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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Putin esconde parte do dinheiro na conta de um violoncelista? Sergei Roldugin cerra os olhos enquanto faz vibrar as cordas do violoncelo. Toca a sonata número dois para violoncelo em sol menor de Beethoven. Estamos em junho de 2013. O concerto está disponível no YouTube. Roldugin toca no pequeno palco da Casa da Música. É acompanhado ao piano na instituição que criou em São Petersburgo, com a ajuda do amigo de juventude, Vladimir Putin. Sergei Roldugin é violoncelista e assume que é também rico. Muito rico. Agora, é suspeito de ser um testa de ferro do presidente russo. O dinheiro que guarda em contas na Suíça pode, afinal, não lhe pertencer. O dinheiro poderá ser de Putin. Vou conversar com a jornalista do Observador, Ana Kotovic. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Ana.

Olá, Ricardo.

Vamos começar esta história a saltar muros.

É uma ótima maneira de começar, Ricardo, mas quem salta o muro não somos nós, é Sergei Roldugin.

"Увольнительной у меня не было, и поэтому пришлось подъем с переворотом. Я через забор перепрыгнул, а Володя меня уже ждал."

Estamos em 1977 e o jovem de 26 anos quer passar a noite longe do quartel onde cumpria o serviço militar obrigatório. Salta o muro e liga a Volodia.

Volodia?

Volodia. Parece que é alguém que nós não conhecemos, mas que nós conhecemos pelo nome de Vladimir Putin. Ora, quem era este rapaz na altura? Era amigo do irmão mais velho de Sergei. Eles tinham sido colegas na academia do KGB. E quando Sergei foi para ali, para aquele quartel, cumprir o serviço militar obrigatório, o irmão disse-lhe que ele tinha que conhecer Volodia, porque iam ser amigos de certeza.

Ou seja, esta amizade começa em São Petersburgo, na altura ainda Leningrado, terra natal de Vladimir Putin, quando estavam os dois a fazer o curso do KGB?

Quase isso. É de facto em Leningrado. Quem estava a fazer o curso com o Vladimir Putin era o irmão mais velho, portanto o Evgeny. E é ele que conhece Putin na academia e que mais tarde se torna um agente do KGB, que é um caminho que o Roldugin não segue. Ele vai para Leningrado apenas para fazer o serviço militar obrigatório. E é aí que conhece Putin, aconselhado pelo irmão. E nessa noite em que salta o muro, o seu novo amigo chega ao volante de um Zaporozhets, que é um carro soviético superbarulhento, portanto muito pouco adequado a quem está a tentar fugir de um quartel e que pode ser considerado desertor. E é assim que passam a noite pela primeira vez juntos, a passear, a cantar, e parece que Putin tinha um ótimo ouvido. E claro, Ricardo, tudo isto que te estou aqui a contar já foi dito publicamente numa entrevista à televisão russa, além de que Roldugin também deu várias declarações à primeira biografia que foi feita de Vladimir Putin em 2000, no ano em que se tornou presidente da Rússia.

E essa amizade é forte, continua forte, quão forte, Ana Kotovic?

É uma amizade com 50 anos, portanto, eu diria que é bastante forte. Para além disso, e ainda agora falávamos das declarações de Roldugin na televisão, ele numa dessas entrevistas diz que Putin é como se fosse seu irmão. Portanto, eu acho que isto diz tudo sobre a relação entre eles os dois. Depois, para além disso, ele sempre teve um papel muito importante na vida de Putin. Foi ele quem lhe apresentou a bela Luda, como Roldugin chamava a futura mulher de Putin, que na altura era uma hospedeira da Aeroflot. E quando Putin teve a sua primeira filha, Maria ou Masha, se preferirmos o lado russo, foi ele que foi o padrinho de Masha e mais uma vez passaram a noite a cantar e a dançar horas a fio.

E Ana, ainda não explicamos quem é este homem, nem que ligação tem ele à criação da Casa da Música de São Petersburgo. Como é que tudo isto está ligado?

Está tudo ligado à amizade de 50 anos que une estes dois homens. É que se Putin seguiu o caminho político, o amigo seguiu o caminho da música e tornou-se um violoncelista muito famoso na Rússia. Esteve em várias orquestras, foi solista. E há um momento em que ele considera que falta algo em São Petersburgo e o que ele acha que falta é uma Casa da Música, e essa Casa da Música serve para procurar e promover novos talentos. Portanto, ele consegue convencer Vladimir Putin, que já era presidente, de que a cidade precisava daquela infraestrutura e era o presidente que podia facilitar tudo e que podia tratar da doação de um edifício. Isso acabou por acontecer e acabou por recair no edifício do século XIX.

Já voltamos a esta amizade entre Sergei e Vladimir e à conversa com a jornalista Ana Kotowicz. Como foi descoberto, afinal, na Suíça, o dinheiro que poderá pertencer a Putin? Já saiu o segundo episódio de "O Sargento na Cela 7", a série em podcast que conta a história de António Lobato, o prisioneiro de guerra português que mais tempo passou em cativeiro na guerra em África. "O Sargento na Cela 7" pode ser ouvido no site do Observador e nas plataformas de podcast, tal como acontece com a História do Dia. E se gostar, por favor, classifique o podcast naquelas estrelinhas de um a cinco e partilhe com um amigo ou com um familiar. Para nós, é mesmo muito importante. Estamos de regresso à conversa com a jornalista do Observador, Ana Kotowicz. Ana, Roldugin assume que é um homem rico, mas o dinheiro vem de onde? Vem dos concertos? Vem da música?

É verdade que ele é um homem rico, não sabemos exatamente quão rico ele será e a fortuna dele foi revelada pela investigação dos Panama Papers. Curiosamente, quando ele fala da sua fortuna, diz sempre que não é um empresário, que não tem milhões e diz que é, de facto, rico, mas rico com o talento da Rússia. Ou seja, assume aqui o seu papel de músico e afasta-se do lado político do seu amigo Vladimir Putin. Agora, também confessa que andava a implorar dinheiro a todos os amigos, porque tudo é caro, diz ele, os instrumentos musicais, os professores, e ele queria o melhor que pudesse dar aos seus alunos e aos seus músicos. Chegou também a assumir que teve alguns negócios no tempo da Perestroika, mas sem nunca dar muitos detalhes sobre isso.

E o que aconteceu na Suíça que fez agora soar campainhas?

As campainhas, Ricardo, soaram, se calhar, já um bocadinho demasiado tarde, porque o que aconteceu, na verdade, foram os Panama Papers. E quando isso aconteceu, ficou claro que Roldugin poderia ser um testa de ferro de Putin. Isto foi em 2016. E só agora é que a Justiça suíça está a olhar para o que aconteceu. E eles não estão a olhar para o amigo de Putin. O que eles estão a olhar é para os funcionários do banco onde ele tinha dinheiro e que terão facilitado a vida de Roldugin a tal ponto que ele possa ter usado essas contas para lavar milhões que poderão ser ou não de Vladimir Putin. Agora, há aqui uma questão importante, que é a partir de determinado momento, a Suíça começou a sentir necessidade de que não era um país que servia para lavagem de dinheiro. E há uma lei que obriga os bancos a rejeitar contas se houver dúvidas sobre quem é o verdadeiro proprietário do dinheiro ou qual é a fonte de onde vem esse dinheiro. E este é o problema na conta do amigo de Putin, que na verdade, ele não é o verdadeiro proprietário do dinheiro. E isso foi deixado passar em claro, sem se fazer nada. Uma das coisas que é especialmente importante é se a pessoa que tem a conta na Suíça for aquilo que se chama um PEP, uma pessoa politicamente exposta, ou se for amiga de um PEP, que é exatamente o caso do amigo de Vladimir Putin. E, portanto, quando esta pergunta é feita a Roldugin, ele diz que não é um PEP, que não conhece nenhum PEP, e sendo uma amizade pública, é fácil de perceber que houve facilitismo do lado do banco.

E que consequências é que isso, entretanto, teve?

Consequências ainda teve muito poucas. Isto neste momento está tudo em tribunal, mas há quatro funcionários do Gazprom Bank, que é um banco russo, e estamos a falar apenas da filial na Suíça, e portanto, há quatro funcionários que estão a ser julgados. A lei suíça não permite dizer quem são os nomes, quem são as pessoas que estão a ser julgadas, mas imagina-se que uma delas possa ser aquele que era o CEO da altura do banco. Sabe-se, sim, que são três russos e um suíço. De qualquer forma, Ricardo, a pena não é pesada. Serão sete meses de cadeia e de pena suspensa.

Ana, as suspeitas apontam então para que Sergei Roldugin seja o testa de ferro de Putin. Ele guardaria parte da fortuna do presidente russo, é isso? Já ouvimos uma história parecida com esta.

É exatamente isso e é exatamente essa a comparação que estás a fazer com José Sócrates. Há aqui esta ideia de que Roldugin seja o guardião de uma parte importante da fortuna do presidente russo e que aquelas contas sejam usadas para lavar dinheiro que anda de um lado para o outro. O que não é completamente claro é até que ponto é que Roldugin sabe quanto está a ser usado, porque a primeira vez que ele foi confrontado com estas suspeitas, ele disse: "Calma", numa entrevista à "Novaya Gazeta". Ele disse: "Calma, eu vou ter que ir ver o que se passa e o que posso dizer e o que não posso dizer."

E sabemos de quanto dinheiro estamos a falar?

Segundo os Panama Papers, pelo menos 2000 milhões de dólares em empresas offshore passaram pelas contas do amigo de Vladimir Putin.

Ana, 2000 milhões já dava para comprar um Stradivarius, ou não?

Eu tenho quase a certeza que até é um desses que ele tem, Ricardo.

Obrigado, Ana.

Obrigada eu, Ricardo.

Ana Kotowicz é jornalista do Observador e tem acompanhado a guerra na Ucrânia desde o início. Esta foi a história do dia. Ouvimos sons retirados de entrevistas feitas pela Russia 1, canal estatal russo, e também pelo canal de televisão russo RT. Ouvimos ainda sons retirados do YouTube. Este episódio contou com a colaboração do jornalista Manuel Rocha Leite, sonoplastia do Artur Costa e a música do genérico é de João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.