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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quem é o eslovaco, amigo de Putin, que poderá vir a ser primeiro-ministro? Keby som bol predseda vlády Slovenskej republiky, veľmi jasne by som zavetoval sankcie, pokiaľ ide o Európu. Esta é a voz de Robert Fico, o líder da oposição na Eslováquia. É um deputado de esquerda que apelida Zelenskyy e os ucranianos de fascistas. Fico pergunta aos eslovacos e à União Europeia se faz sentido estar a lutar e a apoiar uma guerra que é dos Estados Unidos, segundo diz. Este homem poderá vir a ser o vencedor das eleições de 30 de setembro, e isso poderá ser um problema na União Europeia e no apoio à Ucrânia. Vou conversar com o jornalista do Observador, José Carlos Duarte, especialista em internacional, sobre quem é este homem, Robert Fico. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Zé Carlos.

Olá, Ricardo.

Zé, podemos começar pelo princípio. Devemos sempre começar pelo princípio, não é? A Eslováquia é um país relativamente recente, é uma consequência do fim da União Soviética.

Sim, a Eslováquia tornou-se independente em 1993, após tornar-se independente da República Checa. Os dois países faziam parte da Checoslováquia e, durante a Guerra Fria, faziam parte do bloco liderado pela União Soviética. A Eslováquia, depois, tal como seus parceiros do centro da Europa, ocidentalizou-se, entrando na União Europeia e na NATO em 2004.

E a Eslováquia faz fronteira direta com a Ucrânia. Ajuda-nos a situar este país no mapa da Europa.

Sim, a Eslováquia faz fronteira com a Ucrânia a leste e os dois países até partilham uma fronteira de 97 km. Para além da Ucrânia, a Eslováquia faz fronteira a norte com a Polónia e com a República Checa, a oeste com a Áustria, aliás, as duas capitais, Bratislava e Viena, estão a cerca de 70 km de distância, e a sul faz fronteira com a Hungria. Como é evidente, não tem costa, mas passa o rio Danúbio também pela capital Bratislava.

E nesta altura, José Carlos, qual é a situação política na Eslováquia?

Neste momento, a Eslováquia tem um governo interino liderado por Ľudovít Ódor. Antes disso, o país era governado por uma coligação formada por partidos de centro-direita e direita, mas que, fruto de várias desavenças, acabaram por não se entender, e o governo foi alvo de uma moção de censura e acabou por cair em dezembro de 2022. O primeiro-ministro da altura, Eduard Heger, pediu então à presidente eslovaca, Zuzana Čaputová, para que ela formasse um governo interino até à realização de novas eleições, que estão marcadas para daqui a duas semanas, para 30 de setembro.

Portanto, nessa altura temos um governo interino nomeado diretamente pela presidente. É um governo tecnocrata, digamos assim.

Sim, o primeiro-ministro foi o vice-presidente do Banco Nacional da Eslováquia e foi ele que decidiu a formação de um governo, como disseste, tecnocrata.

E para percebermos ainda melhor esta história do dia, falta-nos aqui um outro elemento. Que tipo de apoio dá, nesta altura, a Eslováquia à Ucrânia?

A Eslováquia, neste momento, presta todo o apoio possível à Ucrânia, quer em termos militares, em termos humanitários e também no acolhimento de refugiados. Por exemplo, na parte militar, a Eslováquia já doou à Ucrânia tanques da época soviética e inclusivamente helicópteros. Não é que a Eslováquia tenha umas Forças Armadas muito poderosas, mas o que é fato é que o país tem tentado ajudar de forma bastante completa a Ucrânia. Por exemplo, também na ajuda humanitária, a Eslováquia tem enviado geradores pra Ucrânia devido aos ataques à infraestrutura energética da Ucrânia por parte da Rússia. E a questão dos refugiados também é bastante importante, porque como é um país fronteiriço com a Ucrânia, a Eslováquia tem um papel bastante importante em acolher e integrar os refugiados, o que tem acontecido até agora.

E sabemos quantos ucranianos atravessaram a fronteira pra Eslováquia?

Cerca de 120 mil refugiados ucranianos até o momento, o que num país de cerca de 5,5 milhões de habitantes é um número considerável.

E aqui chegados, José Carlos, temos de falar de um antigo primeiro-ministro, um senhor chamado Robert Fico, que já foi primeiro-ministro da Eslováquia.

Sim, Robert Fico já foi primeiro-ministro da Eslováquia de 2006 a 2010. Depois houve dois anos em que a direita voltou a perder na Eslováquia e ele depois retornou ao poder em 2012 até 2018, sendo que de 2012 a 2016 ele governou com uma maioria absoluta, que a perdeu depois nas eleições seguintes, ainda que tenha mantido o poder.

E por que caiu em 2018?

Em 2018 caiu, e foi na altura considerado um escândalo na Eslováquia por causa da morte de um jornalista que investigava o governo eslovaco, nomeadamente crimes fiscais. O jornalista tinha apenas 27 anos e acabou assassinado. E houve uma forte pressão, não só da presidência da Eslováquia, como também da oposição, para que o governo tirasse as consequências da morte e também dos alegados crimes que o jornalista estava a investigar. O que é fato é que esta pressão toda acabou por levar Robert Fico a demitir-se do cargo de primeiro-ministro. Isto apesar de que o Smer, o partido dele, tenha continuado no governo.

Mas houve alguma ligação judicial, criminal ao caso entre o senhor Fico e esse jornalista que acabou assassinado?

Ele nunca foi implicado diretamente na investigação, mas há pessoas do seu gabinete que estão envolvidas no processo da morte do jornalista.

Já voltamos à conversa com o José Carlos Duarte, jornalista do Observador. Vamos tentar perceber melhor quem é afinal este senhor Robert Fico. Regressamos à conversa com o José Carlos Duarte, jornalista de internacional do Observador. Zé, o senhor Robert Fico é um ex-comunista. Quem é este homem também do ponto de vista ideológico?

Sim, Robert Fico aderiu ao Partido Comunista da Checoslováquia em 1976 e permaneceu no partido até 1989, o ano da Revolução de Veludo, que acabou com o regime comunista na Checoslováquia. Depois, na vida política da Eslováquia, fez parte de um partido chamado de Esquerda Democrática, de centro-esquerda, e a sua vida política foi sempre passada entre partidos dessa ideologia política de centro-esquerda, sociais-democrata, aliás, o partido em que ele está neste momento, o SMER, chama-se Partido Social-Democrata da Eslováquia, e defende políticas económicas marcadamente de esquerda. Ainda que em termos sociais as coisas já não sejam assim tão líquidas, tendo, por exemplo, uma política bastante mais dura no que diz respeito à imigração.

E o senhor Fico tem entre os seus aliados europeus Viktor Orbán, da vizinha Hungria, e Putin, em Moscovo.

Efetivamente. Ainda que em termos económicos haja aqui uma diferença relativamente a Viktor Orbán, Robert Fico é mais de esquerda, é mais defensor de um Estado social forte. O que é facto é que em termos de política externa, os dois têm visões muito idênticas. Uma certa proximidade com a Rússia, uma certa desconfiança para com o Ocidente, para com a União Europeia, com a NATO. Daí que haja aqui diferenças na parte económica, mas que tenham políticas bastante parecidas. Relativamente à Rússia, ela esteve sempre presente na vida de Robert Fico. Ele fez parte do Partido Comunista Checoslovaco, que esteve sempre ligado à União Soviética e depois à Rússia, mas o seu papel de apoio a Moscovo ganhou grande preponderância com o início da guerra. Foi um tema que captou o interesse dos eslovacos e Robert Fico sempre teve uma atitude bastante próxima daquela que é a propaganda difundida por Moscovo.

Exatamente ao ouvi-lo, como escutámos no início deste episódio, parece que estamos a ouvir aquela retórica do Kremlin que acusa os ucranianos de serem fascistas, nazis. Mas isto levanta-nos aqui uma questão: como é que isto é possível num país que pertence à União Europeia, que está no centro da Europa?

Isso é uma boa pergunta. E esta posição de Robert Fico, o que é facto é que não é apenas dele nem do seu partido. Essa sensação contra o Ocidente, de que há nazis nas tropas ucranianas, também é mais ou menos encontrada na população eslovaca. Aliás, um estudo elaborado em maio de 2023 por um think tank eslovaco mostra que 34% dos inquiridos culpabiliza o Ocidente pelo início da guerra da Ucrânia, ao passo que 40% dizem que foi a Rússia a culpada. Ou seja, as percentagens estão muito próximas. Há aqui realmente uma sensação na Eslováquia de que a guerra foi patrocinada, pelo menos incentivada pelo Ocidente, e a Rússia foi forçada a agir. Isto deve-se essencialmente à difusão de propaganda russa na Eslováquia, que aliás a presidente já alertou para essa possibilidade, e também para uma espécie de sentimento de identificação com a Rússia que persiste na Eslováquia mesmo após o fim da União Soviética.

Mas essa propaganda continua nos dias de hoje na Eslováquia, a propaganda russa?

Sim, continua. Aliás, há um relatório do Ministério do Interior eslovaco que faz referência ao ano passado e que denuncia várias tentativas de elementos pró Kremlin tentarem mudar as percepções da Eslováquia relativamente ao conflito, divulgando notícias falsas, principalmente nas redes sociais, por exemplo, de que o Zelenskyy escreveu o "Mein Kampf". Li o relatório e tinha, por exemplo, essa referência, notícias desse gênero para tentar convencer a opinião pública a realmente culpabilizar o Ocidente e a Ucrânia pelo início de um conflito e desculpabilizando ao mesmo tempo a Rússia.

O que é facto é que Robert Fico é nesta altura o grande favorito para vencer as eleições de 30 de setembro.

Exato. Para além da população eslovaca ser favorável à política externa defendida por Robert Fico, o que é facto é que a Eslováquia vem aqui de um período de grande instabilidade política. Neste momento, como já referimos, é governado por um governo interino e aquela coligação de direita era bastante instável. E o que é facto é que também apanhou um período governativo bastante turbulento, que foi a pandemia da Covid-19, a guerra na Ucrânia e depois os impactos económicos do conflito. Isto fez uma espécie de tempestade perfeita para que Robert Fico surgisse aqui como salvador e alguém que é capaz de trazer a Eslováquia novamente para um caminho de crescimento económico e de estabilidade.

Mas ele consegue votos suficientes para formar um governo com apoio parlamentar ou não?

Isso de momento será bastante difícil, de acordo com as sondagens. Ele neste momento tem intenções de voto na ordem dos 21%, elegendo cerca de 36 deputados. Para formar a maioria, são necessários 76.

Falta muito.

Falta muito. E terá de fazer coligações com vários partidos e de vários espectros políticos. Principalmente, e aqui o que é interessante é que um partido de esquerda, o SMER, poderá fazer coligações com partidos de extrema-direita e direita mais radical para conseguir formar governo. Para Robert Fico voltar ao poder terá de fazer uma megacoligação que também poderá incluir o Hlas, que era um partido que se formou dos descontentes do Smar, que é o seu partido.

Que grande confusão de partidos, mas já vimos isso acontecer, por exemplo, na Grécia, esses dois lados dos espectros políticos unirem-se num governo. Mas falaste em partidos de extrema-direita, partidos extremistas, o que é que esses partidos defendem, por exemplo? Já sabemos que o senhor Robert Fico tem posições muito duras em relação à imigração. Será este um ponto em comum entre eles?

Sim, em termos de migrações há uma política bastante idêntica, mas também no que diz respeito à política externa, há vários pontos que o Smar partilha com os partidos de extrema-direita, que são partidos que tendem a favorecer a Rússia, que são antiocidente e que, por exemplo, alguns deles defendem a saída da Eslováquia, da União Europeia e da NATO. Daí que haja aqui vários pontos em que estes partidos coincidem. Não obstante, há também que referir que em termos económicos há aqui diferenças. O Smar é um partido que se preocupa com o Estado social, que é um partido mais de esquerda e estes partidos nesse aspeto não defendem estas ideias e estes princípios.

Mas Zé Carlos, se tudo isso, se esses cenários se confirmarem e Robert Fico voltar a ocupar o lugar de chefe de governo na Eslováquia com essa aliança de aliados improváveis, isto pode representar um problema dentro da União Europeia e, sobretudo, um problema para a Ucrânia, para os refugiados ucranianos?

Sim, dentro da União Europeia, apesar das posições mais extremistas dos partidos de extrema-direita, Robert Fico diz que quer manter-se na União Europeia, quer manter-se na NATO. Agora, em termos de apoio à Ucrânia, as coisas podem mudar, porque será mais um país, além da Hungria, a bloquear, por exemplo, pacotes de ajuda militar, pacotes de ajuda humanitária para a Ucrânia dentro da União Europeia. Será mais uma voz contra, por exemplo, a aplicação de sanções. E a Hungria de Viktor Orbán deixará de estar isolada e deixará de ser o único Estado-membro a defender este tipo de políticas, ganhando aqui um aliado que, embora não sendo muito poderoso dentro da União Europeia, pode fazer mossa para o apoio europeu à Ucrânia ficar prejudicado.

Vamos ver o que sai das eleições de 30 de setembro. Obrigado, Zé Carlos.

Obrigado, Ricardo.

José Carlos Duarte é jornalista da Internacional do Observador. Esta foi a história do dia. O som que ouvimos no início foi retirado da conta oficial de Robert Fico no Facebook. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.