Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia, da Rádio Observador. Sasha queria casar, mas morreu em combate.

The only question is how many more lives must be lost? How many more bombs must fall? How many Mariupols must be destroyed? How many more Ukrainians and Russians will be killed before everyone realizes that this war has no winners, only losers.

Praticamente um mês depois do início da guerra, António Guterres pede novamente uma chance para a paz. O secretário-geral da ONU diz que chega de sofrimento, de destruição e de morte. De acordo com as Nações Unidas, a invasão russa da Ucrânia já provocou mais de 950 mortos e mais de 1500 feridos. O Alto Comissariado da ONU acredita que esses números não correspondem à totalidade das vítimas. Os números de baixas militares não são fiáveis, quer de um lado, quer do outro. Estes soldados que morrem têm nome, não são apenas números, têm mãe, têm pai, têm alguém que amam. Sasha é um desses homens que morreu em combate. Hoje vou conversar com os enviados especiais do Observador à Ucrânia, Pedro Jorge Castro e João Porfírio, que estiveram no funeral de Sasha, em Kiev. Pedro Jorge Castro, o que estes homens estão a dizer?

Estes homens, estes fuzileiros estão a exaltar os heróis que morrem na guerra, mas também estão, na parte final, a dirigir insultos especificamente a duas pessoas: Vladimir Putin e Ramzan Kadyrov, que é o líder da Chechênia, conhecido como cão de guerra de Putin.

Enquanto esses gritos de guerra estavam sendo ditos, digamos assim, os soldados estavam todos ao lado uns dos outros, todos como se estivessem formados, e em frente a eles estava o líder deste batalhão e o pai e a mãe deste soldado. As mais altas patentes deste batalhão abraçaram a mãe e o pai e entregaram-lhes um retrato do filho num pequeno quadro, pequeno quadro esse que a mãe segurou durante toda a cerimônia. Esses soldados, depois de ordem das mais altas potências desse batalhão, saíram formados e seguiram todos juntos, em fila, até o sítio onde começou a cerimônia. E aí então, formados e em fila, entraram dentro da pequena sala, toda de paredes escuras, entraram na sala onde aí sim já estava o caixão.

Pedro, tu e o João Porfírio estiveram no funeral de um soldado ucraniano. O que sabemos sobre este soldado?

Este soldado chama-se Oleksandr.

His name was Sasha.

Era conhecido pelo diminutivo Sasha. Morreu com 32 anos. Sabemos, por um lado, as circunstâncias em que morreu, com algum detalhe, e também sabemos algumas coisas sobre a vida dele fora do exército. As circunstâncias em que morreu foram: ele tinha passado a véspera a cavar umas trincheiras com sua unidade de fuzileiros, e o comandante foi levar-lhes comida e bebidas quentes, e quando acordaram, na manhã do dia 15 de março, um domingo, começaram a ser bombardeados e atacados pela artilharia russa. Neste momento, o Sasha foi atingido no coração, caiu morto em combate. Começou um incêndio provocado por esta artilharia russa. Os outros fuzileiros tiveram que retirar rapidamente desta posição, e o corpo ficou no local em que foi abatido.

Disseste que é militar, que é fuzileiro. É um militar de carreira, pertence às Forças Armadas?

Não, ele tinha servido como fuzileiro na Crimeia em 2014. Depois disso, voltou pra sua vida de civil. Sabemos algumas coisas sobre isso também, sobre aquilo que ele gostava de fazer. Ele depois dedicou-se a um negócio de café nos tempos livres. Era uma pessoa que adorava passear de bicicleta.

He very loved bicycles. Every day he go from his work to home by bicycle.

Tinha até o plano de fazer uma viagem de bicicleta pela zona Oeste da Ucrânia agora nesta primavera, que estava ansioso que chegasse a primavera, e até quem sabe ir a algum outro país vizinho. Tinha também o gosto por pintar pequenas miniaturas. Além disto, era muito voltado a animais, tava sempre a apanhar animais da rua. Tinha um gato, tinha encontrado outro gato na rua que deu aos pais. Levava outros animais que encontrava abandonados ao veterinário, isto segundo a namorada dele nos contou entretanto.

João Porfírio, descrevias há pouco este funeral com homens fardados Há flores no funeral de um soldado?

Sim, há muitas flores. As flores contrastam com as fardas camufladas verdes e castanhas e com as armas que estes homens trazem ao ombro, mas cada um deles tinha na sua mão uma mão cheia de cravos vermelhos. E assim que entraram naquela pequena sala escura que eu descrevi há pouco, eles iam depositando esses cravos em cima da urna deste soldado. Este pelotão de mais de 20 homens que estavam na cerimónia de despedida deste soldado estão também, cada um deles, com uma vela muito fina acesa e todos eles vestidos à militar. Há um pormenor do realçar neste grupo de homens: um deles não tinha botas, as habituais botas da tropa que estamos habituados a ver os militares com elas. Esse homem tinha uns ténis normalíssimos azuis e verdes, contrastando também com a sua farda militar verde e castanha.

Este funeral decorreu em Kiev. Pedro Jorge Castro, estes momentos também são aproveitados para incentivar outros ao combate ou são momentos realmente reservados à família?

Não estava muito civis, portanto a audiência não era muito grande. Aliás, estavam até quase tantos jornalistas como civis. Mas desse ponto de vista, pelo alcance que os jornalistas podem ter, talvez possa haver esse lado do incentivo. Mais do que o incentivo, há um lado aqui de justificação, há um lado de explicação e de fazer passar a ideia do motivo que levou a esta morte, o motivo que justificou esta morte e que tem como objetivo assegurar a independência da Ucrânia face à Rússia. São ditas palavras como: "Esta guerra não é apenas grande, é uma guerra sagrada e quem concordar dará a sua vida no altar desta verdadeira independência". O comandante acaba a cerimônia dizendo que a melhor recompensa será a vingança. A próxima coluna militar russa queimada pelos nossos será dedicada a ele. Glória à Nação!

Ricardo, deixa-me só acrescentar que um destes soldados pediu desculpa à mãe por não ter conseguido salvar o seu filho. Ele disse inclusive que morreu pela dignidade e liberdade da Ucrânia e que estos pais criaram e viram crescer um herói. Agradeceram também a estes pais o filho que tiveram, mas sobretudo pediram desculpa por não terem conseguindo defendê-lo. E a mãe numa resposta seca e de olhos postos nos olhos deste militar que lhe pedia desculpa, disse: "Cuidem de vocês." Desde o início deste conflito que vimos o ânimo da resistência ucraniana elevado lá em cima, grande vontade de defender o país. Esse ânimo, essa moral das tropas, Pedro Jorge Castro continua elevada?

Olha Ricardo, um funeral não é o melhor sítio para aferir disso com grande rigor, aferir do mural das tropas obviamente. Vemos ali aqueles fuzileiros todos com as armas e segurarem uma vela a homenagear o fuzileiro morto, foi o primeiro homem que morreu neste pelotão. Eles vieram diretamente da sua posição na guerra, notava-se isso perfeitamente, e saíram dali novamente pra combater. Não me pareceu que nenhuma destas pessoas tivesse dito: "Pronto, isto agora com uma morte vamos parar por aqui" Esta determinação ainda sai daqui mais vingada precisamente com o objetivo não só de continuar a lutar pelos mesmos objetivos que tinham antes, que é assegurar a independência do país, mas mais ainda de vingar a morte do primeiro vigileiro do pelotão.

E João Perfillo, como é que as famílias lidam com isto?

Nesta pequena cerimónia simples estavam junto à urna os dois pais e a mãe, como disse há pouco, tinha na mão um pequeno quadro em que tinha a fotografia do seu filho passou o tempo todo a olhar pra fotografia, a beijar essa fotografia nas fotografias que nós temos no artigo percebe-se isso, a mãe beijava constantemente o retrato do filho fazia-lhe festinhas Foi um momento muito duro certamente pra família Um momento em que depois de todos os soldados se terem despido cada um e à sua vez Do corpo do seu camarada Que eles às vezes saíram Pondo a sua mão Em cima da urna Muitas vezes cerrando o punho Batendo com muita força Na madeira do caixão Depois desse momento Foi o momento em que a mãe e o pai ficaram sozinhos naquela sala escura que eu descrevi há pouco. A tristeza certamente se abateu ainda mais nesse momento, e a mãe agarra-se ao caixão. A cara desta mulher perde-se nas inúmeras flores que estavam em cima desta urna e a mãe não quer largar o caixão, é exatamente o seu marido que a tenta acalmar e que a encaminha para fora dessa sala.

Deixe-me só acrescentar na linha do que o João estava aqui a contar, porque tenho estadoa trocar mensagens com a namorada dele e ela contou que o Sasha se inscreveu, no fundo, se alistou no dia 4 de março sem dizer a ninguém da família. Ou seja, foi em segredo. Obviamente ele sabia que a família o ia tentar mover, mas noto uma tristeza gigante, porém não noto em nenhum momento uma condenação disto. Pelo contrário, sinto algum orgulho no gesto dele, na coragem que demonstrou pra defender o país e a família. A namorada conta que tinha feito o pedido de casamento antes da guerra começar. Tiveram uma última chamada no dia 11 de março, isto foi quatro dias antes de ele morrer, em que combinaram que iam passar a chamar-se um ao outro de marido e mulher apesar de não serem oficialmente casados. Ela diz que tinham combinado casar-se definitivamente no papel assim que a guerra acabasse e que agora obviamente isso não vai acontecer.

Obrigado, João, e obrigado Pedro.

Obrigado Ricardo.

Um abraço Ricardo.

João Porfírio é o editor de fotografia do Observador e o Pedro Jorge Castro, o diretor adjunto. Estão há mais de uma semana em Kiev. Têm sido testemunhas das tentativas de aproximação das tropas russas à capital ucraniana. Vale a pena ler as reportagens e ouvir os relatos na Rádio Observador e que ficam depois disponíveis no podcast "Observador na Ucrânia". Esta foi a história do dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.