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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o leme de Montenegro e os recados de Marcelo.
O Governo, eu próprio e a Ministra da Administração Interna estivemos sempre ao leme, a acompanhar a situação no terreno e a coordenar as ações políticas da nossa responsabilidade. Estivemos antes, estivemos durante e estamos depois de cada ocorrência.
Há 15 dias, Luís Montenegro discursava na Festa do Pontal, em Quarteira, ao mesmo tempo que milhares de bombeiros, um pouco por todo o continente, tentavam travar o avanço das chamas, difíceis de conter perante uma onda de calor que se arrastava há 22 dias. De todo lado, choveram críticas à atuação do primeiro-ministro, acusado de viver alheado dos problemas do país. Um dia depois de discursar no Algarve, Montenegro acabou mesmo por interromper as férias. Duas semanas depois, o Governo foi chamado ao Parlamento para um debate extraordinário sobre o combate aos fogos. Com um plano de 45 medidas para mitigar os efeitos dos fogos aprovado, entretanto, o primeiro-ministro garantiu que não deixou de acompanhar as ocorrências, sublinhou que agiu preventivamente e reforçou ainda que está a trabalhar para evitar situações tão graves em setembro e em outubro. Mas conseguiu Montenegro mudar a imagem do Governo? Vou falar com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Eu sou a Teresa Abecasis e esta é a história do dia de quinta-feira, 28 de agosto. Bem-vindo, Rui.
Olá, Teresa.
No dia 15 de agosto, Montenegro interrompeu as férias depois de ser criticado e acusado de estar a passar ao lado dos grandes incêndios no país. Esta quarta-feira, o primeiro-ministro esteve no Parlamento para debater o combate aos fogos num debate de urgência, realizado ainda antes do fim das férias parlamentares e, por isso, com um número reduzido de deputados, os da Comissão Permanente. Quase 15 dias depois, a imagem do primeiro-ministro mudou?
Olha, Teresa, mudou um bocadinho como ele vê a própria posição dele. Mas eu creio que perdurará no tempo a ideia de que Luís Montenegro estava de férias durante os incêndios. Com o tempo, tende-se a esquecer o drama e a dificuldade e, portanto, será quase uma espécie de piada da falta de sensibilidade do primeiro-ministro ao longo dos próximos anos, o facto de, mesmo que tenha sido só um dia ou dois, ter estado de férias e ter estado na Festa do Pontal enquanto os populares enfrentavam as chamas. E, portanto, eu creio que é verdade que o Governo retificou a maneira de comunicar, e para melhor, mas aquela imagem dividida de um lado o primeiro-ministro na Festa do Pontal, do outro lado os populares a sofrerem nos incêndios, acho que é uma imagem que vai perdurar e em 15 dias não mudou. Mas mudou a percepção que o próprio Governo tinha dessa imagem e o admitir que não foi talvez a melhor decisão para aquele dia e naqueles dias ter tomado as decisões daquela forma.
No discurso esta quarta-feira no Parlamento, o primeiro-ministro tentou precisamente sublinhar tudo o que tem feito até agora na prevenção, no combate e até depois dos incêndios, no acompanhamento da população e das zonas afetadas. Mas o tema dos incêndios não deve ficar por aqui. No fim do debate, o PS sugeriu a criação de uma comissão técnica independente para analisar o que aconteceu em agosto e o Chega também já fala numa nova comissão parlamentar de inquérito.
Sim, são dois temas a que o PSD tem acabado por vir responder até aqui nos últimos dias, na Universidade de Verão, onde eu me encontro, que é o secretário-geral do PSD, ainda antes de André Ventura avançar potestativamente com a comissão parlamentar de inquérito, ou anunciar que ia avançar potestativamente, disse que a comissão de inquérito era despropositada e que tinha um objeto que substituía a Justiça. E, portanto, o que aconteceu foi que o PSD respondeu negativamente à proposta de comissão de inquérito, mas ao mesmo tempo, e nessa mesma intervenção, o secretário-geral disse que achava boa ideia que uma comissão técnica independente, à semelhança do que aconteceu em 2017, olhasse para o que aconteceu e para as falhas operacionais, longe das câmaras, sem um debate partidário. E, portanto, o PSD achou boa ideia a ideia do Partido Socialista, má ideia a ideia do Chega, daí que o desfecho dessa continuação deste debate seja propriamente esses dois instrumentos, sendo que um deles é político e visível, partidário, o outro acontecerá em salas fechadas. Isto para dizer o quê? O PSD e o Governo não apoiam essa comissão de inquérito, são contra essa comissão de inquérito, mas o Chega, pela dimensão que tem, vai conseguir impor de forma potestativa a realização desse inquérito parlamentar ao que se passou. E, portanto, digamos que existem próximos capítulos e que o assunto Não ficou arrumado, nem de perto nem de longe, no debate desta quarta-feira.
Rui, como disseste, tu estás a acompanhar a Universidade de Verão do PSD, que está a decorrer em Portalegre. Já vários governantes passaram por aí. Falando ainda do tema dos incêndios e daqui de uma mudança de discurso por parte do governo e dos membros do governo, notaste que o partido levou a sério as críticas e mudou o discurso?
Sim, há uma parte do primeiro-ministro em que ele assume que a percepção criada não foi a melhor e foi de que ele não estava a acompanhar e que ele próprio contribuiu para isso. Coisa diferente são os seus fiéis escudeiros, os seus ministros e o seu número dois do partido, que é o secretário-geral. O que eles fizeram aqui foi tentar defender o primeiro-ministro, dizendo que o primeiro-ministro esteve sempre em cima. Eu falo, por exemplo, de Hugo Soares, que é o secretário-geral, falo do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, falo também do ministro da Economia e da Coesão, Manuel Castro Almeida. E a linha foi sempre a mesma, foi dizer que o primeiro-ministro agiu, esteve sempre, como o próprio primeiro-ministro diria esta quarta-feira, ao leme, e que invertendo um bocadinho as coisas, quem não teve uma postura institucional e quem não teve uma postura ao nível daquilo que era a função, foi André Ventura, quando se filmou a apagar um pequeno foco de incêndio, ou quando se filmou junto aos bombeiros aproveitando esses momentos para a sua promoção como político. Portanto, todos eles criticaram também, de uma forma ou de outra, o Chega por, de alguma forma, o seu líder ter tido algum aproveitamento da situação. Portanto, eu diria que sim, há o reconhecer um problema, porque todos decidiram atacá-lo da seguinte forma: primeiro, defender o primeiro-ministro, segundo, atacar aquele que neste momento parece ser o principal adversário da AD, que é André Ventura.
E não foram apenas esses governantes que citaste que passaram aí por Portalegre, onde estás, Rui. À mesma hora em que Montenegro respondia no Parlamento, Marcelo Rebelo de Sousa respondia às perguntas dos jovens na Universidade de Verão. Já regressamos à conversa com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Na segunda parte, olhamos para o que disse o presidente. Estamos de regresso à conversa com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Rui, tu não pudeste acompanhar em direto o discurso de Montenegro, porque estavas a ouvir Marcelo Rebelo de Sousa.
Verdade, nós já tínhamos reparado nessa coincidência no início da semana, de que Marcelo Rebelo de Sousa estaria a participar no evento da Universidade de Verão ao mesmo tempo que o primeiro-ministro respondia no Parlamento.
Ao início estava prevista uma declaração à distância, não é? Uma participação à distância.
Precisamente, por videoconferência. E foi um aspeto curioso, porque nas televisões que existiam na sala de aula, podemos chamar assim, estava uma cadeira vitoriana, estilo que existe em Belém, e um microfone em frente a essa cadeira. Então os alunos estavam todos com uma expectativa de olhar o momento em que o presidente aparecia na imagem, à distância, e Marcelo apareceu no fundo da sala surpreendendo todos. Explicou que estava ali e tinha que ser assim, porque era a última vez que estaria no PSD e para fazer aqui uma ponte com o final dessa intervenção, sabendo que vamos a ela ainda, depois à saída não quis falar aos jornalistas. Deve-se a certo que já tinha estado duas horas a falar, mas disse apenas sobre essa coincidência de calendário que já estava marcado e, portanto, que ele não ia desmarcar este evento, uma vez que a comissão permanente extraordinária foi marcada já depois e ele decidiu manter esta presença. Obviamente, podia remarcá-la pra outro dia, pra outro momento. Optou não o fazer, mas dá esta desculpa de fugida que é: já estava marcado e, portanto, não ia agora desmarcar algo com o qual já se tinha comprometido.
E o que disse Marcelo Rebelo de Sousa aos jovens aí em Portalegre? Como disseste, ele disse que era a última vez que aparecia na Universidade de Verão do PSD. Pareceu já um discurso de despedida.
Sim, Marcelo Rebelo de Sousa, antes de ser presidente, era uma espécie de professor quase fixo da Universidade de Verão. Era quem ia mais vezes. Depois de estar em Belém, já arranjou variadas formas de vir à Universidade de Verão do PSD, ou à distância, ou também presencialmente. E desta vez diz que veio pela última vez. Porque ele entende que, enquanto ex-presidente, não deve participar em ações partidárias. E isso é válido, no entender dele, para todos os eventos que o partido tiver. E claro que aí firma distâncias pra outros ex-presidentes que inclusivamente vieram à Universidade de Verão. E se é verdade que muita gente pensará: "Poxa, Cavaco Silva foi", já que é sempre alvo desta comparação de Marcelo, também Mário Soares, apesar de ser do Partido Socialista, aceitou vir à Universidade de Verão do PSD numa das edições e, portanto, Marcelo o que diz é que não volta, mas tem um peso maior do que não vir simplesmente nunca mais a Castelo de Vide. O que ele está a querer dizer Ele próprio não contribuirá mais para a vida interna do partido e não irá estar presente em nenhum evento que o convidem, seja um aniversário, seja um congresso, onde tem assento, ou um conselho nacional, nem tão pouco um evento partidário, mesmo que seja uma ação de formação de jovens.
Voltando um pouco à atualidade, Marcelo deixou também recados a Montenegro e ao governo assente numa minoria muito pouco maioritária, e agora estou a citar o presidente, e que é diferente do PSD de outros tempos.
Sim, o presidente da República às vezes parece ter alguma mágoa por não ser tão ouvido por Luís Montenegro. E a interpretação do chefe de Estado é que o primeiro-ministro, estando fragilizado e não sendo maioritário, devia, se calhar, também ouvi-lo a ele, não só tentar falar com o centro-esquerda, que é quem ele defende que o PSD deve falar e tentar estar em maior diálogo com o Partido Socialista, mas tentar o apoio do próprio presidente. E Luís Montenegro age muito a solto com o seu partido, às vezes sem se lembrar ou propositadamente, que não tem uma maioria parlamentar a suportar o governo. E Marcelo Rebelo de Sousa disse isso, lembrou essa frase, que é a tal minoria muito pouco maioritária, para avisar Luís Montenegro que tem que acautelar isso, porque senão, daqui a uns tempos pode haver nova crise, nova instabilidade política que conduza de novo a eleições. Mas nesses recados, deixa-me dizer, Teresa, que ele também sugere que esses acordos de regime para se atingirem, para combater os radicalismos e o Chega, devem ser feitos com o Partido Socialista e que o próprio PSD não se deve afastar da sua matriz de centro-direita e começar de alguma forma a imitar o Chega. Essa tem sido uma preocupação de Marcelo ao longo dos últimos meses, que confessa praticamente em privado, nunca o diz claramente em público, mas aqui também aproveitou estar pela última vez, alegadamente, aparentemente, perante o seu partido, para dizer que partido é que quer que o PSD seja e deixar estes recados a Luís Montenegro para dizer basicamente que é ao centro que está a virtude e o futuro do PSD e ficou o recado dado e acabou por ser também uma despedida de Marcelo Rebelo de Sousa destas lides da Universidade de Verão.
Obrigada, Rui Pedro Antunes.
Obrigado, Teresa.
Rui Pedro Antunes é editor de política do Observador. A fechar, algumas notas para esta quinta-feira. Pelas 17h, hora de Lisboa, há sorteio da Liga dos Campeões. Pode acompanhar tudo na emissão especial da Rádio Observador, com os comentários de Pedro Henriques, Gabriel Alves, Augusto Inácio e João Castro. E na rúbrica das festas e romarias, esta quinta-feira vamos até Grândola. Começa hoje a Feira de Agosto de Grândola, uma das mais antigas do país. A edição deste ano é a número 380. Originalmente com o nome de Feira de Santo António, começou por ser uma celebração católica. Com o tempo, perdeu o pendor religioso. Na edição deste ano, durante o dia, o destaque vai para a Gala Equestre, com demonstrações diárias no picadeiro do recinto. À noite e até dia 1 de setembro, há concertos de Plutónio, Sara Correia, Ana Bacalhau ou dos Dama. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Bacacis. Até amanhã.