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Esta é a história do dia da Rádio Observador: ser médico já não é uma profissão de sonho?
O pior mês, diria eu, eventualmente, nestes 54 anos do SNS em termos de resposta de urgência. Acho que o impacto pode ser dramático, não tenho dúvidas. Quando começamos a fechar serviços que são indispensáveis, estamos a falar da AV Verde Coronária, por exemplo, estamos a colocar em causa a vida das pessoas. Estamos a regredir 20 anos e a colocar em causa a vida das pessoas.
Em entrevista ao Público, Fernando Araújo antevê que novembro possa vir a ser o pior mês de sempre no Serviço Nacional de Saúde. O chamado CEO do SNS não exclui consequências graves para os doentes. No centro deste problema estão os médicos e, à margem das negociações entre sindicatos e governo, quisemos perceber melhor o que é hoje ser médico, como é trabalhar no Serviço Nacional de Saúde. Vou conversar com João David Gonçalves. É cirurgião no maior hospital do país. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de segunda-feira, 30 de outubro. Bem-vindo, doutor João David Gonçalves.
Olá, Ricardo.
O João é médico. Conte-nos onde é que está, qual é a sua especialidade, que idade tem. No fundo, peço que se apresente.
Ok, o meu nome é João Gonçalves, tenho 33 anos, minha especialidade é cirurgia cardíaca e estou neste momento no Hospital de Santa Maria.
Estamos a gravar esta conversa com o João no Hospital de Santa Maria. Como é um dia normal da sua rotina de trabalho? Explique-nos lá.
Um dia normal. A grande maioria dos médicos que trabalha entra às 08h. Normalmente, temos a nossa atividade diária com os doentes que estão internados, temos as consultas, temos o bloco operatório, temos as salas de penso, no meu caso, da cirurgia, e depois, na grande maior parte das tardes, temos que cá ficar, apesar do nosso horário acabar às 18h, temos que cá ficar ou a fazer trabalho para os doentes, ou a garantir o bloco operatório, ou então a preparar o dia a seguir.
Mas isso é todos os dias. Se eu quiser combinar consigo um café às 18h, consegue ou não?
Ricardo, se tem algum amigo médico, sabe bem que é quase impossível. Não, porque nós entre duas urgências por semana e bloco operatório das 08h às 20h, é difícil. Obviamente, tentamos arranjar um tempinho, mas normalmente antes das 19h, 20h, não conseguimos estar em casa, fora dos dias de urgência. Nos dias que estamos de urgência, é uma sorte se conseguimos chegar a casa antes do meio-dia do dia a seguir.
Precisamente, como é que funcionam as urgências? Ainda estamos a falar daqueles bancos de 24 horas? Como é que isso funciona?
Sim, na nossa especialidade, nós optámos por manter os bancos de 24 horas. Isto tem tudo a ver com o facto de, na altura em que se falou em propor reduzir os bancos para 12 horas, o que parece ser uma proposta inicialmente boa, quando vamos a ver na prática, não é, porque reduzimos a carga de trabalho de um banco, mas aumentamos o banco para dois. Ou seja, o número de médicos não aumenta e, portanto, nós na altura, ao reduzirmos o número de horas por urgência, fazia com que tivéssemos o dobro dos bancos. Então, na nossa especialidade, acabamos por optar por manter os dias de banco de 24 horas. O dia é assim: num hospital central, que é o meu, a grande maioria do dia é nós mantermos a atividade normal do Santa Maria a decorrer, portanto, o bloco operatório, a enfermaria, as unidades de cuidados intensivos, e depois damos apoio a toda a região Sul do país. Damos apoio aos hospitais desde Santarém, Évora, Garcia de Orta, Setúbal, Portalegre, Évora, Faro.
E esse apoio é receber doentes? É uma consulta com o colega por telefone?
Pode ser ambas as coisas. Ou seja, nalgumas situações é uma consultoria, nós damos a nossa opinião por telefone. Noutras vezes, temos que receber o doente. Como pode ter indicação para um tratamento emergente, portanto, um tratamento que não pode ser adiado para o dia a seguir, então recebemos os doentes desses vários hospitais.
E trabalha só no Serviço Nacional de Saúde ou também trabalha no privado?
Eu trabalho também no privado, em regime de prestação de serviços, mas não tenho horas fixas.
Portanto, é conforme consegue a partir do seu serviço no público.
Exatamente, mediante a nossa disponibilidade. Todos os meses sai a escala do mês seguinte e eu mediante isso consigo ajustar a minha vida ou para fazer umas horas no privado, ou para garantir procedimentos cirúrgicos em regime privado, ou feitos por mim, ou realizados por outro colega, mas ajudados por um de nós.
Voltando àquele café de fim de tarde, ainda te sobra algum tempo para ir ao cinema, ou para ir beber uns copos, ou até para ficar no sofá a ver o "The Crown" e a comer uns chocolates? Consegue fazer isso ou não?
Exatamente, esse é que é o nosso grande problema. O nosso grande problema, neste momento, é nós não termos esses momentos. E também as nossas famílias chegarem a uma altura em que não conseguem efetivamente exigir isso de nós, porque sabem que não o podem fazer. Ou seja, é normal para nós estarmos em casa às 20h, no dia a seguir estamos 24 horas de urgência, depois chegamos a casa ao meio do dia a seguir. Se calhar, nessa tarde do dia em que saímos de urgência, se calhar ainda para aumentar um pouquinho a nossa remuneração mensal, ainda vamos ao Fazer qualquer coisa no sistema privado. E, portanto, a resposta a isso é: infelizmente, isso para nós não existe. Ou seja, esses momentos de lazer tentamos que seja nos fins de semanas que não estamos a trabalhar. Eu três fins de semana em quatro ou cinco por mês estou no hospital, ou estou em serviço de urgência, ou sexta, ou domingo, ou sábado, ou então assegurando algumas cirurgias naquele programa de combate à lista de espera, que é o tal chamado SI-GIC.
Já voltamos à conversa com o médico João David Gonçalves. Vamos tentar perceber melhor este problema das horas extraordinárias e o que nos pode trazer o mês de novembro. Antes, fica aqui um pedido: seguir a História do Dia. Ora, se gosta da História do Dia, se nos ouve regularmente, há uma coisa muito simples que pode fazer: carregar no botão "Seguir" no site do Observador ou na aplicação que habitualmente usa para ouvir podcasts, como Spotify ou Apple. Para nós, é mesmo uma grande ajuda quando os nossos ouvintes carregam em "Seguir" a História do Dia. Já voltamos à conversa. Estamos de regresso à conversa com o médico João David Gonçalves. É médico no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, é o maior hospital do país. Doutor João David Gonçalves, já esgotou as 150 horas extraordinárias previstas para o ano?
Sim, esgotei-as em fevereiro.
Em fevereiro?
Sim, eu faço entre 90 e 110 horas extraordinárias por mês.
Explique-nos uma coisa: sem horas extra, é possível manter o serviço a funcionar ou não?
Não, a resposta é não, é impossível. Ou seja, é impossível manter o serviço de urgência e mesmo o serviço normal, do trabalho normal, dificilmente será assegurado totalmente sem horas extraordinárias. Ou seja, no Sistema Nacional de Saúde só nos pagam as horas extraordinárias, ao contrário do que às vezes as pessoas acham, que é: "Os médicos ficam à tarde lá no hospital a receber dinheiro extraordinário". Não, nós só recebemos horas extraordinárias nos dias em que estamos de urgência. Todas as outras horas que ficamos no hospital, que não seja em dia de urgência, por exemplo, se a enfermaria está mais complicada e eu ficar até às 20h para tratar da enfermaria, ninguém me paga um cêntimo. Mas isso como noutras profissões, tudo bem. Quando a pergunta é se isso dá para manter o sistema a funcionar sem horas extraordinárias. Nisso, é das poucas coisas que eu concordo com o ministro, efetivamente não dá.
Não vamos entrar aqui nas negociações entre sindicatos e governo, isso seria outro episódio da História do Dia, mas queria perguntar-lhe isto, porque há também essa questão financeira que acabou de falar. Se, por exemplo, pagarem 500 ou 600 horas extra por ano, aí acaba a contestação? Ou seja, é uma questão de dinheiro também para os médicos?
É também uma questão de dinheiro. O nosso problema não é que nos paguem mais horas extraordinárias. Nós até estamos a tentar combater que sejam tantas horas extraordinárias por ano. O que os médicos querem, na realidade, é muito simples, Ricardo. Na realidade, o que os médicos querem é não depender de trabalho extraordinário, de suplementos e de remunerações extraordinárias para ter um ordenado que consideram minimamente equivalente a um ordenado do médico em qualquer outro país. Eu já nem digo da Europa, porque da Europa estamos a anos-luz, mas do mundo. Portanto, quando me pergunta se nos pagam as horas extraordinárias, o problema não está em pagarem-nos as horas extraordinárias. Exatamente, aquilo que nós queremos é poder ir tomar um lanche às 18h ou às 19h, é ter um fim de semana para estar com os nossos filhos. E nas propostas que nos fazem, em que nos vendem que é 30% de aumento salarial, Ricardo, não é isso que nos estão a propor. Eles estão a nos propor uma coisa completamente diferente, que é uma alteração do nosso regime de trabalho. Ou seja, todos os dias em que eu tiver de banco e no dia a seguir não conseguir trabalhar, Ricardo. Eu trabalho 24 horas, depois a lei obriga-me a ir para casa descansar para proteção dos doentes, que nós concordamos. Sabe que essas horas que eu vou para casa descansar, eu vou ter que compensar, Ricardo, neste novo modelo que o governo está a propor. E se eu fizer dois bancos de 24 horas, eu fico a dever 16 horas ao hospital, que eu não tenho como compensar em horário normal de trabalho, a não ser ao fim de semana. E, portanto, aquilo que nos estão a propor é: sim, podem dormir para casa nos dias em que fizeram 24 horas, mas têm que ficar a compensar, Ricardo. E em que dia que nós vamos ter que ficar a compensar? Ao sábado e ao domingo.
Mas sem mais médicos é impossível.
É impossível! Ou seja, há uma forma de garantir os médicos, Ricardo. Há uma ideia que às vezes surge no país que não está certa e essa parte tem que ser clarificada, que é: o que acontece, neste momento, em Portugal, é que há uma falta muito grave de médicos no Sistema Nacional de Saúde, mas não há falta de médicos no país. O que tem acontecido ao longo dos anos, e eu falo das pessoas da minha geração, particularmente da minha geração e daqueles 10 anos acima de mim, é que as pessoas não ficaram no sistema, porque o que nos propõem de remuneração, e se formos claros, estamos a falar do meu ordenado líquido base mensal, estamos a falar de €1800, percebe?
É o ordenado base mensal?
É o ordenado base mensal de um médico especialista. Anda na casa, claro, obviamente, com as horas extra, com outro tipo de suplementos que às vezes atribuem. Este não é o ordenado que eu levo para casa todos os meses.
Claro.
Mas este é o meu ordenado base. Se eu trabalhasse as 40 horas por semana, como se trabalha em muitos outros empregos das X horas às X horas, e se eu só trabalhasse essas horas, eu recebia €1800. Agora, e muitas pessoas que nos ouvem: "E isso é pouco?" Nós não estamos a dizer que somos pobres. Estamos a dizer é que, se olharmos para países ao nosso lado ou países até mais pobres que o nosso, as remunerações não são essas. Nem nessa ordem de grandeza, sequer.
Mas para resolver o atual estado das coisas, só se os médicos que estão nesta altura no privado, que migraram, os médicos da sua geração, na casa dos 30, 40.
30, 40.
Só se eles regressarem ao Serviço Nacional de Saúde, ou não?
Ricardo, e como é que eles voltam? Eles voltam exatamente se tiverem propostas que sejam minimamente apelativas. Você acha que o médico que está neste momento no privado, a trabalhar aos dias de semana, das 08h às 16h, num hospital privado, não interessa qual é que seja. De repente, tem uma proposta do senhor ministro que diz que aumenta 30%. E depois quando vai ver: "Calma, aumentas 30%, mas tens que ir trabalhar ao sábado, tens que trabalhar 150 horas extraordinárias, estar às cá todas as tardes e ainda vais ter que compensar no outro dia". O que é que esse médico pensa? Claro que não vou voltar ao Sistema Nacional de Saúde. O Sistema Nacional de Saúde é ótimo, nós vemos patologias muito mais diferenciadas, doenças mais graves, situações mais raras, patologias mais interessantes até do ponto de vista académico, do ponto de vista até de crescimento pessoal.
Para a prática clínica é fundamental, não é?
Nós gostamos muito do Sistema Nacional de Saúde. Nós, médicos, gostamos de trabalhar no Sistema Nacional de Saúde, mas não podem pedir que a nossa profissão, ao contrário das outras profissões todas do mundo, seja voluntariado.
O diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde disse ao público que novembro poderá ser o pior mês de sempre. Isto quer dizer o quê? Ou, por outra, isto já se sente hoje, que estamos agora a acabar o mês de outubro?
Sente-se. Eu não lhe consigo dizer exatamente, mas esta semana em que eu estou, por exemplo, o serviço de cirurgia, neste momento está a ser se calhar assegurado por metade dos médicos que estava assegurado há uns meses atrás. Por metade. Nós não estamos a falar de um ou dois elementos, estamos a falar de metade. Mas dou-lhe um exemplo, que é o que me pergunta relativamente ao mês de novembro. Em Santa Maria, a grande maioria dos colegas internos, são aqueles colegas que já são médicos, mas que ainda estão em formação. Colocaram aquele papel em que dizem que não estão disponíveis para as 150 horas. Ao fazerem isso, imediatamente saíram das escalas de urgência em novembro. E estamos a falar imediatamente, metade da carga de trabalho do serviço de urgência desaparece. E, portanto, quando o CEO do SNS, o doutor Fernando Araújo, diz que vai ser o pior mês, vai, porque ele sabe perfeitamente que as urgências vão ser asseguradas por metade das pessoas que normalmente o eram. E vão recorrer mais aos tarefeiros e mais a médicos que não trabalham nos serviços, que não conhecem as dinâmicas, não conhecem as patologias, que não estão tão habituados a trabalhar com estas equipas e com estas situações, e obviamente isso não vai correr bem. Nós vamos nos adaptar e ninguém está a vingar-nos nos doentes, ninguém está a vingar nos utentes.
Mas há um risco efetivo para os doentes, ou não?
Ricardo, o que nós fazemos é: quando nós trabalhamos e quando nós cá estamos, damos o nosso melhor. E nós faremos o nosso melhor. Agora, quando não estamos, não estamos. E é um problema organizacional. Ou seja, eu não posso pensar que trabalhei 24 horas e que se eu não continuar a trabalhar 36 horas de seguida, vai haver doentes que vão ficar por ser vistos, Ricardo. Eu infelizmente não posso pensar de outra forma, eu tenho que ir para casa, eu tenho que descansar, porque se eu não descansar, eu não vou conseguir tratar de forma tão eficaz os doentes que vêm a seguir. Portanto, este tipo de coisas que os médicos pedem é para proteção dos próprios doentes. Claro que é pela nossa remuneração, claro que sim. Não sejamos ingénuos e não sejamos também hipócritas. Nós obviamente estamos a pensar também na nossa remuneração, também nas nossas condições de trabalho, mas também na segurança dos doentes. O Ricardo não quer ser atendido por um médico que está a trabalhar há 36 horas. O Ricardo não quer. Se lhe dessem a escolher um médico que está a trabalhar há 12 horas ou há 36 horas, o Ricardo vai escolher o que está a trabalhar há 12.
Claro.
Porque é normal, porque é legítimo. Portanto, o que os médicos estão a dizer é: nós somos poucos, vocês têm que aumentar as condições para que valha a pena os meus colegas que estão fora do sistema voltarem ao sistema. Os médicos não desapareceram.
O João é um médico jovem, está nos primeiros anos de carreira. Foi com isto que sonhou quando se candidatou a Medicina?
A medicina era muito diferente do que aquela que eu imaginei. E sabe por quê? Eu era interno, eu já trabalhava no Sistema Nacional de Saúde na altura da troika, no final da altura da troika. Sabe que o SNS é como se tivesse uma reserva. Na altura, cortou-se muito mesmo, mas o sistema aguentou, porque os médicos vestiram a camisola, utilizámos as reservas de tudo o que tínhamos, as reservas de pessoas, as reservas de tudo, até de paciência. E depois chegou uma altura em que estávamos a começar a ficar muito cansados e aparece-nos a pandemia. E quando a pandemia nos aparece, nós pensamos: "Ok, agora não é altura para isto. Vamos novamente vestir a camisola e vamos a isso". E de repente, quando a pandemia cai, é como se você chegasse a casa e esteve 16 horas numa discoteca a dançar. De repente, está tão cansado, Ricardo. Está tão exausto, está mesmo, está tão farto disso tudo. Que de repente cai-lhe tudo, chega a casa e pensa: "Isto não pode continuar". E esta história das horas extraordinárias começa quando os médicos não conseguiram mais. Aquela ressaca após pandemia foi o que acabou de acontecer nos últimos 10, 12 anos, em que os médicos sentiram-se completamente esquecidos nos últimos 12 anos. Não houve aumentos, não houve qualquer tipo de suplementos, não houve qualquer tipo de reconhecimento. E de repente, quando o país está a recuperar e a economia está muito boa e o déficit está não sei o quê, os profissionais que deram sempre tudo, que tiveram cortes salariais, eu já não fui dessa altura porque era interno, mas houve pessoas com cortes salariais de quase 50% na carreira médica, foram completamente esquecidos, Ricardo. E depois chegou uma altura em que isto rebenta. E depois as gerações mudaram também. A minha geração é diferente da geração dos 50, da geração dos 60, da geração dos 70. Ricardo, o problema há uns anos atrás, só havia o SNS e agora já não há só o SNS. E a Europa é pequenina e o mundo é pequenino e estamos todos à distância de um avião. E o que acontece neste momento é que o nosso mercado globalizou e já não existe só isto, e as pessoas já não aceitam tudo o que aceitavam há uns anos. Por quê? Porque existem alternativas. Existem alternativas do outro lado da estrada, existem alternativas na cidade ao lado, existem alternativas no país ao lado, nos outros países da Europa, nos outros países sem ser na Europa. O que mudou foi toda a gente à nossa volta crescer, subir, e nós continuamos na mesma. Eu tenho uma filha e outra a caminho. E é eu não saber quando é que vou chegar a casa, não saber se consigo ver a minha filha, é eu sair de manhã antes da minha filha acordar, é eu chegar a casa e a minha filha estar a dormir, é no fim de semana, em que os pais estão com os filhos, eu estou de banco no hospital. Eu dou-lhe exemplo, Ricardo, não estou a mentir, na semana em que estamos hoje, eu estive de banco 24 horas na segunda-feira, eu estou de banco 24 horas na sexta-feira e volto a estar de banco 24 horas no domingo, Ricardo. Percebe? O que nós dizemos é que isto não é sustentável. Eu só nesta semana, se calhar, vou fazer 30 ou 40 horas extraordinárias. Eu vou trabalhar 90 horas esta semana ou 100 horas. E o que os médicos querem é que não querem mais horas extraordinárias, os senhores não querem trabalhar tanto de forma extraordinária. Os senhores simplesmente querem ter um ordenado que seja equivalente àquelas que são as suas competências, que com isso atraiam mais profissionais que estão fora do sistema.
Muito obrigado, doutor João David Gonçalves.
De nada, Ricardo. Foi um gosto falar consigo.
João David Gonçalves é médico no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o maior hospital do país. Esta foi a história do dia. E se gostou deste episódio, por que não partilhá-lo com um amigo ou um familiar? Para nós, é mesmo muito importante que o faça. Nada bate o passa-palavra. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.