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Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron. Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que as sondagens dão tiros ao lado?

As sondagens indicam que a escolha estará entre dois titãs políticos, Lula da Silva e Jair Bolsonaro. As intenções de voto dão vitória ao candidato do Partido dos Trabalhadores logo à primeira volta, o que significaria o regresso de um governo de esquerda depois de quatro anos sob a liderança da direita de Bolsonaro.

Mais uma vez, as sondagens não corresponderam à realidade das eleições. Nem todas davam uma resolução das eleições no Brasil na primeira volta, é verdade, mas o certo é que o fosso entre os dois candidatos não foi tão grande como se chegou a anunciar. Foi o suficiente para o atual presidente recandidato, Jair Bolsonaro, vir dizer que venceu a mentira das sondagens.

Nós vencemos a mentira no dia de hoje, que estava o Datafolha dando 51% a 30 e poucos. Então vencemos a mentira. Temos um segundo tempo pela frente.

O Brasil vai ter uma segunda volta das eleições presidenciais a 30 de outubro, mas o resultado deste primeiro turno, como dizem os brasileiros, voltou a pôr as sondagens no centro da discussão. Chegaram a dar uma diferença de mais de 15% entre os dois candidatos. Diferença que no final ficou apenas em cinco pontos. É um tema que tem sido recorrente. Por cá, as sondagens levaram a comunicação social a dizer que as eleições legislativas seriam as mais renhidas nos últimos anos e no final o PS acabou por conquistar a maioria absoluta. E o ano passado não conseguiram prever que Carlos Moedas iria conquistar a Câmara de Lisboa. As sondagens falham ou falha o nosso entendimento delas? E será que as sondagens acabam por ter influência no resultado final das eleições? Eu sou o João Santos Duarte e nesta história do dia vou falar com Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais. Bem-vindo, Pedro Magalhães.

Obrigado.

Voltamos a falar nas sondagens e nos resultados das sondagens por causa das recentes eleições no Brasil. As sondagens chegaram a dar um fosso gigantesco de mais de 15% entre os dois candidatos e criaram mesmo a expectativa do ex-presidente Lula da Silva ser eleito logo à primeira volta. Na realidade, a diferença entre ambos acabou por ficar-se nos 5% e vamos ter uma segunda volta daqui a sensivelmente um mês. Podemos dizer que as sondagens falharam no Brasil ou não?

É verdade que houve sondagens que deram 15 pontos de vantagem a Lula sobre Bolsonaro, mas também houve uma sondagem que deu 16 pontos a Bolsonaro sobre Lula. E também houve outra sondagem que deu três pontos a Bolsonaro sobre Lula. Portanto, nós temos aqui um problema que é quando falamos do que foram as sondagens no Brasil, somos muitas vezes levados, e de forma compreensível, a tomar o todo pela parte. E, portanto, qual é a parte aqui a que as pessoas estão a dar mais relevância? E repito, compreensivelmente. Estão a dar mais relevância às últimas sondagens que foram conduzidas, da Datafolha e do Ipec, e já agora do Ipes, que também davam 14, 15 pontos. Mas a verdade é que se nós pegarmos em todas as últimas sondagens de cada instituto e se fizermos a média, a vantagem de Lula sobre Bolsonaro, que resulta dessa média, são sete pontos. E na realidade a vantagem foi 5,2 pontos. Portanto, há aqui, desde logo, uma questão de uma certa diferenciação entre o conjunto da informação a que nós podemos ter acesso, se tivermos um bocadinho de paciência para ver as coisas em conjunto, e aquilo que foi a perceção que se criou. E eu repito, uma perceção que se criou de forma compreensível, porque foram os institutos mais prestigiosos que acabaram, e que têm um melhor track record, por assim dizer, que acabaram por chegar ao fim com uma vantagem que não se realizou. Mas vendo as coisas pelo seu conjunto, é verdade que Bolsonaro teve mais percentagem de votos do que aquilo que as sondagens em geral lhe davam, mas a diferença não é tão dramática como possa parecer quando olhamos apenas para alguns dos estudos realizados.

A mais recente sondagem RTP Universidade Católica, publicada esta quinta-feira, prevê um quase empate técnico entre o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata. Assim, o PS teria 36% dos votos e o PSD 33%.

Em Portugal temos dois casos mais ou menos recentes. As eleições legislativas, que as sondagens apontavam como as mais renhidas dos últimos anos, mas que o PS acabou por vencer com maioria absoluta, e ainda a vitória inesperada de Carlos Moedas na Câmara Municipal de Lisboa. Que fatores é que fazem com que as sondagens acabem por divergir tanto do que foi o resultado final das eleições?

Uma primeira razão que faz com que as sondagens sejam diferentes dos resultados eleitorais é que as sondagens medem intenções de fazer alguma coisa num determinado momento e as eleições passam-se depois disso, são comportamentos. E a diferença entre intenções e comportamentos pode existir. Por vezes não existe, mas pode existir. Seja naqueles em que se tenciona votar, eu disse que votava no partido, mas depois chego ao dia e voto noutro, seja na própria intenção de votar. Eu disse que ia votar e afinal não vou. Isso é uma das fontes possíveis de discrepâncias entre sondagens e resultados eleitorais. Uma segunda fonte possível de discrepância tem a ver com a amostra. Não havendo essa lista completa atualizada dos membros da população, podendo não se conseguir chegar a colocar estas questões a um determinado perfil de eleitor, ou sendo mais fácil chegar a um perfil de eleitor do que a outro, e eventualmente havendo um determinado perfil de eleitor que não aceita participar no inquérito, isso pode fazer com que este retrato que estamos a tirar seja um retrato desfocado, seja um retrato incorreto da população, que esta amostra não seja verdadeiramente representativa. Tem-se falado muito no caso de Trump ou no caso do Brexit, de um fenômeno que pode estar por trás desta subestimação de Bolsonaro, que tem a ver com o fato de existir um perfil de eleitor que nem sequer acede a participar na sondagem. Dizendo isso de uma forma mais técnica, um determinado perfil de eleitor que tem uma baixa taxa de resposta. Se esse perfil de eleitor estiver correlacionado com uma opção de voto, isso vai subestimar essa opção de voto. Mas uma hipótese que fica é a de que o eleitor Bolsonaro não tenha acedido a participar tanto em sondagens como outros eleitores. Isso poderia explicar esta subestimação. Uma terceira coisa de que se fala, que tem alguma afinidade com o que acabamos de dizer, mas é diferente, são aquelas pessoas que acedem a participar na sondagem, portanto elas acedem fazer parte da amostra, elas dão-nos informação sobre o que pensam ou o que tencionam fazer, mas não dão informação sincera. Isso também pode ser um fator por detrás, sempre, de discrepâncias entre resultados eleitorais e sondagens.

Já voltamos à conversa com Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais.

Estamos de regresso à conversa com Pedro Magalhães. Pedro, de que forma as sondagens podem também ou não acabar por influenciar o resultado final de uma eleição? O problema também é que esse efeito não é nunca unívoco. O que eu quero dizer com isto? Vou dar agora um exemplo até do dia a dia e do que se está a passar no debate sobre o Brasil e no que se passou no debate sobre Portugal. Há muita gente do lado de Bolsonaro, apoiante de Bolsonaro, que diz: "As sondagens quiseram prejudicar-nos. As sondagens foram uma conspiração e quiseram prejudicar-nos, dando-nos uma intenção de voto inferior àquela que era a vontade das pessoas e aquilo que era a intenção de voto real." Mas em Portugal, quando se passou nas últimas eleições, há muita gente que diz: "As sondagens prejudicaram-nos, a nós, por exemplo, PSD, porque nos deram um resultado melhor do que aquilo que acabou por ser." E ambas as teorias, não tanto as teorias da conspiração, eu falo pessoalmente, eu também faço estas sondagens, conheço este meio, acho compreensível, mas é um bocadinho chocante ver a facilidade com que as pessoas passam pra teorias da conspiração, mas eu percebo o raciocínio. Num caso, nós temos eventualmente a ideia de que uma pessoa que apoia Bolsonaro e que se confrontada com um mau resultado poderia ficar desmotivada, poderia ficar desmobilizada. Isso é uma hipótese. Mas no outro caso, temos uma pessoa que é confrontada com um bom resultado e que ou fica ela desmobilizada ou são os outros que se mobilizam contra ela. Repare, são efeitos contraditórios, são ambos plausíveis, mas mostram como é muito difícil demonstrar que as sondagens produziram um efeito nesta ou naquela direção numa eleição concreta. Agora, eu diria o seguinte: as pessoas preocupam-se tanto com isto e os políticos preocupam-se tanto com isto, que é quase impossível imaginar que as sondagens não têm efeito no comportamento das pessoas. E se tiverem, de alguma forma, é compreensível. As pessoas, ou uma parte das pessoas, que não votam tanto por fidelidade ou por simpatia, mas votam de uma maneira um pouco mais tática, olham, pensam no que poderá acontecer e tomam decisões na base disso. E as sondagens fazem parte da informação que molda aquilo que poderá eventualmente acontecer É muito plausível que tenha efeito, mas é muito difícil demonstrá-lo e é muito difícil que tenham sempre o mesmo efeito em todas as circunstâncias, em todas as eleições e na mesma direção.

Os italianos votam no domingo sob o olhar atento da União Europeia. São grandes as expectativas sobre o caminho que a terceira maior economia da União vai escolher, tanto mais que não há sondagens há duas semanas.

A realidade das sondagens é também muito diferente de país para país. Se em Portugal já nos habituamos a ter sondagens praticamente diárias quando temos eleições, em Itália, por exemplo, onde houve eleições muito recentemente, as sondagens são proibidas durante as duas semanas de campanha. Isto é algo que fará sentido? Compreende este tipo de medida?

Eu acho que faz sentido discutir e debater isto, mas queria chamar a atenção para o seguinte: em primeiro lugar, esta medida parte um pouco do princípio de que os eleitores não sabem lidar com a informação que lhes é dada. E, portanto, perante informação contraditória, não sabem lidar com ela e, de alguma maneira, se lidarem com essa informação, estão a fazer uma coisa que é errada, que é uma espécie de perversão do processo democrático. Desse ponto de vista, nós podemos perguntar-nos qual é o tipo de informação então a que as pessoas podem ter acesso. Podem ter acesso às opiniões dos comentadores todos os dias na televisão e na rádio, isso é uma perversão ou isso está bem? Podem ter acesso a essa informação, mas não podem ter acesso à informação das sondagens? Enfim, é uma questão que eu acho que vale a pena discutir, mas não há dúvida que é uma questão que se levanta e é uma questão complicada, mas que está subjacente a esta ideia da proibição. A segunda coisa que importa ter em conta neste debate, e mais uma vez eu queria dizer, eu não tenho nenhuma posição de princípio sobre poder haver sondagens nos últimos meses ou nas últimas semanas. Eu acho que vale a pena discutir e não me chocaria se em Portugal houvesse essa proibição, mas importa ter em conta o seguinte: é que aquilo que acontece em Itália e em Espanha, é que as sondagens são feitas na mesma e os resultados aparecem na mesma. Só que em vez de darem nomes de partidos, aparecem uns artigos em jornais em Andorra ou na Suíça, que depois circulam pela população em geral e que em vez de estar o nome do partido, está uma fruta com a cor do partido. Isto é o que acontece na prática.

Quando falamos das sondagens e da forma como são noticiadas, será que a própria comunicação social pode ajudar, mesmo que involuntariamente, a passar uma ideia errada das sondagens e do que é suposto ser esta ferramenta? Será necessário ou não repensar de alguma forma a maneira como as sondagens são noticiadas ou enquadradas do ponto de vista mediático?

O problema é que nós sabemos que uma sondagem, com todos aqueles potenciais problemas de que lhe falei até agora, pode não ser o melhor retrato possível. É por isso que nós encontramos muitas vezes agregadores de sondagens. Eu dou só um exemplo, no caso do Brasil, não sei se as pessoas deram muito por isto, mas o último agregador de sondagens dava 46 para Lula, 42 para Bolsonaro. Portanto, não foi uma coisa tão diferente do que sucedeu em comparação quando olhamos para uma ou outra sondagem em concreto. Uma sondagem é só uma sondagem e, portanto, o retrato mais completo tem que ser dado com toda a informação. Mas os órgãos de comunicação social, pelo menos aqueles que encomendam sondagens, não têm obviamente incentivos para dar saliência ao trabalho dos outros. Isso é um primeiro ponto. O outro ponto também é que é muito difícil resistir. E quando digo isto, falo de todos nós, não é só dos jornalistas, é da população em geral. É muito difícil resistir a esta ideia de que a sondagem é uma coisa que nos vai dizer o que vai acontecer daqui a dois ou três dias. É muito difícil resistir a esta ideia de que temos esta bola de cristal nas mãos. Porque, de facto, esta bola de cristal, especialmente desde que o senhor Gallup começou a usar a amostragem aleatória e isto começou a tornar-se informação circulada, é muito apetecível, é uma tentação irresistível. Basta ver na nossa comunicação social, e esses estudos estão feitos, a maioria da cobertura da política é feita em termos desta corrida de cavalos e daquilo que a sondagem nos diz sobre a corrida de cavalos. Portanto, é muito difícil resistir. E resistir significa o quê? Significa pensar em todas aquelas coisas que nós falámos na nossa conversa até agora. Quer dizer, de todas as coisas que vão para lá do erro amostral, que é aquela coisa inevitável que acontece quando se fala do todo usando uma parte, mas todas as outras potenciais fontes de erro. Isto parece tudo uma coisa um bocadinho esotérica e na minha experiência, é quase inevitável ouvir isto. Quando se começa a falar disso, as pessoas dizem: "São desculpas. Vocês eram supostos saber o que ia acontecer amanhã ou o que aconteceu ontem". E portanto, quando falam em todas as coisas que podem correr mal, são desculpas. E depois a resposta é: "Bem, então se é assim, vamos deixar de fazer isto". E a verdade é que se não houvesse sondagens, as pessoas iam procurá-las na mesma. É irresistível esta informação. Portanto, é muito difícil no discurso público, no discurso dos jornalistas. Eu acho que as coisas melhoraram, não quero ser mal entendido. Acho que as coisas melhoraram ao longo dos últimos anos, mas é muito difícil não olhar para isto como uma bola de cristal. Até nós, que somos profissionais disto, quando olhamos para um resultado e o resultado é diferente da sondagem, pensamos: "Bolas, onde é que teremos falhado? Onde é que nos teremos enganado? Como é que podemos fazer melhor?" Quando muitas vezes é possível que nada pudesse ter sido feito melhor. As pessoas mudaram em relação àquele momento. Eram intenções que depois mudaram. E portanto, deixe-me dizer, eu acho que as coisas podem melhorar na margem, mas esta frustração quando os resultados são diferentes das sondagens, e já agora, a total irrelevância do assunto quando elas são iguais. Quando são iguais, parece que era suposto ser assim. Ninguém pensa por que nem como é que isto foi possível. As pessoas só discutem quando são diferentes. Acho que é muito difícil nós algum dia sairmos desta visão das sondagens como bola de cristal e como vimos há pouco, nem tenho sequer a certeza se acabar com as sondagens resolve esse o problema, porque a procura dessa informação é tanta que mesmo nos países em que essa proibição existe, as sondagens aparecem na mesma. Alguém as paga, alguém as quer, alguém as consome.

Obrigado, Pedro Magalhães.

De nada.

Pedro Magalhães é investigador do Instituto de Ciências Sociais e trabalha também diretamente na área da produção de sondagens. Esta foi a história do dia. Neste episódio usámos também sons da Euronews, da RTP e da Rede Globo. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia e a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã. Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron