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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Há pedidos de mudança e há também medo em Angola.

Há dois anos estive consigo aqui em Luanda e conversámos sobre como é que estava Angola. Dois anos depois, senhor José Teixeira, como é que está a vida aqui em Luanda?

Dois anos depois, cada dia que passa está mais apertado, está mais difícil. É o descontentamento do povo angolano com o presidente, com a governação do presidente da República.

Por isso, a vida piorou em geral em termos de preços, não é? Por exemplo, como é que está a coxa da galinha?

Acredito que a caixa neste momento deve estar a 9 mil kwanzas, mas no passado era 1.500, no tempo do ex-presidente.

Está a falar de José Eduardo dos Santos.

Afirmativo, estava a 1.500 uma caixa de coxa. Neste momento, está por aí a 9 mil kwanzas. Só para ver a diferença.

Mas nada melhorou com João Lourenço?

O João Lourenço começou bem. Mas neste momento, ele ficou mais focado nas perseguições da família do Marimbondo e algumas pessoas do mesmo partido e perdeu-se na sua governação.

Mas ele não fez um bom trabalho, por exemplo, na defesa da saúde em termos de Covid-19?

Neste lado, temos que reconhecer que fez. Abriu muitos hospitais, está a construir muitos hospitais. Mas não é só. Em termos de alimentação, que é o que o povo mais precisa, baixar os preços, aí é que está mesmo tudo mal.

E acha que o que é que vai acontecer no dia 24?

Acredito que o regime vai cair.

A sério? Mas o MPLA tem uma máquina muito forte.

A UNITA, neste momento, também com este novo presidente, o Adaberto, está com muita aceitação e principalmente em Luanda, estão muito descontentes com a governação do presidente e querem mesmo uma mudança.

A 24 de agosto, os angolanos são chamados às urnas. Vão essencialmente escolher um de dois grandes partidos, o MPLA, no poder desde a independência, ou a UNITA, o opositor derrotado na guerra civil. Há queixas de fraude de um lado e garantias de transparência do outro. Há pedidos de mudança, mas também receio sobre o dia seguinte às eleições. Vou conversar com Dulce Neto, enviada especial do Observador a Angola. Há dois anos, a Dulce entrevistou José Teixeira, que reencontrou agora em Luanda. É um motorista daquelas aplicações que funcionam como a Uber ou a Bolt. No arranque deste episódio, ouvimos um excerto editado dessa mesma conversa. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Dulce.

Olá.

Onde é que estás neste momento?

Estou no centro de Luanda, em Maianga.

Vamos olhar primeiro para um panorama mais geral. Nestas eleições, quantos partidos concorrem?

Partidos são sete e uma coligação. A UNITA, o MPLA, a Casa-CE, a FNLA, depois temos o Partido Humanista de Angola, que é um partido muito recente, que candidata uma mulher a presidente da República. Temos o PN Jango, a APN, o PRS.

Mas o MPLA, o partido do poder, é o principal favorito.

Não se pode dizer que seja o principal favorito. A julgar pelo que se passa nas ruas, já que as sondagens são pouco credíveis e quase inexistentes, na verdade, será a UNITA o mais favorito. Mas depende muito, porque se nós olharmos para os grandes comícios, aquilo a que o MPLA chama os grandes atos de massa, são multidões que estão lá. Por isso, eu creio que é muito complicado, neste momento, dizer que há um favorito, na verdade. Em rigor, acho que não podemos dizer que há um favorito. O que podemos dizer é que o MPLA é o partido que está no poder há 47 anos e que tem uma excelente máquina e uma máquina poderosa eleitoral montada. Mas dizer que é o favorito, acho que não podemos dizer. O que acha deste governo?

Do governo, o que nós achamos, tudo tem o seu tempo determinado. Quando as coisas determinam, você tem que abandonar o lugar para o outro. Você pode ficar 40, 50 anos, mas chegará o tempo que tem que abandonar o lugar.

E esse tempo é agora?

Pode ser agora, sim. Pode ser agora.

Acha que vai acontecer?

Pode acontecer. Eu vim do Caxito ontem, da província do Bengo. O povo está quase desaturado com tudo.

Bairro não tem hospital, não tem escola. Os filhos não estudam, não têm emprego. Alguns trabalham, mas não têm salário. Isso leva à frustração de muita população angolana. Razões pela qual, de tudo quase que eu ouvi, só querem que haja mudança dia 24. Eu estava aí vendo um pouco como estão andando. Só queremos a mudança, mais nada.

Dulce Neto, este senhor com quem falaste no município do Cacuaco, fala numa necessidade de mudança em Angola. Esta é uma posição que encontraste também noutras conversas?

Sim, o senhor Augusto Sapalalu, de 46 anos, foi muito afirmativo na necessidade de mudança. Mas, por exemplo, uma outra senhora com quem eu falei também no Cacuaco, a Isabel, falou da mesma necessidade. Ela referiu a existência de crianças com fome. Ela falou muito na fome. Aliás, várias pessoas têm falado muito na fome, de pessoas que têm que ir buscar comida aos caixotes do lixo à procura de restos. E ela dizia que sim, que ia haver mudança e que acreditava que ela iria acontecer, que entregava tudo nas mãos de Deus, mas que ela iria votar e ia fazer a parte dela.

Pessoas que passam momentos difíceis, não têm nada pra comer, crianças mata bicho 11 horas, 12 horas. Isso é o quê? Temos que fazer uma mudança, uma mudança mesmo drástica pra esse país.

E acha que isso vai acontecer?

Não sei, só Deus. Vou entregar tudo na mão do Senhor.

Mas vai votar?

Vou votar.

Em Angola, já o disseste, Dulce, não há sondagens credíveis, mas será pouco provável uma derrota da máquina do MPLA, do presidente João Lourenço?

É muito difícil dizer se é provável uma derrota ou não do MPLA. O MPLA é um partido do poder. Aliás, hoje João Lourenço dizia precisamente isso: "Nós, MPLA, somos poder." Tem uma larga experiência, tem uma boa máquina montada, mas tem vindo a perder muita popularidade. João Lourenço, sobretudo, tem perdido muita popularidade face à crise econômica, à maneira como ele geriu a luta contra a corrupção e, nos últimos tempos, aquilo que é visto muito aqui como uma perseguição à família de José Eduardo dos Santos e à maneira como José Eduardo dos Santos foi tratado na sua reta final. E isso trouxe algum descontentamento generalizado, do que se percebe conversando com as pessoas. Mas daí a pensar-se que será derrotado, há muitas dúvidas, há muitos pontos de interrogação. É muito cedo para se perceber o que vai acontecer. Há sondagens para todos os gostos, apesar de elas estarem proibidas por lei. Há algumas sondagens que vão saindo, algumas dão a vitória ao MPLA. A UNITA também já fez circular uma outra sondagem em que era o contrário, em que era a UNITA que ganhava. É muito difícil perceber, neste momento, quem é que vai ser o vencedor.

Mas pegando nisso que falavas, desse combate de João Lourenço, que chegou com promessas de limpeza e de luta contra a corrupção e desse embate público com a família do José Eduardo dos Santos, e isso é um bom exemplo dessa tentativa de mexer no regime em Angola. Os angolanos não são sensíveis a esses sinais ou esses sinais causam mais impacto cá fora do que aí em Angola?

O que eles me dizem é que João Lourenço começou bem, mas depois continuou mal. Ou seja, eles sentem que o combate à corrupção foi muito direcionado para a família Eduardo Santos e a família biológica e a não biológica, no sentido dos amigos, do inner circle. Eles sentem isso. E depois há uma coisa que se sobrepõe a qualquer luta contra a corrupção, que é o pão na mesa, que é a fome, que é a profunda crise econômica que o país atravessa. Eles dizem que, por exemplo, ao lidar com a Covid, que ele esteve bem, que João Lourenço e que a governação esteve bem, mas que há aqui uma desesperança muito grande. E esta ideia de que nada mudou, em cinco anos, para melhor. Queixam-se também de que há um cercear consecutivo de alguns direitos humanos, como o direito à liberdade de expressão, o facto da liberdade de imprensa e dos meios de comunicação social estarem, todos os públicos estarem completamente controlados, como eles referem, alguma repressão policial, a existência de presos políticos neste momento. Isto tem causado um grande desgaste e há que ter aqui em conta uma coisa muito importante nestas eleições, que é a população jovem. Metade da população angolana é jovem e o desemprego nesta faixa é de cerca de 60%.

Eu faço trabalho de mototáxi

Já há um bom tempo. Isso é que tem sustentado a mim e a minha família também.

E são eles, sobretudo, que estão muito apostados em mudar. Eles falam muito sempre em mudar. Aliás, eles dizem: "Por que não fazer uma experiência?" O que eu sinto muitas vezes é que não vão votar na UNITA por ser a UNITA, mas porque é preciso uma alternativa, é preciso mudar, é preciso experimentar, é preciso dar oportunidade a outros, que a democracia não é feita de um partido só.

Eu nunca tive aquela iniciativa, aquele princípio de votar. Mas desde que eu comecei a encarar o país e ouvir os outros que tenham votado pra escolher o seu presidente, e o mesmo presidente fazer algo que o povo quer, e que depois, ao correr do tempo, isso não acontece, eu fiquei revoltoso. Então disse: "Não, eu esse ano também tenho que votar, porque tenho que escolher o meu presidente."

Mas não costuma votar?

Não tenho votado.

Idilse, estamos aqui a ouvir Manuel Fernandes, é um dos jovens com quem falaste no Cacuaco, município nos subúrbios de Luanda, e é habitualmente apresentado como um bastião da UNITA. No dia 24, e já explicaste, muitos vão votar, mas não se sabe quantos. Há ainda uma névoa de desconfiança em relação à possibilidade de fraude eleitoral. O que está a ser feito por parte do Estado angolano para tentar evitar que exista uma fraude?

O Estado angolano tem sistematicamente repetido que as eleições vão ser credíveis, que tem toda uma máquina montada, e bem montada e oleada, e que o facto de não ter publicado os cadernos eleitorais, não ter afixado os cadernos eleitorais, não é razão para isto, uma vez que as pessoas podem saber em que mesa é que vão votar e saber onde é que os outros vão votar, etc. A existência de muitos mortos nas listas também consideram que não é um problema, porque os mortos, como disse João Lourenço, não vão ressuscitar para votar. Hoje mesmo, no Cacuaco, aquele senhor Augusto referia que havia pessoas que estavam a ser convocadas pra votar, ou seja, que lhes deram já a indicação da mesa de voto deles e que é a oito, 15 km de distância, e eles não têm dinheiro pra pagar táxi, por isso não entendem por que vão votar tão longe e vêm logo segundas intenções.

Já batota, porque essa minha cunhada aqui, vive aqui, a casa é aqui. O nome saiu pra ir votar lá na Vidro, lá no Huako. Tem alguns que vivem aqui na Cerâmica, o nome saiu pra ir votar lá no Bengo. Será que a CNE vai garantir transporte?

Mas o governo ontem, por exemplo, recebeu o corpo diplomático residente aqui em Luanda, no Centro de Escrutínio Nacional, que é o centro que está no centro, desculpa a repetição, desta desconfiança de que as eleições serão justas, livres e credíveis. Por outro lado, houve um relatório de um organismo internacional que também pôs isso em causa. Por isso, está aqui um certo caldo de suspeição, por um lado, e de tentar afirmar que tudo está controlado e que tudo será tratado da melhor forma. Isto apesar do número de observadores ter diminuído de 3000 para 2000 este ano, das ONGs terem uma limitação de só poderem ter três representantes por província. Estamos a falar em mais de 26 mil mesas de voto, por isso muito difícil de fiscalizar. Só com três por província é muito difícil de acompanhar. Por isso, há aqui todo este clima de suspeição que pode vir a ser perigoso caso os resultados não sejam aqueles que uma ou outra parte esperam.

Precisamente, Dulce, tu escreveste um especial que publicámos esta semana no Observador, em que falavas dos receios sobre o dia seguinte.

Então e se não aceitam o resultado, o que é que vão fazer?

Vamos reivindicar.

Na rua?

Na rua, sim. Se nos mata, nos mata mesmo, porque estar em casa vai nos matar, estamos a morrer. Se é na rua que nós vamos morrer, a morrer é mesmo, não tem diferença. Vamos sair à rua, vamos reivindicar, sim, senhor, vamos reivindicar, porque ele já está batotando agora. A batota é agora também, não no dia das eleições.

E Augusto Sapalalo dita esta frase, que é também uma espécie de grito de que o povo vai pras ruas. Isto é mesmo um cenário credível?

É um cenário credível, o que não significa que seja um regresso ou que seja um cenário tão gravoso ou tão trágico como foi o de 1992, quando a UNITA não aceitou os resultados e a guerra recomeçou. Ninguém quer guerra, ninguém quer o regresso a uma guerra, o que também não é provável, porque só há uma parte que tem armas. A UNITA não tem armas, por isso a questão não se coloca Mas que há um grande desejo de mudança, e que há um grande clima de suspeição, e que o facto da UNITA e da oposição estarem a apelar para "votou, sentou", o governo estar a dizer: "Votou, vai para casa", a Comissão Nacional de Eleições estar a dizer: "Quem ficar pode ser presa, pode ser detida". Falou mesmo com a Procuradoria-Geral da República. Isto aliado à grande expectativa, à grande frustração, por outro lado, com a atual situação económica. Está aqui armado, digamos assim, um cenário que pode ser explosivo, mas que pode não explodir. A UNITA tem tido muito cuidado em não apelar a qualquer insurreição, a qualquer confusão, a qualquer protesto. Repara que estão multidões com a UNITA e com o MPLA, muita gente mobilizada e tem sido uma campanha pacífica. Apesar de tudo, tem sido uma campanha pacífica. O que me dizem também é que pode haver problemas, sim, durante algum tempo, mas que depois as coisas irão serenar. Mas frases como a do senhor Augusto Sapalulu, de facto fazem-nos temer e fazem-nos pensar no que poderá vir a acontecer.

Dulce, estiveste em Luanda há dois anos, em trabalho aqui para "O Observador". Dois anos depois, como é que reencontras Luanda? Como é que encontras a cidade?

Cheia de bandeiras. Ontem eu não vi nenhuma bandeira da UNITA, mas hoje já vi várias bandeiras da UNITA, quando vinha do Cacuaco, e de outros partidos também. De uma maneira muito curiosa, há postes de eletricidade onde as bandeiras coabitam. Tens uma bandeira do MPLA e uma bandeira da UNITA a esvoaçarem juntas. Mas fora este cenário, não noto uma grande diferença na cidade. Noto, sim, as pessoas mais desiludidas, mais cansadas, mais revoltadas e a falarem sempre que nada mudou e que há fome, que há desemprego e que não veem futuro pela frente. Isso sim.

Até o ano passado, ainda havia pessoas que morriam de fome, por não ter nada para comer. Fazendo um paralelismo do que acontece no sul de Angola, aqui na capital, que é a capital do país, é muito comum hoje você ver pessoas sãs, que estão numa situação de saúde sã, a ter que recorrer aos contentores de lixo para procurar o que comer, por causa do desemprego, que ficou cada vez mais acentuado, por causa das dificuldades que ficaram cada vez mais acentuadas e as pessoas para sobreviver, muitos recorrem aos contentores de lixo para encontrar restos de alimentos que as pessoas vão deitando.

Isto que o Simão Wassi nos diz aqui é muito falado, é muito repetido, e não só com as pessoas mais pobres e mais desfavorecidas, mas outras pessoas de classe alta também me contaram que têm visto pessoas nos caixotes do lixo. E não é deste ano. Ou seja, que é uma situação que se tem vindo a degradar. E não são pessoas loucas, como eles dizem. São pessoas que estão com as suas capacidades mentais intactas, sem qualquer tipo de problema, mas que de facto não têm o que comer.

Obrigado, Dulce.

Obrigada eu.

A Dulce Neto é a editora-executiva do Observador e a nossa enviada especial a Angola. Há muito que acompanha a realidade angolana e conhece bem os protagonistas da história de Angola. A Dulce Neto é autora de um dos mais completos perfis de José Eduardo Santos, que publicámos recentemente no Observador, e foi com a Dulce que gravei os dois primeiros episódios da série de podcast "A Corte de Luanda", que está disponível no site do Observador e também nas aplicações de podcast mais usadas. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Até segunda.