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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Lula poderá vencer à primeira volta?
O PL divulgou uma nota, tem duas páginas, em que afirma haver uma série de falhas no TSE que poderiam afetar o resultado das eleições.
É mais um caso na campanha eleitoral brasileira, na última semana de campanha. Uma alegada auditoria revelada pelo PL, o Partido Liberal, ao qual pertence Jair Bolsonaro, levanta sérias dúvidas sobre o Tribunal Superior Eleitoral e o voto eletrônico. Aquele órgão responde dizendo que são afirmações falsas e mentirosas, sem qualquer amparo na realidade, e acaba por remeter o documento para o inquérito às notícias falsas. O presidente deste Tribunal Superior Eleitoral, que gere todo o sistema, Alexandre de Moraes, fala aos jornalistas no âmbito de uma visita feita pelas candidaturas à sala para onde convergem os resultados das eleições. Diz o juiz que não há fraude.
A partir do momento em que cada urna eletrônica é finalizada, já sai o boletim de urna com os votos, isso entra no sistema e esse sistema faz a totalização a partir do programa que nós mesmos, e vocês acompanharam, lacramos as urnas no dia 2 de setembro. Ou seja, não há participação humana nisso.
Os brasileiros são chamados às urnas este domingo e a maioria vai escolher entre Lula e Jair Bolsonaro, o atual presidente. Porém, a presença de outros candidatos na corrida pode obrigar a uma segunda volta, um segundo turno, como se diz no Brasil. Neste episódio, vou conversar com o professor Antônio Lavareda, que foi nosso convidado no final do mês de julho. Antônio Lavareda é cientista político, sociólogo, professor na Universidade de Pernambuco e ainda o presidente do Conselho Científico do IPESP, o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas. Eu sou Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, professor Antônio Lavareda.
É um prazer conversar de novo com você, Ricardo.
Conversamos aqui, precisamente na história do dia, há dois meses, mais dia, menos dia. Nestes 60 dias, mudou muita coisa aí no Brasil?
Do ponto de vista da campanha eleitoral, não houve grandes mudanças, Ricardo. Dado que você tem uma eleição singular, na qual um presidente, que como tal já está no poder há quase quatro anos, enfrenta um ex-presidente que esteve no poder durante oito anos, as avaliações do desempenho de ambos, já estão bastante consolidadas. Já estavam assim mesmo antes da campanha. De sorte que não há grandes modificações das atitudes dos eleitores em relação aos dois. Nos últimos dias da campanha eleitoral, o fato novo, que pode ser assim chamado, é que muitos apoios que estavam previstos para chegarem a Lula no segundo turno, foram antecipados.
Eu sempre fui contra o voto obrigatório. Não sou mais obrigado a votar, mas vou às urnas votar no Lula.
Lula is a president, a candidate, and he should be a shoe-in because he is tried, true, and trusted by the people of Brazil.
Então, muitas pessoas que pretendiam declarar apoio a ele apenas num eventual segundo turno contra Jair Bolsonaro, anteciparam essas declarações e isso ocasionou uma sequência, uma onda de apoios, que obviamente vai disseminando a ideia, vai consolidando a ideia de que há uma chance razoável, bastante razoável, de vitória no primeiro turno. Embora num país como o Brasil, 156 milhões de eleitores, país muito heterogêneo, etc, não é frequente, nunca foi o modelo predominante, a eleição ser resolvida em turno único. Das oito eleições que nós tivemos, Ricardo, só em duas delas o presidente, o então Fernando Henrique Cardoso, o candidato, se elegeu uma vez, em 1994, no primeiro turno, e se reelegeu também em 1998, e nos dois momentos por margem relativamente reduzida, 54% da primeira vez, 53% da segunda, dos votos válidos.
Pegando no que está a dizer, olhando para as pesquisas, as sondagens, como lhes chamamos aqui em Portugal, Lula continua na frente. Em sua opinião, o que é que poderá ser determinante para uma vitória já neste domingo?
O último debate, o debate da Rede Globo, no último dia de campanha, esse debate com certeza terá consequências. E entre essas consequências, nós podemos eventualmente ver se será Se tornará mais possível a eleição ser resolvida já na primeira volta ou se, dependendo do desempenho do ex-presidente Lula, essa eleição fica com uma cara, com um jeito de disputa que irá mesmo para uma segunda volta.
E a questão do voto envergonhado é relevante aí no Brasil, pode funcionar aqui para ambos os lados?
Olha, esse voto envergonhado, eu próprio fui o primeiro no Brasil a hipotetizar que o presidente Bolsonaro tivesse eleitores que não votariam nele, eleitores que, aliás, votariam nele, na camada da população mais pobre, que não estivessem explicitando essa opção em pesquisas. Assim como provavelmente haveria eleitores de Lula nas camadas de renda mais alta, que não estariam também explicitando sua preferência nas pesquisas. E porque a população mais pobre no Brasil é quase quatro vezes o tamanho da população mais rica, de mais de cinco salários mínimos de renda, a consequência natural é que isso deveria resultar em subnotificação maior de eleitores de Bolsonaro. Mas isso é apenas uma hipótese.
Claro.
Alguns institutos se apressaram a fazer pesquisas, e através de pesquisas quantitativa e qualitativa, chegaram à conclusão que esse voto envergonhado, oculto, se houvesse, seria mais um voto do Lula. Chegaram a fazer esse levantamento. Mas obviamente isso não é procedente, porque o fenômeno que eu hipotetizei é de que o entrevistado que se recusa a participar das pesquisas.
Senão seria envergonhado.
Então você não consegue, através de pesquisas, avaliar esse comportamento. Se as pessoas se recusam a participar delas, como você, utilizando as pesquisas, vai conseguir evidências disso? Então isso é uma bobagem. Eu lembro que na última eleição nos Estados Unidos, avaliando por que não se conseguiu detectar todo o tamanho do voto do Trump, essa foi uma hipótese levantada. Mas que também ficou como hipótese, porque é de difícil verificação. Se as pessoas deixam de participar das entrevistas, vai ser muito difícil, através de entrevistas, identificar o tamanho desse comportamento.
Já a taxa de rejeição é mais fácil de medir.
Sim, a taxa de rejeição naturalmente entre os que respondem às pesquisas.
Claro. São aquelas pessoas que dizem: "Eu não gosto deste candidato, mas vou votar nele, porque naquele, nem pensar."
Exato. Aí é um voto estratégico, o chamado voto útil, mas aí já é diferente do voto envergonhado. Esse é o voto estratégico, voto útil, que existe e é relativamente mais fácil de ser antecipado.
O professor já falou da importância da televisão no debate televisivo, e nós sabemos a importância que a televisão tem num país como o Brasil. E as fake news, as notícias falsas, também são relevantes para esta eleição?
Muito relevantes. Elas cresceram muito em relação a 2018. E há, inclusive, e eu tenho chamado a atenção para isso, também pesquisas que são fake, pesquisas que são pesquisas falsas, voltadas para desinformar a população. Então isso é uma categoria nova de fake news, que são as pesquisas falsas também, que vêm se somar a esse arsenal negativo, cujo objetivo é desinformar, confundir o eleitorado.
Já voltamos à conversa com o professor Antonio Lavareda. Vamos olhar para o futuro depois das eleições de domingo. O Brasil está dividido.
Não tem mais espaço para ladrão em nosso país! Que esse fascista que está governando esse país.
Às segundas, ao meio-dia, na Rádio Observador, Sara Antunes de Oliveira, Kátia Bruno e João Gabriel de Lima sentam-se à mesa do Café Brasil. Acho que se podia dizer sambando na cara das inimigas.
Fala sério!
Todas as semanas, um convidado diferente para analisar a campanha e os candidatos.
O seu governo foi o governo mais corrupto da história do Brasil. O país que eu deixei é um país que o povo tem saudade.
Café Brasil, na Rádio Observador e em podcast. Estamos de regresso à conversa com o professor Antonio Lavareda. Professor, qual será o papel dos militares nesta eleição?
Olha, o que se esperava é que o papel dos militares seja como em eleições passadas. Eles atendem as demandas da Justiça Eleitoral para levar urnas eletrônicas para os locais mais distantes do país, na Amazônia Em locais distantes do Centro-Oeste, etc. Também para reforçar o policiamento em municípios onde a Justiça Eleitoral acha que há necessidade de tropas federais para manter a calma, manter a paz durante o processo eleitoral. Infelizmente, esse ano há notícias de que as Forças Armadas, o Exército em especial, querem também fazer uma espécie de uma apuração paralela de algumas urnas, alguma coisa que não está muito claro, e vem em claro conflito com o papel que as Forças Armadas têm, que na Constituição nada lhes é atribuído em termos de apuração do processo eleitoral.
Daí a minha pergunta.
Então nós temos essa possibilidade, que é algo que pode trazer mais insegurança e conflito institucional nessa eleição, que já é eleição submetida à maior carga de estresse em toda a Nova República, por conta dos continuados questionamentos, quer da parte do presidente, quer da parte mesmo do Ministério da Defesa, com relação aos procedimentos postos em prática pela Justiça Eleitoral. Vamos aguardar e torcer para que não haja nenhum dano, nenhum arranhão à institucionalidade democrática durante o processo eleitoral, imediatamente após ele, com o reconhecimento necessário dos resultados marcados, assinalados nas urnas, urnas eletrônicas, como são utilizadas desde 1996, sem nenhum problema, sem nenhuma denúncia de fraude, sem nenhuma comprovação de deturpação da vontade dos eleitores.
Precisamente há dois meses, quando conversamos aqui na História do Dia, falamos dessas hipóteses que estão a ser alimentadas há muito por Jair Bolsonaro, de uma hipótese de fraude eleitoral, de urnas eletrônicas viciadas. De resto, o Senado dos Estados Unidos até aprovou uma recomendação para que o presidente Joe Biden reconheça imediatamente como válidos os resultados eleitorais das eleições deste domingo no Brasil. Acha que há o risco de assistirmos a problemas semelhantes aos que ocorreram nos Estados Unidos depois da derrota de Donald Trump?
Olha, o próprio fato de nós termos o precedente norte-americano, esse precedente nos aponta a necessidade da cautela, sobretudo para os atores institucionais mais relevantes. O Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Superior Eleitoral, o Congresso, etc. Mas mostra que há a possibilidade disso, porque há uma tendência à imitação, à mimetização dos comportamentos trumpistas pelos adeptos do presidente Bolsonaro aqui no Brasil. Então é uma cautela necessária. De outro lado, o fato de já ter ocorrido nos Estados Unidos, ajuda os atores institucionais sobre aviso. Eles já, por sua vez, já têm condições e vêm pensando em como reagir a determinadas situações desse tipo. Então eu responderia de um lado dizendo: "Olha, sim, existe essa possibilidade". Segundo, dado que isso já houve nos Estados Unidos, os atores institucionais já estão informados e estão mais preparados para reagir a situações desse tipo.
Mas vê como provável um cenário de violência nas ruas, por exemplo, em caso de segundo turno, ou mesmo se as eleições ficarem resolvidas já no domingo?
Olha, tudo isso é possível. Sempre manifestação de descontentamento com o resultado das eleições. Eu lembro que até mesmo sem o grau de radicalismo, necessariamente político, sem esse componente, na noite do segundo turno das últimas eleições francesas, quando Macron foi reeleito no segundo turno, explodiu violência em 25 cidades da França. Ou seja, essa coisa da violência em manifestações políticas não é algo que nós possamos descartar no Brasil ou em qualquer outro país.
Mas será uma espécie de epifenómeno.
Exatamente. Mas eu acredito que, bem, é um pouco de crença e ao mesmo tempo de torcida, de manifestação de vontade, de desejo de que isso não venha a ocorrer.
Professor António Lavareda, é um especialista em estatística. Deixe-me fazer-lhe aqui uma pergunta difícil e tendo em conta tudo o que nos explicou durante esta conversa. Consegue atribuir uma percentagem de probabilidade a um cenário de segundo turno ou um cenário em que as eleições ficam resolvidas já no domingo?
Olha, à luz dos dados que nós temos hoje, das pesquisas realizadas até ontem, e com as projeções possíveis, etc, há uma equiprobabilidade, ou seja, uma igual probabilidade, nesse momento, da eleição terminar no domingo ou da eleição ter que ir para uma segunda volta.
Portanto, 50-50.
50-50.
Obrigado, professor António Lavareda.
Foi um prazer conversar com você novamente, Ricardo.
António Lavareda é cientista político, sociólogo, professor da Universidade de Pernambuco. É também o presidente do Conselho Científico do IPESP, o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas. Esta foi a História do Dia. Neste episódio, ouvimos sons retirados da CNN Brasil, TV Globo, Agência Reuters e ainda do YouTube de Lula da Silva. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.