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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Tony Blair tem condições para liderar um governo em Gaza?

"I don't think you will get any realistic prospect of a two-state solution coming back on the table in anything other than language and rhetoric, unless it's clear that you have a plan for Gaza. The only way you're going to get a solution to this, and I've constantly advocated for the two-state solution, is in circumstances where Israel feels this Palestinian state will be governed by people who are essentially culturally at peace with them."

Entrevistado há cerca de um ano pelo jornalista do The Times, William Hague, Tony Blair, antigo primeiro-ministro britânico, defendia que só com um plano claro para Gaza seria possível colocar em cima da mesa uma perspectiva realista de solução de dois Estados para o Medio Oriente, que ultrapasse a mera retórica. Tony Blair chegou a ser o principal enviado do quarteto para o Medio Oriente, que juntava a ONU, a União Europeia, os Estados Unidos e a Rússia, uma iniciativa que tinha por objetivo aproximar israelitas e palestinianos. Uma tentativa que falhou. Tornou-se agora numa figura central no plano apresentado pelo presidente norte-americano para pôr fim ao conflito. Poderá vir a ser um dos membros de um governo para a faixa de Gaza, se Israel e o Hamas derem luz verde ao acordo de paz apresentado pela administração norte-americana. Vou conversar com a Madalena Moreira, jornalista da editoria de internacional do Observador. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia de quinta-feira, 02 de outubro. Bem-vinda, Madalena.

Obrigada, Luís.

Quando apresentou o plano de paz entre Israel e o Hamas, Donald Trump identificou o nome de Tony Blair como uma das personalidades que poderia liderar um governo na faixa de Gaza. Como é que o nome de Tony Blair, Madalena, surge associado a este plano?

Mesmo depois de abandonar o tal cargo no quarteto que já tinhas falado, continuou a trabalhar na região através da fundação que tinha criado. E desde que Israel invadiu Gaza, depois dos ataques do 7 de outubro em 2023, Tony Blair tem se focado em desenvolver um plano que, a longo prazo, permita a solução de dois Estados, tendo dito várias vezes que acha que continua a ser uma das poucas pessoas que continua a olhar para esta solução como credível e fazível. E o principal traço deste plano que ele foi apresentando ao longo dos últimos anos, era a criação de um organismo internacional de transição, ou seja, logo a seguir à guerra, entrar a comunidade internacional e eventualmente passar Gaza para os palestinianos. Este plano que ele tem vindo a desenvolver chega a Washington através de Jared Kushner. Quem é este? É genro de Donald Trump e que durante a sua primeira administração, foi um dos seus conselheiros sênior e um dos principais nomes envolvidos na assinatura dos acordos de Abraão, que são os acordos que normalizaram as relações de Israel com outros Estados do Medio Oriente. Depois de se conhecerem, os dois trabalharam neste plano, que foi apresentado como o plano Blair-Kushner, com Steve Witkoff, que é agora o enviado de Donald Trump. E terá sido apresentado ao presidente dos Estados Unidos em agosto deste ano, portanto, há menos de dois meses. Ou seja, Tony Blair não está só associado ao plano, ele terá sido mesmo um dos principais cérebros por trás dos 20 pontos que Donald Trump apresentou agora.

Depois do anúncio desse plano, Tony Blair emitiu mesmo uma nota a considerá-lo ambicioso, inteligente, já percebemos por que também faz essas considerações, e também que oferece a melhor hipótese de acabar com dois anos de guerra. Este nome de Tony Blair seria consensual entre israelitas e palestinianos?

Não é fácil dizer se seria consensual, porque dependendo das fações para que se olhe.

Vamos tentar explicar um pouquinho melhor.

Exato. Por exemplo, entre os israelitas, Blair parece ser muito popular, ou seja, há um respeito por esta figura, tanto como primeiro-ministro do Reino Unido e depois como enviado. E ele tem boas relações com Benjamin Netanyahu e com os outros primeiros-ministros que vieram antes dele. Tanto que um deles diz mesmo que se há pessoa que pode aproximar as fações em Israel, que olham para este plano como dando demasiadas concessões ao Hamas, é Tony Blair, porque ele é tão respeitado que pode aproximar as fações mais distantes do plano a esta posição talvez mais moderada, por este respeito. E de notar ainda que ele também é muito popular com os países árabes que estão funcionando aqui de mediadores, pelo trabalho que desenvolveu, já depois de enviado, como consultor financeiro em vários países da região. O plano também foi bem acolhido pela autoridade palestiniana, que é quem eventualmente deveria assumir o governo da faixa de Gaza. Mas o nome de Blair não é particularmente popular entre os povos árabes e também entre o povo palestiniano, e aqui poderá ser um nome que não atraia ao Hamas, em particular. Por quê? Por causa de um evento específico, que foi a invasão do Iraque em 2003. Entre os povos árabes, continua a ser a maior mancha na reputação de Tony Blair, foi ter coordenado a invasão com os Estados Unidos, e na Palestina, em particular, soma-se ainda o fato de ele ser britânico e de a Palestina já ter tido, como dizem alguns palestinianos, experiência com o colonialismo britânico, porque entre 1920 e 1948, o território da Palestina, que é hoje Israel e a Palestina, estava sob um mandato britânico da Liga das Nações, a antecessora das Nações Unidas, e, portanto, há esta má experiência da Palestina, do Medio Oriente com Tony Blair e da Palestina com um britânico, que faz com que seja duplamente má a visão que os palestinianos têm de Tony Blair.

Vamos agora voltar um pouco atrás no tempo, Madalena. Esta obsessão, como alguns lhe chamam, de Tony Blair pelo Medio Oriente, já vem de longe, não é?

Já vem de longe, mesmo antes de falarmos deste grande ponto que é o Iraque, porque ele chega ao poder em 1997, numa altura em que o mundo parecia estar muito perto de implementar a solução de dois Estados, porque foi anos depois de terem sido assinados os acordos de Oslo, que eram vistos à data como um grande ponto de viragem. E depois, é um grande apoiante de continuar este ímpeto dos acordos de Oslo a rolar. Ele apoia o governo de Clinton na cimeira falhada de Camp David, em 2000, e depois é creditado por ter empurrado George Bush na direção de apoiar o Mapa para a Paz, que na altura era uma cronologia que também acabou falhada, com o mesmo objetivo de implementar a solução de dois Estados. Depois, 2003, surge o seu maior erro no Medio Oriente, que é a invasão.

A questão da invasão do Iraque.

Exatamente. E que o leva a abdicar da liderança britânica devido à sua popularidade em queda. No mesmo dia em que abandona a liderança do Reino Unido, torna-se enviado do Quarteto e passa a ser um visitante regular de Jerusalém, da Cisjordânia e de Israel. E é aqui que ele desenvolve estas relações mais estreitas com Benjamin Netanyahu. Só que apesar de ter boas relações, ele acabou relegado para tarefas menores, tanto por Washington como por Tel Aviv, e nunca conseguiu concretizar um acordo de paz a longo prazo. Ele acabou a tratar de coisas como telecomunicações ou investimento na habitação na Cisjordânia e portanto viu o seu papel um pouco reduzido.

Diminuído.

Exatamente. E alguns biógrafos chegaram a dizer: "Bem, será agora que ele desiste do plano de paz para Gaza". Mas ele não desistiu, continuou envolvido, foi-se reunindo com líderes árabes, israelitas e norte-americanos e talvez de maior destaque, reuniu-se ao longo de um ano inteiro, depois de ter saído do Quarteto, com líderes do Hamas para saber como é que nós podemos resolver isto. Tudo isto até chegar agora a Trump.

E daí haver quem fale mesmo numa obsessão de Tony Blair com o tema.

Exatamente, ele não deixa o tema cair e tornou-se muito confiante que ele é que vai conseguir fazer isto.

Já vamos continuar a conversa com a Madalena Moreira. Por agora, fazemos uma curta pausa nesta história do dia. Estamos de regresso à conversa com a Madalena Moreira. Madalena, existe um paralelismo entre aquilo que foi a solução encontrada por Blair para a Irlanda do Norte e aquilo que são as ideias dele também para a forma de resolver o conflito no Médio Oriente?

Existe alguma semelhança, sim. A mais óbvia será o modelo de desarmamento que foi utilizado no IRA, na Irlanda do Norte, e que o plano proposto por Trump quer utilizar agora para o Hamas. Neste caso, em relação ao grupo palestiniano, existe no plano dos 20 pontos, a possibilidade de, se os membros do Hamas quiserem depor as armas, ser-lhes-á concedida a anistia e aqueles que não quiserem, ser-lhes-á garantida uma passagem segura para fora do país. Esta capacidade de dar opção ao Hamas vai ao encontro de algo que Blair tinha dito em 2017, que é que a comunidade internacional não devia ter isolado o Hamas logo quando eles ganharam as eleições em 2006, e de que dar-lhes alguma opção de escolha no processo os podia levar a colaborar. E agora o facto de haver aqui esta opção anistia ou passagem segura para fora do país, reflete alguma visão de Blair. O que isso tem a ver com o IRA? Foi precisamente esta forma de dar alguma escolha ao IRA que caracterizava os acordos de Sexta-feira Santa que foram assinados. Ou seja, ficou decidido que os irlandeses iriam entregar todas as armas a observadores independentes para depois serem desativadas. E aqui a utilização da palavra desativadas é importante, porque o IRA pôde dizer que nunca foi derrotado, ou seja, que não houve uma desmilitarização forçada e em vez disso houve uma desativação consentida das armas. O que é preciso notar é que este processo, que foi feito através de observadores independentes e grupos independentes, durou oito anos, desde que o IRA entregou a primeira arma em 1997, até que entregou a última em 2005. Esta questão da desativação ou desarmamento pode ser um rascunho, mas mais do que isso, os acordos de Sexta-feira Santa puseram fim a 30 anos de conflito, que não pareciam ter um fim à vista, e que é um paralelismo com o que está a acontecer agora no conflito israelo-palestiniano, e dão muita confiança a Tony Blair de: "Eu fui o homem que pôs fim ao conflito na Irlanda do Norte, eu posso ser o homem que põe fim ao conflito na Palestina."

E daí também esse paralelismo. E depois de tudo isto, Madalena, importa então perceber se Tony Blair pode vir ou tem condições para vir a liderar um governo na Faixa de Gaza. Terá?

Isto é uma questão difícil.

Claro! Temos sempre questões difíceis na História do Dia.

Exatamente. Diretamente não vamos ver Tony Blair ser primeiro-ministro da Palestina, claro que não. Agora, imediatamente, se o plano for aceito pelo Hamas, Tony Blair lideraria, ao lado de Donald Trump, este Comité da Paz ou Conselho da Paz, que se trata de um grupo internacional que tem como objetivo supervisionar a reconstrução e a administração da Faixa de Gaza. Mas não é claro pelo curto plano que lemos, o quão direta seria esta governação do Comité de Paz, porque o plano prevê que quem está no terreno seja tecnocratas palestinianos a assegurar a parte de serviços públicos, das partes mais urgentes, enquanto as partes de segurança e defesas seriam entregues a um grupo internacional, a uma força internacional selecionada pelas Nações Unidas. E, portanto, não é possível ver quão direta seria a liderança do Comité da Paz ou se seria só uma forma de supervisionar estes grupos que no terreno seriam de comunidade internacional e de tecnocratas palestinianos. Mas em qualquer um dos casos, o objetivo final do plano caminha sempre para algo que Tony Blair tem vindo a dizer ao longo dos últimos 20 anos, que é: o objetivo final é Palestina, é dos palestinianos e o objetivo final é sempre transferir as competências do Comité da Paz para a Autoridade Palestiniana. A questão que não sabemos responder é quanto tempo é que demoraria a fazer esta transição e durante quantos meses ou anos é que Tony Blair estaria, na prática, a liderar a Faixa de Gaza.

Obrigado, Madalena.

Obrigada eu, Luís.

Madalena Moreira é jornalista da editoria de internacional do Observador. Nesta História do Dia, deixo também três coisas a ter em conta esta quinta-feira. Começa a votação antecipada por motivos profissionais para as autárquicas. Trabalhadores dependentes, independentes ou profissionais liberais, assim como militares, agentes das forças e serviços de segurança interna, bombeiros ou agentes de proteção civil, entre outros, que no dia das eleições não possam deslocar-se às secções de voto por motivos profissionais, podem votar até dia 7 de outubro na Câmara Municipal do concelho onde o eleitor está recenseado. Para votar antecipadamente, é preciso comprovar o motivo desse impedimento profissional. Esta quinta-feira termina também a recolha de votos antecipados de estudantes, doentes internados ou presos que requereram exercer o direito de voto. Chega aos cinemas o filme "Lavagante". É realizado por Mário Barroso e cumpre um projeto inacabado de António Pedro Vasconcelos. Baseado numa obra de José Cardoso Pires, com o mesmo nome, "Lavagante" estreia-se no dia em que se assinala o centenário do nascimento do escritor José Cardoso Pires. Uma história de amor intemporal, com a repressão da luta dos estudantes em 1962, na Cidade Universitária, em Lisboa, como pano de fundo. E o Coliseu do Porto recebe às 21h00 o concerto de celebração dos 20 anos dos Azeitona. Oportunidade para ouvir êxitos como "Quem és tu miúda?" ou "Anda Comigo Ver os Aviões". Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida. O som que escutámos no início do programa foi retirado do YouTube, do podcast do jornalista do The Times, William Hague. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. Até amanhã.