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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O Papa Francisco prepara-se para renunciar? "Bueno, le debo preguntar en primer lugar, Santo Padre, cómo se encuentra.

Todavía vivo."

Há nove meses, o Papa Francisco respondia assim à primeira pergunta de uma entrevista à Rádio COPE: "Como está? Ainda vivo". Tinha sido operado semanas antes ao intestino, por causa de uma estenose diverticular sintomática do cólon. Esse problema de saúde pôs a possível renúncia na ordem do dia.

"Siempre que un Papa está enfermo, corre brisa ou huracán de conclave."

Na altura, Francisco dizia que erva daninha nunca morre e garantiu que renunciar-

"A mí ni se me pasó por la cabeza"

...nem lhe passou pela cabeça.

"Delante a interpretações que nacen..."

A garantia e o bom humor, porém, não travaram a especulação. Em parte será culpa própria. Pouco depois de ter sido eleito Papa, Jorge Bergoglio disse que só ficaria dois ou três anos. É certo que passaram nove, mas ao longo desse tempo, outros sinais, alguns para lá da saúde, contribuíram para que o tema nunca ficasse definitivamente arrumado. E agora, o anúncio de uma visita que o Papa fará em agosto, fez transbordar o copo da especulação, por causa do simbolismo do local, mas também porque a missão de Francisco parece estar cada vez mais concluída. Se os rumores forem verdadeiros, Bergoglio juntar-se-á a Bento XVI, já retirado, criando um cenário inédito de três papas vivos. Um embaraço para a Igreja? Hoje vou conversar com o jornalista João Francisco Gomes, que acompanha os temas religiosos e da Igreja Católica no Observador. Bem-vindo, João Francisco Gomes.

Olá, Sara.

Afinal, o que o Papa Francisco vai fazer a L'Aquila?

Aparentemente, há uma razão relativamente mundana para o Papa Francisco ir a esta cidade italiana. Nos dias 28 e 29 de agosto, como todos os anos, aliás, celebra-se naquela cidade uma celebração religiosa com o nome Perdonanza Celestiniana.

Que acontece todos os anos.

Todos os anos, há quase mil anos. Basicamente, é uma cerimônia de abertura de um ano santo de jubileu e de indulgência, que foi inaugurado pelo Papa Celestino V e que se repete anualmente. Agora, curiosamente, é a primeira vez em 700 anos que é um papa que vai fazer esta abertura do ano santo.

Talvez esteja aí o segredo desta especulação. Mas vamos primeiro a Celestino V. É que Celestino V, que está sepultado ali em L'Aquila, não é um papa qualquer.

Não, o Papa Celestino V foi um monge beneditino, que foi papa da Igreja Católica durante apenas seis meses, no século XIII, entre julho e dezembro de 1294.

Pouquinho.

Pouco tempo. Por quê? Porque em dezembro de 1294, Celestino V abdicou do trono pontifício. Na Igreja Católica costuma referir-se que o Papa Celestino V foi o primeiro papa a renunciar ao trono de São Pedro, apesar de ter havido, no primeiro milênio, alguns episódios de abdicação forçada, renúncias, etc. Mas o Papa Celestino é considerado a grande figura de referência para esta ideia da renúncia de um papa voluntária ao trono pontifício.

"Quae propter bene conscius pondus huius actus, plena libertate declaro me ministerio episcopi Romae"

A 11 de fevereiro de 2013, em latim, Bento XVI anunciou que renunciava. Consciente da gravidade dessa decisão, foi assim que disse. Quatro anos antes, João Francisco Gomes, Joseph Ratzinger tinha estado precisamente em L'Aquila.

Exatamente. O Papa Bento XVI, em 2009, fez uma visita semelhante, embora não para participar nesta celebração da Perdonanza, mas para visitar justamente o lugar onde está sepultado Celestino V. E quando lá esteve, fez um gesto bastante simbólico, que foi o de depositar por cima do túmulo do Papa Celestino, o seu pálio. O pálio é uma faixa de lã que o Papa habitualmente usa ao pescoço e que é um símbolo muito claro da jurisdição que o Papa tem sobre a Igreja Universal. E, portanto, a deposição desse símbolo da jurisdição em cima do túmulo daquele papa que tinha renunciado, pode agora ser lido como um sinal de que o Papa já estaria a ponderar a sua renúncia.

Mas na altura ninguém fez essa leitura.

Na altura, essa leitura foi pouco feita, até porque, na verdade, não havia propriamente um precedente das visitas àquele lugar, mas claramente quando o Papa Bento XVI renunciou em 2013, e nessa altura já se avolumavam problemas de saúde que o impediriam, por exemplo, de viajar até o Rio de Janeiro nesse ano, onde iam ser as Jornadas da Juventude. Nessa altura, foi feita uma leitura em retrospectiva daquilo que tinha sido a visita a L'Aquila em 2009, para se chegar à conclusão de que provavelmente já quatro anos antes, Bento XVI estaria inclinado a vir um dia a renunciar ao trono.

O que se junta ao simbolismo de L'Aquila e faz pensar que se calhar Francisco está a fazer precisamente o mesmo.

Sim, um papa não faz nada sem pensar na simbologia dos seus gestos e no modo como as coisas vão ser lidas pelos fiéis e pela sociedade civil no geral. E, portanto, claramente o Papa Francisco, ao visitar L'Aquila, sabe pelo menos uma coisa: Que vai dar origem a estes rumores, porque sabe que o seu antecessor fez o mesmo e depois renunciou e sabe que ele próprio está, neste momento, numa situação de saúde relativamente frágil e que ao visitar o túmulo daquele primeiro papa a renunciar, está pelo menos a criar motivo de discussão relativamente à possibilidade de vir a renunciar.

No início deste episódio, ouvimos o Papa Francisco dizer na entrevista à COP que sempre que um papa fica doente, corre brisa ou furacão de conclave. O estado de saúde de Bergoglio é sempre o que chama mais a atenção. Ainda no mês passado surgiu de cadeira de rodas e, portanto, isso levantou novamente a questão sobre a saúde dele. Mas, João Francisco Combs, a saúde não tem sido o único sinal de que uma renúncia pode estar iminente. Ele próprio disse logo no início do pontificado, que só teria mais dois ou três anos. Passaram, entretanto, nove. O que explica isto?

Sim, o Papa Francisco foi eleito papa já numa idade bastante avançada, já a caminhar para os 80 anos e, portanto, seria de certo modo expectável que ele não pensasse que iria ter um pontificado muito longo. Ainda por cima, na história moderna, temos o exemplo do Papa João Paulo II, que teve um pontificado muitíssimo longo, que marca um pouco essa lógica do que é que um papa pode fazer com 20 anos, ou com 10 anos, ou com 30 anos de pontificado. Agora, claramente, o Papa Francisco, quando entrou no Vaticano, há oito anos, agitava já uma bandeira de reforma.

Portanto, ele não estava a brincar quando disse que só contaria estar dois ou três anos. Ele podia estar a falar a sério.

Eu creio que ele estaria a falar a sério e ele teria um plano em mente, um plano de reforma da Cúria Romana. A Cúria Romana é basicamente o organismo central, a cúpula da Igreja Católica no Vaticano, e ele desde o início do seu pontificado defende que deve ser feito um trabalho de profunda reforma do modo como funciona a Cúria Romana. Um plano que ele foi desenhando ao longo dos seus anos de pontificado, para o qual convocou os contributos de muitas figuras da Igreja Católica, mas que, obviamente, foi sendo adiado por sucessivos escândalos e sucessivos casos que foram acontecendo durante o seu pontificado. Por exemplo, os escândalos financeiros em torno do Banco do Vaticano, que marcaram aquele período do início do pontificado.

E que o obrigaram a ir fazendo pausas.

E que o obrigaram a ir fazendo pausas. Claramente, o escândalo dos abusos sexuais, que neste momento já lá vão quase cinco anos de turbilhão permanente no Vaticano desde a situação de 2018. Mas, e é isso que traz uma grande simbologia a este momento que agora vivemos, este mês, junho, entrou em vigor a nova Constituição do Vaticano, que implementa esta reforma, finalmente, este processo de reforma que o Papa Francisco queria fazer durante o seu pontificado.

E a entrada em vigor da nova Constituição do Vaticano pode ser um dos sinais? Significa que o Papa Francisco sente que já cumpriu a sua missão?

Podemos interpretá-lo dessa maneira. Por exemplo, uma das novidades que esta nova Constituição do Vaticano traz é a possibilidade de os chamados dicastérios ou os organismos centrais, os ministérios, digamos assim, do governo da Igreja, poderem ser liderados por leigos e não necessariamente por cardeais. Esta luta contra o clericalismo institucionalizado dentro da Igreja Católica é uma das grandes bandeiras do Papa Francisco e ele queria muito que esta possibilidade pudesse entrar em vigor rapidamente. A possibilidade de pessoas que não são clérigos ocuparem os mesmos lugares de administração da Igreja Católica do que os clérigos. A entrada em vigor desta nova Constituição traz ao Vaticano, ou pelo menos à cabeça do Papa Francisco, podemos lê-lo dessa maneira, uma sensação de missão cumprida. Apesar de ter demorado mais anos do que ele inicialmente previra, parece estar a aproximar-se do fim a sua missão à frente da Igreja Católica.

Pelo menos este grande objetivo de reforma. Mas há um outro sinal, também de um anúncio de algo que está prestes a acontecer, que também nos remete para uma possível ideia de saída.

Sim, o Papa Francisco convocou também para agosto deste ano.

O mesmo mês da visita a L'Aquila.

O mesmo mês da visita a L'Aquila. E é curioso porque habitualmente os jornalistas que cobrem os assuntos do Vaticano e vivem em Roma costumam aproveitar sempre para tirar férias em agosto, porque em agosto não acontece nada no Vaticano.

Este ano, não.

Este ano não vai ser assim. Além desta visita a L'Aquila, bastante significativa, o Papa Francisco vai presidir a um consultório para a nomeação de 21 novos cardeais.

Estava previsto ou foi uma surpresa?

É um consultório que acaba por ser adiado por via da pandemia. É normal que um papa vá criando novos cardeais periodicamente. Agora, durante algum tempo, por causa da pandemia.

Mas se calhar não em agosto.

Talvez não em agosto, sim. Mas além deste processo de nomeação dos cardeais, há também um outro consultório extraordinário, que acontece depois da visita, destinado a debater a entrada em vigor da nova Constituição e que se afigura como o momento de um discurso importante do Papa Francisco, um momento em que poderemos, talvez, esperar um anúncio importante da parte do Papa Francisco, e há sim quem especule que ele possa anunciar que o seu pontificado está para terminar. Mas eu diria que a nomeação de novos cardeais é um daqueles sinais que nos faz pensar como o Papa Francisco está a pensar no longo prazo.

Escolher cardeais é uma espécie de escolher juízes para o Supremo Tribunal Americano. Escolhe-se a pensar no futuro, nas decisões futuras que vão tomar?

Sim, podemos fazer essa comparação, porque, na prática, os cardeais, que constituem o Colégio Cardinalício, os colaboradores mais próximos do Papa, são também eles quem têm a missão de votar no próximo conclave.

Isso significa que Francisco pode estar a tentar influenciar a decisão sobre a sua própria sucessão?

Sem dúvida, mas isso é algo que ele próprio tem assumido publicamente. Por exemplo, se nós olharmos para aquilo que era a Constituição do Colégio dos Cardeais durante o pontificado de Bento XVI e para aquilo que é hoje a Constituição do Colégio dos Cardeais, percebemos que o Papa Francisco tem colocado o seu cunho pessoal no Colégio Cardinalício. Como? Retirando completamente o peso aos europeus, nomeando cardeais de África, da América Latina, da Ásia, de dioceses muito pequenas, dioceses periféricas. Alguns norte-americanos, por exemplo, o último cardeal norte-americano que foi nomeado, é um cardeal que era um bispo completamente desalinhado dos outros bispos norte-americanos no que toca àquelas posições das chamadas questões fraturantes, do aborto, da eutanásia, das questões pró-vida, das armas, que é um tema agora importante nos Estados Unidos. E ele foi nomeado esse bispo cardeal e não mais nenhum dos outros arcebispos importantes dos Estados Unidos. Ele tem feito um processo de reforma também do Colégio Cardinalício. E hoje, quando olhamos para os cardeais que vão votar para eleger o sucessor do Papa Francisco, 63% deles chegaram ali por nomeação do Papa Francisco, 29% por Bento XVI e só 8% por João Paulo II. Portanto, neste momento, mais de metade dos cardeais que vão votar para escolher o sucessor de Francisco, foram escolhidos por ele.

"Annuntio vobis gaudium magnum: habemus Papam!"

Se Francisco renunciar, de facto, sabendo que já temos um papa retirado, por assim dizer, Bento XVI, podemos estar perante um cenário inédito de ter três papas vivos.

Sim, se excluirmos aquelas situações meio bizarras do primeiro milénio, em que havia papas e antipapas, ou, por exemplo, a existência de três pretendentes ao trono papal no século XV, Roma, Avinhão e Pisa. Enfim, se nos abstrairmos dessa parte da História Antiga e nos concentrarmos na História Contemporânea, sim, seria uma situação absolutamente inédita e também, deixa-me que te diga, bastante improvável.

Improvável porque criaria um enorme embaraço à Igreja.

Sim, na verdade, a existência atualmente de dois papas vivos já tem criado algum embaraço à Igreja Católica. O Papa Bento XVI renunciou em 2013 e acho que podemos dizer isto sem ofender ninguém, ele não esperaria ainda estar vivo em 2022. E de facto, sabemos que existem diferenças bastante assinaláveis entre as dinâmicas pastorais do Papa Bento XVI e as dinâmicas do Papa Francisco.

Na forma como pensam.

Na forma como pensam, mas também na forma como agem perante a Igreja Católica, as prioridades que definem para a Igreja, etc. O Papa Bento XVI era essencialmente um teólogo, é provavelmente o melhor teólogo católico do século XX. O Papa Francisco é essencialmente um pastor que vem dos lugares mais pobres do mundo.

Muito ligado à comunidade.

Completamente. São duas visões muito importantes para a Igreja, mas muito diferentes.

Mas o Papa Francisco é também, provavelmente por isso, muito querido dos fiéis. Vir um outro papa que pode não ter esse capital emocional, é difícil para o novo papa lidar com Francisco ainda vivo, tendo ele que prosseguir essa missão?

Seria difícil, tal como agora é, por exemplo, difícil para o Papa Francisco lidar com a existência de um papa emérito a viver nos jardins do Vaticano, a 200 metros dele, que de repente, e provavelmente sem grande intenção, se transformou no epicentro dos descontentes, dos conservadores, dos tradicionalistas, daqueles que acham que Bento XVI é que é o papa legítimo e que a eleição do Papa Francisco é ilícita. Portanto, neste momento, para o Papa Francisco não é nada fácil a existência ali ao lado de um papa muito diferente dele, que ainda tem o poder de galvanizar uma ala da Igreja com um peso bastante importante. Portanto, haver três papas e assumindo que o próximo papa seria uma figura mais filosófica ou, enfim, um bocadinho diferente, com perfil diferente do Papa Francisco, poderíamos correr o risco de ter três pontos de gravidade na teologia católica que seriam provavelmente insustentáveis.

Isso significa que na tua perspetiva, Francisco até pode estar a preparar a sua renúncia, mas só o fará depois da morte de Bento XVI.

Muitas das pessoas mais conhecedoras do pensamento do Papa Francisco, os seus biógrafos, os seus conselheiros, etc, têm dito isso com bastante frequência, que Francisco não descarta a possibilidade de renunciar ao trono papal, mas só o fará depois de enterrar Bento XVI.

Obrigada, João Francisco Gomes. O João Francisco Gomes é jornalista do Observador, especializado em temas religiosos. É autor do livro "Roma, Temos um Problema", sobre a forma como a Igreja Católica lidou e tem lidado com o problema dos abusos sexuais. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até amanhã.