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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que ninguém consegue durar em Downing Street?
"The question my party is asking now is whether I am best placed to lead us into the next general election. I have heard the answer, and I accept that answer with good grace."
Com este discurso de demissão, Keir Starmer torna-se no sexto primeiro-ministro do Reino Unido a sair de cena nos últimos 10 anos. Seis primeiros-ministros em 10 anos: David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak e agora Keir Starmer. Mas este era suposto ser diferente. Os outros eram do Partido Conservador, este é do Partido Trabalhista, o primeiro a conseguir chegar a Downing Street em 14 anos. E, no entanto, também ele acaba a fazer aquilo que garantia que não iria fazer.
"That is why I will resign as leader of the Labour Party."
Demite-se e já tem o sucessor a bater-lhe à porta. E por isso, hoje vou falar com o Bruno Cardoso Reis, professor universitário, doutorado na área de Relações Internacionais pela King's College de Londres, além de ser comentador na Sic Notícias e aqui na Rádio Observador. Vamos perceber por que caiu mais um primeiro-ministro, quem é o senhor que se segue, que desafios tem pela frente e por que isto também nos interessa a nós, portugueses. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 23 de junho. Olá, Bruno, bem-vindo.
Olá, obrigado.
Bruno, para os portugueses isto faz um pouco de confusão, que é nós termos visto, sobretudo nos últimos anos, vários primeiros-ministros que depois se demitem, que desistem e não há problema nenhum. Não há eleições, o partido nomeia outra pessoa e já está. Isto é uma coisa muito britânica, não é?
Sim, porque realmente o sistema é muito diferente do português, ou seja, é um sistema puramente parlamentar e sendo uma monarquia constitucional, o rei formalmente até tem muitos poderes, mas na prática só os exerce quando tem o acordo ou é solicitado pelo governo a fazer isso. Ou seja, quando essa decisão tem o apoio da maioria do Parlamento. Portanto, neste sistema só há eleições, eventualmente só se antecipa o prazo das eleições, que para já está para 2029, no máximo. Há ali alguma margem, mas no máximo até agosto de 2029. Mas só se antecipa as eleições quando o próprio partido do governo, a própria maioria parlamentar que apoia o governo entende que se deve fazer isso. Ora, isso tende a acontecer bastante mais raramente. Além do mais, como há esta questão de no sistema britânico não se poder ser líder partidário, nem líder do governo, consequentemente, sem ser membro do Parlamento, que é também o que explica todo este processo. O Andy Burnham, que tudo indica vai substituir o Keir Starmer, era presidente da Câmara de Manchester, que é uma cidade muito importante do norte da Inglaterra, mas teve de se demitir, porque não pode acumular com ser parlamentar, e teve de haver uma eleição especial. Teve de haver um outro colega trabalhista que se demitiu para ele poder concorrer a um lugar ao Parlamento, sendo que os círculos são uninominais, também há esta legitimação popular. Há alguma legitimação popular, pelo menos de acordo com o sistema britânico, mas realmente não há esta ideia de que é preciso haver eleições, embora também seja importante dizer que Nigel Farage, que se o Partido Trabalhista está com problemas bastante paradoxais, tendo em conta que também a maioria é absoluta, etc. Mas se os trabalhistas estão com problemas, o Partido Conservador, que é o partido historicamente dominante da política britânica desde o início deste sistema parlamentar com primeiros-ministros no século XVIII. O Partido Trabalhista só começa a ter primeiros-ministros basicamente há 100 anos, a partir de 1924, mas o Partido Conservador ainda está muito pior, e o Nigel Farage realmente veio dizer que queria eleições antecipadas. O líder do Reform, que neste momento é o partido que parece estar a disputar a liderança com os trabalhistas, quebrando esta tradição da alternância desde há um século entre trabalhistas e conservadores.
E isso também é em parte o que explica o sucesso de Andy Burnham, mas já lá iremos. Para já vamos olhar para Keir Starmer, o homem que anunciou ontem a demissão. O que fez cair o primeiro-ministro britânico, sendo que ele ainda há dois anos fez uma entrada triunfal em Downing Street?
Sim, eu acho que em parte temos aí desde logo que sublinhar estas especificidades do sistema britânico. É que o Parlamento britânico tem 650 deputados. Os trabalhistas têm uma supermaioria de mais de 400 deputados, 405 deputados, por aí. É uma maioria superior à maioria conservadora anterior. No entanto, eles tiveram 34% dos votos, portanto, subiram ligeiramente em relação ao resultado anterior. Obviamente, os conservadores caíram muito. Mas isto é um dos paradoxos desse sistema, que é como são círculos uninominais, basta que o Partido Trabalhista ganhe, mesmo que seja por muito pouco, em muitos círculos, e mesmo tendo uma percentagem pouco acima dos 30% dos votos, realmente consegue uma grande maioria sem ter um apoio popular assim tão grande. O problema parte logo daí, que temos aqui uma certa ilusão.
Uma grande maioria do Parlamento que não é necessariamente sociológica, digamos assim.
Exatamente. Não reflete uma maioria esmagadora de apoio entre a população. Embora obviamente seja legítima, porque é esse o sistema. Depois, o segundo aspecto é que Sir Keir Starmer foi, também há que ser justo com ele, eleito por não ser bem um político tradicional. Ele basicamente fez a carreira como magistrado no Ministério Público e portanto veio tarde pra política, por ser visto como um político muito centrista, muito certinho até na sua personalidade, na sua postura. Mas realmente essa ideia de não arriscar nada, de hesitar muito, depois de ter grandes dificuldades também na gestão política, na gestão do pessoal, na gestão do discurso, acabou por passar esta ideia de um líder fraco, que não consegue tomar decisões ou que toma decisões erradas, como nomear o Lord Mandelson, que era amigo do Epstein, pra embaixador nos Estados Unidos, com explicações muito confusas. O resultado final de tudo isso, a par destes problemas de base, que é de facto o Reino Unido fez uma má aposta com o Brexit e está a pagar um preço econômico muito pesado, que depois torna muito difícil fazer políticas populares, gastar dinheiro onde ele não existe. A economia britânica terá perdido entre 6% e 8% do seu PIB, perdeu cerca de 15% do seu comércio externo nos últimos 10 anos. Mas o resultado de tudo isso foi que, apesar de ele conseguir alguns resultados, por exemplo, na imigração, que toda gente dizia que era a grande questão, desde que o Labour assumiu a imigração caiu quase 80%. Ele tinha alguma experiência nesta área do direito, da justiça, da administração interna, mas isso de facto não foi suficiente e portanto ele é historicamente, em termos de sondagens, dos primeiros-ministros mais impopulares de toda a história britânica. Tinha cerca de 13% de apoio, era o político britânico mais impopular. Ora, os trabalhistas têm, ao mesmo tempo, Andy Burnham, que é o político britânico mais popular de todos os partidos, mais popular que o Nigel Farage. A tentação de mudar de líder a meio acabou por ser irresistível.
E o que fomos vendo foi uma coisa também muito britânica, que aqui não acontece, que é os membros do próprio governo de Keir Starmer vão se demitindo, vão abandonando, vão dizendo claramente que acham que ele não é a pessoa certa, os deputados vão fazendo o mesmo e a partir daí ele perdeu o apoio e fez nesta segunda-feira aquilo que se esperava, que era a demissão. Por oposição, tínhamos Andy Burnham, que ganhou esta eleição especial, uma eleição local, estamos a falar de 70 mil eleitores. A questão é que ele teve um resultado muito acima da expectativa, quer das sondagens, quer do próprio Partido Trabalhista, sobretudo neste confronto com o Reform de Nigel Farage, na mesma circunscrição. Quem é este homem que agora tudo indica, vai ser o próximo primeiro-ministro do Reino Unido?
Ele é realmente um político muito mais tradicional, também muito mais carismático e sobretudo parece conseguir esta questão que é crucial pro Partido Trabalhista, que é disputar o crescimento do partido populista, nacionalista, nativista Nigel Farage no sul de Inglaterra. Nesta zona, nomeadamente onde a cidade de Manchester é um dos grandes centros. Ele foi um presidente da câmara extremamente popular nestes últimos cinco anos, desde 2017 até 2026. Isso também lhe permitiu não estar envolvido em todas aquelas confusões do Jeremy Corbyn. Ele já disputou a liderança do Partido Trabalhista mais vezes. Perdeu, por exemplo, pra Jeremy Corbyn, ficou em segundo lugar e depois foi ministro sombra naquele sistema que eles têm de governo sombra. Mas antes disso foi um parlamentar, tem 15 anos de experiência no Parlamento, de 2001 a 2016. É alguém formado em Cambridge, o que para Portugal não interessa nada, mas na Grã-Bretanha também é uma grande novidade. Pode parecer que ser de Oxford ou de Cambridge é a mesma coisa, mas não é. No último século basicamente todos os primeiros-ministros foram de Oxford, com duas exceções parciais, nomeadamente o Gordon Brown, que é St. Andrews ou de Edimburgo, uma daquelas universidades escocesas, porque ele é escocês. O Andy Burnham é de Cambridge, formou-se em Inglês e não em Política ou Direito. Em Oxford têm sido os grandes vivres de primeiros-ministros. Isso tudo ajuda a compor esta ideia de que é alguém um pouco mais alternativo, um pouco mais fora da caixa. Alguns defendem que ele é alguém muito à esquerda, que será uma espécie de novo Jeremy Corbyn. Acho que isso não faz nenhum sentido. Aliás, o deputado que se demitiu pra lhe dar o lugar, o Josh Simmons, é líder de um think tank, de um grupo dentro do Partido Trabalhista bastante centrista, visto como muito centrista. O que ele defende, por exemplo, em relação à imigração, já veio dizer: "Eu não sou favorável a fronteiras abertas, tem de haver controles", mas o que ele defende realmente é esta ideia de que tem de haver um reforço do investimento público, tem de haver políticas que respondam a problemas de transportes na Grã-Bretanha, que é um país onde as pessoas viajam muito pra trabalhar. Essa é uma queixa recorrente. Ele teve muito sucesso nisso em Manchester. A questão do investimento na saúde, do investimento na habitação com políticas mais criativas, algum regresso da gestão pública, mas uma gestão pública de qualidade. Há também quem diga até na própria Grã-Bretanha, que é um pouco políticas do gênero daquelas que António Costa tentou fazer em Portugal ou Sánchez em Espanha. Não sei se isso é uma grande recomendação do ponto de vista de Portugal ou de Espanha, mas em todo caso, é esta ideia de que é alguém que quer virar um pouco à esquerda, mas sem se radicalizar excessivamente Mas sobretudo eu diria que é um político profissional e, portanto, mais uma vez confirma esta questão que as pessoas muitas vezes dizem que querem políticos fora da caixa, mas depois quando têm políticos fora da caixa não gostam, porque eles não são bons a falar, a gerir, a escolher o pessoal, a gerir os ministros, etc. E portanto, ele parece ser realmente alguém bastante mais carismático e hábil também do ponto de vista da gestão política. Agora, tem uma tarefa muito difícil.
E quais é que são as tarefas mais difíceis que ele tem pela frente, sendo que ele vai herdar um cargo que não é fácil, tendo em conta o historial? E já agora, como é que ele, que era contra o Brexit, votou contra o Brexit, como é que ele agora vai lidar com esse problema?
Sim, o Brexit tornou-se realmente bastante impopular, mas isso não quer dizer que seja fácil reverter. Até porque do lado da União Europeia também há grandes reservas em relação a aceitar novamente a Grã-Bretanha de braços abertos. Portanto, seria sempre uma negociação difícil. E isso também é o tipo de argumento que interessa a Nigel Farage. Os trabalhistas têm insistido neste ponto, que é não vão pôr em questão o Brexit, vão é procurar respostas pragmáticas que respondam aos problemas que o Brexit criou, por exemplo, nas relações comerciais entre a União Europeia e a Grã-Bretanha. Esse será um dos grandes desafios. Será que ele consegue tirar aqui alguns coelhos de fora da caixa? Porque a União Europeia, mesmo nesses acordos parciais, também não quer fazer demasiadas cedências, sempre com esta ideia de que é perigoso criar a ideia de que há aqui um modelo de sucesso para sair da União Europeia. E a Grã-Bretanha também pagou o preço de ter funcionado um pouquinho como vacina contra isso. Depois tem a gestão muito complexa da relação com os Estados Unidos. A Grã-Bretanha, ao sair da União Europeia, ficou muito mais dependente da chamada relação privilegiada com os Estados Unidos. Ora o problema é que isso implicaria uma relação estável, previsível. Ora com Donald Trump, isso não existe em relação a nenhum país. E apesar de ele até ter alguma simpatia pela Grã-Bretanha pessoal e ser sensível ao soft power britânico da Coroa, dos palácios, isso marginalmente ajuda alguma coisa, mas não resolve os problemas fundamentais. E esse será também um grande desafio, lidar com a outra grande potência emergente, a China. A certa altura, por exemplo, David Cameron parecia apostar, também o Boris Johnson no contexto pós-Brexit, no reforço das relações com a Ásia e em particular com a China. Mas a China também se percebe que tem muitas políticas protecionistas, que está a apostar numa política de uma espécie de dumping numa escala ainda maior do que no passado. O contexto internacional é muito complicado. A Rússia e a Ucrânia. A Rússia vê a Grã-Bretanha como um dos principais aliados da Ucrânia e tem retaliado, por exemplo, aparentemente contratou criminosos para pegar fogo a residências do primeiro-ministro atual, do Keir Starmer. No contexto externo, as coisas são muito complicadas. No contexto interno, o grande desafio é: como é que se consegue, sem aumentar impostos, sem reduzir pensões e subsídios, onde é que se vai buscar dinheiro para investir no setor público, para fazer este reforço de investimento em setores como a habitação ou saúde, que são vistos como cruciais. Ele, por exemplo, como ministro da Saúde, também teve essa experiência, desenvolveu uma ideia de um sistema nacional para cuidar dos idosos, mas isso acabou por cair por falta de dinheiro. Será que ele vai tentar retomar algo desse tipo? Ele, em termos internos, precisa realmente mostrar que consegue fazer alguma coisa de melhor, de mais eficaz, sendo que não é muito evidente onde é que vai buscar o dinheiro para isso.
Portanto, não tem uma tarefa fácil pela frente, claramente.
De todo.
Bruno, muito obrigado.
Muito obrigado.
Hoje eu conversei com o Bruno Cardoso Reis, professor universitário, especialista em História e Relações Internacionais. Falámos sobre a nova crise política no Reino Unido, que pode ser uma crise, mas à boa maneira inglesa é gerida com o civismo de um chá das cinco. Keir Starmer fica no lugar até setembro, até ficar claro quem é o novo líder dos trabalhistas e depois quem passa a ocupar a cadeira de primeiro-ministro no número 10 de Downing Street. Tudo calendarizado, tudo muito civilizado. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.