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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por erro dos eleitores, o ADN tirou deputados à AD?

Utilizar a confusão de qualquer sigla é desconsiderar os eleitores que votam nestas duas forças políticas que supostamente criaram confusão, mas também é chamar de ignorantes a todos aqueles que supostamente se enganaram. Não houve enganos.

Na noite de 10 de março e perante uma subida avassaladora no número de votos, Bruno Fialho, o líder do ADN, tentou desfazer a teoria de que muitos eleitores se enganaram. Queriam votar na AD e acabaram por votar ADN. Bruno Fialho estava acompanhado de 15 apoiantes na noite eleitoral, quando falou aos jornalistas. Luís Montenegro chegou a falar nesta questão durante a segunda semana de campanha e no domingo das eleições, o secretário-geral do PSD, Hugo Soares, lançou um derradeiro apelo à Comissão Nacional de Eleições para que fizesse alguma coisa, mas a CNE não quis abrir discussões sobre siglas com as assembleias de voto ainda a funcionar. Afinal, o ADN passou de 10 mil para 100 mil votos por convicção dos eleitores ou por engano? E isso pode ter custado alguns deputados à AD? Vou conversar com Ricardo Ferreira Reis, diretor do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica, que fez várias contas que nos conduzem a uma conclusão. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de terça-feira, 12 de março. Bem-vindo, Ricardo Ferreira Reis.

Olá, Ricardo, de novo.

Bem-vindo, mais uma vez. Ricardo, apesar de ter conseguido cerca de 100 mil votos, acredito que muitos dos nossos ouvintes não sabem bem o que é o ADN. Consegue aqui resumidamente explicar-nos de onde vem e o que é o ADN?

O ADN é um partido, neste momento, conservador, anti-establishment, portanto, nacionalista, eurocético, tradicionalista. É um partido também conhecido pelas suas posições anti-agenda globalista, anti-agenda 2030, anti a agenda identitária, e que se caracterizou, em particular as suas lideranças, por serem negacionistas durante a pandemia do Covid-19.

Das vacinas.

Das vacinas. Portanto, tinham o discurso mais negacionista e alguns dos seus cartazes que ainda se encontram aqui em Lisboa ainda espelham essa postura. Não sei se se lembram de um cartaz com um tanque, parecia um carro blindado com uma seringa em cima.

Era do ADN.

Era do ADN. O ADN aparece na sequência de um partido chamado PDR, Partido Democrático Republicano.

De Marinho e Pinto.

De Marinho e Pinto. Na sequência do abandono da delegação do partido do MPT, o Partido da Terra, que o tinha eleito, ao advogado Marinho e Pinto, para o Parlamento Europeu nas eleições de 2014, com mais de 7% dos votos. Portanto, uma dissidência com o MPT fez com que o deputado Marinho e Pinto tivesse saído nessa altura e criou o PDR. Entretanto, o advogado Marinho e Pinto também se desfiliou do partido e entretanto, para evitar, e esta é uma ironia do destino, equívocos do nome PDR com o Partido Nacional Renovador, que hoje também já mudou de nome e chama-se PNR. Portanto, para evitar a confusão entre PDR e PNR, o partido resolveu, no dia 13 de março, fará três anos, mudar para ADN, que significa Alternativa Democrática Nacional. É um partido caracterizado por estas siglas, AD e um N. A AD está branco, o N está amarelo, ou se olharmos para isto a preto e branco, o AD está numa cor mais branca e o N estará cinzento. Isto é importante.

Isso é muito importante, já vamos perceber por quê. E perante essa explicação, ADN e AD são forças politicamente muito diferentes. Certo é que contas feitas, o ADN saltou de cerca de 10 mil votos para 100 mil, isto de 2022 para 2024. Esta votação distribuiu-se de forma mais ou menos equilibrada por todo o país ou houve maior incidência nalguns distritos ou nalguns pontos do território?

O ADN e a AD, a Aliança Democrática, portanto, a coligação que é constituída pelo PPD/PSD, pelo CDS/PP e pelo PPM, e eu estou a ter o cuidado de dizer as siglas todas dos partidos todos. E já agora, em termos de conhecimento, o PSD, como todos sabemos, ou o PPD/PSD, caracteriza-se com um símbolo daquilo a que vulgarmente se chama as três chaminezinhas.

Aquelas setas.

Aquelas setas que vêm da esquerda e apontam para cima. O CDS, sendo um partido historicamente centrista, tinha as duas setas a apontar para o centro e o PPM por um tridente. E isto é importante porque são esses os símbolos que também estão no boletim de voto. Em janeiro de 22, o ADN concorreu apenas em Metade dos distritos, não em todos os distritos e, portanto, a sua comparação dos 10 mil votos poderá até ser algo injusta, porque não concorreu em todos os distritos, mas mesmo assim decuplica, multiplica por 10.

Exatamente.

Exatamente por 10. Passou de 10.001 votos para 100.044 votos. O que dá um crescimento incrível. E é um crescimento importante porque o coloca confortavelmente acima da fasquia dos 50 mil votos, que é a fasquia que em Portugal dá acesso a uma subvenção estatal para o partido político.

Ou seja, vai receber dinheiro do Estado para a atividade política.

Eu não quero equivocar-me e peço desculpa se estou a equivocar-me.

Temos essas contas mais ou menos feitas, serão mais de €300 mil.

Exatamente. Era isso que eu ia dizer. Andará em torno desse valor a subvenção que o partido passa a receber por este resultado, que é invulgar em função daquilo que tinha alcançado.

E como é que se distribuiu?

A questão é essa, é que se distribui muito proporcionalmente acompanhando os votos da AD, ou seja, não há aqui uma distribuição específica, é mais forte nos distritos em que a AD é mais forte e é mais fraco nos distritos em que a AD é mais fraca.

Isso pode nos levar à pergunta: perante esses resultados, se o ADN tirou, vou usar este verbo tirar, tirou deputados à AD e onde?

É provável que isso tenha acontecido. A indicação que nós temos é que se o ADN tivesse concorrido juntamente com a AD, ou se os votos do ADN fossem somados aos votos da AD, e atenção que aqui, porventura, volto a dizer que estaremos a cometer alguma injustiça nestes cálculos, porque poderá haver uma base de apoio do ADN em função da ideologia e das posições dos seus candidatos. Mas de facto, aquilo que nós encontramos é que a soma destes dois blocos, assumindo então que os votos que seriam do ADN poderiam estar a ir para a AD, tirariam um deputado ao Chega e atribuí-lo-iam à coligação AD em Coimbra, um ao PS em Lisboa, e passaria também para a AD, e outro ao PS em Viseu, que passaria para a AD.

Então estamos a falar de três deputados.

Estamos a falar de três deputados que a soma destes votos teriam constituído, assumindo que esta coligação, por assim dizer, ou este conjunto de votos corresponderiam a votos de uma só força política, neste caso, a AD.

E já que o Ricardo tem essas contas feitas, se fosse com a ADIL, e o termo ADIL foi-me apresentado pelo Ricardo Ferreira Reis no episódio de sexta-feira da História do Dia, em que falámos de sondagens e que vale muito a pena ouvir. Se a AD e a Iniciativa Liberal tivessem ido juntas a votos, também ocorria essa transferência, também a AD perderia esses três mandatos?

Não, ou melhor, ocorria, mas por força da ADIL e não por força do ADN neste contexto. Isso teria acontecido também nesse deputado de Coimbra, também nesse deputado de Lisboa e também nesse deputado de Viseu, mas juntar-se-ia ainda um deputado em Portalegre, que seria perdido pelo Chega.

Então se tivessem concorridos juntos...

Teriam tido mais deputados do que o conjunto dos deputados que está aí nesta altura.

Já voltamos à conversa com o Ricardo Ferreira Reis, o diretor do Centro de Sondagens da Católica. Afinal, os eleitores enganaram-se ao votar no ADN? Estamos de regresso à conversa com o Ricardo Ferreira Reis, diretor do Centro de Sondagens da Universidade Católica. Ricardo, vamos aqui fazer mais algumas contas. Olhando para os dados e para estas duas forças políticas, que ligações conseguimos estabelecer entre os votos da AD e os votos no ADN, isto tendo em conta que, em teoria, quem vota num, não vota noutro.

Exatamente. Ou seja, e eu vou usar uma imagem, peço desculpa por ser mais leve, pescam nas mesmas águas. Como pescam nas mesmas águas, são aquilo a que nós chamamos partidos substitutos, ou seja, ou se vota num ou se vota noutro. É claro que o impacto do ADN, sendo um partido de muito menor dimensão que a AD e os seus componentes, ou pelo menos o CHS.

Estamos a falar num barca ramos comparado com uma rastela.

Exatamente, mas o impacto seria sentido de qualquer maneira. E aquilo que nós usamos como instrumento estatístico para verificar esse tipo de contas é um simples coeficiente de correlação. Nós pegamos nos 20 círculos eleitorais do território nacional, não vale a pena estarmos a fazer isto para a imigração, até porque esses dados demoram mais tempo a vir e são bem mais aleatórios do que aquilo que temos aqui no território nacional. E fazendo essa correlação, esperar-se-ia que o valor fosse negativo, ou seja, quando sobe um, desce o outro. E isso acontece, por exemplo, entre a AD e o Chega, é fortissimamente negativo, o que quer dizer que pescam nas mesmas águas.

Quem vota num, não vota no outro.

Quem vota num, não vota no outro e, portanto, há uma transferência de voto. A correlação entre a AD ou os partidos que constituem agora a AD em janeiro de 2022 e o ADN é negativa, batendo certo com esta hipótese.

Em 2022.

Em janeiro de 2022. É negativa, batendo certo com esta hipótese de que são substitutos. Aquilo que estamos a encontrar na correlação dos 18 distritos do continente e as duas regiões autónomas nesta eleição de 24 De 10 de março de 24 é uma correlação positiva, o que indica complementaridade, ou seja, cresce um, cresce o outro. E isso chama a atenção para, estando na mesma família política, por assim dizer, onde não estão muito próximos uns do outro, mas em áreas com alguma sobreposição, é estranho. É muito estranho estar a acontecer. E é significativo.

E viu alguns pontos particulares dessas correlações?

Sim, aquilo que nós notamos é que se no caso da AD com o Chega bate certo com valor negativo e na ordem dos 60% negativos, portanto o que é muito próximo de onde vota um, não vota o outro, aqui a correlação é positiva e passou de -18% nos distritos em que tinham concorrido para um 40% positivo. Agora, o que é uma irregularidade estatística que não há muito. Quer dizer, aconteceu qualquer coisa que não é apenas um fenômeno social político, é uma coisa mais profunda do que isso, ou seja, as mesmas populações estão a votar nestes dois partidos.

Vamos olhar para o boletim de voto. Há pouco o Ricardo falava na importância dos símbolos e do boletim de voto, e os boletins de voto não são iguais em todo o país, porque nem todas as 18 forças partidárias que concorreram nessas eleições concorrem nos 22 círculos, por isso os boletins de voto são diferentes. A disposição dos partidos nos boletins de voto pode ter tido alguma influência nesses resultados que estava a referir?

São 19 forças políticas em Lisboa, é que participam 18. E Lisboa é de facto uma onde participam mais. Curiosamente, a 19ª força política é o PPM, que participou isoladamente no círculo da Madeira e, portanto, daí ser normal, não contabilizamos com essa 19ª força política. De facto, há um sorteio de colocação dos partidos, na ordem de cada boletim nestes 22 círculos eleitorais. Como muito bem disse o Ricardo, não são o mesmo número, eles oscilam entre 13 e 18. As forças que concorreram em Bragança, julgo que não baixa de 13. Mas 13 é o que concorreu em Bragança, Viana do Castelo, Vila Real e nos Açores. São sítios onde as estruturas partidárias locais não têm a mesma capacidade que têm, por exemplo, em Lisboa ou em outros lados. A Constituição obriga a que cada partido tenha que concorrer pelo menos em dois círculos, não pode concorrer apenas em um, para evitar partidos regionais.

Exatamente. Se é que o Juntos pelo Povo também concorre cá.

Exatamente. E o PPM concorre na Madeira e também concorre em coligação nos círculos e portanto está a salvo desta disposição. Aquilo é sorteado, cada partido escolhe a forma como se apresenta na nomenclatura oficial e depois tem as siglas e tem os símbolos dos partidos. Qualquer um de nós que votou neste 10 de março sabe que estas três colunas apareceram, mais uma quarta com caixinhas, para nós escolhermos uma e pomos lá uma cruz dentro. Ou riscarmos aquilo tudo e anularmos o voto. Ser maiúsculas ou não ser maiúsculas é uma decisão dos próprios partidos e neste caso é pertinente porque a Alternativa Democrática Nacional, ADN, escolheu ter o seu nome todo em maiúsculas, a Aliança Democrática também. Portanto, também tinha o seu nome todo em maiúsculas, o que torna possível haver alguma confusão na leitura dos partidos. Depois, a apresentação dos símbolos. Aqui não há um símbolo específico para a coligação. Antigamente, não sei se se lembra da Aliança Povo Unido, onde incluía o Partido Comunista, depois CDU. Eram os favos, os favos de mel, primeiro argolas, e depois passou para os favos. A APU era argolas, era uma espécie do símbolo da publicidade, mas da Audi sem a quarta argola. Peço desculpa.

Pedimos desculpa aos ouvintes por esse regresso ao passado.

Exatamente. E depois eram os três favos de mel. E o PCP sempre se queixou da presença de outros partidos com a foice e o martelo, que levava a alguma confusão do eleitorado.

Como o PCP-MRPP.

PCP-MRPP, e se não me engano, o próprio PSR também tinha uma foice e martelo com julgo que um quadro estilizado.

Ainda houve também um PCR, que era o Partido Comunista Renovado.

Renovado, exatamente, que também tinha a foice e o martelo.

Mas vamos voltar, Ricardo, a esse boletim de voto.

Mas é importante, porque uma das coisas importantes é a presença do Partido Ecologista Os Verdes, que é uma flor, que faz com que se identifique rapidamente qual é que é o sítio onde este eleitorado, que precisa destes auxiliares visuais, possa votar quando quer votar no Partido Comunista Português e na coligação que o compõe. Já agora, uma outra nota importante em relação à CDU, que também tem uma experiência enorme neste tipo de coisas e um profissionalismo brutal de lidar com isto, é que se repararam ontem, ou no dia 10 de março, a designação da Coligação Democrática Unitária é CDU, Coligação Democrática Unitária. A da Aliança Democrática é apenas Aliança Democrática e não AD, Aliança Democrática. Portanto, a designação da sigla não aparece neste caso.

Exatamente.

E depois também não aparece à frente. Portanto, a única coisa que aparece é PPD, PSD, CDS, PP e PPM. Não aparece em lugar algum a designação A e D.

Vai daí, há ou não aqui influência no boletim?

Aquilo que nós notamos é que, como isto está disperso por todos, o que aliás estatisticamente nos dá imenso jeito, se fosse tudo igual não dava, portanto a dispersão a nós ajuda-nos bastante, é que correlacionamos. Aliás, não fomos os únicos a fazer, o professor Pedro Martins também fez algo semelhante O professor Pedro Martins da Universidade Nova também fez algo semelhante ao que nós fizemos e com resultados exatamente iguais. Haver uma correlação entre o ADN e a posição da AD no boletim de voto. Ou seja, quanto mais para baixo estivesse a AD, em número de ordem, o voto no ADN subia.

Quanto mais afastado estavas.

Quanto mais para baixo, para mais no fundo da lista estava a posição da AD, da Aliança Democrática, do PSD e restantes partidos, mais o voto do ADN subia.

Porque o ADN estava no topo do boletim.

Estaria mais acima ou pelo menos se identificaria isto. O que quer dizer que as pessoas assim que encontravam algo que parecesse ser onde queriam votar, já não liam o resto do boletim de voto. É esta a lógica.

Paravam na primeira AD que encontravam.

Paravam na primeira AD que encontravam. E depois fizemos a correlação ao contrário, ou seja, a posição do ADN e o voto do ADN e esta correlação é invertida e altamente negativa também, o que quer dizer que quanto mais para cima, quanto menor fosse a posição do ADN, quanto mais cedo as pessoas liam o ADN, mais votos teve o ADN. Finalmente, fizemos a mesma coisa que fez o professor Martins, que é ver a diferença dos dois, ou seja, a diferença de posição dos dois correlacionada com os votos do ADN e também é francamente positiva, portanto, quanto mais afastados estão, mais o ADN tinha resultados positivos.

E no caso da Madeira? Na Madeira foi um bocadinho diferente porque não havia AD, não é?

O que aconteceu na Madeira é que não havia AD, aliás, há bocado falámos disso. A coligação AD do PSD, CDS e PPM apareceu na Madeira separada, com PSD e CDS. Chamava-se Somos Madeira, também em maiúscula, com os símbolos aqui só do PSD e do CDS. O PPM concorreu isoladamente, mas havia ADN. E portanto, quem se habituou a ver na televisão a campanha da AD e é madeirense, é muito provável que naturalmente tenha procurado a AD no boletim de voto e não tendo encontrado, o melhor que encontrou foi-

Até porque nem ouviu falar no Somos Madeira.

Não sei, a campanha da Madeira tem as suas dinâmicas. E aliás, devo lhe dizer que o resultado da AD na Madeira é bastante positivo. A AD elege três deputados na Madeira, ao contrário do que muitas sondagens lhes davam. Não estou a falar da nossa, porque não sondamos a Madeira, mas ao contrário do que algumas sondagens lhes davam. E portanto, o resultado até foi bastante positivo, mas o que também foi positivo foi o resultado do ADN, que teve uns históricos 1.6 ou 1.5 na Madeira, que não é frequente conseguir alcançar.

Houve outra possibilidade.

Já agora, deixe-me só comentar uma coisa, e aqui tiro o chapéu aos açorianos, que é o único sítio no território nacional onde o voto do ADN é mais ou menos coerente com o crescimento consentâneo, não de 10 vezes mais, mas cerca de duas vezes mais. Há um ligeiro crescimento, o que reforça esta ideia de que o ADN teve algum impacto na captação da mensagem. Mas acontece uma coisa: houve eleições nos Açores há muito pouco tempo e as pessoas habituaram-se a procurar a sigla dos três partidos com outra designação dessa outra vez.

Tinham outra memória.

Tinham outra memória e uma memória muito recente de uma eleição. E portanto, a votação do ADN nos Açores é mais baixa proporcionalmente no território nacional, é 0.78, não é consentâneo, lá está, na tal escala de compensações, seria coerente com uma correlação negativa com a AD e não uma correlação positiva.

Que é importante uma bancada evangélica portuguesa, que com certeza será muito bem representada pelo seu coordenador nacional, o apóstolo Paulo Nunes, que é o candidato pelo círculo fora da Europa.

E também se falou na possibilidade desta subida do ADN estar ligada ao voto dos evangélicos. Isso foi uma hipótese que foi avançada para justificar esta subida. Esta é uma realidade um pouco estranha para nós, se calhar será mais típica do Brasil ou de outras latitudes. Isto tem alguma razão de ser ou não?

Durante a campanha eleitoral e alguns dos candidatos do ADN são de facto da comunidade portuguesa nascida no Brasil e da comunidade evangélica em Portugal. E portanto, nós temo-nos ao trabalho também procurando junto do site da Aliança Evangélica Portuguesa, tentar perceber o número de igrejas evangélicas. E é uma correlação que eu admito, uma estatística que pode ser algo espúria neste contexto, mas eu já lhe vou tentar explicar melhor o que nós fizemos. Tentar ver se o número de igrejas evangélicas em cada um dos distritos estava correlacionado com a votação do ADN. Se estivesse, com uma correlação positiva, isso significaria que, de facto, havia uma capacidade de atração do ADN deste tipo de eleitorado, desta comunidade. Por mais pequena que fosse a votação do ADN, isso permitir-nos-ia fazer isso. Desde logo, uma das coisas que nós fizemos de teste de robustez foi verificar se o número de igrejas e congregações evangélicas estava correlacionada com a população, com o número de votantes. E deveria estar, ou seja, deverá haver mais comunidades, mais igrejas, sejam elas evangélicas ou não, em sítios onde há mais população. Nós aqui em Lisboa temos várias e aqui nesta rua até temos mais do que uma.

Aqui onde estamos em Alvalade, temos várias. Neste quarteirão.

Neste quarteirão. E isso é apenas o reflexo de estarmos numa zona de alta densidade populacional. Fomos cruzar essa informação e a correlação é enorme, é 83%, o que é normal de acontecer. Não quer dizer que haja muitos evangélicos, quer apenas dizer que há mais igrejas evangélicas onde há mais pessoas.

Onde há mais pessoas.

É só isso que isso quer dizer. Fomos ver também qual era a correlação do número de igrejas evangélicas em cada um dos distritos e os votos totais do ADN, porque se a correlação fosse de atração de mais evangélicos, isso quereria dizer que esta correlação ia aumentar, e ela passa de 83 para 74. Portanto, sim, verificamos que onde há mais gente, o ADN teve mais votos e há mais igrejas evangélicas, mas menos do que a população nacional. Ou seja, o ADN tem um resultado abaixo da média neste contexto da correlação. O que quer dizer, e fomos depois ver isto em percentagem, o que é mais esclarecedor, que a correlação é negativa. Ou seja, quando há mais evangélicos, os votos do ADN descem e não sobem. Não há nenhuma verificação estatística que nos permita dizer que estejam correlacionados positivamente. No caso que tivemos, até são negativos. Outra das explicações plausíveis era que isto estava relacionado não apenas com a comunidade de evangélicos, mas com toda a existência de portugueses nascidos no Brasil que ontem votaram. Eu estou propositadamente a ter o cuidado de não dizer que os eleitores eram brasileiros, porque se votaram é porque eram portugueses.

Claro.

Se olharmos para essa correlação das comunidades brasileiras, e eu admito mais uma vez que estou aqui a usar uma variável que não é a mesma, portanto, eu não estou a olhar para luso-brasileiros, mas neste caso estou a olhar para brasileiros no seu agregado, não há qualquer correlação entre os votos do ADN e a comunidade de brasileiros existente em cada um dos distritos. A correlação é próxima de zero, é 1%, portanto, é um valor insignificante em termos estatísticos. Curiosamente, já não é verdade em relação ao Chega, que também fizemos a mesma-

E qual foi o resultado aí?

É um resultado positivo e significativo. Ou seja, de facto, a comunidade brasileira tem uma propensão a existir em sítios onde o voto do Chega aumenta.

É mais alto?

É. O que é consistente com algumas das explicações sociológicas que temos ouvido sobre o voto no Chega, associado a alguma da comunidade brasileira que se radicou em Portugal e que agora pode votar, ou alguma da comunidade portuguesa que nasceu no Brasil e que estará associada ao presidente Bolsonaro.

E fez contas também pra imigração ou não? Para zonas com maior presença de imigrantes?

Já agora também fiz contas pra AD e a correlação é negativa, coerentemente, aliás, com a tal subida substituta entre o Chega e a AD, portanto, em relação às comunidades brasileiras. Em relação aos estrangeiros, o que apanharia também uma correlação que pudesse existir com alguma resistência a voto de rejeição a comunidades estrangeiras, não há qualquer correlação entre as comunidades estrangeiras e o ADN. A correlação, no caso da AD, também é negativa e fortemente negativa, e não é negativa, é aliás, fortemente positiva no caso do Chega. Ainda mais, e acentuados estes padrões, se retirarmos a comunidade brasileira da comunidade de estrangeiros.

Isso é muito interessante. Ou seja, tudo isto-

Isto é só estatística.

Exatamente.

Só estou a referir-me a números. Estamos a analisar números.

Mas tudo isto somado pode levar-nos a tirar aqui uma conclusão de que realmente havia um problema no boletim, ou não?

Ou nas designações dos partidos. Nós estávamos preocupados com esse-

Portanto, milhares de pessoas podem ter cometido um erro.

Milhares de pessoas podem ter cometido um erro. Eu não estou a dizer que as pessoas não queriam ter votado intencionalmente no ADN, e volto a dizer que seguramente haverá um número representativo, pelo menos cerca de 10 mil era o número anterior, e esse número pode ter crescido, pode até mesmo ter duplicado. Agora, multiplicado por 10 é muito insólito. E houve outra coisa que nos preocupou neste contexto, que era a possibilidade de, na sondagem à boca de urna que nós fizemos em algumas freguesias, este efeito também se ter verificado e nos ter alterado a percepção dos resultados. Notem que estávamos a pedir às pessoas pra repetirem o voto que tinham feito lá dentro.

Em urna.

Em urna, num boletim de voto exatamente igual ao que tinham acabado de fazer e, portanto, nas várias freguesias que estavam, cada distrito tinha o seu boletim de voto.

Portanto, repetiram o erro. Caso, caso.

Essa é que é a questão.

Caso seja um erro.

A verificar-se que as pessoas teriam feito um erro, tê-lo iam de repetir conosco. E de facto, de acordo com aquilo que nós conseguimos conferir em termos dos resultados que se verificaram naquelas freguesias e naquelas mesas, os resultados são coerentes, portanto, repetiram o erro conosco. Ou seja, o que pode querer dizer que se calhar não era erro. Volto a dizer que há essa hipótese também.

Pode ser essa convicção.

Pode ser essa convicção. Agora, aquilo que nos aconteceu também é que os resultados são idênticos àquilo que aconteceu nas mesas de voto, em relação ao ADN.

E o facto da AD ter escolhido AD para o nome da coligação, quando já havia ADN, também pode ter sido um erro?

Tudo parece indicar que aí, a haver um erro, o errei-as. Ou seja, há um conjunto de coisas que a CDU aprendeu a fazer ao longo do tempo e que a AD podia ter copiado neste contexto, designadamente, colocar a sigla também na denominação da aliança, portanto, chamar-lhe não apenas Aliança Democrática, mas AD Aliança Democrática, para as pessoas poderem encontrar o AD mais facilmente. Já agora, na Madeira, teriam que chamar AD Somos Madeira, mas era uma solução também. Mas esta escolha e opção poderá ter acabado, e de acordo com aquilo que é a nossa estatística, tudo indica que poderá ter acabado por confundir as pessoas que inadvertidamente terão votado ADN, sendo a primeira opção que foram encontrar.

E acreditando que podemos estar aqui perante milhares de casos de erros, que lição é que devíamos aprender com tudo isto?

Várias. Desde logo, da parte dos partidos, um cuidado extremo de assegurarem que não há confusões entre os diferentes partidos.

Carlos, deixa eu só fazer esta pergunta E esteve próximo de eleger algum deputado ou não?

De acordo com as contas que fomos fazendo, era necessário que em Lisboa o número de deputados crescesse em cinco, portanto, que houvesse ainda mais cinco deputados, em Lisboa e no Porto, coincidentemente dá o mesmo valor de cinco, para que os deputados do ADN, os cabeças de lista em Lisboa e no Porto, pudessem ter sido eleitos. E dado que os distritos de Lisboa e Porto já têm um número muito elevado de deputados, a probabilidade era baixíssima.

Interrompi-o quando estávamos aqui a falar da lição que no fundo temos a aprender com este caso.

Desde logo, os partidos e coligações terem este cuidado de escolherem nomes e designações que sejam facilmente identificáveis. Eu compreendo também que não se queira ter uma postura paternalista em relação ao eleitor e que se espere também do eleitor algum esforço de leitura dos boletins de voto, que acho que é outra das lições que cada um de nós deve ter. Quando chega à mesa, à porta tem lá o boletim de voto em três formatos, portanto, em formato grande.

Costuma estar até fixado na parede, não é?

Se forem como eu, que me esqueço dos óculos de ler sistematicamente, têm lá uma versão em grande. E procurar antes de votar, ter a certeza que encontram o sítio onde vão votar antecipadamente. Já agora, os boletins de voto estão disponíveis pela Comissão Nacional de Eleições no site antes da eleição e podem também verificar isso. E se tiverem familiares que saibam que se esquecem dos óculos ou qualquer coisa semelhante, avisá-los que vais votar no quarto, quinto, sexto ou sétimo quadradinho, se quiseres votar desta maneira. Não dando instruções de voto, obviamente, sobre isso, mas perguntar às pessoas em qual é que queres votar. "Eu quero votar no partido X." "Olha, então esse é o quinto ou sexto quadradinho onde tens de votar." E já agora, as pessoas também terem o cuidado de verificar, a quem se dá esta recomendação, que é mesmo isso que está a acontecer, para não serem enganadas nem equivocadas neste contexto. Aos partidos, porventura, haver algum esforço de padronização da forma como o boletim de voto é apresentado. Ou tudo em maiúscula, ou tudo em minúscula, acho que seria pedagógico haver maior equilíbrio, para obrigar as pessoas a terem mais atenção ao que estão a ler quando procuram o boletim de voto, para evitar este tipo de confusões. Agora, Ricardo, não podemos excluir a possibilidade, que parece reduzida, de ter havido mesmo uma intenção deliberada da população de votar neste partido, que contraria tudo aquilo que é a estatística deste fenómeno dos votos e das sondagens, mas também não seriam os primeiros a contrariar essa estatística toda.

Obrigado, Ricardo Ferreira Reis.

Obrigado, eu.

Ricardo Ferreira Reis é diretor do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.