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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Poderá Portugal ajudar a salvar a Europa do gás de Vladimir Putin? Olaf Scholz defende a construção de um gasoduto com alta capacidade entre a Península Ibérica e a Europa Central. A ideia foi retomada esta quinta-feira pelo chanceler alemão numa conferência de imprensa. Berlim procura alternativas à excessiva dependência do gás russo. Scholz diz que tem mantido conversas com o colega espanhol, português, com a presidente da Comissão Europeia e com uma figura-chave para desbloquear o gás ibérico: o presidente francês. Um estudo recente feito em Portugal revela que a Ibéria poderia substituir até 40% as necessidades de importação de gás russo por parte dos países da Europa Central, como a Alemanha. O problema está nos Pirenéus e também em Paris, como vamos perceber mais à frente. Agora, uma declaração do chanceler alemão vem dar força a um pedido antigo de Portugal e Espanha: aumentar a capacidade de exportação energética a partir da Península Ibérica. Vou conversar com a jornalista da seção de Economia do Observador, Ana Suspiro, que há muito acompanha os temas ligados à energia. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Ana.
Olá, Ricardo.
Vamos falar de canalizações.
Mais ou menos. É uma maneira de pôr as coisas. Na verdade, são grandes canalizações.
Sim, de tubos, não é? Estamos a falar de interligações energéticas da Península Ibérica à rede europeia. Vamos lá simplificar isto. O problema, Ana Suspiro, está num tubo de gás que contorna ou atravessa os Pirenéus e que é demasiado estreito. É disso que estamos a falar?
É disso que nós aqui, os dois, vamos falar. Eu não sei exatamente o que é que o chanceler alemão quis dizer quando falou em gasoduto, mas já lá vamos.
Já lá vamos, sim.
Já lá vamos. Estamos a falar de uma ligação por gasoduto que existe na Península Ibérica e que é extremamente limitada, não passa quase nada, passa muito pouco, e que Portugal e Espanha querem reforçar há bastante tempo. Já chegava a haver um projeto entre Espanha e França. Em 2019, havia um projeto chamado MidCat, mas em 2019 decidiram não avançar com esta construção deste reforço dessas ligações.
Mas por que o tubo não é mais largo? Por quê? Qual é o problema? Por que esse MidCat nunca avançou?
Vamos ver. Há dois argumentos aqui.
Duas escolas.
Talvez seja importante distinguirmos das interligações elétricas, das interligações de gás. Estamos aqui a falar das interligações de gás.
Ok.
E de fato, os operadores franceses e espanhóis da rede de gás tinham um projeto que custava 3 mil milhões de euros, também não era assim propriamente uma grande fortuna, que permitiria reforçar muito a interligação, mas chegaram à conclusão que era muito caro e, sobretudo, que não havia interesse por parte das empresas de gás dos dois países em utilizá-lo e, portanto, não faria sentido avançar com este investimento.
O que estamos a falar é de tubos. Eu peço desculpa de trazer isto para o lado da canalização, mas se calhar é mais fácil de entendermos. Portanto, nesta altura, o tubo não é suficientemente largo para passar uma quantidade de gás.
Ou é preciso mais tubos.
Ou são precisos mais tubos. Deixa-me fazer aqui um parêntesis. O lado bom deste tubo estreito ou deste gargalo é que Portugal e Espanha são uma espécie de ilha energética pro bem e pro mal. Ou seja, não conseguimos exportar, mas também não estamos assim tão dependentes do gás russo.
E foi, aliás, o argumento que permitiu aos dois governos, português e espanhol, argumentar em Bruxelas que nós não temos que cortar, nem podemos cortar 15% do nosso consumo, porque mesmo que a gente corta, já não tem como desmandar o gás a mais.
Claro.
E foi isso que permitiu uma exceção, que temos que cortar, mas menos. Precisamente porque somos também, do ponto de vista dos tubos do gás ou dos canos do gás, também somos uma ilha.
Exatamente. Já percebemos então que temos aqui um problema de canos, de interligações energéticas. E também queria perceber melhor qual é o papel de França nisto tudo. É que parece que em Paris há uns senhores que sistematicamente têm dito: "Alto e para o baile, por aqui não passa gás que vem da Península Ibérica."
Estás a falar do gás, mas neste caso da interligação, parece que de fato foi um desinteresse da parte dos dois países. Mas já num contexto de guerra, já no contexto de invasão da Ucrânia, voltou-se a falar do assunto. Que fazia todo sentido e surgiram notícias de que a França continua a não estar muito interessada.
E por quê?
Bom, isso aí eles não dizem abertamente. Os franceses não dizem que não querem mais interligações com a Península Ibérica, nem na eletricidade, nem no gás. O que dizem as pessoas que acompanham mais por dentro este dossiê é que a França é, do ponto de vista energético, muito nacionalista. Tem um sistema muito diferente, nomeadamente do nós, na eletricidade, tem muito nuclear, e que no caso do gás natural, a França quereria ser ela própria uma alternativa de abastecimento ao centro da Europa, através de terminais de gás no seu território e não permitindo abrir a porta da Península Ibérica para abastecer o centro da Europa.
Terminais que já existem em Portugal e Espanha, já vamos falar deles, porque agora, nesta questão da interligação à Europa Central, Portugal e Espanha, com esta declaração do chanceler alemão, Olaf Scholz, ganham aqui um aliado de peso, porque tendo esta posição por parte da Alemanha, isto pode abrir espaço na União Europeia a que esse MidCat que falavas há pouco, se torne realidade. Pode encostar um bocadinho Paris às cordas.
Nós temos que olhar para estas declarações do chanceler alemão e temos que perceber do que ele está a falar.
Exatamente.
E sobretudo, qual é o horizonte temporal que ele está a falar. Para resolver o problema de curto prazo da falta de gás na Europa este inverno, o MidCat, o gasoduto, nada vai resolver, porque isso exige muito tempo. Agora, o que o chanceler alemão está a dar força a uma pretensão que Portugal e Espanha têm tido desde sempre e que têm procurado em todas estas cimeiras que nós tivemos sobre a crise energética, os governos português e espanhol estão sempre a tentar escrever a frase: reforço das interligações no texto final. E aquilo fica lá, mas fica tudo no ar. Ou seja, mas que interligações, que reforço? Obviamente que esta posição alemã vem dar mais força a essa pretensão, que tem que ser sempre no quadro de uma visão estratégica e de longo prazo sobre a segurança de abastecimento na Europa. E a Comissão Europeia também pode dar uma força, porque pode dar fundos para fazer estes investimentos, pode facilitar o financiamento.
O chanceler alemão fala numa ligação que atravessa a França para a Europa Central. E isto poderia ser um novo gasoduto construído de raiz ou, tal como estavas a dizer, melhorar esta capacidade de débito na ligação entre a Península Ibérica e a rede que está em França.
Pelas traduções que nos chegam das declarações, ele refere especificamente um gasoduto, mas todas as pessoas desta área com quem falei, pensam que ele está a falar do reforço das interligações, ou seja, ligar a rede de gás ibérica à rede de gás europeia, através do reforço da ligação entre Espanha e França, o que implica atravessar os Pirenéus. Ou seja, é preciso construir mais tubos, como tu dizes, mas numa extensão muito mais reduzida do que seria necessário fazer um gasoduto, como eu já tenho visto aí, entre Portugal e a Alemanha. Porque a infraestrutura existe, é preciso melhorar a ligação e é preciso fazer também mais qualquer coisa. É preciso que na infraestrutura que existe em Portugal, em Espanha e em França, também haja investimentos no reforço de capacidade, ou seja, alargar os tubos que já existem ou pôr mais tubos, mas é sempre muito mais fácil do que estares a construir um novo gasoduto de raiz, com traçado novo.
E basta pensar que o Nord Stream 2, que está parado, que liga a Alemanha à Rússia, custou qualquer coisa como 11 mil milhões de euros.
Para além do custo, há o tempo que demora a execução. Enquanto que um gasoduto poderia demorar seis ou sete anos, este reforço de interligações e este reforço da rede que já existe poderia demorar, eventualmente, metade do tempo.
Já voltamos à conversa com a Ana Suspiro.
Sou a Sónia Simões, jornalista do Observador. O último trabalho que fiz foi com o João Francisco Gomes. É uma investigação que vem desde 2019 e que tem mostrado várias ocultações de abusos sexuais na Igreja Católica portuguesa. Dedicámos muito tempo a este trabalho e isso só foi possível graças aos assinantes do Observador. Assinar o Observador contribui para um jornalismo de qualidade.
Ana Suspiro, vamos então pensar que avança esse reforço na canalização ibérica na ligação à França. Isto iria permitir à Europa livrar-se da dependência do gás russo? Portanto, o gás que pudesse vir a entrar via Península Ibérica, quer aquele que vem da Norte África, quer o que vem de barco, poderia aliviar a Europa?
Aliviar, claramente que sim. Libertar, por si só, não. Tem que haver várias soluções. O gás alternativa à Rússia tem que vir de vários sítios. Até porque tu neste momento estás a falar de alternativas que chegam à Europa através de gás natural liquefeito, que vem de barco. É um gás que tem que ser, na origem, transformado em líquido para poder ser transportado num barco e depois no destino tem que ser regaseificado para entrar dentro do sistema de gasodutos. Nós, neste momento, o que nós estamos a falar é de substituir o gás russo que vem todo por gasoduto, que é mais fácil, é mais barato e tem muito mais capacidade. Portanto, tem que haver um conjunto de soluções para resolver o problema. A Península Ibérica Pode e deve fazer parte dessas soluções. Inclusive, há um estudo que nós divulgamos já aqui há uns dois meses, feito por uma agência pública que é especializada em políticas públicas, em parceiros e em estudos de mercado, que é a PlanAP, que fez umas contas e concluiu que se houvesse um reforço de interligação, ou se a interligação entre a Península Ibérica e a Europa fosse mais forte, Portugal e Espanha poderiam substituir até 40% das importações que a Europa recebe atualmente da Rússia.
Daí também a Alemanha, se calhar, estar tão interessada, não é?
A Alemanha está interessada, sim. E não está interessada apenas nisso, porque isto é uma solução que sabemos que vai demorar tempo. E a Alemanha tem muita pressa. Tem o inverno a bater-lhe à porta, tem que arranjar outras alternativas, e essas também podem passar por Portugal.
E se esse negócio avançasse, fala-nos aqui um pouco das diferenças da capacidade de recepção desse gás entre Portugal e Espanha. A Espanha seria o grande vencedor deste negócio?
Quer dizer, vamos ver. Espanha tem muito mais terminais do Portugal. O próprio estudo que eu referi, de um técnico da PlanAP, diz que será, sobretudo, através dos terminais espanhóis, que o gás poderia aliviar ou, se quiseres, abastecer as necessidades da Europa. Sines também tem um papel. Sines é um terminal recente, tem muita capacidade e tem uma coisa que pode fazer a diferença, da qual eventualmente poderemos também falar, que é estar situado no porto de águas profundas.
Portanto, pode receber navios com maior calado.
Pode receber navios com maior calado e pode fazer aquilo que o nosso governo já tem defendido, inclusive tem vendido lá fora, junto até da Alemanha, ao que parece, e da Polónia, que é permitir que barcos de grande dimensão, portanto, butaneiros, chamam-se assim os barcos que transportam gás, tragam o GNL até Sines, depois seja esse GNL distribuído por barcos mais pequenos, que, por sua vez, rumem ao Norte da Europa, à Europa Central, sem necessidade de gasoduto. Portanto, seria um bypass, digamos assim, por mar, para levar o gás onde ele é, de facto, mais necessário.
Esse é um ponto interessante. Por que a Península Ibérica está especialmente equipada para receber estes barcos? Não há outros países europeus com essa capacidade?
Não tanta como nós. De todo, até porque a maioria dos países europeus habituaram-se a receber o gás de forma muito cómoda, através de gasoduto vindo da Rússia.
Vindo da Rússia.
Precisamente. A Alemanha, por exemplo, não tem nenhum terminal de gás natural liquefeito. Estão agora a tentar arranjar soluções de procurar barcos de grande dimensão, que têm eles próprios terminais de gás flutuantes, que permitem, sem ter um terminal físico, tu receberes o gás natural liquefeito e depois regasificá-lo e injetá-lo no gasoduto, mas não há muitos barcos disponíveis e não chega. Portugal só tem um terminal, como tu dizes, a Espanha tem mais.
Quantos tem a Espanha?
Salvo erro, seis ou sete. Mas é um terminal com grande capacidade, é recente, é moderno e também está mais perto de alguns dos países que são os fornecedores de gás natural. Por exemplo, África, Nigéria, que é um grande fornecedor, Estados Unidos, Brasil menos, mas tem algumas vantagens geográficas em relação a alguns fornecedores.
Ou seja, Ana Suspiro, se quisermos aqui fazer uma afirmação um pouco mais romântica em tempos de guerra, Sines pode ser uma arma eficaz contra a dependência do gás de Putin?
Sines pode fazer parte da resposta. Nunca é a resposta toda. E, de facto, tem sido essa a proposta, a batalha, entre aspas, porque já se fala disso há muito tempo. Esta história não é de hoje. Já se anda a falar disso há muito tempo, porque para além da questão do gás natural, haverá no futuro, dizem os políticos e alguns técnicos, uma coisa chamada hidrogénio verde, que é um gás limpo, um gás que não produz emissões e que a rede de gasodutos que nós temos atualmente em Portugal, em Espanha e pela Europa, pode receber esse novo gás renovável. E Sines é também o ponto do país para o qual estão previstos maiores projetos de hidrogénio verde.
Ou seja, podemos aproveitar a canalização que já temos.
Mas só assim é que faz sentido, porque nós estamos a falar de investimentos muito caros, que demoram muito tempo a fazer, e não vais estar a fazer esta nova canalização apenas para resolver esta crise da Rússia. Ela tem que ter aproveitamento e tem que ter retorno.
Obrigado, Ana.
Obrigada eu.
Ana Suspiro é jornalista da secção de economia do Observador e já conversámos com ela noutros episódios da História do Dia, por exemplo, no dia 27 de julho, sobre o acordo alcançado no Conselho Europeu para uma redução à la carte do consumo de energia por parte dos 27. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Voltamos terça-feira, dia 16 de agosto. Bom fim de semana e boas férias.