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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Erdoğan, o homem que Putin ainda ouve às vezes. Vladimir Putin está de pé, com as mãos entrelaçadas uma na outra, repousando à frente da barriga. Vai ruminando com a boca enquanto espera. Dá claros sinais de impaciência. Há um ou outro franzir de sobrancelha ocasional, até que quase um minuto depois, avista finalmente o homem que aguardava impacientemente a vir na sua direção. Desentrelaça as mãos, abre e fecha os braços, como que a dizer: "Até que enfim!" Em direção a Putin, naquele dia em Teerão, vai Recep Tayyip Erdoğan, o presidente turco. Quem tem boa memória viu neste gesto uma pequena vingança. Há dois anos, Putin deixou Erdoğan e toda a sua comitiva à espera durante dois minutos. O presidente turco teve mesmo de se sentar e a televisão russa ainda ironizou com o cronómetro. Putin e Erdoğan podem não morrer de amores um pelo outro, mas tanto um como outro são homens pragmáticos e sabem que em diplomacia, se os dois puderem tirar proveito, então vale a pena engolir um ou dois sapos de vez em quando. Depois de Erdoğan ter deixado Putin à espera em Teerão há pouco mais de duas semanas, os dois voltam agora a encontrar-se na cidade russa de Sochi. Pelo meio, a Turquia, que desde o início da guerra na Ucrânia tenta agir como mediador, conseguiu um importante sucesso diplomático: o acordo pra saída de cereais dos portos ucranianos. A Ucrânia vai estar certamente em cima da mesa neste novo encontro, mas não só. Erdoğan tem dado sinais de impaciência para se aventurar numa nova ofensiva militar na Síria e precisa que, no mínimo, Moscovo feche os olhos. E Putin, isolado por sanções internacionais, quererá certamente garantias de beneficiar de um aliado ao nível económico. O que esperar então deste novo encontro entre os dois presidentes? Como é que a Turquia e Erdoğan conseguiram um papel tão central na mediação da guerra na Ucrânia? E que lucros procura também Erdoğan obter do ponto de vista interno? Hoje falamos com o jornalista do Observador, José Carlos Duarte. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia. Bem-vindo, José Carlos Duarte.
Olá.
Este papel que a Turquia tem estado a ter na mediação da guerra na Ucrânia pode surpreender muitas pessoas. Como é que a Turquia surge com este protagonismo e consegue posicionar-se desde muito cedo como principal mediador entre a Ucrânia e a Rússia?
A Turquia tem mantido sempre uma posição ambivalente no conflito que opõe a Ucrânia à Rússia. Se por um lado, isto é importante realçar, faz parte da NATO e, portanto, tem aqui uma espécie de responsabilidade que foi assumida pelos 30 Estados membros da aliança militar, por outro, tem tido uma reação bastante menos agreste do que propriamente os outros países. Por exemplo, a Turquia nunca aplicou qualquer sanção contra a Rússia, mas ao mesmo tempo apoia a Ucrânia, enviando, por exemplo, drones para lutar contra as forças russas. É uma posição muito complicada que resulta de um jogo de cintura bastante bem alinhado de Erdoğan.
E que desde cedo, Erdoğan tem tentado posicionar-se nesse papel interventivo e de mediação. De resto, Erdoğan e Putin estiveram juntos há muito pouco tempo, há apenas duas semanas. Por que este novo encontro tão cedo e o que é que será que podemos esperar daqui?
Putin e Erdoğan estiveram juntos há duas semanas e esta sexta-feira vão voltar a encontrar-se em Sochi, na Rússia, e prevê-se que os dois líderes discutam a questão da Ucrânia, como é que está a correr a ofensiva russa no país e também vão averiguar como e se está a funcionar o sistema criado para exportar os cereais ucranianos.
A beacon of relief in a world that needs it more than ever. I want to recognize and thank all those who helped make it happen. To our hosts, President Erdoğan and the government of Türkiye. Your facilitation and persistence have been essential through every step of this process.
E também vão discutir a questão da Síria, nomeadamente uma possível ofensiva militar turca no norte da Síria, que teria sempre ter a autorização da Rússia.
Good evening. The long-planned Turkish military operation in northeast Syria has been launched
Kurdish forces, which control the area, are reporting heavy airstrikes and the start of a ground offensive amid widespread panic.
Erdogan tem dado sinais de estar prestes a avançar com uma nova operação militar no norte da Síria contra as milícias curdas, depois daquela que foi lançada em 2019. Mas a Síria tem sido um teatro onde a Turquia e a Rússia têm até estado em lados opostos.
Exatamente. A Rússia é, neste momento, a maior aliada de Bashar al-Assad e do seu regime e controla o espaço aéreo da Síria. Ou seja, qualquer ofensiva militar da Turquia na Síria teria de ter autorização da Rússia, caso contrário, não poderia realizar-se. O Erdogan, apesar de ter apoiado uma facção diferente da que o Putin apoiou na guerra civil síria, agora terá de tentar chegar a acordo com o líder russo para conseguir realmente desencadear esta operação militar. Não se sabe no que é que Erdogan vai ceder para conseguir alcançar o seu objetivo, mas acho que em Sochi vamos ter mais ou menos uma ideia daquilo que vai acontecer.
Possivelmente, esta vai ser uma das questões nas quais Erdogan vai insistir em Sochi também, não?
Sim, será talvez das principais questões, juntamente com a questão ucraniana.
E o que é que a Rússia pode eventualmente pedir como moeda de troca para dar luz verde, digamos assim, ou no mínimo, fechar os olhos a uma possível intervenção militar turca na Síria?
Ainda não é bem claro, não há nada que antecipe o que poderá Putin ou não pedir, mas suspeita-se de que, tendo em conta as circunstâncias económicas e as sanções de que a Rússia é alvo, que a Turquia se calhar nunca aplique nenhuma sanção contra a Rússia ou que ajude o sistema financeiro russo a conseguir encontrar uma escapatória a toda a política do Ocidente. Também poderá ser num acordo bilateral em liras e rublos, escapando ao dólar, uma vez que os bancos russos foram isolados do sistema bancário internacional.
2023 seçimlerin de bu zamana kadar girip galip çıktığımız tüm seçimlerden daha önemli görüyoruz. Biz millete hizmet için tabii rakip olmayınca kendimizle yarışıyoruz.
Falemos um pouco então também de Erdogan. No próximo ano há eleições na Turquia e será um ano também muito importante para o país, porque se assinalam os 100 anos da República Turca. Que ganhos internos eventualmente tenta também obter Erdogan ao posicionar-se ou tentar posicionar-se como um líder com protagonismo internacional?
Os ganhos internos são no sentido que a maior parte da população turca apoia uma posição neutra no conflito que opõe a Rússia à Ucrânia. Daí que esta tentativa de mediação é geralmente bem vista pela maioria das pessoas. E também há sempre a ideia de que com o ganho de protagonismo poderá vir um ganho nas urnas, um ganho de reputação dentro da Turquia. Já relativamente à Síria, e como já falámos anteriormente, Erdogan vai tentar explorar o assunto para tentar unir o país em torno de um objetivo comum, no momento em que a conjuntura interna não é de todo favorável.
Turkey's sky-high inflation rate continues to climb. Prices in the country rose by almost 70% in April, according to new official statistics. The new figure gives Turkey the dubious honor of having the sixth highest inflation rate in the world.
Falando precisamente da situação interna e uma das principais questões neste momento diz respeito à economia. Quais então os principais desafios internos que o presidente turco, Erdogan, enfrenta neste momento?
Neste momento, Erdogan enfrenta vários desafios, principalmente no âmbito económico. A Turquia está a enfrentar uma inflação galopante. Os últimos dados dão conta de que o país registou um aumento de 80% da taxa de inflação, o que tem impacto, obviamente, no custo de vida e também na qualidade de vida dos cidadãos. As previsões económicas também não são favoráveis para a Turquia. A questão da guerra na Ucrânia tem efeitos em todo o mundo e o país não é exceção, e é expectável que a inflação continue a subir e que não estabilize tão cedo. Além disso, não só a questão da economia também tem a ver com a política cambial. Erdogan argumenta que as altas taxas de juro são a principal causa dos problemas económicos do país, o que faz com que, em vez de permitir que o banco central aumente as taxas para controlar a inflação, o governo prefira usar as reservas cambiais para tentar estabilizar os mercados. Isto faz com que a lira, que é a moeda turca, desvalorize, o que é mau para a população, porque o custo de vida aumenta e não consegue equilibrar-se, não consegue chegar a um patamar de moeda estrangeira. Por exemplo, a moeda passou de valer em 2019 $1 equivalia a 6 liras, em 2022 $1 equivale a 17 liras, ou seja, é uma diferença bastante considerável.
É uma situação desafiante para quem procura no próximo ano uma reeleição. No teu artigo abordas também a questão das sondagens. Depois de duas décadas no poder de Erdogan, em parte como primeiro-ministro e depois também como presidente, a sua reeleição no próximo ano pode estar em perigo?
Sim, segundo as sondagens, a situação não é favorável para Erdogan. Apesar de haver algumas que lhe dão uma ligeira vitória, algumas dão mesmo uma vitória à oposição, que para estas eleições decidiu unir-se em torno de um candidato, ainda não se sabe qual é. Apesar de todas as divergências ideológicas, a oposição vai estar mais unida e vai apresentar um candidato único que poderá defrontar e que poderá eventualmente derrotar Erdogan. Quer para o ano serão realizadas duas eleições, as presidenciais, que são as mais importantes, já que o regime turco é agora presidencial, e aqui será mesmo realmente onde se verá a força de Erdogan, e também as parlamentares. Nestas últimas, as sondagens também não são favoráveis para o presidente turco e para o seu partido, com a oposição a ganhar cada vez mais força.
Obrigado, José Carlos Duarte.
Obrigado.
José Carlos Duarte é jornalista do Observador e assina um artigo onde explica ao pormenor o papel de Erdogan e da Turquia como mediadores do conflito na Ucrânia. Esta foi a história do dia. Neste episódio usámos também sons da BBC e da televisão russa. A sonoplastia é do Diogo Casinha e a música do genérico do João Ribeiro. Tenha um bom dia.