No Domingo à noite, o Brasil esteve a um microscópico passo de se tornar uma ditadura, e os brasileiros um povo de trogloditas, radicais e, em suma, fascistas. A verdade é que tudo correu milagrosamente e, ao contrário do que garantiam 764 sondagens e insinuavam os resultados da primeira volta, o Bem venceu e, passadas três semanas de incerteza e medo, o sol voltou a iluminar as terras de Vera Cruz e Vera Fischer, apenas uma entre os trinta e oito mil artistas de renome que apoiaram o candidato do PT. Quatro milhões de votos de diferença, contados após um insuspeito juiz do Supremo Tribunal Federal e antigo advogado do sr. Lula decretar, já com as urnas fechadas, o prolongamento da votação por duas horas, chegaram para impedir as pretensões da ultra-direita e a descida aos abismos da tirania.
O povo, o povo sofrido daquela enorme nação, o povo que mais dia menos dia o sr. Lula tirará da pobreza relativa à custa da pobreza absoluta da totalidade dos brasileiros, o povo, dizia eu, festejou nas ruas. Uma parte do povo festejou em casa: um vídeo na Internet mostrou a alegria na interminável sala do humilde apartamento que Chico Buarque possui no Leblon, um apartamento tão humilde que em Portugal teria marxistas do lado de fora, a denunciar a ostentação dos milionários, os malefícios da propriedade privada e o horror da desigualdade. No Brasil, os marxistas estão do lado de dentro, a celebrar com abraços a beatificação do homem que ofereceu ao país a paz, o amor e a subjugação às directivas de Moscovo e Pequim.
Nem toda a gente é assim bem-intencionada. Alguns desconfiam que houve golpe. Outros, naturalmente ao serviço de cavernícolas, fascistas e etc. como o Wall Street Journal, insinuam que houve golpe. Outros ainda juram que houve golpe. Todos juntos, querem fazer-nos acreditar que a candidatura de um ex-condenado e ex-presidiário, patrocinada por um partido atolado nos maiores processos de corrupção da História Contemporânea e acarinhada por uma rede de interesses que reduziu as instâncias judiciais à tradição dos trópicos, seria capaz de aldrabar um acto eleitoral. Ridículo.
Salvo para os cegos pelo ódio, é evidente que o glorioso triunfo do sr. Lula não se distingue da consagração da democracia e da liberdade. Aliás, a democracia apressou-se a homenagear a liberdade quando, sete míseros minutos depois da confirmação oficial da vitória, mais um dos diversos parceiros do sr. Lula no Supremo Tribunal assinou a ordem para cassar o passaporte de Flávio Bolsonaro, o fascista derrotado, para que de seguida a ordem, e o progresso, fosse caçar o portador do passaporte. Não foi uma surpresa. Num dos debates da campanha, o sr. Lula tinha avisado com todas as letras (bem, quase todas: a dicção e a eloquência não são o forte deste enorme humanista): mal perdesse as eleições e a imunidade parlamentar, o adversário seria perseguido e preso. Nada demonstra tanto a honorabilidade e a saúde de um regime quanto a sanha em enfiar políticos rivais no xilindró.
Por azar, e pura má-fé, Flávio Bolsonaro declinou ser encarcerado por anos ou décadas e, à socapa, escapou-se para Miami sob os auspícios da também fascista administração Trump. A democracia brasileira tremeu mas não quebrou: a título de compensação pela presa que fugiu, os admiráveis jagunços do sr. Lula andam aos berros a exigir a detenção de numerosos “bolsonaristas”, e o próprio sr. Lula voltou a convocar, logo no discurso de Domingo, a necessidade de se censurar, perdão, regulamentar as “redes sociais”. Se o mandato anterior foi pujante em calar e, para os recalcitrantes, prender elementos desagradáveis ao poder, o próximo promete ser um festim. A acusação de que os governos do sr. Lula são brandos para com os crimes ligeiros (homicídio, narcotráfico e tal) não pode ser estendida ao rigor com que tratam os crimes realmente graves, leia-se as críticas a quem manda. “Leia-se”, vírgula, que os jornais locais evitam publicar calúnias aos amos e senhores. Por lá, a democracia é a sério.
E por cá? Por cá, não há “democrata” e “anti-fascista” que não se tenha entusiasmado com a manutenção do sr. Lula, que não tenha desvalorizado a título de mau-perder as francas hipóteses de fraude, que não tenha tratado Flávio Bolsonaro abaixo de foragido e cobarde, que não tenha chamado demónios ou pior aos eleitores derrotados, que não tenha afinal aplaudido o anunciado reforço da asfixia dos direitos civis e o gradual regresso do Brasil a uma autocracia, desta vez graças a Deus de esquerda. A nossa esquerda não venera o sr. Lula apesar das suas medonhas credenciais em matéria de liberdades gerais e honradez pessoal: venera-o justamente porque ele impõe o afastamento face ao Ocidente e a devastação económica típica do socialismo enquanto silencia e castiga os “subversivos”, insusceptíveis de sequer merecer a cidadania. A nossa esquerda excita-se com o Brasil actual, à semelhança das épocas em que se entusiasmou com Cuba, o maoismo, o Bloco de Leste, as “experiências” africanas ou a Venezuela, na medida em que sonha que aconteça cá o que está a acontecer lá. Os “democratas” e os “anti-fascistas” nunca se distinguiram pelo apreço à democracia, e a aversão ao fascismo tem dias e variáveis e fendas que escorrem hipocrisia. Cá e lá.