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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que explica este caos nos exames nacionais?
O processo não começou bem, começou com uma série de dificuldades informáticas, fundamentalmente. Não são as únicas, mas são fundamentalmente dificuldades informáticas que estão a ser ultrapassadas.
O ministro da Educação é daqueles que vê o copo meio cheio. No dia em que a plataforma de correção de exames ficou indisponível, em manutenção, sem que ninguém estivesse à espera, o ministro Fernando Alexandre manteve o ar confiante de que tudo vai correr bem. A classificação dos exames nacionais está a ser toda feita pela primeira vez de forma digital e o processo tem sido caótico. Convocatórias que chegam atrasadas, exames que aparecem incompletos ou misturados, perguntas que não se conseguem ler, classificadores que ficam vários dias sem acesso às provas. Ou, na versão do ministro, problemas informáticos que, na verdade, já obrigaram a adiar prazos. Hoje eu vou conversar com a jornalista do Observador, Mariana Marques Tiago. Vamos falar dos vários problemas que marcaram este processo, tentar perceber por que isso aconteceu e o que se aprendeu ou não se aprendeu com os erros do passado que já faziam adivinhar tudo o que se está a passar agora. Eu sou o Pedro Gonçalves e esta é a história do dia de terça-feira, 07 de julho. Olá, Mariana.
Olá, Pedro.
Calhou desta vez andar aqui a investigar este desatraço. Este processo, se nós fôssemos supersticiosos, podíamos dizer que tem sido muito azarado, tem corrido muita coisa mal.
Sim.
O problema é que quando se trata de decisões políticas, institucionais, de governos, isto não tem muito a ver com azar, às vezes tem a ver com coisas que foram mal feitas. Por isso, o que aconteceu na tarde desta segunda-feira, quando era suposto os professores estarem finalmente a corrigir provas e depois não estavam a fazer isso?
Estamos a falar da falha na plataforma onde os professores corrigiam os exames. Houve uma falha de segurança que foi registada.
Estás a usar a expressão oficial.
Exatamente, foi uma falha de segurança. Se calhar, dar aqui uma nota que hoje, pela primeira vez, o Ministério da Educação abriu as portas ao sítio onde estão atualmente armazenados os exames e onde foi feita toda a digitalização. Alguns órgãos de comunicação tiveram acesso a esta visita guiada, chamemos-lhe assim.
Tu estiveste lá?
Exatamente. E depois, no âmbito desta visita guiada, houve uma conversa com o ministro, em que lhe perguntámos precisamente o que se passava para a plataforma estar em manutenção, porque não houve qualquer esclarecimento dado aos professores. Os professores tentaram aceder e simplesmente disse que estava em manutenção até às 15h. E aquilo que nos foi dito nesta tal conversa com o Ministro da Educação é que foi detetada uma fragilidade, uma vulnerabilidade na plataforma e, portanto, foram aconselhados a colocar a plataforma em suspenso temporariamente enquanto faziam as correções necessárias.
Mas foi alguma invasão, algum hacker que entrou no sistema?
Aquilo que nos disseram é que não. Nós perguntámos diretamente se tinha sido um ataque informático ou uma tentativa de. Disseram claramente que não houve um ataque, não houve uma intrusão, houve apenas uma falha de segurança que foi detetada. Não especificaram de que falha de segurança é que estávamos a falar.
E portanto, num processo que já era complicado de raiz, agora, de repente, encontrou-se uma fragilidade informática. Isto dá um bocadinho a ideia de que o sistema não estava bem preparado para responder às necessidades daquilo que era este processo de avaliação, porque já agora, para quem eventualmente não tem filhos em idade de fazer exames nacionais, isto foi a primeira vez que o processo foi todo digitalizado.
Sim. O que aconteceu foi: o ano passado houve uma espécie de projeto-piloto com o exame de Filosofia.
E correu tudo bem?
Não, houve muitas falhas reportadas na altura, falhas essas que se estão a verificar agora uma vez mais e, portanto, o ministro já foi confrontado com esta questão, já foi questionado. Se determinadas falhas foram detetadas no ano passado, por que é que agora estão a repetir?
É para isso que ele serve, não é, em princípio?
Exatamente. Algumas dessas falhas, se calhar, para concretizar, para quem não tem filhos com estas idades, são, por exemplo, perguntas que ficaram ao meio. Numa composição, vamos imaginar, o texto fica a meio ou, noutras circunstâncias, até baralham-se as respostas de dois alunos e que os professores dizem claramente que se percebe que houve aqui uma mistura porque a caligrafia é diferente. E os professores estão habituados a estas coisas, conseguem logo detetar quando é que há aqui estas diferenças. E isto aconteceu no ano passado. Agora, o processo foi novamente aplicado, com a diferença de que foi todos os exames do secundário, 11º e 12º.
Houve um projeto-piloto, deu sinais de que as coisas não estavam bem.
Ou que não estavam ainda preparadas.
Não estavam preparadas para numa só prova, Filosofia.
Exatamente.
E o que se decidiu foi: vamos abrir para toda a gente e a partir de agora. Porque, efetivamente, também é importante esclarecer aqui duas coisas diferentes. Um é a digitalização dos exames, que é um processo Que era mais ou menos expectável e natural. Tendo em conta a evolução tecnológica, é normal que se digitalizem muitos serviços, nomeadamente os exames e a correção dos exames. O problema foi que havia sinais claros de que isto não estava a funcionar e mesmo assim avançou-se. O ministro deu alguma resposta sobre a decisão que foi tomada, apesar dos problemas já terem sido identificados no passado?
Não, aquilo que o ministro disse, e que também já tinha dito, portanto não foi novidade, é que o ano passado serviu apenas para testar e para fazer correções, e para se prepararem para este ano. Só que este ano estamos a verificar novamente.
É difícil acreditar que a coisa estava totalmente preparada, tendo em conta todas as confusões que aconteceram. É curioso que todo o processo desde o princípio, logo desde a parte em que os miúdos fizeram a prova e depois as provas deviam ser corrigidas, que a coisa não correu bem, sendo que logo no início o ministério descartou algumas responsabilidades e passou algumas responsabilidades para as escolas. Foi isso?
Inicialmente, até houve aqui uma questão interessante, que foi: um dos primeiros avisos veio logo do movimento Missão Escola Pública, que foi, as provas deviam ter começado a ser distribuídas em 23 de junho. E o movimento começou a estranhar porque os professores ainda não tinham recebido provas. Passa um dia, passam dois dias e entretanto percebe-se que há efetivamente um problema.
Porque dois dias depois da data suposta, os professores ainda não receberam provas.
Não haviam provas para corrigir. E o próprio ministério tentou descartar aqui um bocadinho esta situação, ou desvalorizar aqui um bocadinho a situação, e depois percebeu-se que efetivamente havia um problema. O próprio Educa garantiu, o Educa é o antigo IAVE, se calhar assim para quem ainda não está a par dos novos.
Que é a plataforma que garante a condução do processo.
Sim, exatamente. E o próprio Educa disse que os prazos iam ser cumpridos, o ministro também disse o mesmo. Tem andado aqui muito a par e passo, não tem havido tensões.
Estão a falar a uma só voz, mesmo que essa voz pareça um bocadinho dissonante da realidade.
Sim. Depois se atrasou a afixação das pautas. Temos aqui um atraso, passámos de 14 para 17 de julho.
14 de julho era a data em que as pautas deviam ser afixadas, os alunos iam saber as notas. Agora essa data passou para dia 17 de julho. E neste momento o ministério está confiante de que vai acontecer, mesmo apesar, por exemplo, deste novo problema em que estamos numa segunda-feira, dia 6 de julho, e o sistema não funciona.
Entretanto, o sistema já voltou a funcionar. Lá está, houve esta pausa, chamemos assim, até às 15h e a partir daí voltou a funcionar. O ministro nesta reunião, esta manhã, disse-nos que o problema já estava resolvido, mas que o sistema estava em manutenção por uma questão de segurança, para que não se precipitasse.
Pronto, mas foi mais um atraso. Entretanto, diz que não estava previsto, aparentemente, que era uma fragilidade de segurança que foi descoberta assim em meio deste processo. E o ministério mantém confiança de que a data de dia 17 de julho vai manter-se. Também falava de não haver atrasos antes e entretanto aconteceu. Agora, há várias entidades da educação, desde logo, sindicatos, naturalmente, mas também associações que representam escolas e também representam pais, que começam a ficar um bocadinho preocupadas, porque este alargar do prazo de 14 para 17 pode ter outras consequências.
Claro, sim. A primeira é logo que a segunda fase vai começar mais tarde. Consequentemente, há aqui logo uma questão que muitos pais apresentaram logo, que é o que vai acontecer com as férias. Porque já havia famílias com férias marcadas e tudo mais. Isto além de todo o estresse que se associa ou que os alunos podem estar a sentir por não saberem muito bem o que vão fazer. Mas para já, essa é a consequência imediata, que mais uma vez o ministro também desvaloriza, não vê isso como uma questão.
Sendo que isto também tem implicações depois no próprio prazo para que os alunos se inscrevam nos exames da segunda fase. Todo esse processo se reduz. Para quem não está habituado a lidar com estas questões, o processo de inscrição nos exames é uma coisa altamente burocrática. Eu lembro, porque eu tenho filhas com idades, ou fizeram recentemente, ou estão a fazer agora, coisas de tão burocrates como ficha ENES. Não é um processo simplificado.
Sim.
O encurtar dos prazos permite que as coisas funcionem, vão funcionar todas como é suposto?
Sim, prevê-se que sim. Essa é a garantia que o ministro nos continua a dar e que tudo vai correr bem e que tudo se mantém como previsto. Houve aqui esta ligeira alteração, mas inclusivamente no comunicado em que nós fomos informados desta alteração dos prazos, o ministério diz que não havia necessidade desta alteração de prazo, mas que o fizeram na mesma por uma questão de garantia.
Então, teoricamente, até mesmo com estes atrasos, daria para que os prazos fossem cumpridos. O ministério achou que por uma questão de segurança e dar ali alguma margem de confiança, alargou os prazos e portanto eles hão de ser cumpridos. Alguém no ministério, a sensação que tu tens é que, porque olhando de fora, a ideia que dá é que este processo tem sido um pouquinho caótico. Alguém reconhece isso como tal ou acham que a coisa está a correr mais ou menos dentro do previsto?
Se olharmos para o ministério, enquanto entidade, que seja o ministro, secretário de Estado, até o próprio presidente do Educa, que esteve conosco na visita esta manhã Tudo é visto com bastante normalidade, ou seja, eles reconhecem que é um processo complexo, que é preciso cumprir muitas normas de segurança, mas eles próprios veem isto como se fosse um pouco de dores de crescimento. Do outro lado, temos os professores e os movimentos, tal como referiste há pouco, que não veem isto assim, que estão muito preocupados e que sentem que não têm resposta, que muitas vezes apresentam não tanto questões relacionadas com a correção em si, mas sim questões relacionadas com problemas informáticos e que não têm resposta.
Só para as pessoas terem ideia, as próprias convocatórias para os professores foram complexas e micrincóticas. Houve uma série de erros em todo o processo e agora naturalmente teme-se que isto possa acontecer agora numa segunda fase, ainda por cima com datas diferentes, os processos de convocatória dos professores também podem ser complicados. Mas olhando numa perspectiva mais otimista, foi anunciada alguma coisa boa, nova, pelo menos nesta visita que foi organizada para dar a conhecer o processo aos jornalistas?
Ficámos a saber que os alunos vão poder aceder às provas que fizeram, que é uma inovação, porque até aqui aquilo que o aluno fazia era o seu exame, as notas eram afixadas e depois podia ou não pedir reapreciação de prova, que vem com um custo associado.
Tinham que pagar para pedir a reapreciação da avaliação que tinha sido feita. E aí é que podiam ver o seu próprio exame e a correção que tinha sido feita.
Sim, aí teriam acesso ao conteúdo. Este ano as coisas vão mudar e os alunos vão ter acesso a um link e depois vão conseguir ver o exame que fizeram, as suas respostas, a correção que foi feita.
Sem pagar a mais por isso.
Exatamente. E depois podem pedir reapreciação se quiserem, mas são coisas separadas.
Mas é uma boa medida. Se o link funcionar, se não der...
O objetivo, segundo aquilo que o ministro disse, é para já aumentar a questão da segurança relativamente ao processo que está a ser feito, porque o aluno pode ver que aquele efetivamente é o seu exame, são as suas respostas.
Fica mais transparente todo esse processo.
Exatamente. Além de, possivelmente, vir a diminuir o número de reapreciações que depois vão ser pedidas. Porque a partir do momento em que o aluno vê aquilo que fez e a correção, vai conseguir perceber: "Ok, não vale a pena pedir reapreciação disso".
Em vez de estar um pouco às cegas e fazer um pedido de apreciação antes sequer de ver.
Seria uma coisa que ia dificultar ainda mais os processos burocráticos, e não só, em todo este processo.
Que já não está a ser fácil. Mariana, obrigada. Vamos também dar uma palavra de solidariedade para com os pais e os professores e toda a gente envolvida neste processo, que é complexo, mas enfim, dores de crescimento. Vamos ver. Eu conversei com a Mariana Marques Tiago, jornalista do Observador, que está a cobrir este processo turbulento da correção digital dos exames. O governo parece estar confiante, mas algumas plataformas de professores, como a Missão Escola Pública, estão menos otimistas. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.