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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que explica os resultados destas presidenciais?
Serei o presidente leal à Constituição da República. Serei o presidente para cuidar e melhorar o que está bem e para mudar o que está mal.
A história conta-se depressa. António José Seguro ganhou as presidenciais, mas pela segunda vez na história da democracia portuguesa, vamos ter uma segunda volta para escolher o presidente. E tal como há 40 anos, vamos escolher entre dois homens de campos opostos.
Vão ser uma luta do espaço não socialista contra o espaço socialista em Portugal.
André Ventura fez os mínimos, manteve o eleitorado que lhe tem dado bons resultados e isso chegou para ser o melhor da noite entre os candidatos que partiram a direita em três. Cotrim de Figueiredo chegou a ter esperança de que seria ele a agregar o voto do centro-direita, mas 16% podem ser o triplo dos votos da Iniciativa Liberal nas últimas legislativas, mas não compra um bilhete para uma segunda volta nas presidenciais.
Tal ficará a dever-se exclusivamente a um erro estratégico da liderança do PSD.
Monte Negro foi saco de pancada nessa noite, não só por Cotrim, mas também por ter dito que entre Ventura e Seguro, o PSD não apoiava ninguém na segunda volta. Basicamente, aquilo que o candidato apoiado pelo partido tinha dito minutos antes.
Não vou fazer o endosso dos votos que me foram hoje confiados.
Marques Mendes explicou que não era dono dos seus votos. Na verdade, não foram muitos. Foi uma derrota nunca vista para o partido e também para o homem que poucas semanas antes estava, imagine-se, a liderar sondagens. O que explica, afinal, o que se passou ontem à noite? Que campanha vamos ter daqui para frente e como fica o país depois dos portugueses terem voltado a virar de pernas pro ar o tabuleiro político, tal como o conhecíamos até aqui? Eu vou conversar com o Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de segunda-feira, 19 de janeiro. Olá, Miguel.
Olá, Pedro.
O que te pareceu esta vitória de António José Seguro?
Olha, primeiro, acho que é preciso reconhecer que não foi uma vitória poucochinha. Quando António Costa-
Houve aqui alguma ironia nisso.
Sim, porque quando António Costa deu um pontapé em António José Seguro, há muitos anos, o argumento foi o que António José Seguro tinha tido uma vitória poucochinha. E agora a verdade é que Seguro tem mais de 300 mil votos do que o PS teve nas legislativas há uns meses. Portanto, Seguro, quem diria, vale mais do que o Partido Socialista.
É uma bela história para ficar a contar desta noite eleitoral, sendo que há aqui outro vencedor evidente, André Ventura, que consegue o bilhete para a segunda volta destas presidenciais. Curiosamente, André Ventura fez aquilo que se esperava que ele fizesse, que era segurar o eleitorado do Chega, mas também não teve um desempenho muito fora disso.
Sim, ele conseguiu fidelizar e mobilizar o eleitorado do Chega. Apesar de tudo, teve menos 116 mil votos agora do que o Chega nas legislativas de há uns meses.
Ainda faltará o dos consulados, mas mesmo assim cento e tal mil votos a menos.
Estou só a falar do que sabemos agora. E 116 mil votos, apesar de tudo, foi o que Catarina Martins teve agora. Não é coisa pouca, mas foi mais do que suficiente. Ele passou à segunda volta.
Sem margem pra dúvidas.
Sem margem pra dúvidas, sem ter de estar a sofrer. E agora, seguramente que se houve pessoas que nesta primeira volta decidiram ficar em casa depois de terem votado no Chega nas legislativas, porque acharam que não valia muito a pena, agora vão sentir um entusiasmo, imagino eu, para irem na segunda volta tentar dar todos os votos possíveis a André Ventura para fazerem aquilo que gostam de fazer, que é agitar o sistema, agitar o regime e assustar os políticos tradicionais.
Agora, e antes de olharmos para os outros candidatos, que campanha que tu imaginas que vai acontecer? Porque as declarações de ontem já deram a entender um bocadinho qual era o percurso de cada um. António José Seguro falou para o que ele chamou dos democratas e, portanto, tentando juntar ali o centrão com ele, mas André Ventura fez logo uma declaração de ou socialismo ou nós. Achas que vai ser eficaz? Achas que André Ventura tem potencial para ter um resultado bastante acima daquilo que quer as sondagens, quer aquilo que muitos analistas esperam de Ventura, que é basicamente ficar com o mesmo número de votos que teve agora?
Há muita gente a lembrar as eleições francesas com o Jean-Marie Le Pen, o pai de Marine Le Pen, quando ele passou a uma segunda volta. Mas há grandes diferenças: é que Jean-Marie Le Pen passou à segunda volta contra um candidato de direita e acabou por ter mais ou menos o mesmo resultado na segunda volta em que André Ventura está a passar à segunda volta contra um candidato de esquerda. Por isso, ele pode, de fato, criar esta narrativa mais tradicional. Ele não vai querer ser o candidato antissistema contra um político do sistema. Ele vai querer ser o candidato da direita, de toda a direita, contra o socialismo. Aliás, ele até falou no espaço não socialista. Ele nem sequer falou em direita, foi o espaço não socialista.
Exatamente.
Agora, pra ele conseguir isso, tem que ser disciplinado. Ele ontem à noite, no discurso da noite eleitoral Foi disciplinado a maior parte do tempo, mas apesar de tudo, o Vale quando ele falou da derrota do montenegrismo, quando falou de Cotrim como o candidato woke. Ele tem de se deixar destas coisas se de fato quiser impor esta narrativa de que a segunda volta é a direita contra a esquerda.
Se ele quiser ganhar as presidenciais, o que também não é absolutamente claro.
Ou pelo menos chegar perto dos 40%. Pelo menos isso. E António José Seguro vai tentar fazer com que esta segunda volta seja a democracia contra o extremismo, mas já se estão a notar duas linhas nos apoiantes de António José Seguro, e vai ser interessante perceber pra onde é que ele vai. As pessoas mais à esquerda dizem que a narrativa tem de ser a de uma luta da democracia contra o fascismo, e os apoiantes mais do centro e do centro-direita de António José Seguro dizem: "Não se meta nisso, não se ponha a falar em fascismo. Falar em fascismo só vai ajudar André Ventura. Vamos falar aqui de uma campanha entre a moderação e o radicalismo". Há aqui duas correntes, de fato, nos apoiantes de António José Seguro, e vai ser interessante perceber pra onde é que ele vai cair.
Vai ser mesmo interessante ver como é que esta campanha se vai desenrolar. Entretanto, pelo caminho ficou João Cotrim de Figueiredo, que chegou a acalentar o desejo de passar à segunda volta, ainda assim conseguiu triplicar os votos do Iniciativa Liberal.
Sim, ele começou a noite com duas projeções a darem-lhe um empate técnico com André Ventura, mas no final teve menos de 420 mil votos, portanto, acho que qualquer passagem à segunda volta era uma miragem. Não chegou a existir essa possibilidade, na realidade. Agora, é óbvio, claro, com certeza, teve mais muitas centenas de milhares de votos do que a Iniciativa Liberal nas legislativas, e perante isso mostrou duas coisas. Eu fiquei aqui com duas dúvidas. A primeira não é uma dúvida, é uma certeza. A Iniciativa Liberal tem um problema de liderança. Já tinha um problema de liderança com Rui Rocha, tem um problema de liderança com Mariana Leitão, essa é a certeza. A dúvida é o que é que Cotrim vai querer fazer no futuro.
Porque foi dúbio o que ele deixou no ar.
Foi muito dúbio. Claramente, ele acha que a Iniciativa Liberal não vai lá. Ele não quer voltar à liderança da Iniciativa Liberal, nisso ele foi claro, e vai haver já aqui uma divisão: é que Cotrim de Figueiredo não vai dar uma indicação de voto na segunda volta, e a Iniciativa Liberal ainda não tomou uma posição, mas eu não vejo muito bem que haja uma alternativa a declarar o apoio a Seguro, porque Mariana Leitão, convém lembrar, na sequência das eleições autárquicas, declarou uma fatwa a qualquer eleito da Iniciativa Liberal que se atrevesse a sentar-se a menos de um metro de distância de alguém do Chega. Mariana Morinho Lopes, que é vice-presidente da Iniciativa Liberal, já veio declarar o apoio a Seguro, e eu, de fato, não vejo como é que o partido pode tomar outra posição. E isso só vai aumentar a distância entre esta Iniciativa Liberal e João Cotrim de Figueiredo. E eu não sei como é que João Cotrim de Figueiredo vai lidar com isso. Para onde é que ele quer ir? Quer mesmo só ir pra Bruxelas? Vai ficar em Bruxelas? Fiquei com algumas dúvidas.
Vamos ver o que é que vai acontecer. É outra dúvida. Na verdade, estas eleições acabaram por nos deixar aqui pistas interessantes sobre o que é que vai ser o país político daqui pra frente. Mas vamos só percorrer aqui mais alguns protagonistas, nem todos por boas razões. Desde logo o Marques Mendes, que teve aqui um resultado que era impensável para um candidato apoiado pelo PSD há umas semanas, até diria, nem precisávamos de ir mais longe.
Não, pelo PSD ou por qualquer governo. Este foi o pior resultado em presidenciais de um candidato apoiado por um governo. O pior. Marques Mendes teve 11,3%. Na cidade de Lisboa teve 9,3%, abaixo dos dois dígitos, e o eleitorado da AD implodiu. Os números da sondagem à boca das urnas de uma das casas de sondagens mostra que Marques Mendes teve 29% do voto do eleitorado da AD, Cotrim 31, Seguro 17, Gouveia e Melo 14. Por isso, o eleitorado da AD foi cada um pra seu lado. Foi como galinhas sem cabeça, cada um pra seu lado. E o resultado foi este: o governo apostou num candidato que teve 11,3%.
Responsabilizas o candidato ou achas que foi protesto com o governo ou foi o quê?
O governo parece-me que já está a passar a mensagem de que a culpa é toda de Luís Marques Mendes. E pelo que ouvimos no discurso de ontem, Luís Marques Mendes está disponível pra cair em cima da espada. Mas além disso, eu acho que é mesmo verdade. Acho que, de fato, a culpa foi mesmo de Marques Mendes. Marques Mendes não se preparou pra responder a perguntas sobre a sua vida profissional, ficou abaladíssimo com o frente a frente com a Gouveia e Melo Ficou abaladíssimo quando as sondagens lhe começaram a dar maus resultados. Não teve a menor capacidade de dar a volta. Logo no início da campanha admitiu a derrota. Ainda ontem quando foi votar, aquilo que teve para dizer aos jornalistas e através dos jornalistas ao país, era que estava muito cansado. Tinha estado a dormir muito, tinha que ir dormir mais porque estava cansado. Realmente Marques Mendes não estava preparado para o cargo para o qual andava a preparar-se há tanto tempo. Eu acho que houve um problema, é que ele não percebeu ou percebeu demasiado tarde que o país tinha mudado. Ele esteve anos a preparar-se para o cargo de presidente da República num país que já não existia. E contra isso, de facto, não há muito a fazer. E Luís Montenegro tem uma relação muito antiga com Marques Mendes e não teve a frieza, isto é a interpretação benigna, para cortar com o candidato que claramente não ia a lado nenhum. Ou em alternativa, não percebeu o que se estava a passar. Eu acho que se não tiver percebido ainda é pior.
E esta declaração que Luís Montenegro fez ontem à noite de que não ia apoiar nenhum dos candidatos, achas que aí já deu sinais de estar a perceber mais ou menos o filme em que estava metido?
Sim, percebeu que não tem uma boa saída. Há aquela expressão brasileira que diz: "Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega." E aqui é, se ele correr para um lado, o bicho apanha-o, se ele ficar quieto, o bicho come-o, portanto o melhor é esconder-se e ver se o bicho vai para longe.
Já agora, e agora muito rapidamente, Gouveia Melo, este fenómeno que afinal se esvaziou com o tempo.
Sim, para quem ia vencer até eventualmente à primeira volta, ele não ficou em primeiro lugar, nem em segundo, nem em terceiro, ficou num quarto lugar com 2,3%. E ele começou tudo isto como candidato a presidente e acabou como candidato líder de um movimento ou de um partido, não se percebeu muito bem. É um candidato que encolheu ao longo da campanha.
Catarina Martins e António Filipe. Mais derrotas para os partidos.
Olha, só desgraças. Catarina Martins teve 2,1% e os tais 116 mil votos, é o pior resultado de sempre de um candidato apoiado pelo Bloco. Teve menos votos do que o Bloco nas legislativas e um dos grandes argumentos de Catarina Martins era ser uma mulher no meio de homens. Foi o resultado mais baixo de sempre, alguma vez alcançado por uma mulher candidata a presidente da República, por isso não houve nada de bom.
Foi histórico, mas também no pior sentido. E António Filipe também conseguiu o pior resultado de sempre, de longe, do Partido Comunista Português.
De muito longe. 92 mil votos são menos 88 mil votos do que João Ferreira teve há cinco anos, 1,6%. O objetivo de António Filipe era segurar o eleitorado do PC. Ora o PC nas legislativas teve 183 mil votos. António Filipe agora teve 92 mil, por isso acabou por não segurar nada. E se calhar os eleitores do PC ou estão a deixar o partido ou já não têm a disciplina que tinham antigamente. Seja como for, Paulo Raimundo vai ter que arranjar uma solução para isto.
E já agora uma palavra para descreveres o que se passou com o Livre.
Olha, o Livre, o Jorge Pinto teve quase metade dos votos de Manuel João Vieira. E acho que isto diz tudo.
Diz tudo, eu também acho que diz tudo. Miguel, obrigado.
Obrigado.
O Miguel Pinheiro é o editor executivo do Observador, os dois a olhar para os resultados destas presidenciais, que têm segunda volta marcada para 8 de fevereiro. Esta segunda-feira, enquanto esperamos pelas réplicas políticas da noite de ontem, há mais coisas a acontecer. Em Bruxelas, por exemplo, há a reunião do Eurogrupo e os ministros das Finanças até podem escolher já quem querem ver na vice-presidência do Banco Central Europeu. O português Mário Centeno está na corrida, o ministro Miranda Sarmento lá estará a fazer campanha por ele. Antes de rumar à Suíça, onde a partir de hoje começa o Fórum Mundial Económico de Davos. O tema deste ano é a urgência do diálogo. Um tema certeiro ou irónico, consoante o ponto de vista. Vai lá estar o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, mas Donald Trump também. Por falar nele e por falar em urgência de diálogo, o secretário-geral da NATO vai receber esta segunda-feira o ministro da Defesa da Dinamarca e a ministra dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia. É só um palpite, mas arrisco dizer que vão dialogar sobre Donald Trump. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benvides. Até amanhã.