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Nuno Gonçalo Poças, estás-te a rir? Não é uma das horas mais aguardadas do dia. E o vencedor é: disponível na rádio e em vídeo no YouTube do Observador. E hoje com o Nuno Gonçalo Poças, a Judite de França e a Raquel Bacasis. Eu sou Ricardo Conceição. Bem-vindos. Não há volta a dar. Temos que continuar a falar de habitação, acampamentos. Raquel, tu gostas de acampar? Não, eu acho que tu não.
Não sou fã.
Não?
Não sou fã.
E és fã dos acampamentos ou também não?
Também não sou fã. E devo dizer que de dia para dia fico menos fã.
Estás a ficar...
Estou a ficar cada vez menos fã.
Estás a ficar cansada?
Exatamente. É porque, ao princípio, o discurso era original. E à medida que os dias e as horas passam, o discurso começa a se tornar meio discurso de cartilha, e com um único objetivo. Isto começou porque os jovens não tinham casa, que é verdade, e tinham grande dificuldade em aceder à habitação, e transformou-se numa ação de contestação a uma lei das rendas que ainda não foi votada no Parlamento, nem sequer debatida na especialidade. E o que eu concluo é que quando for atingido o objetivo, cada vez estou mais convencida que será atingido, porque não me cheira que o Chega vá agir em relação a isto de forma diferente ao que agiu em relação ao Código do Trabalho, as manifestações vão acabar e vai ficar tudo bem, como se dizia na pandemia, vai ficar tudo bem, já não vai haver mais problema. E esse é o problema do nosso país. E o meu segundo tema depois vai ter a ver também com isto. É que nós passamos metade do ano a dizer que é preciso mudar tudo, e que não há reformas, e que isto assim não vai lá. E depois passamos a outra metade do ano, cada vez que alguma coisa se quer mudar, ou que se quer experimentar fazer diferente, e eu aqui faço um parêntesis, não sou especialista em habitação nem em rendas, mas sei uma coisa que eu acho que todos os portugueses sabem: é que nós temos um problema com rendas desde 1940. Há bocado estavas a falar com o senhor de Santa Comba Dão, e eu espero ansiosamente pela altura em que vai haver uma exposição e um centro interpretativo, mas em que esse centro interpretativo vai abordar a questão do congelamento das rendas e do que é que isso fez ao país. E curiosamente, a esquerda que arranca os pelos cada vez que se fala em Salazar, ou em sequer fazer um centro interpretativo, ou o que quer que seja que dê a entender que existiu em Portugal um senhor chamado Salazar, na lei das rendas, eles são fãs. Houve um patrimônio que Salazar deixou ao país, que teve este efeito espetacular de dar casas a toda a gente, como estamos a ver. Independentemente dos pormenores que estão em discussão nesta nova lei das rendas, há uma coisa que o histórico nos mostra. Houve uma primeira guerra em democracia em relação à lei das rendas, que foi alterada desde esses tempos. O Nuno estava a me fazer aqui um sinal para trás, portanto, não é 1940, é ainda antes.
Não, está a falar também do congelamento da Primeira República.
Sim, pronto, já não vou tão atrás.
É uma história com 100 anos.
Isso agrava o problema. Mas a questão é que quando finalmente alguém tentou mudar essa lei, teve a sorte de ficar com o nome inscrito numa lei, a chamada Lei Cristas. Mas foi objeto e alvo de uma guerra. Nem sei bem definir ainda hoje quando se fala nisso. Se pudessem ter posto a senhora na fogueira, teriam feito.
Lei Cristas não é propriamente um nome abonatório, não é?
Ela orgulha-se disso. Eu, por acaso, dou-me bem com a pessoa e ela até se orgulha disso.
Mas quando é dito, geralmente é com uma conotação negativa.
Sim, claro. A Lei Cristas acompanhada de cartazes com caveiras e coisas do gênero. Mas a verdade é que aquilo de que nós hoje nos queixamos, foi um avanço, apesar de tudo que tivemos nas principais cidades, sobretudo em Lisboa e no Porto, que foi reabilitar centros urbanos que estavam a cair aos bocados por causa de uma famosa lei das rendas, em que as pessoas pagavam quantias irrisórias durante anos e anos, décadas e décadas, e transferiam as rendas dos pais para os filhos e para os netos. E isso fez com que, obviamente, os senhorios fossem à falência, não tivessem sequer qualquer tipo de responsabilidade em relação aos imóveis, e nós tínhamos Lisboa no estado em que tínhamos. Claro que as coisas depois têm que ir sendo acompanhadas e a evolução dos tempos e tudo isso. Mas depois o que vimos foi que, hipocritamente, António Costa e a Geringonça quando chegaram ao governo, mudaram a lei, mas não mudaram completamente. Portanto, queixam-se de uma lei, tiveram 10 anos a governar e também não regrediram completamente. E agora, que se tenta fazer alguma coisa que me parece óbvio que é um dos problemas graves, a par da falta de construção, que é alterar uma lei que está claramente a inviabilizar que milhares e milhares de casas possam ser postas no mercado de arrendamento, cria-se esta guerra Que eu até admito que não começou por aí. Acho que começou por um protesto de uma juventude que viu que isto estava a funcionar noutros países e tentou fazer o mesmo cá, mas que foi rapidamente capturada por um objetivo político, que a única coisa que quer é que esta lei não passe. Estou bastante convencida que não passará. E mais uma vez, de facto, o Nuno aqui muitas vezes se queixa da ausência de reformas, mas quando nem sequer se conseguem mudar pequeninas coisas, de facto, é praticamente impossível tentar fazer mais.
Não passará, Nuno?
Pois.
Ainda quero ir à posição do Chega no meio disto tudo.
Sim, apesar de tudo contra qualquer coisa. A semana passada, quando nós falamos isto aqui a primeira vez, ainda estava a coisa mais ou menos no ar. E eu lembro-me, depois fui para casa a pensar nisso e até recebi algumas mensagens de gente que me estava a dizer que se calhar eu tinha exagerado um bocado e que as coisas não eram bem assim. Normalmente, quando me dizem esse tipo de coisas, eu fico a pensar se calhar estava errado. E hoje, olhando para trás, passou só uma semana, mas passou imensa coisa, não sinto, de facto, que estivesse enganado. Aquilo que o esquerdismo europeu e ocidental faz desde há muitas décadas é precisamente aquilo que nós vimos neste momento acontecer, que é pegar em causas que são tidas pela maioria da sociedade como justas, problemas de emprego, de acesso à habitação, normalmente estas questões mais sociais, e usá-las para semear discórdia, ódio e para promover uma agenda que é antiocidental, anticapitalista, anti aquelas coisas todas que eles chamam da sociedade burguesa. E nós, de repente, passamos esta semana a ouvir falarem e com as televisões a dar palco a isto, que a Assembleia Popular já decidiu não sei o quê. As assembleias populares não decidem rigorosamente nada. Há meia dúzia de gente que estava ali sentada, vai estar mais gente hoje a ver o Torreense do que as pessoas que ali estavam. Portanto, por aqui isto é um bocado impossível.
É bom perceber de onde é que vem essa designação de Assembleia Popular.
Exatamente, o que é que são as assembleias populares, o que é a democracia popular. E de repente tivemos a semana toda com gente a inundar os estúdios de televisão, por todo lado, que diz: "Não, senhor, eu defendo a revolução." Como se isto não significasse defender. Aquilo que significa defender a revolução é: eu quero destruir a ordem que existe e quero destruir o Estado e substituí-la por outra coisa qualquer, sendo que outra coisa qualquer é aquilo a que estas pessoas chamam democracia popular, que é um eufemismo para uma ditadura daquelas pessoas que lideram os movimentos da democracia popular. E eu estou profundamente enojado há uma semana relativamente a tudo isto que se foi vendo e à forma, se calhar um bocadinho naïf, com que se foi assistindo a isto com: "Nós temos que deixar passar a coisa, a causa é justa." Porque esse é o primeiro passo para nós começarmos a justificar todos os atos que se tomam com fundamento numa causa justa. Foi assim que fizeram as Brigadas Vermelhas, era assim que faziam as FP 25 de Abril. A causa era justa, então havia pessoas que estavam no desemprego e que eram despedidas, e havia fábricas a ser fechadas. E a partir daí tudo justifica tudo e mais alguma coisa. E a vida não funciona assim, ou pelo menos em democracia, se é assim que nós ainda quisermos viver. E irrita-me muito que se transforme tudo isto em que alguém que defenda sequer a posição que a polícia tomou, mesmo no Porto, que agora convencionou-se também, há um dia ou dois que é: em Lisboa ainda vamos dar de barato, mas no Porto tens que conceder que houve uso excessivo. Não sei se houve ou não. Aquilo que eu vi no Porto foram polícias a levar com caixotes do lixo em cima da cabeça. Também vi isso. Vamos esperar para ver o que é que resulta dos inquéritos e perceber se de facto houve um uso indevido ou não. E se houve desproporção? Sim, senhor. Agora, isso não justifica o resto. Mas nós depois não podemos é entrar no caminho do: tudo aquilo que se diz relativamente a isto, se alguém se arrisca sequer a defender a posição da polícia, de repente somos todos de extrema-direita. E a única coisa que sai da boca das pessoas é extrema-direita. Eu não queria aqui citar, porque não foi muita gente, de facto, à esquerda que o tivesse feito, mas o Vicente Simões fê-lo na SIC Notícias na sexta-feira, salvo erro, ou na segunda, e o professor Vital Moreira, que eu acho que está isento de extrema-direita, escreveu hoje que há quem conteste o poder da polícia para pôr termo às manifestações sob forma de acampamentos em praças públicas, questionando a sua alegada ilicitude. Pelo meu lado, discordo. A implantação de tendas pelos manifestantes implica a delimitação privada de uma área do espaço público para uso exclusivo dos ocupantes, à custa da liberdade de circulação de todos. Ora, desde sempre defendi, por exemplo, a propósito de painéis de propaganda partidária, que ninguém tem o direito de se apropriar do espaço público, que a todos pertence, para uso privativo. Não vejo como é que a ocupação selvagem de uma praça pública com tendas é compatível com o regime do domínio público de uso comum. Por isso, considero as acampadas ilícitas e considero justificada a intervenção policial, salvaguardada a proporcionalidade nos meios, para lhes pôr termo.
Vital Moreira.
Segundo o debate que nós tivemos aqui esta semana, ficam aqui a saber em primeira mão que o professor Vital Moreira é de extrema-direita. Está de parabéns.
Estite, e o Chega estará a ler mal a rua? André Ventura jura que não.
O Chega está dividido. Quer dizer, André Ventura, o Chega não. André Ventura está dividido.
Dá sinais de agora não querer a lei das rendas.
Um acordo que ele próprio quis.
Mas será que a maioria dos portugueses está na rua?
É que não está. E eu acho que não é o eleitorado de André Ventura que está na Praça do Rossio. Parece-me que André Ventura, ao contrário do Código de Trabalho, em que leu o descontentamento geral, aqui a situação é ligeiramente diferente. O Chega tinha posto quatro condições, num papel assinado pelo PSD e pelo Chega, que era o de limitar as rendas antecipadas e cauções. Parece que cai muito bem junto das pessoas, porque de facto cauções ilimitadas e três rendas antecipadas é mais do que as pessoas conseguem, com esforço, pagar. Tinha a sugestão de reforçar a resposta social e o fundo de emergência habitacional, que também me parece que é uma medida popular. Proteger os idosos com contratos anteriores a 1990.
Eu não consigo conceber isso.
E nos despejos, distinguir o abuso e o incumprimento reiterado da incapacidade real de pagar. Esta é mais difícil, eventualmente, de se conseguir. As pessoas teriam que provar que ou ficaram doentes, ou ficaram desempregadas, ou que se divorciaram, ou que se separaram, que são normalmente os motivos para ser mais difícil pagar a renda. E o PSD parece muito disponível a ceder em toda a linha para conseguir ter este diploma. E eu já vi na terça André Ventura num canal de televisão a dizer que a lei das rendas não depende de nenhum acordo particular. No fundo, ameaça num dia, acalma no outro. Não sabemos muito bem o que é que André Ventura quer. E eu acho que ele próprio está com dúvidas se isto é uma boa aposta ou se não é. E Paulo Núncio esteve aqui no Observador.
Deixa-me só dizer uma coisa. Tu dizes que quem está nas ruas não são os eleitores de André Ventura. Não sei. Alguns deles serão, seguramente. Não são aqueles que nós temos na nossa cabeça como eleitores de André Ventura, mas nós não nos podemos esquecer que grande parte do eleitorado que André Ventura arrebanhou nas últimas eleições vem de zonas tipicamente da esquerda e há de estar lá muita gente que votou em André Ventura. Não serão tão poucos assim.
O André Ventura, tal como Luís Montenegro, como José Luís Carneiro, têm um problema, tal como tinha António Costa, que é no fundo subscreverem a tese de Mariana Mortágua de que a rua são os votos e os votos são a rua.
Pois, mas isso é um problema, não é? Porque não são.
Pois não. Mas para além de todo o dogma ideológico que está por trás daquilo que Mariana Mortágua disse, aquilo que eu quero dizer é que nós somos uma espécie de, não vou dizer ilhas, porque ainda quero acreditar que somos uma espécie de península, que estamos rodeados de populistas por todos os lados, menos por um. Mas na verdade é isso que estão a fazer. Parece haver uma grande incapacidade de olhar para o problema e tentar arranjar um consenso relativamente a políticas públicas que funcionem. Nem que seja através de direito comparado, que funcionam em que contexto e com que outras medidas paralelas, etc., em termos de política pública. E aquilo que nós estamos basicamente a fazer é ver mais ou menos a que tipo de eleitorado é que isto pode agradar. E não é assim. Eu acho que tem que haver o mínimo de coragem para afirmar: "Eu defendo isto, eu acho que isto pode funcionar, isto já funcionou aqui assim assado." E depois logo se vê se funciona. Foi assim que a lei Cristas em 2012 foi aprovada. Só que havia uma maioria absoluta, mas na altura também era a lei dos despejos.
Estávamos aqui a falar sobre a habitação, os protestos da habitação e sobre se, Raquel, o Chega estaria a ler bem a rua com a posição titubeante que tem tido em relação à lei das rendas que está em discussão agora no Parlamento.
Eu acho que ainda é cedo. Acho que esta posição dúbia de André Ventura tem muito a ver com ele conseguir apalpar o terreno e para onde é que isto se encaminha e que dimensão é que isto toma. Eu estou aqui agora a ver as imagens e parece-me que o entusiasmo desta manifestação em Lisboa está a esmorecer. Não há concertos, começou a ficar frio, vai chover.
Já agora bem fica.
Mas é melhor não estarmos aqui também a dar ideias aos manifestantes, o que a gente quer é calma. Mas eu acho que André Ventura está, no fundo, a tentar medir o pulso, não tanto às ações e às assembleias populares, etc., mas a quem é que são aquelas pessoas e quantas pessoas daquelas. Porque nós todos andamos na rua e há muita gente que não está ali, mas que tem sido convencida pelo discurso destas manifestações. E eu acho que é isso exatamente que ele está a ver para tomar uma decisão.
Deixa-me só dizer isto para concluir. Há pouco estava a recordar as declarações do Paulo Núncio aqui no Observador, quando disse que espera que os acampados não amedrontem André Ventura. Aquilo que as manifestações têm feito sucessivamente, e viu-se com o Código de Trabalho e vê-se com esta também, é que amedrontam, seja André Ventura, seja o PS, e depois nada muda. Se é na rua que se decide, de facto, estamos mais próximos da assembleia popular do que podíamos supor.
Ainda ninguém deu notas. Tu queres dar notas?
Eu quero dar nota a André Ventura. Vou lhe dar um sete por ele estar aqui nesta corda bamba sem saber o que fazer.
E tu, Raquel?
Eu vou ser mais simpática e vou lhe dar um 10 na expectativa de que, ao contrário do que eu prevejo, ele afinal me surpreenda e não rua a corda, como já aconteceu muitas vezes.
Sim, Nuno, neste programa dá-se notas. Não queres passar?
Não me apetece dar. Estou um bocado farto que o Ventura seja o alfa e o ômega da vida política portuguesa.
Então vamos falar de Meloni. Terá havido instrumentalização dos protestos em Itália?
Pois.
Uma mão atrás das costas.
Vou arriscar, como sou um inconsequente.
Naif? Não és.
Não.
Queres contar-me alguma coisa?
Não, estava na expectativa se houvesse alguém que até podia achar que era, mas não sou. Até sou, como tanta gente passa a vida a dizer, eu sou um bocado cínico. Mas os cínicos eu acho que são, no fundo, otimistas que já se desiludiram tanta vez que já não dá. Mas neste caso, isto é uma notícia do "El País", que também suspeito que seja um jornal de extrema-direita, que relata que Itália suspeita que aquilo que aconteceu em Milão não tenha sido espontâneo e acredita que tenha havido um interveniente estrangeiro que se pôs a agitar aquilo tudo. Esta informação, de onde vem, não é necessariamente de Meloni, é dos serviços de inteligência, que fazem um paralelismo, segundo aquilo que diz na notícia, com o que aconteceu em Ceuta, de que já ninguém se lembra, e que há um juiz a cargo desta investigação e portanto considera que houve um projeto preciso de desestabilização da ordem pública. De facto, se nós olharmos para isto, agora vou ser um bocadinho conspiracionista. Mas vou tentar só olhar para os factos e depois cada um retirará as conclusões que entender. Mas tudo isto, na verdade, nasceu em Espanha, com o episódio Mari Carmen, que também descobrimos hoje, ali no jornal espanhol, que também esteve ligada a empresas de investimentos imobiliários enquanto era inquilina e pagava uma renda baixota e deixou de pagar até, porque parece que teve aquele processo de despejo.
O proprietário era Robles.
Pode ser outra coisa qualquer, há tantos. Mas estas coisas todas, esta onda de protestos começou em Espanha com Mari Carmen e que depois se estendeu, não pelo tema da habitação, mas estendeu-se até França.
Pelo custo de vida e as contas que ele tem.
O custo de vida, as escolas, que de repente andávamos todos a queimar liceus porque tínhamos demais, a Espanha, a Itália e a Portugal, pelo menos.
Agora também é na Sérvia.
E na Albânia.
E na Albânia. E na verdade, nós olhamos para os sítios todos, os temas são normalmente os temas que naqueles sítios em concreto dizem algo às pessoas que lá vivem, que têm vidas normais e que passam por dificuldades e essas coisas todas. Que já agora, também deixa-me só fazer aqui esta nota de rodapé. Também acho importante dizer isto no espaço público. Nós não estamos a viver um tempo de dificuldades muito pior do que qualquer outro tempo de dificuldades que já se viveu nos últimos 5000 anos da história da humanidade. Não há, até, tempos de facilidade, que é talvez a grande novidade que eu tenha aqui para deixar. Não há tempos de facilidade. Todos os tempos são difíceis por alguma razão. Existir é difícil, viver é difícil, pagar contas é difícil. E nós, ao contrário daquilo que se julga, com muitas dificuldades que nós temos, com expectativas diferentes, etc, mas nós até vivemos numa época muito boa.
Não sei se concordo contigo.
É comparar com a vida dos nossos avós e dos nossos pais. Comparem e depois digam quem é que, de facto, passou dificuldades. Passar dificuldades na vida não é: "Eu agora não posso ter Netflix, não posso ir jantar fora ou fazer uma escapadinha a Amsterdão." Lamento, não é uma dificuldade isso. Mas todos estes movimentos, que diziam respeito nos países e nas cidades em concreto onde eles se manifestaram, que diziam de facto respeito a muitas dificuldades que as pessoas sentem como dificuldades e em muitos casos são dificuldades, e que variavam em função das latitudes, mas que eram sempre liderados pelas pessoas que estavam sempre a dizer as mesmas coisas. O custo de vida, sim, senhor, estava ali como fundo, mas depois o resto era sempre o Free Palestine, o Israel não sei o quê, o genocídio, as assembleias populares, o capitalismo, aquelas coisas todas, até que nós acabamos de facto por ver aquilo que aconteceu em França, aquilo que aconteceu em Itália. Em Itália, apesar de tudo Os tipos inventaram o fascismo e a máfia. Se calhar não foi o melhor sítio para se brincar àquelas coisas. Mais uma vez, chateia-me um bocado que causas justas e que causas que de facto merecem uma reflexão muito mais ponderada do que isto estejam a ser tomadas por esta gente.
Eu acho que hoje no fim vais precisar de um abraço. Eu vou-te dar um abraço, porque estou te a sentir muito tenso. Eu vou te dar um abraço no fim.
Estou. Se eu fosse mesmo um cínico, isto não me chegava aqui.
E vamos gravar esse momento em vídeo. A Raquel
Também me queres abraçar?
Claro, Raquel.
Dá o bracinho do grupo.
Agora vou dar o meu melhor para não perder esse abraço.
Dá o bracinho do grupo, Judite.
Não seria a primeira vez, nem a última.
Não seria a primeira vez.
E tu queres falar sobre mais uma manifestação? Vocês só querem falar de manifestações.
É o que está a acontecer.
Desta vez contra as propinas.
E para não repetir, o que eu tenho a dizer em matéria de resistência à mudança é mais ou menos aquilo que já disse em relação a estas manifestações da habitação, que acho que existe exatamente o mesmo problema. Mas queria tocar aqui um outro ponto, que é: eu tenho ouvido estas manifestações, mas ouvi dizer que houve uma manifestante, não sei se foi aqui, se foi em Espanha, mas por acaso acho que foi aqui, que dizia a um jornalista numa reportagem que não tinha pedido para nascer, portanto, o Estado tinha a obrigação de sustentá-la.
Com certeza.
Pronto, mas já estamos neste nível de absurdo. E isto é para dizer o quê? É que é preciso haver algum realismo e perceber em que mundo é que vivemos, independentemente de acharmos se vivemos num mundo melhor ou pior. Eu tendo a concordar com o que o Nuno disse, acho que, no entanto, que há aqui uma grande diferença neste momento e isso eu reconheço. Eu acho que nós temos pela primeira vez uma geração abaixo de nós que não tem as expectativas que eu tinha quando tinha a idade deles. Quando eles olham para a frente, todas as condições para as quais olham são piores do que aquelas que os pais têm ou tiveram. E eu acho que isso é um problema.
Eu concordo com isso, mas quem tem agora 20 anos não está a ter uma vida pior do que a vida que os pais tinham quando tinham 20 anos. A perspetiva do futuro, eu concordo com isso.
Não sei se é verdade. Eu isso não estou de acordo. Os filhos que têm agora 20 anos, eu sou um bocadinho mais velha que tu, mas são as pessoas da minha geração. As pessoas da minha geração, quando começaram a trabalhar, tinham a perspetiva de melhorar a vida gradualmente.
Mas é uma questão de perspetiva.
Mas isto é para dizer que eu acho que de facto existe, sobretudo na Europa, um desequilíbrio geracional e uma injustiça geracional que é de facto explosiva e muito perigosa. Dito isto, os problemas não se resolvem com ilusões, sonhos e amanhãs que cantam. Esta manifestação é contra as propinas. Eu pago propinas, tenho dois filhos neste momento na universidade. As propinas que se pagam para o ensino universitário que, graças a Deus, no nosso caso é de qualidade, são residuais.
As creches são mais caras.
Ter um filho na creche. Mas mais caras, não. São seis vezes mais do que se paga de propinas numa universidade.
E à medida que se vai crescendo, fica mais barato.
Fica mais baratinho.
Repito que universidades de qualidade, que nós graças a Deus temos em Portugal.
Vão gastando noutras coisas.
Exato. E que são reconhecidas. E portanto, esta ideia de que as universidades vivem do ar é absurda. Ao mesmo tempo, eu reconheço que há pessoas em Portugal com capacidades que pensam duas vezes se podem ir para a universidade por causa das dificuldades. Ora, este descongelamento das propinas vem acompanhado de um pacote que este ministro da Educação apresenta de poder com isso reforçar os apoios sociais. E essa é uma discussão que simplesmente ninguém deixa abrir. E são os próprios estudantes universitários que não deixam abrir. E queria só dizer mais uma coisa em relação a isto, que é: isto vem de uma lógica que, sobretudo desde a geringonça, tem vingado em Portugal e que os portugueses habituaram-se a isso e não querem mudar, e nós não temos dinheiro para isso. E eu beneficiei disso, portanto, também aqui me confesso, que é manuais escolares gratuitos para todos, a universidade gratuita, mas é preciso pagar isto.
Os ricos que paguem.
Não, mas é que nestes casos é mesmo assim. O critério tem que ser de acordo com rendimentos. A propósito que é que pessoas que podem pagar os livros dos filhos, porque têm os filhos na escola pública, que é outro absurdo, porque se não tiverem dinheiro, mas tiverem numa escola particular com bolsa, por exemplo, que hoje em dia existem muitas, esses não têm direito a livros gratuitos. Mas quem está na escola pública, seja rico ou seja pobre, tem direito a livros gratuitos. É um absurdo quando os recursos são escassos e o caminho deve ser para melhorar. E portanto, esta guerra das propinas, não sei quem é que explicou, foi passar esta mensagem aos estudantes universitários, mas eu acho que eles estão a fazer uma guerra contra eles próprios, porque objetivamente ter propinas congeladas durante anos e anos só vai degradar a qualidade do ensino e a capacidade das nossas universidades.
Queres deixar uma nota?
Deixo um sete ou um menos. Deixo um cinco ao imobilismo da mentalidade da grande parte dos portugueses.
E amanhã há mais "O Vencedor" é nas manhãs 360 com a Ana San-Les a juntar-se ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral. Agora tenho que te dar um abraço, Nuno.
Até mais.