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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O que dizem as escolhas de Luís Montenegro sobre o novo governo? Saem quatro, entram dois novos ministros, um secretário de Estado é promovido a ministro. Olhando para as escolhas de Luís Montenegro, que leituras podemos fazer sobre o 25º governo que é empossado esta quinta-feira no Palácio da Ajuda, em Lisboa? É sobre isto que vou conversar com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de quinta-feira, 05 de junho. Bem-vindo, Miguel.

Olá, Ricardo.

Vamos começar, se calhar, olhando para as saídas do governo. São, dirias, as esperadas?

Há duas saídas que eram esperadas: a ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, e também Margarida Blasco, até aqui ministra da Administração Interna. Aliás, o Observador antecipou essas duas saídas em abril, por razões diferentes. Margarida Blasco por razões pessoais, Dalila Rodrigues porque criava problemas dentro do governo e fora dele, tinha uma péssima relação com os agentes do setor e dentro do governo era uma troublemaker. Há muito que se sinalizava essas duas saídas como bastante prováveis. Talvez a mais surpreendente é a saída de Pedro Reis do Ministério da Economia. Há várias justificações que estão a ser usadas neste momento, uma por vontade do próprio, o que é impossível provar, nunca saberemos, a menos que o próprio diga que foi empurrado. Depois há uma justificação orgânica que talvez faça algum sentido. De facto, o Ministério da Economia, na anterior orgânica do Executivo, estava ensanduichado pelo Ministério das Infraestruturas, de Miguel Pinto Luz, e pelo Ministério da Coesão Territorial, de Castro Almeida, e era uma pasta algo esvaziada. Portanto, Luís Montenegro terá olhado para as várias peças que tinha no tabuleiro e decidiu dispensar Pedro Reis, que, e repito isto, segundo as informações que nos são dadas, manifestou vontade de regressar ao seu lugar de origem.

E o caso da ministra da Saúde, Ana Paula Martins. Se calhar aqui uso uma metáfora futebolística, ela no fundo conseguiu assegurar a manutenção, era dada como forte hipótese de saída. Por que continua no governo?

Ricardo, permites-me que faça uma coisa que não se deve fazer, que é corrigir a tua pergunta? Ana Paula Martins nunca foi apontada à saída.

Foi mito urbano.

Também nesse texto de abril que o Observador teve a oportunidade de publicar, era-nos garantido que Ana Paula Martins estava mesmo de pedra e cal. É uma mulher em quem Luís Montenegro tem muita confiança. Durante a campanha, Luís Montenegro chegou a referir-se à sua ministra da Saúde como uma mulher rija, expressão do próprio. E depois há uma leitura política óbvia. Ana Paula Martins é uma escolha de Luís Montenegro. É uma escolha pessoal e Luís Montenegro atravessou-se por ela. A partir do momento em que dispensasse a sua ministra da Saúde, também seria a assunção de que a sua estratégia, a sua, de Luís Montenegro, para a saúde também tinha falhado. E Luís Montenegro não quer isso. Não quer dizer que Ana Paula Martins entre neste novo governo com a ficha limpa. Não entra.

Porque não entra, sobretudo nesta área.

Uma série de percalços, para dizer o mínimo. A oposição está a reagir de forma muito vocal.

E podemos ter um verão muito complicado, não é?

É verdade. A oposição está a reagir de uma forma muito vocal à continuidade da Ana Paula Martins, vai pressionar imenso a ministra da Saúde e será um teste de fogo, naturalmente. Aqui, com uma nuance, nós ainda não conhecemos os secretários de Estado.

Exato.

Mas a informação que temos é que-

Nós estamos a gravar no final da quarta-feira, portanto ainda não conhecemos

Exatamente. Mas a informação que temos é que haverá um reforço na equipa da saúde, que não funcionou bem. E é possível dizer isso. Não funcionou bem em vários momentos. Basta lembrar que Ana Cristina Vasco Tomé tinha a tutela do INEM e quando acontece o que aconteceu, é Ana Paula Martins que fica com a tutela do INEM. Enfim, não tomo como certa a continuidade dessa secretária de Estado e o que é possível dizer nesta altura é que haverá um cuidado de dar maior músculo ao Ministério da Saúde.

E temos poucas entradas. Quem é que entra?

Entra Gonçalo Matias como ministro com a tutela da Reforma do Estado e entra Maria Lúcia Amaral como ministra da Administração Interna. São os dois grandes destaques desta nova composição do governo.

E Gonçalo Matias vai estar a trabalhar diretamente com o primeiro-ministro. Tudo permite leituras, mas esta também nos permite uma leitura da reforma do Estado.

Há aqui três dados curiosos sobre Gonçalo Matias. O primeiro, e já podemos dizê-lo agora, Gonçalo Matias já tinha sido convidado para o anterior governo e recusou. Depois as versões divergem, mas o que é facto é que recusou. Mas é alguém que está na órbita do Luís Montenegro há muito tempo. Tinha sido uma primeira escolha e agora finalmente junta-se à equipa do Luís Montenegro. Há um segundo dado curioso. Durante a campanha, quando se falou da possível aliança entre AD e IL, quando isso ainda era um cenário possível, esta ideia de entregar à Iniciativa Liberal a modernização administrativa ou a reforma do Estado, melhor dizendo, chegou a circular. Há aqui uma aposta séria na reforma do Estado. E em terceiro lugar, e respondendo diretamente à tua pergunta, Gonçalo Matias será ministro adjunto. Isso tem um peso e está a ser lido assim também no governo. Ou seja, Gonçalo Matias terá o respaldo, depois terá de procurar e terá de fazer o seu próprio caminho, mas tem o respaldo do primeiro-ministro para Com todos os ministérios, encontrar formas de tornar o Estado mais eficiente, menos burocrático, mais leve e, portanto, dar o tal sinal que Luís Montenegro sublinhou querer dar no último Conselho Nacional do PSD, que serviu essencialmente para formalizar o apoio a Luís Marques Mendes. Mas nesse discurso, eu chamo a atenção para isso, Luís Montenegro já tinha deixado um sinal muito claro que quer, nesta legislatura, fazer uma reforma do Estado e da administração pública sem paralelo. E Gonçalo Matias será o homem, ou foi o homem escolhido por Luís Montenegro para fazer essa reforma do Estado sem paralelo.

Já voltamos à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Será este um governo para quatro anos? Estamos de regresso à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Miguel, e o caso de Maria Lúcia Amaral, não é estranho que um provedor de justiça, ou uma provedora de justiça, transite para um ministério, neste caso, para a administração interna? Não seria mais normal o contrário, alguém que já foi ministro ser provedor?

Eu diria que sim, mas não vou fazer grandes considerandos. Deixo isso para a oposição a Luís Montenegro, que terá aqui mangas para explorar esta transição. Digo algo que me parece interessante e porque está a fazer algum eco no interior do governo. É indesmentível que a nova ministra da Administração Interna tem um currículo invejável. À prova de bala. Acontece que Margarida Blanco-Artenara também tinha. E esperava-se, no Ministério da Administração Interna, alguém com um peso político diferente, um político, verdadeiramente. Tal como, e foi um exemplo que me foi dado, José Luís Carneiro, por exemplo, alguém que tivesse o conhecimento da forma como a política opera. Esta ministra, tal como a anterior, não tem esse conhecimento e sabemos que é uma pasta muito exigente, que envolve, desde logo, o combate à criminalidade, naturalmente, a relação com as forças de segurança, mas também a relação com os bombeiros e com o território e com a floresta, os incêndios de uma forma geral. Portanto, isto será um teste exigente à nova ministra da Administração Interna. A escolha surpreende, não pelo currículo, mas pelo perfil.

E outra pasta importante no anterior governo e neste também, olhando para o novo desenho do Parlamento, é a pasta dos Assuntos Parlamentares. Pedro Duarte vai ser candidato à Câmara do Porto, saiu do governo e é substituído pelo secretário de Estado, Carlos Abreu Amorim, que conhece muito bem o Parlamento, mas é uma pessoa com pelo na venta. Será a pessoa indicada para gerir e procurar consensos e equilíbrios?

É verdade, e aqui não deixa de ser curioso que no anterior governo havia um tridente. Hugo Soares como líder parlamentar do PSD, Carlos Abreu Amorim como secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e Pedro Duarte como ministro dos Assuntos Parlamentares. Na altura, a justificação que foi dada era que existia uma espécie de peso e contrapeso. Hugo Soares e Carlos Abreu Amorim, muito mais assertivos, para usar um eufemismo, Pedro Duarte como alguém capaz de fazer pontes. Pedro Duarte foi a revenda dele, naturalmente. E Carlos Abreu Amorim agora torna-se ministro dos Assuntos Parlamentares. Diria que pelo perfil de ambos, isto não é nenhuma desconsideração, é pelo perfil político de ambos, junta Suv, Ford, furar gasolina. Vai ser interessante perceber como é que os dois vão conseguir liderar as negociações.

Vai ser preciso negociar para um lado e para o outro. Com o Chega e o Partido Socialista.

Com o Partido Socialista e com o Chega, precisamente. Ninguém nega a experiência de ambos, mas isso será um foco de atenção para as próximas semanas e meses.

Já falaste há pouco da junção de pastas, da economia na coesão territorial, agora de Castro Almeida. Vamos também olhar para a fusão da cultura com a juventude e desporto, onde permanece Margarida Balseiro Lopes, que fica também com a pasta da cultura. Ou seja, há aqui um downgrade da cultura ou não?

Isso é inequívoco. A cultura tinha direito a um ministério próprio, passa a estar integrado num mega ministério que dá um bocadinho para tudo, a juventude, o desporto, a cultura.

Quase que parece o Inatel, isto.

É difícil saber o que fará Margarida Balseiro Lopes no cargo. Mais uma vez, avaliando exclusivamente o perfil de Margarida Balseiro Lopes e da anterior ministra da Cultura, é possível dizer que, sem grande risco de errar, que Margarida Balseiro Lopes tem uma outra forma de estar e uma forma mais tranquila de se relacionar com os agentes do setor do que a sua antecessora. Isso pode ser importante para segurar um setor, que é o setor da cultura, que sabemos todos É muito reivindicativo. Balsero Lopes tem esse perfil político. Se conseguirá fazer ou não um bom trabalho, isso já são outros 500. É verdade que deixa de ter uma pasta que era importante, que era a Modernização Administrativa, uma pasta muito ingrata porque é difícil apresentar grandes resultados. Margarida Balsero Lopes não terá sido particularmente bem-sucedida, não tinha o perfil que Luís Montenegro precisava para a tal verdadeira reforma do Estado que quer impor. Fica agora com a juventude, com o desporto, com a cultura e será um teste importante para Balsero Lopes.

O núcleo político mantém-se, a grande maioria dos ministros mantém-se, ou seja, a política mantém-se, ou o programa.

Não sei se devo dizer isto, mas se estivesse a entrevistar um assessor do Luís Montenegro, esse assessor dir-te-ia que se o primeiro-ministro, o governo e as políticas foram revalidadas nas urnas, então a política mantém-se.

De forma estrondosa.

Então a política mantém-se. Creio que há aqui sinais a acompanhar e que são interessantes. Houve um cuidado de entregar a Castro Almeida maior controle sobre economia e os fundos europeus, centralizar nesse ministro, o que mostra uma preocupação com os tempos que aí vêm. A economia não apresenta sinais muito positivos. Há uma aposta renovada na administração interna, o que pelo menos no papel indica ou indicia que Luís Montenegro está preocupado com aquela pasta em concreto e com aquela área em concreto. Há um sinal que permite leituras menos positivas. O Ministério das Infraestruturas e da Habitação continua junto nas mãos de Miguel Pinto Luz, é um mega ministério. Esperava-se e chegou a circular a hipótese de haver uma divisão de pastas, infraestruturas para um lado, habitação para outro, para dar o tal sinal de que há uma preocupação acrescida com a habitação. Isso não veio a acontecer. A justificação que é dada, e que também é razoável, é que há muitos dossiês em curso e que interromper e mudar de pastas e mudar de personagens e mudar de líderes poderia ser pior. Isso é um sinal menos positivo, mas que tem uma explicação. E portanto, as políticas continuam, mas há aqui alguns impulsos. Diria que o mais evidente, naturalmente, era aquele que já falamos, que é a questão da reforma do Estado. Vamos ver que reforma do Estado será essa, que resultados vêm daí. Com uma nuance, que é importante dizer, eu acho que poucos governos existiram nos últimos anos que não falassem em reforma do Estado, mas a reforma do Estado continua por realizar. Havia até um célebre documento assinado por Paulo Portas que ninguém sabe exatamente aquilo que veio a produzir.

E esta equipa é para quatro anos?

Já não podemos fazer esse tipo de apostas. Acho que já estamos todos tão escaldados que mais vale não fazermos grandes apostas. Acho que olhando para a dinâmica parlamentar e política neste momento, não me parece que o Partido Socialista nos próximos dois, três anos venha ou queira derrubar o governo. Acho que aprendeu da pior forma a lição nas últimas eleições legislativas. O Chega sabemos que quererá, a terminal altura, provocar e forçar o romper de corda. Diria que pelo menos dois a três anos teremos para descansarmos todos um bocadinho.

Obrigado, Miguel.

Obrigado, Ricardo.

Miguel Santos Carrapatoso é editor adjunto de política do Observador e vai acompanhando a vida do governo e do PSD. Ficam ainda três notas para esta quinta-feira. Claro, a de que o governo toma posse é às 18h, no Palácio da Ajuda, em Lisboa, e vamos acompanhar tudo ao pormenor na Rádio Observador e no site. Também esta quinta-feira, João Noronha Lopes apresenta a candidatura à presidência do Benfica. Vai ser no ringue da Junta de Freguesia de Benfica, às 18h30. E em Washington, o presidente norte-americano, Donald Trump, recebe o chanceler alemão, Friedrich Merz. Em discussão, estão as relações bilaterais e questões internacionais como a guerra na Ucrânia, a situação no Médio Oriente e obviamente, a política comercial. As visitas à Casa Branca têm sido alvo de atenção especial depois das cenas protagonizadas, por exemplo, por Zelensky e pelo presidente da África do Sul. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.