas têm lantânio. Os catalisadores ou populimentos de vidros especiais têm cério em quantidades muito significativas. Como já disse há pouco, os ecrãs, mas muitos LEDs que utilizamos cada vez mais, até por uma questão de poupança de energia, têm europio. O gadolínio é uma outra terra rara importantíssima numa série de aplicações médicas. Para além de reatores nucleares, não há lasers sem algumas das terras raras pesadas. Portanto, há um conjunto enorme de aplicações que varrem não apenas os equipamentos que corremos no dia a dia e às vezes parece que os mais jovens já nascem com teclado na ponta dos dedos, mas tem todo um outro conjunto de soluções tecnológicas para a energia, para a neutralidade carbónica, para esta ou aquela outra solução mais ou menos disruptiva, que mais tarde ou mais cedo os circuitos integrados, muitos deles, têm algumas terras, não todas, mas algumas terras raras. Para além de outros metais.
A forma de extrair estes metais é simples, é igual à de outros ou é muito diferente?
Cada elemento químico tem a sua especificidade. Desde logo, a montante, há um problema fundamental, que é perceber qual é a fase mineral que incorpora estes elementos. Eles podem ocorrer na natureza, não de forma livre, mas incorporados nas estruturas de várias famílias de minerais, entre as quais os carbonatos, fosfatos, óxidos ou silicatos. Os mais simples de processar, depois de termos a identificação das fases minerais, temos que as concentrar. E depois teremos de processá-las utilizando vários métodos, até obter o produto que é utilizado na manufatura dos vários componentes, que são normalmente óxidos puros, muito puros. Portanto, a linha de transformação é longa e é ajustada em função da natureza das fases minerais pré-concentradas, sejam elas carbonatos, fosfatos ou óxidos, são os mais comuns.
Professor, deixa-me fazer esta pergunta. É uma pergunta muito simplista para tudo que está a explicar, mas não dá para peneirar, não é?
Não dá para peneirar. Nós podemos peneirar, de uma forma industrial, mas podemos utilizar esse termo, os concentrados minerais. Isto é, depois de identificar uma rocha que contenha esses minerais numa abundância acima daquilo que se considera aceitável e rentável do ponto de vista económico, a rocha será triturada, será fragmentada e nessa libertação dos seus constituintes minerais, haverão fases de peneiramento ou de peneiração, e nessa altura poderá separar algumas fases minerais de outras. Não é aplicável em todas as fases que acabei de mencionar, mas algumas delas poderá utilizar. Mas isso concentra o mineral, não lhe dá imediatamente a terra rara ou as terras raras, porque elas vêm todas juntinhas. Há umas mais ricas nas componentes mais leves, o lantânio, o cério, o prasodímio, o nióbio, e há outras que são mais ricas nas componentes mais pesadas, que são as que têm maior valor acrescentado no mercado, não somente por causa das aplicações, mas porque ocorrem em quantidades menores e, portanto, é mais difícil a sua obtenção de uma forma rentável, que é o caso do gadolínio, do térbio, do disprósio, do itérbio. Mas sobretudo gadolínio, térbio e disprósio são os mais utilizados.
Já voltamos à conversa com o professor António Mateus, presidente do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Vamos ainda tentar perceber se estas terras raras podem ou não ser uma das chaves para uma solução para a Ucrânia. Estamos de regresso à conversa com o presidente do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Professor António Mateus, e estas terras são raras porque são mesmo raras?
Não, elas não são tão raras assim. Para já, a designação terras é uma designação muito antiga, que de alguma forma se utilizava genericamente para todas as fases minerais que eram solubilizáveis, de uma maneira relativamente simples. E raras porque as suas concentrações naturais não ultrapassam, nos melhores casos, estou a falar de rocha comum, as dezenas de grama por tonelada. E é o caso do lantânio e do cério, que são os mais comuns. Se formos para as terras raras pesadas, como o Disprósio, térbio, lutécio, aí temos 0.3, 0.5 grama por tonelada. Portanto, para eu obter uma quantidade significativa, tenho que trabalhar um volume muito grande.
Enorme.
Exatamente. Esse é um dos problemas que temos, não apenas com as terras raras, mas com a indústria mineira, que de fato, em muitas circunstâncias, precisamos processar um volume muito grande de material para, de alguma forma, concentrarmos depois as fases que nos propiciam efetivamente os elementos químicos que queremos.
E em que países ou em que regiões é que estão localizadas as maiores concentrações destas terras raras?
Desde logo na China.
É o campeão a China.
É, porque em boa medida, muitas outras regiões do planeta se demitiram de fazer algo que é fundamental na indústria mineira, que é a prospecção mineral. É fundamental termos a prospecção sempre ativa, porque sem uma prospecção sistematicamente ativa, efetivamente, a partir de uma determinada altura, deixamos de funcionar.
Quem não procura também não encontra, não é?
Não, exatamente. Não tenho dúvida nenhuma sobre essa matéria. Temos a China, temos os próprios Estados Unidos da América, que recentemente reabilitaram antigos centros mineiros. A Austrália, Tailândia, Índia, a própria Rússia, Madagáscar e o Brasil ainda produz uma quantidade significativa. Já foi, há 20, 30 anos, o maior produtor mundial, mas neste momento, se a memória não me falha, estará aí na décima posição no ranking mundial de produção.
E onde é que a Ucrânia entra nesta história?
A Ucrânia entra nesta história como muitas outras regiões da Europa, em particular aquelas que ainda têm retalhos acessíveis dos domínios crustais antigos, aquilo que nós na geologia designamos por escudos, ou seja, conjuntos de rochas que se desenvolveram nos primórdios da evolução da Terra, no período anterior, grosso modo, a dois Giga anos, ou seja, 2 bilhões de anos. Portanto, são de fato regiões que foram alvo ou experimentaram uma evolução muito particular. E todas essas regiões, à escala do planeta, são particularmente ricas num conjunto muito diverso de elementos químicos sob a forma de várias tipologias de minérios. No caso da Ucrânia, em particular, toda a zona central que vai desde praticamente a fronteira com a Bielorrússia, a norte de Kiev, até Mariupol, toda aquela faixa central tem efetivamente, imediatamente abaixo da cobertura mais recente, que são aqueles solos e aquelas areias muito produtivas, muito ricas, mas imediatamente abaixo disso tem efetivamente materiais muito antigos que formam aquilo que é conhecido como o escudo ucraniano. E é aí, ao longo dessa faixa, que se concentram uma série de recursos minerais potenciais. Eu agora permito-me uma palavra extra para dizer: eu estou a falar por aquilo que conheço do pouco que está publicado. Eu nunca estive na Ucrânia, portanto não conheço.
E os mapas até eram secretos até há bem pouco tempo.
Pois, exatamente. Mesmo em mapas um pouco mais antigos, quando procuramos olhar para aquilo que é a distribuição dos terrenos do Arcaico e do Proterozoico na Europa, há uns mapas genéricos, antigos, etc., que de fato indicam a presença desse domínio no território da Ucrânia. E é aí que se concentram efetivamente não apenas os recursos de terras raras, mas também de vários outros metais, como por exemplo, o titânio, o urânio e até algumas rochas que nós chamamos de pegmatitos, com algum lítio. Mas eu digo recursos e não digo reservas, porque eu desconheço efetivamente estudos. Podem existir.
Sobre a quantidade, é isto?
Não é apenas a quantidade. Há uma diferença muito grande entre a palavra recurso mineral e a palavra reserva mineral. Reserva mineral é um conceito de natureza sobretudo econômica, ou seja, é a porção do recurso que é explorável economicamente. E para eu ter esse valor apurado, eu tenho que caracterizar, tenho que delimitar o recurso, tenho que caracterizar as suas propriedades físicas, químicas, geológicas, até geotécnicas, e demonstrar que a sua extração é rentável. A partir daí, eu defino a continuidade de teor e a continuidade de massa ou tonelagem, que me vai permitir dizer: é explorável ou não é. Portanto, eu na Ucrânia não conheço efetivamente detalhes, mas há registro de anomalias. Está a perceber?
Sim. Professor António Mateus, deixe-me só fazer aqui mais uma pergunta no meio disto.
Se calhar estou me a alongar demais.
Não está nada. Está a ser uma bela conversa. Deixe-me só fazer aqui uma pergunta, também para percebermos um pouquinho o valor de tudo isto. Deixe-me fazer a comparação assim: estes metais já percebemos que são vários e cada um deles terá a sua particularidade, um mais difícil de obter do que outro. Valem mais do que o ouro, por exemplo? Só para conseguirmos perceber.
Isso depende da forma como valorizar as coisas.
Da procura também, não é?
Exatamente, e das suas aplicações. Eu diria que para os avanços tecnológicos valem muito mais do que o ouro. Do ponto de vista de mercado, não sei, porque o ouro, como sabe, é um refúgio dos investimentos. Não quer dizer que não tenha as suas aplicações, tem muitas aplicações tecnológicas, mas são infinitamente mais curtas do que aquelas que são proporcionadas pelas terras raras.
Professor António Mateus.
Do ponto de vista de avanço tecnológico, as terras raras são muito mais interessantes do que o ouro.
E Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, já disse publicamente que está interessado numa troca de terras raras ucranianas por armamento, por apoio a Kiev. Isto já nos explicou e já nos ajudou também a perceber tudo isto. O acesso a esses materiais é crucial e os Estados Unidos querem ter acesso a esses materiais, sobretudo agora numa altura em que a Casa Branca parece fomentar o protecionismo económico e quer desenvolver a sua própria indústria tecnológica. A dúvida é se os Estados Unidos conseguem ter acesso a estas terras raras em troca de proteção dadas aos ucranianos, se aqui pode estar ou não uma das chaves para o fim deste conflito. Na história, consegue ajudar-nos a perceber se esta questão dos minérios pode ser às vezes fundamental para tentar desbloquear uma situação de paz ou uma solução para a guerra?
Uma pergunta muito difícil.
São várias coisas.
Eu vou responder não como expert na matéria, mas apenas como um cidadão. Custa-me sinceramente analisar processos de paz com base em elementos de natureza mercantilista.
Claro.
Muito sinceramente. Mas dito isto, também importa salientar que efetivamente não basta ter acesso a esses recursos. É preciso provar que os mesmos têm efetivamente características que permitam a sua exploração e depois é preciso, de facto, saber processá-los. E muitas vezes o processamento tem uma série de detalhes muito complicados e o mundo ocidental disponibilizou à China o conhecimento inicial e a China desde há várias décadas a esta parte já teve 80% do mercado mundial, neste momento está em 60 e poucos por cento, e domina claramente todas as técnicas e nós não dominamos todas as técnicas. E portanto, não basta ter acesso, é preciso saber depois processar.
Claro.
Por último, o mundo ao longo da história da civilização humana está cheio de uma série de conflitos de natureza geopolítica em torno dos recursos. Agora, se de facto alguma vez eles foram utilizados como moeda de troca, digamos assim, para apoio de armamento, sinceramente não tenho conhecimento. Que foram motivo de grandes discórdias, de grandes campanhas militares, inclusivamente de pequenas invasões territoriais na América Latina, inclusivamente na própria Europa, por todo o mundo africano, isso existe. Se foram utilizados para, de alguma forma, apoiar um procedimento de paz ou de tentativa de paz, não sei. Sinceramente não sei responder.
Professor, quem tiver estes materiais tem uma vantagem económica competitiva inquestionável, como é o caso da China.
É verdade, mas os recursos tanto podem ser uma maldição. Nem sempre quem detém os recursos consegue subir na cadeia de valor. E aí está uma das grandes hipocrisias do mundo desenvolvido, conforme está consagrado na literatura. Nem sempre é tão desenvolvido quanto isso, mas pelo menos do ponto de vista de pensamento, porque de facto muitas vezes o que se pretende é explorar, às vezes violando todas as regras básicas de responsabilidade social e ambiental em países que não têm estrutura económica e que dependem de tudo aquilo, e depois não há desenvolvimento tecnológico nessa mesma região. E portanto, nessa altura é uma maldição. E isso é o que leva muitos movimentos sociais hoje a fazerem contestação direta à indústria mineira, porque tomam como regras do passado aquilo que necessariamente tem de acontecer. Ora, não tem de ser assim, necessariamente. Se bem que aqui numa situação destas, até pode acontecer qualquer coisa desse tipo, não faço a mínima ideia.
Muito obrigado, professor António Mateus.
Nada, foi um prazer e espero ter contribuído para alguma elucidação do problema.
António Mateus é presidente do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.