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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Chalana o génio tímido que explodia em campo.

Chalana foi a minha referência. Era o meu sonho todos os dias. Tinha um sonho, queria tentar ser como o Chalana. Era o meu grande objetivo, por isso sempre estou agradecido ao Chalana toda a minha vida. Não sei se consegui, mas pelo menos tentei chegar ao Chalana.

Paulo Futre está na gala do 108º aniversário do Benfica, em 2012. Participa numa homenagem a Fernando Chalana, que recebe o Prêmio Carreira. Futre está no palco da festa transmitida pela Benfica TV e na plateia está Chalana. Paulo Futre explica que um dos caminhos que escolheu para se tornar num dos melhores jogadores portugueses foi imitar Chalana.

Chalana, como toda a gente sabe, está aqui o grande Cunha, está o grande Quim, tinha o melhor jogo de cintura da história. Não houve, não há, nem nunca mais vai haver um homem como o Chalana, com o jogo de cintura que tinha, que só com o movimento, como vimos aqui, tirava três gajos do caminho. Imaginem, estou no barco, no porão, não há ninguém, entro numa lata.

Fernando Chalana encantou e influenciou adeptos e profissionais de futebol. Criava momentos únicos quando corria pela ala esquerda do campo. É um nome que estará ligado para sempre ao Benfica, mas também à Seleção Nacional, que em 1984 chegou às meias-finais do Europeu de Futebol. Quem era este homem? Um tímido que fazia vibrar as bancadas. Vou conversar com Bruno Vieira Amaral, escritor, adepto de futebol e do Benfica. O Bruno é também colaborador da Rádio Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Bruno.

Olá, Ricardo.

Ainda viste o Chalana jogar?

Vi-o jogar e naquele que foi provavelmente o ponto alto da carreira dele, que foi a meia-final contra a França em 1984, no Europeu. Depois ainda me lembro do regresso dele ao Benfica em 87 e do entusiasmo que havia, porque o Chalana era o Chalana, só que na altura já não era o mesmo jogador. Os adeptos bem queriam que ele fosse e aplaudiram-no como se ele fosse, só que já não era o mesmo jogador.

Isto numa carreira que começou no Barreirense.

No Barreirense e infelizmente para ele, porque o que ele queria jogar era na CUF, porque o padrinho o levava a ver os jogos no Estádio Alfredo da Silva, também no Barreiro, e era aí que ele queria jogar, mas foi lá treinar e não o aceitaram e então foi para o Barreirense e passado pouco tempo já toda a gente falava do miúdo do Barreiro. O Mário Coluna, que na altura estava na estrutura do Benfica, foi vê-lo jogar, porque tinha dúvidas que fosse aquilo tudo que se dizia e disse logo que era para contratá-lo e o Benfica acabou por contratá-lo por 750 contos.

Setecentos e cinquenta contos ainda era dinheiro. Muito dinheiro nessa altura.

Muito dinheiro.

E é no Benfica que Chalana finalmente se afirma.

De imediato. Na altura, isto em março de 1976, ele estreia-se pela equipe principal e tornou-se o mais jovem de sempre a jogar pelo Benfica. E para se ter uma ideia da exigência no Benfica naquela altura, nesse jogo de estreia, que o Benfica ganha por 3 x 0 ao Farense, o Nenê e o Jordão, que eram os avançados, marcaram os gols e foram assobiados ao intervalo. Portanto, aquilo ali não havia ainda o terceiro anel, haveria depois, mas era uma exigência brutal. E o jornalista Neves de Sousa, que era jornalista do Diário de Lisboa e que lhe haveria de dar a alcunha que ficou para sempre, a de pequeno genial, disse que nesse primeiro jogo, o Chalana, assim que entrou, se sentiu como peixe na água. E na verdade, nunca mais deixou de se sentir, porque o habitat natural dele era mesmo o campo.

Estamos a falar de meados dos anos 70, depois vêm os anos 80, e este homem, Fernando Chalana, também é o jogador que corresponde àquele estereótipo do típico jogador da bola português que nós temos. Cabelo comprido, bigode farfalhudo, baixinho.

Baixinho, sim, muita técnica, pouca força. Esse era o estereótipo do jogador português. E havia muitos bigodes nos anos 80.

Basta ver os cromos.

Havia ali muito bigode e também havia muito talento, mas eu arriscaria dizer que bigode e talento como o do Chalana não havia. E é verdade que ele irrompe num tempo de grandes dificuldades da afirmação internacional do futebol português, que tinha estado em grande em 1966 no Mundial, mas depois não chegava às grandes competições. O talento dos jogadores estava lá, mas faltava sempre qualquer coisa pra levar a seleção às grandes competições, fossem mundiais ou europeus.

Já voltamos à conversa com o Bruno Vieira Amaral.

Sou a Sónia Simões, jornalista do Observador. O último trabalho que fiz foi com o João Francisco Gomes. É uma investigação que vem desde 2019 e que tem mostrado várias ocultações de abusos sexuais na Igreja Católica portuguesa. Dedicamos muito tempo a este trabalho e isso só foi possível graças aos assinantes do Observador. Assinar o Observador contribui para um jornalismo de qualidade.

Chalana vai-se desmarcando, João Pinto com a esférico, a pisar, tem tigana, dá para trás para Frasco, pode lateralizar para Jaime Pacheco. Prefere meter para João Pinto, mete sobre a direita para Chalana. Chalana vai fazer o cruzamento ou vai fazer a finta, tem Domé, puxa e vai pra linha de fundo, muda de pé, dá para Jordão sozinho, remata!

Gol!

E depois chega aquele Europeu em França. Portugal tinha estado, como disseste, Bruno, 18 anos antes no Mundial de 66, a Inglaterra finalmente conseguia regressar a uma grande competição de seleções. Aqui o relato da RTP dá conta do passe de Chalana para Jordão, que marca o segundo gol para a Seleção Nacional, isto já na primeira parte do prolongamento, frente à equipe da casa, a França, num jogo de má memória. Portugal estava a vencer por 2 x 1 e a um passo da final do Europeu, os gauleses deram a volta, venceram por 3 x 2. Vivíamos naquele sábado de 23 de junho de 1984, num jogo disputado em Marselha. Bruno Vieira Amaral, há aqui um antes e depois do Europeu de 84 na vida de Fernando Chalana.

Claramente. Para já é aí que ele recebe a alcunha de Chalanix, o líder dos irredutíveis lusitanos, por causa do bigode, como é óbvio, por ser pequenino. Mas o Benfica tinha estado na final da Taça UEFA em 1983. Só que é com este Europeu que o Chalana realmente se dá a conhecer ao mundo do futebol. Ainda hoje há quem diga que a verdadeira figura do torneio foi Chalana, apesar de Michel Platini ter marcado nove gols pela seleção francesa. Isto dá a ideia do que Chalana fez nesse Europeu, mas também do pouco que se sabia sobre o futebol português, da visibilidade, quer do campeonato, quer dos jogadores portugueses na altura.

E é essa visibilidade que lhe permite também ir para o Bordéus, para a França.

E é uma pena, vista a esta distância, que ele tenha ido para o Bordéus, que era um clube poderoso na altura, mas não era o mesmo que ir para o Campeonato Italiano, que era o melhor campeonato à época, e sente-se que era um clube que não estava à altura do talento do Chalana. No entanto, as coisas também decorreram muito mal, ainda que a venda do jogador tenha servido para construir o famoso terceiro anel do Estádio da Luz.

Exatamente, essa é uma história muito interessante. A venda do Chalana permitiu financiar a construção do famoso terceiro anel do velho Estádio da Luz.

Do velho Estádio da Luz, foi uma ideia do presidente da altura, Fernando Martins. Ele fez essa escolha de vender o jogador símbolo do Benfica, que era aquele que poderia render mais dinheiro, e logo ainda por cima depois das exibições no Europeu, e com esse dinheiro da venda, poder construir o terceiro anel, tornando o Estádio da Luz num dos maiores da Europa. Pode-se dizer que foi-se a magia, ficou o cimento, foram-se os dedos ou uma mão, ou o pé esquerdo, e ficaram os anéis.

E na altura, se não me engano, foram 300 mil contos, qualquer coisa como um milhão e meio de euros.

Sim, mas que na altura era um valor.

Era um balúrdio. E no Estádio da Luz cabiam 120 mil ou um pouco mais quando apertados. Também nos recordamos daquela final do Mundial de juniores na Luz entre Portugal e Brasil.

Estavam mais de 120 mil.

Estavam. E eu era um deles. Lembro-me bem disso. Mas estavas a falar desta aventura em França. É um nome português que vai para França, para um clube importante no estrangeiro. Era algo que não era muito habitual nessa altura, mas as coisas, estavas a explicar, não correm muito bem em França, no Bordéus.

Não, as coisas não decorreram bem em França e não se sabe se foi por causa das lesões ou se as lesões foram consequência dele não estar bem, não se sentir feliz em França, mas a verdade é que nos três anos que esteve em Bordéus, fez poucos jogos. Não foi o Chalana que os franceses tinham visto no Europeu.

E no meio disto tudo, Bruno, há um caso que também nesse Portugal dos anos 80 enche páginas de revistas e na altura não estávamos muito habituados a esses casos. Eu uso aqui este plural porque já éramos nascidos. É o caso do divórcio de Fernando e Anabela Chalana. Anabela Chalana que morreu em 2017.

Sim, e houve uma altura em que o Chalana era mais conhecido como o marido da Anabela.

Exatamente.

Em França, durante o Europeu, Anabela Chalana dava entrevistas à comunicação social de outros países, opinava sobre tudo e mais alguma coisa. E quando o Chalana vai jogar para Bordéus, ela também assume um grande protagonismo. Chegou a culpar o departamento médico do Benfica pelas lesões do jogador. Enfim, eu diria que foi uma das grandes personagens do futebol português dos anos 80 e à volta do futebol português dos anos 80. E muito mais tarde, é curioso, que o próprio Chalana teve de vir dizer numa entrevista que na altura ele é que mandava, a Anabela nunca mandou em nada, porque passava essa imagem de que quem estava a controlar tudo era a mulher, Anabela Chalana. Seja como for, é mesmo uma das grandes figuras desse período.

Sem dúvida. E isso também é um período, e para os ouvintes mais novos, em que a sociedade portuguesa era muito machista. Quem mandava era o homem, nunca a mulher.

Claro.

E ela tinha esta figura proeminente. Chalana ainda passa pelo Belenses, pelo Estrela da Amadora e depois fica como parte integrante daquela equipe técnica permanente do Benfica, já depois no regresso e no fim da carreira.

Sim, mas sempre por aquilo que ele tinha sido enquanto jogador e por aquilo que ele representava. Ele marca sobretudo as gerações de jovens formados de então para cá no Benfica Uns que o tinham visto jogar e outros que só ouviram falar dele. De resto, creio que em 2008 fizeram uma grande maldade à direção do Benfica quando o expôs no papel de treinador interino a ter de dar o corpo às balas num momento difícil para o clube. Ele que tinha, de facto, um talento futebolístico enorme, mas não estava vocacionado para aquele papel. Foi penoso assistir a algumas entrevistas e conferências de imprensa de Fernando Chalana e eu acho que a culpa foi de quem o expôs a essa situação.

Ele que é um nome grande do Benfica, da Seleção Nacional, do futebol português e do futebol mundial, e que é um homem que impressiona os seus pares com o exemplo que dava, com a entrega que dava em campo.

A minha convivência com ele, as memórias que partilhámos e a influência que teve, não só na minha carreira, como na minha vida, como eu já o disse várias vezes, foi gigante.

E aqui à TVI, o Bernardo Silva, que é hoje uma estrela do Manchester City, reconhece a importância para os mais novos deste pequeno génio chamado Chalana.

É isto que eu estava a dizer. O Bernardo Silva era um daqueles jogadores formados no Benfica que já não se lembra de ter visto o Chalana jogar, mas que foi muito marcado pela figura do Chalana enquanto elemento das equipas técnicas do Benfica, porque o Chalana representava essa ideia de talento puro que os adeptos gostam e também os jogadores, os miúdos querem imitar. E Bernardo Silva, até por acaso, é um dos jogadores formados no Benfica nestes últimos anos, que mais se aproxima de um talento de um Chalana. Mas como se vê no caso dele e de outros que têm passado e saído rapidamente pelo Benfica, jogadores desse nível já não ficam muito tempo no clube, infelizmente para os adeptos.

Eu jogava sempre para as pessoas do Benfica, da Seleção. Eu sou destro. As pessoas é que não perceberam. O esquerdo é força e este vem para aqui.

As pessoas nunca sabiam se era para a direita ou para a esquerda.

As pessoas não sabiam. Eu às vezes também não sabia como é que saía daquilo. Passava.

E nesta entrevista a Nuno Luz, na SIC, Chalana dizia que jogava para as pessoas. Obviamente, era um homem do Benfica, é um símbolo do Benfica, mas todas as reações que temos ouvido desde a notícia da morte de Chalana mostram que ele era um artista do futebol e era respeitado por todos, não importa o emblema, não é?

Isto tem a ver com a personalidade de Chalana, com o talento e com a personalidade. Ele era tímido, era algo introvertido. Não era um líder de balneário, nunca foi, mas era alguém que tinha dentro dele um fogo, que é aquele fogo do talento puro, é o fogo da magia. Não era o fogo da raiva e das polémicas. Ele não alimentava esse tipo de coisas, não tinha essa personalidade. E fazia com que nos concentrássemos no importante. Os miúdos querem ser jogadores de futebol por causa de génios como o Chalana, não é por causa de presidentes ou de diretores de comunicação a mandarem bocas. E isso é que era inspirador nele. Mas, de facto, tinha uma personalidade tranquila, que muita vez a polémicas e isso faz com que também os adversários, neste momento, reconheçam a figura de Chalana.

Bruno, nós gostamos de futebol, gostamos das histórias destas pessoas do futebol, gostamos do jogo. Tu és um escritor e muito talentoso e és alguém que está sempre muito atento à forma como estamos no mundo e como nos vamos relacionando. E por vezes eu estou para mim a pensar: por que é que estes tipos que dão uns pontapés numa bola, num pedaço de couro, num relvado, nos fazem vibrar desta forma? Isto não é música, não é literatura. Que arte é esta, Bruno Vieira Amaral?

É futebol, é música, é literatura, é poesia. É algo que vale por si só. Há jogadores, por exemplo, que são pintores, mas depois temos os pintores de construção civil e depois há os Picassos. Há aqueles jogadores que são muito competentes, muito profissionais, que são aqueles que pintam paredes. E depois há os outros, aqueles que pintam os quadros para pendurar nas paredes, para se expor nos museus. E o Chalana era um destes. Eu diria até que ele era um jogador da bola, aquele jogador que jogava a bola antes de ser um jogador de futebol. E olhando para a história do futebol português e do Benfica, há grandes jogadores, jogadores que nós admiramos e reconhecemos as qualidades. E depois há aqueles jogadores que o povo não só admira, como ama. Eu creio que Chalana foi um dos últimos jogadores verdadeiramente amados pelo povo, um dos últimos jogadores verdadeiramente populares.

Obrigado, Bruno.

Obrigado eu, Ricardo.

Bruno Vieira Amaral é escritor, benfiquista, um adepto da arte, seja ela um quadro, um livro, um filme ou uma finta executada por um desportista que rodopia em campo. Na Rádio Observador temos a sorte de poder contar com o Bruno nas tardes em direto, de segunda a sexta, e em programas como "E o Campeão É" ou "Pop-Up". Esta foi a história do dia, que contou com a ajuda na pesquisa do jornalista João Santos Duarte. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia e a música do genérico do João Ribeiro. Até amanhã.