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Esta é a história do dia da Rádio Observador: os portugueses apanhados na guerra do Irão.
Ei, malta. Terceiro dia após os primeiros incidentes. Eu hoje trabalhei de casa, o governo incentivou pra que assim acontecesse, pelo menos estes primeiros três dias.
As coisas estão mais calmas, pelo menos hoje não ouvimos tantos mísseis serem interceptados. De noite, sentem-se alguns bombardeamentos, porque eles fazem estas coisas mais pela noite. E de repente eu comecei a ver tudo explodir e o meu prédio a tremer.
Para milhares de portugueses que vivem no Médio Oriente, passou a ser assim desde que começaram os ataques ao Irão e, sobretudo, desde que o Irão passou a retaliar. O som dos mísseis, dos drones e das antiaéreas num combate que muitas vezes deixa cair destroços demasiadamente perto.
Mas uns destroços, por exemplo, não sabe, caíram atrás da escola das minhas filhas e as crianças estavam muito assustadas.
Mais de 500 portugueses contactaram o governo para dizer que estão ali. A maioria quer ficar, quer continuar a viver onde construiu vida. Mas a dúvida é: como é que se passa de um dia para o outro a viver dentro de um conflito? Como é que a guerra entra na normalidade? Eu vou fazer estas perguntas a João Pedro Fabião, um engenheiro de 38 anos que vive no Dubai com a família desde 2017. Para perceber o que muda quando a guerra passa a ser o som que se ouve quando vamos pôr os filhos a dormir. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 4 de março. Olá, João Pedro.
Olá.
Vou pedir lhe que nos explique um bocadinho a sua vida aí, antes de tudo isto começar. João Pedro, quando é que foi para o Dubai?
Eu vim para o Dubai em 2017. Inicialmente vim sozinho, recebi uma oferta de trabalho, vim para experimentar um ano, é uma história que move muita gente, e depois acabei por ficar. A minha namorada na altura, hoje é minha mulher, juntou-se a mim. Entretanto, tivemos duas filhas que nasceram aqui. E estamos aqui já há algum tempo.
O que o João Pedro faz?
Eu sou engenheiro civil, especializado em obras marítimas, em engenharia costeira. É nessa área que já trabalhava em Portugal e que trabalho aqui.
E o que o atraiu aí? O que achou que era o sítio para ficar?
Eu quando vim pra cá, não sabia muito bem se era o sítio para ficar, mas a situação em Portugal, na altura, não era muito fácil. Recebi uma proposta, decidi vir experimentar, não tinha muito a perder e depois acabei por ficar. Aqui é um sítio onde profissionalmente existem muitas oportunidades, projetos muito grandes, de grande complexidade. O facto de ser um sítio internacional, com pessoas de muitos sítios diferentes, também faz parte do encanto deste país.
E seguro, imagino eu, não é?
Sim, a segurança também sempre foi um fator, o fato de poder proporcionar uma vida confortável, tudo jogou a favor.
Entretanto, as coisas mudaram nos últimos dias. Consegue descrever-me o seu dia quando começou esta guerra, este conflito?
Sim. Sábado de manhã, saí com a minha família, fomos a uma feira do livro durante a manhã. Ao sair de casa, já tinha recebido notícias de que havia movimentações militares por parte de Israel, que os Estados Unidos iam também intervir, mas não achei que houvesse uma retaliação contra os Emirados. Pensei que poderia haver um ataque, uma retaliação simbólica, mas não nesta escala. Como lhe disse, saímos normalmente, tínhamos planos para o fim de semana, fomos a essa feira do livro, e quando estávamos a voltar para casa, quando chegamos ao carro, começamos a perceber através dos telemóveis, de mensagens que tínhamos em grupo, mensagem que tínhamos recebido em vários grupos aqui de contactos do Dubai, que estavam a ouvir-se estrondos em vários pontos do Dubai. Nós não tínhamos ouvido nada, viemos pra casa como tínhamos planeado.
Nessa altura, não imaginou que o Dubai pudesse estar a ser atacado.
Pensei que poderia haver um ataque simbólico. Não é a primeira vez que acontecem episódios deste tipo, já quando foi a questão dos Houthis no Iêmen, ou um ataque em Abu Dhabi, mas uma coisa muito específica. Não tinha noção da escala da retaliação. Mas como lhe disse, chegamos a casa, estava tudo relativamente normal. Almoçamos e tínhamos planeado ir fazer umas compras ao supermercado, e foi nessa altura, quando estávamos praticamente a sair de casa, que se ouviram dois grandes estrondos aqui na zona onde vivo A partir daí decidimos ficar por casa. Já estávamos a assistir às notícias e tínhamos alguma ideia de que estavam a decorrer retaliações contra vários países árabes aqui à volta. A partir daí ficámos em casa o resto do dia e temos saído desde sábado, praticamente não temos saído, só domingo eu saí de manhã para fazer algumas compras e pôr gasolina no carro, mas tirando isso, reduzimos as nossas saídas ao mínimo. Também a escola está em ensino à distância. Primeiro foi decretado até quarta-feira, ensino à distância em todas as escolas. Neste momento, já foi prolongado para o resto da semana. Também recebemos instruções ainda no sábado do meu escritório que iríamos estar em teletrabalho também até quarta-feira. Neste momento, ainda não sei se vai ser prolongado. E pouco depois chegaram também instruções, recomendações para todo o setor privado estar em teletrabalho.
E é isso que tem estado a acontecer. João Pedro, daqui a pouco vamos falar novamente, porque já me disse que tem filhas e eu quero perceber, por exemplo, como é que se diz a crianças o que está a acontecer, como é que se explica. Até já. Estamos de novo à conversa com o João Pedro Fabião, engenheiro que vive no Dubai e que sentiu a retaliação do Irão muito perto da zona onde vive. Dizia-me há pouco que tem duas filhas, que idades é que elas têm?
Uma filha mais velha tem quatro anos, a filha mais nova tem um ano.
Imagino que a de um ano não se aperceba com a mesma facilidade, mas quando dizia que houve estrondos ao pé do sítio onde vive, a sua filha mais velha, de quatro anos, ouviu aquele barulho. Fez perguntas?
Sim, claro. Minha filha mais velha é bastante interessada em tudo o que a rodeia e rapidamente percebeu que alguma coisa não estava bem. Não estava bem, quer dizer, percebeu que esses estrondos não eram habituais e começou a fazer perguntas quando os ouviu. Um dos estrondos que ela ouviu coincidiu com a altura do pôr do sol e como neste momento estamos no Ramadão, actualmente está no período do Ramadão, é tradicional aqui no Dubai assinalar-se o pôr do sol com um tiro de canhão. Há vários canhões espalhados pelo Dubai que dão esse sinal do pôr do sol a partir do momento em que os muçulmanos podem então quebrar o jejum. Esses tiros de canhão têm um certo cerimonial. Já levei a minha filha várias vezes a ver, ela acha piada. Aproveitei a deixa e disse que o estrondo tinha sido o canhão do Ramadão. Passado umas horas ouviu mais uns estrondos e dissemos que eram foguetes, que devia ser fogo de artifício, algures. E assim tentamos distraí-la e não a deixar preocupada, até porque os miúdos têm outra sensibilidade para estas coisas e já não é a primeira vez que a minha filha fica impressionada a ver, por exemplo, imagens da guerra da Ucrânia na televisão e que a deixam bastante impressionada. Temos tentado distraí-las, mantê-las as duas entretidas dentro de casa, o que nem sempre é fácil.
Imagino.
Mas tentamos mantê-las ocupadas e distraídas tanto quanto possível.
E tentando, apesar de tudo, criar esse ambiente de tranquilidade, sobretudo para as crianças, o João Pedro e a sua mulher já tiveram medo durante estes dias?
Não. Houve uma ocasião que acho que se pode dizer que foi a mais assustadora, foi no sábado à noite. Já tínhamos deitado as nossas filhas e estávamos a preparar para também irmos deitar e recebemos uma mensagem, os dois ao mesmo tempo no telemóvel, uma daquelas mensagens de emergência em que o telemóvel vibra muito e a mensagem tinha instruções para as pessoas se abrigarem, que estaríamos na iminência de um possível ataque, para nos abrigarmos, afastarmo-nos das janelas e procurar uns sítios seguros. Esse foi o momento mais assustador.
Como é que viveram essa noite?
Assim que recebemos essa mensagem, trouxemos um colchão para a sala, até porque aqui no Dubai é muito comum as casas terem paredes de vidro e janelas do chão ao teto. E é o caso dos nossos quartos, tanto do meu quarto como o quarto das minhas filhas. O que fizemos foi trazê-las para a sala, para um sítio mais abrigado, trazer o colchão do nosso quarto também para a sala. E nessa noite e na noite seguinte dormimos na sala. Tivemos que depois explicar à minha filha que estávamos a fazer uma festa do pijama, para ela também não achar estranho. Mas sim, foi assim que vivemos essa noite. Entretanto, já voltámos aos quartos. A situação também tem estado a acalmar gradualmente.
Já percebemos que as autoridades aí vão lançando os avisos e vão avisando a população, e vão dando regras. Da parte das autoridades portuguesas, tem tido alguma experiência, as coisas têm funcionado, contacto?
Sim. Sim, isso tenho de dizer. Eu já cheguei ao Dubai há alguns anos, em 2017, como disse, e durante algum tempo era difícil lidar com a embaixada, porque o número de pessoas que a embaixada portuguesa tinha não era compatível com o número de cidadãos portugueses aqui na zona. E a embaixada simplesmente não tinha capacidade. Essa situação tem vindo a mudar nos últimos anos e neste momento já tem mais capacidade de resposta e o comportamento da embaixada nesta crise tem sido exemplar. Foi logo criado um grupo no WhatsApp, que rapidamente ficou cheio, porque como deve imaginar, há milhares de portugueses aqui a viver. Depois foi criado um canal no WhatsApp, que não tem limite de membros, onde a embaixada vai publicando anúncios e todas as comunicações oficiais. Também tenho recebido por e-mail as mesmas comunicações, porque estou inscrito na newsletter da embaixada. A embaixada também tem utilizado as redes sociais como o Instagram e o Twitter para passar comunicados e informações. Portanto, acho que tem havido bastante apoio. Eu tenho acompanhado a televisão portuguesa e vejo alguns portugueses, geralmente turistas, a queixarem-se da falta de apoio do consulado e embaixada. Mas posso lhe assegurar que os residentes, acho que estamos todos satisfeitos com o acompanhamento da embaixada.
São boas notícias. João Pedro, só para terminar, deixe-me fazer-lhe uma pergunta rápida. Apesar disto que está a viver, equaciona sair do Dubai ou para já vai manter-se por aí?
Para já vou ficar. Até ver, vou ficar. É verdade que no sábado foi um bocado surpreendente o que aconteceu e até nos deixou apreensivos, mas a verdade é que desde sábado as coisas gradualmente têm diminuído, tanto o número de ataques, como o número de estrondos que vamos ouvindo e até os danos que vão sendo causados, gradualmente têm vindo a diminuir. Portanto, temos esperança que a situação normalize ao longo dos próximos dias. Vamos ver.
Muito bem. João Pedro, muito obrigado por ter partilhado a sua história conosco e espero que se mantenham todos em segurança.
Eu é que agradeço. Muito obrigado.
João Pedro Fabião é um dos milhares de portugueses que vivem no Médio Oriente e que foram apanhados de surpresa num dos alvos da retaliação iraniana. Esta quarta-feira estão previstos vários voos com destino à Europa, mas apenas para passageiros que estejam retidos nos Emirados Árabes Unidos. Há mais histórias para o dia de hoje. Há debate quinzenal com o Primeiro-Ministro, é expectável que se fale do Irão. A oposição vai querer pressionar Luís Montenegro sobre o uso da base das Lajes ao serviço dos aviões americanos. E ao final da tarde, no Museu da Presidência, vai ser apresentado o retrato oficial de Marcelo Rebelo de Sousa como presidente da República. É da autoria de Vhils. Isto deixa alguma curiosidade sobre o que vai ser desvendado quando forem 17h15. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Pedro Oliveira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.