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Esta é a história do dia da Rádio Observador: podemos perder a Roménia para Putin?

"Pentru efort, sacrificiu și responsabilitate. Indiferent cine m-a votat sau cine nu, îi voi respecta, îi voi ajuta și îi voi încuraja pe toți."

Na noite do domingo, Calin Georgescu agradeceu o voto de confiança dos romenos. Venceu a primeira volta das eleições presidenciais, promete vencer a segunda e respeitar o voto dos cidadãos. É visto como ultranacionalista, pró-Rússia, pró-Putin, e do currículo constam elogios à Guarda de Ferro, movimento fascista do final dos anos 20 do século passado na Roménia, e ainda elogios ao regime pronazi liderado por Antonescu nos anos 40. A Roménia é essencial no apoio à Ucrânia, não só alberga tropas e armamentos da NATO, como é local de passagem para escoar os cereais ucranianos. Podem a União Europeia e a Ucrânia perder mais um aliado se Georgescu vencer? É sobre isto que vou conversar com a jornalista do Observador, Madalena Moreira. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de terça-feira, 26 de novembro. Bem-vinda, Madalena.

Olá, Ricardo. Obrigada.

No domingo tivemos presidenciais na Roménia. Quem ganhou? Ou melhor, com isto, explica-nos lá quais foram os resultados.

Ganhou o candidato mais surpreendente que podia ter ganho, que foi o independente Calin Georgescu, que já esteve ligado a um partido de extrema-direita, mas estava a concorrer como independente. E ele ganhou com 22,94% dos votos. Em segundo ficou quem se estava mais ou menos à espera que ficasse, que foi Elena Lasconi, de um partido de centro-direita, com 19,18% dos votos, que é uma diferença de menos de 2000 votos.

Sim, não é muito longe.

Não, para quem ficou em terceiro. Dois mil votos para quem ficou em terceiro.

Dois mil para quem ficou em terceiro?

Foi o atual primeiro-ministro do partido que tem estado no governo interruptamente desde 1989, o PSD.

Isso é muito interessante, porque na segunda volta, com os dois candidatos mais votados, e a segunda volta será 8 de dezembro, pela primeira vez em muitos anos na Roménia, não estará representado o PSD. Portanto, o Partido Social-Democrata da Roménia, calma, nada de confusões, que era até aqui o maior partido romeno.

Exatamente. E é uma derrota histórica não só para o PSD, mas para o outro partido do governo que tem alternado e que era quem estava no governo anteriormente, que era o PNL, o Partido Nacional Liberal, e é a primeira vez desde 1989 que nenhum destes partidos vai à segunda volta de umas eleições presidenciais na Roménia.

Então a segunda volta vai ser entre, e já vamos conhecer melhor este senhor Georgescu, um ultranacionalista e uma conservadora, portanto, também alguém que vem da direita.

Exatamente.

Então, Madalena, vamos agora tentar conhecer quem é este homem, Calin Georgescu. Explica-nos lá de onde vem, para onde vai, quem é Georgescu.

Ele é um professor universitário e se nos perguntassem há 10 anos quem era Georgescu, se calhar ninguém te sabia responder, porque ele apareceu na política romena nas eleições legislativas de 2020, que foram as últimas, como cabeça de lista pelo partido de extrema-direita, que é a Aliança pela União dos Romenos. Ultranacionalista, populista, isolacionista. Mas aqui este senhor destaca-se, o Georgescu, desde a invasão da Rússia na Ucrânia, pelo seu comentário político nos media, em que ele critica a NATO, critica a Ucrânia, a União Europeia, a intervenção dos Estados Unidos e se mostra aqui neutro da Rússia. E a sua neutralidade é uma amizade com o Kremlin, interpretada como uma amizade com o Kremlin. E foi à conta destas posições que ele, em 2022, acabou por ser expulso do partido em que estava, a Aliança, e por isso é que agora ele está a concorrer como independente.

Mas ele é expulso de um partido já de si radical, é isso? Porque é demasiado radical para um partido radical?

É exatamente isso que aconteceu. Aquilo que aconteceu foi que a Aliança tentou adotar uma postura mais neutra, mais de manutenção do sistema, porque eram os partidos que ganhavam votos, e eles tentaram adotar essa posição desde a invasão da Ucrânia, e o Georgescu não quis ter esta posição mais neutra. Ele estava muito convicto destas posições que ele tinha contra a guerra na Ucrânia e Georgescu aproveitou para claramente, nestas eleições, absorver os votos de uma parte da população muito crítica da guerra na Ucrânia e que ao longo dos últimos quase três anos tem dito que o apoio da Roménia à Ucrânia não se pode manter nos termos em que tem sido.

Mas podemos, Madalena, afirmar que Calin Georgescu é pró-Putin? Tu há pouco escolheste o termo neutro na forma como fala da Rússia, de Moscow e do regime.

Claro, isso foi propositado porque é assim que ele se autointitula, da mesma forma que podemos compará-lo com a Hungria Com Viktor Orbán. Mas o próprio Georgescu já afirmou admirar Putin porque diz que ele é um homem que admira muito o seu país e que faz tudo pelo seu país, Putin, e então Georgescu admirou por isso. E também disse que se sentia mais próximo da cultura russa do que, por exemplo, da cultura ucraniana, que é mais o que se sente na Roménia. E além disso, todas estas posições que ele tem assumido, anti-NATO e anti-guerra na Ucrânia, se formos ver, são muitas vezes propaganda do Kremlin, são só ecos de propaganda que o Kremlin diz quando os ouvimos a falar.

E de resto, como explicávamos também no arranque desta história do dia, do currículo do senhor Georgescu estão elogios a grupos fascistas do final dos anos 20 do século passado e também ao regime pró-nazi, aliado dos nazis nos anos 40, na Segunda Guerra Mundial.

Exatamente, isso foi outra das questões muito controversas do seu currículo, que foi na mesma altura em que ele começou a aparecer nos media a elogiar Putin, a dizer que se sentia muito próximo destas pessoas, líderes de grupos fascistas, classificando-os como heróis nacionais, quando na verdade foram pessoas que foram condenadas à pena de morte pelas suas posições fascistas. E ele recusou que isto fosse uma demonstração de antissemitismo.

Isso na sequência da Segunda Guerra Mundial. E este resultado agora foi surpreendente? Estava previsto nas sondagens? Como é que foi a campanha eleitoral?

Foi o resultado mais surpreendente da história da Roménia. Isto é o que os números nos dizem.

Isso é uma afirmação poderosa.

É uma afirmação mesmo poderosa, mas ele não aparecia, se nós há uma semana abríssemos qualquer sondagem, o nome dele não aparecia como um dos sugeridos. Ele é o que se diz em inglês, um underdog, completamente.

Não era um dos favoritos nas sondagens.

De todo. As sondagens punham sempre como favorito o atual primeiro-ministro e sempre a que vai com ele à segunda volta, a Elena Lasconi, ou então o líder do partido de extrema-direita em que ele já esteve integrado. Georgescu nunca, em nenhuma das sondagens mais positivas para ele, passou dos 10%.

Nunca passou dos 10% e agora teve 23%, praticamente.

Exatamente. Portanto, foi um salto que ninguém estava à espera, que só se concretizou ao longo da noite de domingo, quando se começaram a contar votos e começou-se a perceber que ele realmente tinha conseguido esta larga maioria.

Mas isso é verdadeiramente surpreendente. E não se percebeu nada durante a campanha?

Ele fez uma campanha muito diferente, que não foi coberta pelos media ditos tradicionais, porque ele fez campanha no TikTok. Ele dirigiu muito através das redes sociais para uma parte muito específica da população e então ele surpreendeu toda a gente porque punha vídeos no TikTok e fez uma grande parte da sua campanha aí. Por isso é que ele nunca foi a entrevistas nos media tradicionais, jornais, televisões romenas, e portanto é que ele passou um bocadinho despercebido.

Isso é muito interessante. Portanto, ele passa ao lado da cobertura normal das televisões, das rádios, dos jornais.

Na noite eleitoral, aparece em grande caído do TikTok.

E faz uma campanha direta para os eleitores. E estes resultados também levaram, e agora temos que falar um pouquinho sobre isso, à admissão do atual primeiro-ministro, o líder do PSD romeno, nada de confusões, sendo que há legislativas agora a 1 de dezembro. Olhando para estes resultados, como acabaste de explicar, são surpreendentes porque nenhuma sondagem o previa, e nessa campanha feita no TikTok, a composição do Parlamento romeno poderá mudar agora em dezembro?

Isso é provável que aconteça. O que acontece aqui, uma maneira simples de explicar, é que o PSD romeno marcou as eleições legislativas propositadamente entre a primeira e a segunda volta das presidenciais, tentando aproveitar-se disso. Ou seja, eles estavam muito confiantes que nas sondagens iam à segunda volta das presidenciais e achavam que isso lhes ia dar força para as legislativas. O que acontece aqui, passo a expressão, é que o feitiço se virou totalmente contra o feiticeiro. E agora as pessoas vão para as legislativas com os partidos de direita a terem uma maioria absoluta nas eleições presidenciais e uma fragmentação muito grande do que tínhamos antes desta primeira volta. E, portanto, o que vai acontecer, ou o que podemos supor que vá acontecer, é uma fragmentação ainda maior. Os partidos ficarem mais divididos e ter que se recorrer a coligações.

De resto, o governo da Roménia já era uma coligação.

Exatamente, tens toda a razão. O governo da Roménia já era uma coligação precisamente por causa desta fragmentação que tinha vindo a acontecer e que o PSD não está a conseguir lidar.

E cresce o interesse para o resultado do próximo domingo, saber que desenho vai sair neste novo Parlamento romeno. E há também, Madalena, mais pontos importantes nesta história, porque estamos em guerra, há a guerra na Ucrânia, e a Roménia tem nessa altura uma importante bateria de mísseis Patriots e milhares de soldados da NATO no território romeno.

Sim, não podemos ignorar essa parte, de todo, porque por causa da fronteira, a Roménia tem sido um dos maiores apoiantes da Ucrânia, no sentido de a nossa sobrevivência depende um pouco da vossa sobrevivência. E neste momento, a Roménia é a segunda maior frente da NATO na Europa de Leste. A primeira é a Polónia, a segunda é a Roménia, que neste momento aumentou brutalmente o seu investimento em defesa Está a cumprir os parâmetros da NATO. Por exemplo, é uma coisa que a maior parte da Europa, incluindo Portugal.

Os tais 2%.

Exatamente. Eles, neste momento, estão a pôr 19 mil milhões de euros, que é 2,5% do PIB deles, têm 75 mil soldados nacionais estacionados, que é o segundo maior exército da Europa de Leste, sem contar com todas as missões da NATO que se têm deslocado para lá e que estão a construir uma enorme base militar para tentar fazer frente a isto. Missões, claro está, em que também faz parte Portugal, que tem um papel muito relevante porque vai ser a primeira vez que um comando de operações especiais português vai ser grande o suficiente dentro de uma missão da NATO para conseguir liderar as suas próprias missões. São cerca de 60 elementos de operações especiais.

E os Patriot, que são os mísseis que funcionam como escudo de defesa, são estes mísseis Patriot que são usados para destruir mísseis inimigos quando disparados para o nosso território.

Exatamente. São os chamados sistemas de defesa antiaérea, que têm sido muito úteis na Ucrânia e que Zelensky pediu durante muito tempo estes sistemas Patriot e a Roménia respondeu.

E também não podemos esquecer, e já o disseste, Madalena, que a Roménia tem centenas de quilómetros de fronteira com a Ucrânia, também com a Moldávia ou Moldova. Nós já explicámos aqui numa história do dia que se calhar o melhor é dizer Moldova, mas não vamos entrar por aí agora. Mas tem centenas de quilómetros de fronteira e é fundamental, não só como rota de apoio logístico aos militares, mas também de saída dos cereais da Ucrânia.

Esse é o segundo prato da balança. Se pensarmos que o primeiro é o militar, o segundo é a sobrevivência da Europa, porque se nós chamamos à Ucrânia o celeiro da Europa, então o celeiro tem que ter uma porta. E a partir do momento em que a Rússia começou a atacar os portos da Ucrânia no Mar Negro, a Roménia surgiu como esta porta.

Como porta de saída terrestre.

Exatamente, onde escoam a produção de cereais para o resto da Europa e, portanto, torna-se aqui essencial de um modo de preservação também do resto da União Europeia, de o que acontece se esta política isolacionista da Roménia se concretizar e eles fecharem portas.

Mas vamos aqui por partes, porque penso que isto é importante. O regime político na Roménia é semelhante ao nosso. Que poderes é que tem o presidente, que poderes é que tem o governo, como é que funciona? Só para tentarmos perceber se há aqui ou não um perigo de termos uma segunda Hungria no espaço da União Europeia, também no espaço da NATO.

É sim e não. Porque diretamente, e o exemplo português é o melhor que temos, porque o sistema político romeno é muito parecido conosco. É semipresidencialista, o presidente é o chefe das Forças Armadas, é o representante de política externa da Roménia, mas na prática, a maior parte das decisões são tomadas pelo governo e pelo Parlamento. Ou seja, numa situação normal, o presidente, era diferente termos esta liderança anti-NATO e anti União Europeia, mas agora voltamos ao facto de no dia 1 de dezembro ir haver eleições legislativas e o presidente poder influenciar estas eleições legislativas, porque ele é que tem que nomear o governo, tal como se faz em Portugal.

Ou seja, uma coisa é ter uma voz dissonante em relação ao resto da Europa e dos aliados da Ucrânia na presidência da Roménia em Bucareste, outra coisa é a influência que esse homem, Georgescu, pode ter na formação do novo poder na Roménia.

Exatamente. O que acontece aqui é que ele pode nomear o governo entre uma minoria, desde que haja esta coligação.

Desde que as forças partidárias se arrumem no Parlamento.

Exatamente. Só que neste momento, as forças partidárias mais passíveis de se arrumarem são as alinhadas com ele. E portanto, surge aqui este perigo de haver um presidente e haver um governo que não gostam muito de Bruxelas e que também não gostam muito da NATO. E aí a Hungria assemelha-se.

Então, isso quer dizer que, Madalena, vamos ter que estar muito atentos no próximo domingo aos resultados que vão sair destas legislativas.

Exatamente. E não é só no dia 1 de dezembro, porque temos que esperar pela segunda volta. Portanto, são os próximos 15 dias que vamos estar no fio da navalha a ver o que é que acontece em Bucareste.

Obrigado, Madalena.

Obrigada eu, Ricardo.

Madalena Moreira é jornalista da seção de internacional d'O Observador. Esta foi a história do dia. O som que ouvimos no início de Georgescu foi registado pela televisão romena ProTV. A sonoplastia é da Mariana de Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.