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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como os socialistas querem recuperar o poder.
O secretário-geral do Partido Socialista está certo de que pode vir a ser primeiro-ministro.
Sim, eu estou convencido cada vez mais de que isso virá a acontecer.
É uma questão de tempo.
E é por isso que eu estou tão concentrado na construção de uma alternativa que seja exequível, que seja de confiança.
Esta convicção de José Luís Carneiro foi deixada esta semana na entrevista ao Público e à Rádio Renascença. O secretário-geral do PS está convencido de que vai ser primeiro-ministro e está a preparar esse caminho. E essa estratégia não passa por derrubar o governo. Aliás, também esta semana, o líder do PS foi a São Bento começar a negociar a viabilização do orçamento do Estado, o que, a confirmar-se, permite a Luís Montenegro manter-se no poder. Pode parecer uma contradição, mas tudo isto faz parte do plano. É sobre isso que eu vou conversar hoje com a jornalista de política do Observador, a Rita Tavares. Vamos falar do mapa que o PS quer seguir, das prioridades do partido enquanto não chega lá e de qual é a pressa para ser o novo mantra dos socialistas. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 24 de julho. Olá, Rita.
Olá, Pedro.
Tu escreveste um artigo no Observador sobre este primeiro encontro entre Luís Montenegro e José Luís Carneiro para começarem a tratar de assuntos, tratarem da vida que vamos ter todos quando regressarmos das férias e, sobretudo, desta questão do orçamento do Estado.
Nós regressamos, o primeiro-ministro não.
Pois, é verdade, o primeiro-ministro não vai de férias. Este ano decidiu ficar a trabalhar aos comandos do governo, que também não está propriamente nos dias mais fáceis. E, portanto, o primeiro-ministro vai ficar aqui. Mas para além daquilo que se passou dentro dessa reunião, o que eu acho curioso no teu artigo é a forma como José Luís Carneiro parece ter uma estratégia definida de médio prazo para chegar ao poder. Quando tu falas e escreves um artigo desta natureza, falas naturalmente com as tuas fontes do Partido Socialista. E tu já tens muitos anos disto e, portanto, já sabes quando eles estão entusiasmados a falar de uma determinada coisa, quando eles estão com um sentimento um pouquinho mais irônico a pensar: "Bom, ele está a tentar esta estratégia, não sei se isto vai resultar". Quando tu estavas a falar com as pessoas que foram fonte do teu artigo, o que tu sentiste? Que havia aqui, de facto, uma energia positiva à volta do líder do Partido Socialista e do que ele quer fazer para os próximos tempos?
José Luís Carneiro é um líder que chega ao partido quando o partido está completamente na mó de baixo, com Pedro Nuno a sair de funções. José Luís Carneiro queria muito, já tinha tentado ser líder contra Pedro Nuno Santos, portanto, queria muito ser líder do Partido Socialista, conseguiu, não arrebatou o partido, não foi uma coisa que deixou o partido rendido e ajoelhado aos pés do novo líder.
Na altura, para quem não tem memória, ele foi visto sempre, até eu acho que por nós, pela imprensa, às vezes, um pouquinho como se calhar este vai ser um líder de transição, que é o que costuma acontecer nos partidos quando largam o poder ou quando falham a tentativa de chegar ao poder.
O líder fazia o caminho do deserto, a travessia do deserto da oposição e que depois quando a coisa estivesse mais favorável, seria apeado, como por exemplo, António José Seguro foi por António Costa. Mas a verdade é que com o tempo a passar, e não passou muito desde então, passou um ano desde que foi eleito líder, há um crescer. Eu não diria que tem sido José Luís Carneiro a convencer os socialistas que não eram fãs deste líder, mas a conjuntura política acaba por fazer com que alguns socialistas comecem a convencer, os tais que podiam estar menos convencidos, comecem a acreditar que talvez com este líder seja possível chegar lá, pelo fato dele ser líder, quando isto começar a correr verdadeiramente mal.
Eu faço esta pergunta, e é interessante essa análise, porque a estratégia que parece estar desenhada na cabeça do líder e dos dirigentes do Partido Socialista revela algum nível de confiança. Não se parte para uma estratégia de médio prazo, digamos assim, sem se ter uma certa confiança de que o lugar está mais ou menos seguro.
Ela fica muito revelada hoje pelo próprio José Luís Carneiro numa entrevista que deu ao jornal Público e à Rádio Renascença, em que quando é questionado sobre se acha que vai chegar a primeiro-ministro, ele diz que sim, de forma muito clara. Diz que acredita que isso vai acontecer. Portanto, José Luís Carneiro está com essa confiança. E à sua volta, ninguém acreditava que ele pudesse chegar lá e de repente começa a ver: e se isto acontecer? Porque é quem está lá, é quem está à frente. O PS está a recuperar nas sondagens, o governo tem o nível de desgaste que já é assinalável ao fim de um ano desta legislatura, mas já tinha o ano anterior. E de repente, o Partido Socialista começa timidamente a acreditar que talvez seja possível, e ainda que o líder possa não convencer todos, o ambiente político pode levar a que seja ele que esteja lá quando isto for a eleições. E, portanto, o sentimento começa a ser um pouquinho mais de confiança interna na capacidade de regeneração do Partido Socialista, ainda que haja uma grande cautela sobre a pressa. E isso é completamente generalizado. Sejam mais pró José Luís Carneiro, sejam menos pró José Luís Carneiro, no Partido Socialista está generalizada a convicção de que Este momento é um momento para o partido se reorganizar e tentar recuperar aquilo que perdeu nas últimas legislativas.
Ou seja, não ter pressa para chegar ao poder.
Não ter pressa para chegar ao poder, fazer as coisas direitinhas e não aparecer com discursos mais radicais ou com decisões mais radicais e mais extremadas. Tentar ser, que é o que o José Luís Carneiro está a tentar fazer, ser o partido confiável nesta questão, por exemplo, de se apresentar como parceiro do governo, a estratégia é apresentar-se como parceiro confiável, é a oposição ao Chega que deixou o governo na mão, por exemplo, com a reforma laboral. Portanto, o que o PS está a tentar é ganhar com isso. E essa memória ainda fresca faz com que o José Luís Carneiro avance já com este capítulo do Orçamento do Estado antes das férias de verão e consegue esta reunião com o primeiro-ministro, onde lhe põe em cima da mesa aquelas que são as condições do PS. E as condições do PS, ao contrário do que acontece noutros orçamentos, não são propriamente sobre medidas do orçamento. Talvez a única seja a questão das tempestades, do comboio de tempestades e da resposta ao comboio de tempestades. O PS tem sido muito crítico sobre a execução dos apoios e José Luís Carneiro quer medidas concretas neste orçamento sobre isso, mas depois é tudo o que ele não quer que aconteça politicamente.
E essa é a parte interessante, que ele vai para esta reunião para discutir o orçamento, para, como tu dizes no artigo, colocar um preço pela viabilização do orçamento do Estado, mas aquilo que ele põe como condições são algumas matérias que não estão sequer a ser discutidas agora.
E que não vêm do orçamento nem pouco mais ou menos.
Exatamente. Condições preventivas. Queres explicar um pouquinho quais são?
Certo. É a questão da revisão constitucional, em que há um pré-acordo entre PSD e Chega sobre o calendário, ou seja, não ser discutido agora, mas mais adiante. Mas o PS não quer que isso seja discutido e que se for discutido, que o PSD não aceite fazê-lo sem o Partido Socialista e faça uma revisão constitucional à direita. Há uma maioria constitucional nesta altura na Assembleia da República, que é à direita, portanto, pode ser feita pela primeira vez sem o PS, sem um dos grandes partidos, e o Partido Socialista quer garantir que é parte de uma revisão constitucional para travar, que possam ser, de alguma maneira, tocados os pilares, os direitos fundamentais que estão inscritos na Constituição. Esse é o ponto mais central. Depois está também a reforma do sistema de pensões, em que o Partido Socialista teme que haja aqui uma tentativa de capitalização do sistema e, portanto, quer afastar que essa reforma possa avançar nesta legislatura. Estes são dois temas importantes, há outros, são dois temas muito importantes, mas são temas que se nós olharmos para eles, um deles, que é a revisão constitucional, o primeiro-ministro disse, ainda no debate do Estado da Nação, garantiu que não está a acordar nada com o Chega ou que tem um acordo de calendário, que não tem nada acordado com o Chega. E na questão de uma reforma mais estrutural da Segurança Social, a ministra do Trabalho já disse que isso a acontecer de forma mais estrutural, acontecerá apenas na próxima legislatura. Portanto, são dois temas que facilmente o governo diz ao Partido Socialista que não vão estar em cima da mesa.
Então o objetivo é o quê? É cantar vitória sobre coisas que na verdade não estavam a ser negociadas ou é fechar portas, garantir que as portas estão mesmo fechadas e que não vão ser abertas?
É ter ganhos de causa. Aqui é claramente apresentar algum ganho numa negociação política. É importante para o Partido Socialista, numa altura em que está a batalhar por ser o parceiro confiável e alguém em que os portugueses podem confiar para manter os pilares da Constituição, neste caso, para manter o sistema público nas pensões, para manter o Serviço Nacional de Saúde, porque a Lei de Bases da Saúde é outro dos temas que o PS não quer que seja revisitado nesta legislatura com uma maioria de direita na Assembleia da República. E portanto, para o seu eleitorado, e alargando também ao eleitorado do centro, mostrar-se como um partido que é um partido que consegue manter a moderação e que consegue conter o PSD para não ir coligar-se e fazer parcerias com o Chega. E, portanto, o que o José Luís Carneiro está aqui a tentar é fazer esta recuperação do Partido Socialista. Estas coisas têm sempre um problema, que é quando as sondagens, e começa a haver assim um cheiro a que o poder pode estar ali ao virar de alguma esquina.
A tranquilidade começa a freviar.
Começa a freviar e pode acontecer muita coisa. Um líder começar a ter mais pressa do que o José Luís Carneiro quer ter ou ser obrigado, até internamente, a ter mais pressa porque alguém de repente aparece a poder fazer-lhe sombra e isso, em qualquer partido que está na oposição, não é uma coisa que se possa descartar nunca.
Mas se isso não acontecer, há uma espécie de calendário na cabeça dos socialistas e do José Luís Carneiro, que não passa, curiosamente, por mandar abaixo este governo. Passa por deixá-lo, pelo menos é isso que se retira do teu artigo, deixá-los queimar sem lumbrando.
Cair de podre.
Exatamente. Porque é boa para isso, é propícia para isso, com as crises que estão instaladas à volta de alguns ministros deste governo.
Sim, há muitos socialistas com quem se vai falando a comparar este momento a alguns momentos do governo Pedro Santana Lopes. É curioso que saltem para Por cima da maioria absoluta de António Costa que foi minada por casos e casinhos. Era assim que era conhecido na altura toda aquela sucessão de demissões que existiu no governo da maioria absoluta.
Exatamente.
Mas a memória dos socialistas é seletiva. Mas é evidente que depois há socialistas que lembram que o fato de haver ministros já tão fragilizados no governo pode não ser necessariamente mau, na medida em que isso vai mostrando o desgaste, vai cavando ainda mais o desgaste do governo. Há um dirigente socialista que fala conosco, que diz, por exemplo, quanto mais tarde melhor, e há um alto dirigente que tem uma expressão curiosa quando fala no encontro entre os dois e se tudo já está feito para de repente estarem de acordo em tudo. O que essa alto dirigente diz é que em relação à AD só não se aplica a pena de morte, que é como quem diz, há aqui esta escapatória final, este golpe final que pode ser dado sobre um governo, que há um acordo tácito, ninguém fala nisso, mas há um acordo que entendendo que os portugueses não querem eleições tão cedo, ninguém agora vai pôr-se a deitar o governo abaixo e a avançar para esse cenário de instabilidade política.
Portanto, basicamente aquilo que tiramos é: os portugueses não querem instabilidade política neste momento, não querem eleições, é isso que dizem as sondagens, mesmo que sejam muito críticos do governo. O Partido Socialista está a ouvir isso, está a fazer o seu papel para garantir que o governo permanece no sítio, até porque isso, de acordo com os socialistas, é uma coisa que lhes pode dar bastante jeito.
Sim, enquanto arrumam a casa, enquanto tentam recuperar a confiança, a tal confiança dos portugueses, porque é bom lembrarmo-nos sempre que o Partido Socialista vem de um processo traumático grande, que ainda não está ultrapassado. Há, aliás, algum formigueiro interno sobre a necessidade de se fazer um debate até ideológico do partido e sobre onde é que o partido se deve posicionar. José Luís Carneiro tem passado por cima disso tudo, mas é um processo que deixou muitas mazelas internas e que criou alguma desconfiança também dentro do partido para a sociedade e da sociedade para o partido, e o partido está a tentar fazer esse caminho de buscar novamente os seus eleitores e de conseguir ir além disso e de convencer aqueles que entenderam votar na AD e até alguns do eleitorado que fugiu para o Chega. Portanto, o Partido Socialista tem um caminho longo para percorrer. Por mais pressa ou por mais vontade que tenha de voltar ao poder, sabe que tem que ser com pés de lã e também sabe outra coisa, que eu acho que André Ventura também já percebeu, que é não convém ser quem está com o dedo no gatilho e a disparar sobre um governo, porque isso é altamente penalizador em eleições.
Muito bem. Rita, obrigado.
Obrigada.
Hoje conversei com a jornalista do Observador, Rita Tavares, que escreveu um artigo sobre o preço que o PS fixou ao governo para viabilizar o orçamento. Pode parecer cedo quando estamos em julho e o orçamento só chega em outubro, mas na verdade, José Luís Carneiro está a jogar na antecipação e esta negociação é só uma etapa num projeto de médio prazo. Claro que há sempre quem lembre que em política, em Portugal, estratégias a mais de seis meses são sempre arriscadas. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benvides. Bom fim de semana.