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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que a tempestade Christine foi tão destrutiva?
Reiterar, em primeiro lugar, o nosso lamento e pesar pelas vidas que se perderam com este evento meteorológico extremo.
Luís Montenegro falava à saída da Proteção Civil no dia em que o país ficou de pernas para o ar. Vários mortos, estradas cortadas, milhares sem eletricidade, sem água e sem telefone, rios a transbordar, casas destruídas.
Creio que chegou a ir para uns dois ou três palmos de água dentro da minha casa.
O seu desespero é grande.
É muito grande, porque, primeiro que a gente já não tem mais onde ficar.
As imagens sucediam-se, tal como as notícias, cada uma mais surpreendente que a outra. A roda-gigante que voou, estádios e aviões danificados, o vento que bateu recordes da maior rajada de sempre em Portugal, quase 180 km. Os vídeos que circulavam na internet mostravam o caos em que a tempestade Christine deixou o país. Mas que tempestade foi esta, que veio num comboio delas e já saiu com estrondo em direção à Espanha? Por que esta violência e o que tudo isto que vimos ontem diz de nós e da forma como estamos ou não preparados para estes fenômenos cada vez mais frequentes? Eu vou falar com o climatologista e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Carlos da Câmara. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 29 de janeiro. Senhor professor, bem-vindo.
Muito obrigado. É um gosto sempre estar aqui na Rádio Observador.
Deixe-me começar por lhe perguntar o que é exatamente esta tempestade, Christine. O que a distingue, se é que alguma coisa a distingue, das outras tempestades de inverno?
A primeira coisa que a distingue é ter um nome. Normalmente, só se batizam as depressões quando elas têm efeitos particularmente graves, seja em termos de precipitação, ou de queda de neve, ou de ventos intensos, ou de ondulação, etc. E portanto, esta foi particularmente intensa. Tem também o aspecto de seguir a duas particularmente intensas, que foi a Joseph e antes dessa, a Ingrid. Portanto, no fundo, temos aquilo que se chama um trem de depressões.
Um comboio de tempestades, aquela expressão que também se vai usando.
Exatamente, já se sucedia a várias tempestades e, portanto, a primeira coisa é que ela, de facto, está muito bem enquadrada e vêm aí mais duas. A primeira questão é: por que há este comboio de depressões ou de tempestades, se quiser? A razão é esta: aquilo a que tecnicamente nós chamamos correntes de jato, estão extremamente para sul. O que é a corrente de jato? A corrente de jato são umas regiões da alta atmosfera, e quando eu digo alta atmosfera é 10 km, onde andam os aviões a jato, 11 km, por aí, em que se têm zonas da atmosfera que formam uma espécie de tubos gigantes, em que a velocidade do vento é enorme, 300 km/h ou mais. E uma pessoa pode dizer: "Bom, o que uma coisa que acontece a 10 km tem a ver com o que se passa à superfície?" Pois bem, estas correntes de jato são uma espécie de coluna vertebral da atmosfera, que regularizam o tipo de circulação. Quando a corrente de jato está extremamente para sul, isso vai induzir a formação de tempestades à superfície, neste caso particular, sobre o Atlântico, e a dirigirem-se muito mais para sul do que o habitual e, portanto, elas terem vindo bater às portas de Portugal e depois vão pela Península Ibérica adentro e depois pelo resto da Europa. Portanto, a primeira coisa interessante é que este inverno pauta-se por haver depressões que se seguem umas às outras. Agora, esta em particular, aquilo também que a caracterizou é que uma tempestade é sempre um centro de baixas pressões. Se quiser, pense no lavatório da casa de banho, em que quando eu destapo o ralo, vai se formar uma baixa pressão exatamente junto ao ralo, e o que acontece? A água circula em volta do ralo. Aqui, exatamente, o mecanismo é o mesmo. Temos um centro com uma baixa pressão e à volta temos uma circulação de ar no sentido dos ponteiros do relógio. O que é que acontece? Quanto mais baixa for a pressão do centro, maior é a velocidade do vento e, portanto, a diminuição da pressão no centro é uma medida da intensidade desse sistema. Ora, esta Christine foi caracterizada por aquilo a que nós, meteorologistas, chamamos uma ciclogênese explosiva, que é uma palavra complicada, mas para explicar um conceito muito simples: é que a pressão mede-se em milibar ou hectopascal, e nós dizemos que há uma ciclogênese explosiva quando a queda de pressão for mais de 24 hectopascal em 24 horas, ou seja, em média, que caia mais de um hectopascal por hora. Se olharmos para os mapas, vemos, de facto, que o núcleo desta tempestade tem uma pressão muito baixa e que foi decrescendo muito rapidamente, ou seja, os ventos foram se intensificando. Ainda tem uma terceira característica que aconteceu, e isso nem sempre acontece, é que nesta depressão, deu lugar àquilo que se chama um stingjet, que é uma palavra inglesa em que sting quer dizer ferrão de uma abelha ou de um escorpião. É um mecanismo que tem a ver com a própria dinâmica da depressão e que vai induzir ventos descendentes muito localizados e particularmente intensos e destrutivos. Portanto, se quiser Esta depressão é interessante não só porque se enquadra num background, num fundo de palco, que é estar num comboio, é uma das carruagens de um comboio, mas essa carruagem é particularmente intensa e, se quiser, com os passageiros extremamente mal comportados, porque deram origem ainda a ventos muitíssimo intensos.
Vento, chuva, cheias.
Portanto, tínhamos um coquetel explosivo.
Tivemos aqui as imagens que fomos vendo ao longo do dia de ontem, que foram impressionantes. Esta Christine é aquilo que nós podemos chamar um fenômeno extremo ou está dentro daquilo que normalmente acontecia sempre no clima português de inverno?
É um fenômeno extremo que não tem nada de inusual. É um fenômeno extremo que pode acontecer e que todo o ambiente que levou a esse fenômeno extremo faz parte daquilo a que nós chamamos de variabilidade climática, ou seja, da mesma forma que podemos ter invernos mais secos e mais frios, podemos ter invernos mais úmidos e mais rigorosos, que é o caso deste inverno. Portanto, a tendência é logo para se associar às alterações climáticas, mas as alterações climáticas é outra história, que aqui também tem a sua assinatura.
Então deixe-me aproveitar essa deixa, porque vou lhe perguntar por isso e vou lhe perguntar também se Portugal está preparado para este tipo de fenômenos, quando regressarmos. Até já. Estamos de regresso, professor Carlos da Câmara. Falávamos há pouco dessa história das alterações climáticas. Normalmente, cada vez que há fenômenos destes, falamos sempre: "Isto é responsabilidade das alterações climáticas". Acha que isso se pode dizer com rigor no caso desta tempestade ou deste comboio de tempestades que temos vivido?
Antes de responder à sua pergunta, é importante distinguir entre meteorologia e climatologia. A meteorologia preocupa-se com um evento específico. Portanto, esta Christine é um evento meteorológico que é explicado, à luz da meteorologia. A climatologia é uma espécie de sociologia dos estados do tempo. Ou seja, o climatologista não quer saber se é Christine ou é outra coisa qualquer. O climatologista olha para uma determinada região, como por exemplo, o Atlântico junto à costa portuguesa, ou a Península Ibérica, e olha e diz: determinado tipo de fenômenos, com que frequência é que aparecem, qual a intensidade mais típica, quais os eventos extremos a ele ligados. E depois verifica se há alterações ou não, porque, primeira coisa, tal e qual como um trânsito numa estrada, ele tem variabilidade. Tem variabilidade e de vez em quando há acidentes, mas eu posso imaginar que tenho uma determinada curva. Numa curva, posso imaginar que o pavimento da estrada deteriorou-se. Isso é uma alteração climática. E portanto, quando o pavimento se deteriora, a probabilidade de eu ter um acidente nessa curva aumenta e muitas vezes por quê? Porque há chuva. Aí a chuva seria parte, digamos, de uma parte não estrutural e que é aquilo a que nós chamaríamos, digamos, de meteorologia. Neste caso é meteorologia, porque é chuva, mas o que eu estou a dizer é: a parte que diz respeito ao evento específico é a meteorologia. O que é que a climatologia tem a dizer relativamente a estes fenômenos? É que nós sabemos que as alterações climáticas, em particular o aumento dos gases com efeito de estufa por ação do homem, levam a que haja mais energia armazenada na atmosfera. Este tipo de depressões são mecanismos que convertem essa energia da atmosfera em movimento. Fazendo uma comparação, é como o motor de um automóvel, converte a energia química da gasolina em movimento. O que é uma alteração climática? É passarmos a ter gasolina com mais octanas. Se temos uma gasolina com mais octanas, é normal que tenhamos movimentos com maior velocidade. Ora, o que acontece, o que dizem os climatologistas é: cuidado, este tipo de depressões, com maior probabilidade, pode levar a fenômenos mais energéticos, nomeadamente ondulações mais fortes, ventos mais intensos, precipitação mais intensa. E portanto, o que eu posso dizer como climatologista é que a probabilidade de termos eventos extremos, num contexto de alterações climáticas, aumenta. E por que isso é grave? Porque, na realidade, a Rádio Observador só se lembra que eu existo quando há eventos extremos. Porque são estes que matam, são estes que levam a prejuízos. E portanto, como esses eventos extremos irão aumentar, isso é que é a preocupação do climatologista. Portanto, quando uma pessoa diz: "bem, um aumento de um grau e meio acima da Revolução Industrial", a maior parte do público diz: "mas, caramba, tanta preocupação por causa de um grau e meio?" O problema não é esse. O problema é que o aumento de um grau e meio leva a um aumento de extremos, e esses extremos é que têm repercussões muito negativas.
E tendo em conta esse cenário que acabou de descrever, e tendo em conta aquilo que temos visto, diria o quê relativamente à forma como Portugal está preparado para receber e sofrer os efeitos deste tipo de acontecimentos?
A primeira coisa é que há que ser justo e que temos tido uma melhoria significativa, não só do ponto de vista técnico ou científico, ou seja, os modelos meteorológicos estão a ficar cada vez melhoresDe resto, eu costumo sempre dizer que a prova é que as pessoas só se lembram quando o modelo erra. Hoje em dia, quando um modelo acerta, a pessoa acha que é tão normal que nem nos lembramos. Mas isto é quantificado, qualquer centro meteorológico tem parâmetros que medem a qualidade dos modelos e a porcentagem de acerto é muito acima de 95%. E neste caso particular, há de notar que as previsões foram na muche. Com dois dias de antecedência, começou-se a alertar para a possibilidade de haver uma depressão muito gravosa. Acertou-se perfeitamente a hora que iria atingir Portugal, os avisos foram feitos a partir da meia-noite e até às 9:00 da manhã. Acertou-se perfeitamente no intervalo de ventos, em que dizia que podia haver rajadas de 140, 160 km/h. Não há dúvida que a meteorologia funcionou. Claro que uma pessoa diz: "Bom, na realidade, foi um pouquinho mais a sul do que estava previsto, entrou em Leiria e não mais para norte, que se dizia que seria para Porto ou Aveiro". Essa distância é perfeitamente desprezável e é razoável. Primeira coisa, do ponto de vista meteorológico, acho que as previsões estavam muitíssimo bem feitas. Segundo, do ponto de vista de avisos, os avisos chegaram à comunicação social e depois Proteção Civil também fez avisos atempados. Julgo que deve ter recebido, como eu recebi, por telemóvel, avisos. O que eu acho que é preciso melhorar significativamente? É no sentido cívico de responsabilidade da população. Isso passa por educação, e essa educação passa logo nos bancos de escola. Eu acho que como se faz nos Estados Unidos, eu vivi nos Estados Unidos quatro anos e vi como é que essas coisas funcionam, é desde a mais tenra idade, as pessoas serem habituadas a ter determinados comportamentos em face de determinado tipo de situações meteorológicas.
E se estes fenômenos vão repetir-se mais vezes, o que é provável, é melhor mesmo que se comece desde pequenino a preparar.
Evidentemente. No fim de contas, evitar deslocações que não sejam absolutamente necessárias, ter uma condução muito defensiva. Por exemplo, eu esta noite estacionei o carro um bocado mais longe de casa, num sítio que não havia árvores e num sítio que me pareceu que não havia estruturas móveis, etc. No fim de contas, e talvez a razão é como eu vivi nos Estados Unidos, e aí a meteorologia tem muitas vezes aspectos muito gravosos. Mas é preciso começar-se a ensinar, de facto, esse comportamento. É diferente quando eu era novo, ensinaram-me a pôr o cinto de segurança, que pra si provavelmente é a coisa mais normal do mundo, mas pra mim não era. No fundo, vamos ter que perceber que este tipo de fenômenos vão aumentar. O aumentar não é todos os dias, é serem menos raros, mas como são esses fenômenos que matam e moem, para isso é que devemos estar particularmente preparados.
É um ótimo conselho para terminarmos a nossa conversa. Professor Carlos da Câmara, muito obrigado.
Eu é que agradeço o convite. É sempre um gosto estar aqui.
Obrigado. O professor Carlos da Câmara é climatologista e depois tem esta capacidade rara de explicar de forma simples aquilo que é complexo. Hoje não se esperam consequências tão graves como as de ontem, mas ainda é preciso cuidado. Esta quinta-feira é o último dia pra inscrição no voto antecipado em mobilidade. Quem se inscrever vai poder votar na segunda volta destas presidenciais já no domingo, dia 1 de fevereiro. E à noite, hoje à noite, o Porto e o Sporting de Braga entram em campo para a Liga Europa. As duas equipes com hipóteses de avançar diretamente para os oitavos de final, mas os minhotos com a vantagem de dependerem apenas de si próprios. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.