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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Putin está a esticar a corda e a perder aliados no Kremlin? Na semana passada, Vladimir Putin dava um verdadeiro raspanete ao vice-primeiro-ministro, que tem também a pasta da indústria. Denis Manturov tem a responsabilidade de supervisionar as fábricas de armamento e de material militar. O presidente, numa reunião por videoconferência com elementos do governo russo, é muito duro e exige ao seu vice-primeiro-ministro que seja competente. Manturov ainda ensaia algumas explicações para tentar justificar os atrasos na montagem de helicópteros que antes da guerra vinham da Ucrânia. Perante as explicações, Putin revira os olhos e zas-trás. Este tipo de imagens não saem do Kremlin por acaso, não são uma fuga de informação. As imagens do raspanete passaram na televisão russa. Depois de críticas mais ou menos assumidas, vindas de poderosos aliados que estão a combater na Ucrânia, estará agora Putin a sentir necessidade de se afirmar? Estará o presidente russo a sentir que está a perder apoio dentro das próprias fileiras? Vou conversar com o jornalista do Observador, José Carlos Duarte, que acompanha a evolução da guerra da Ucrânia desde o início. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Zé Carlos.

Olá, Ricardo.

Sabemos que a realidade da guerra muda muito e muito depressa, mas nesta altura podemos dizer que o conflito na Ucrânia continua a correr mal a Moscovo, ou não?

Neste momento, a Rússia conseguiu uma importante conquista da localidade Soledar, que pode ser vista como uma espécie de ganho de ânimo pro lado de Moscovo. Ainda assim, esta conquista foi a primeira efetiva desde julho do ano passado e apesar do entusiasmo, não é, nem de perto nem de longe, uma conquista importante, nem é sequer um ponto estratégico. Além disso, apesar da conquista, pode haver uma coisa que pode vir a correr mal, que é o fato de a conquista ter sido feita não pelas forças russas, mas sim pelo grupo de mercenários Wagner.

Por um batalhão pago.

Exatamente, um grupo paramilitar.

E entretanto, Zé Carlos, foi substituído o comandante operacional russo na Ucrânia.

Sim, na semana passada, Gerasimov assumiu as rédeas da operação militar especial, como a Rússia lhe chama, na Ucrânia, e vai ser quem vai comandar as tropas no terreno. A conquista de Soledar pode efetivamente estar relacionada com esta troca, porque o anterior chefe das tropas russas na Ucrânia.

Surovikin?

Surovikin, exato, era visto como um dos aliados do antigo general e tendo em conta a conquista de Soledar e a intenção de Putin em esvaziar um bocadinho o protagonismo do grupo paramilitar, acaba por esta troca ser uma maneira de não dar grande protagonismo à organização.

E Valery Gerasimov é também o comandante das Forças Armadas Russas. Vai acumular esse poder.

Sim, é uma pessoa que Putin confia muito mais, ele faz mesmo parte do seu círculo mais restrito e é alguém muito menos cruel do que o seu antecessor. É mais estratega, foi um dos principais teóricos do conceito de guerra híbrida, portanto, é alguém menos temperamental do que Surovikin.

E para perceber melhor esta conversa, precisamos ainda de conhecer outras duas personagens essenciais. E uma delas é um senhor chamado Ramzan Kadyrov. Quem é Kadyrov, Zé Carlos?

Kadyrov é o líder da Chechênia, que é uma região que integra a Federação Russa e é alguém que tem uma grande admiração por Putin, que já vem dos tempos da guerra da Chechênia, que aliás foi o primeiro conflito que Putin teve quando assumiu o poder em 2000, e desde aí que a relação entre os dois tem corrido bastante bem. Os dois não têm qualquer antagonismo, mas Kadyrov já chegou ao longo da guerra a criticar algumas das decisões, não de Putin, nunca de Putin, mas sempre do Ministério da Defesa, porque Kadyrov é uma pessoa que faz parte de uma linha mais nacionalista e que é um grande fervoroso apoiante da operação militar especial.

Ele que tem tido um papel determinante nesta guerra, está à frente de militares que têm conseguido alguns sucessos para a Rússia, mas as críticas de Kadyrov são mais relacionadas com as chefias militares do que com a liderança política. É isso que estás a dizer?

Sim, Putin parece ser imune às críticas de Kadyrov. Ele direciona muito mais a sua revolta para com o ministro da Defesa, Sergei Shoigu. Nas redes sociais chegou a criticá-lo.

"Вы увидите довольно"

Concretные результаты. Я не стратег в том плане, в такого уровня, как Министерство обороны, но были допущены ошибки.

Principalmente depois daquela contraofensiva em Kharkiv, em setembro, em que a Ucrânia recuperou a totalidade do Oblast. Kadyrov é um apoiante tão fervoroso de Putin que até tem na sua conta Telegram a foto do presidente russo como foto de perfil.

Portanto, não é dele, é de Putin.

Exatamente.

E agora, José Carlos Duarte, temos de falar na outra figura, um senhor chamado Yevgeny Prigozhin. Quem é este homem?

Prigozhin é, curiosamente, um ex-cozinheiro. Este homem fez uma grande fortuna no mundo da restauração, teve restaurantes muito afamados em Moscovo, em São Petersburgo, e chegou, num determinado ponto da carreira, a fazer as refeições no Kremlin. Ficou aí conhecido como chef de Putin e em 2014, quando começou o conflito no leste da Ucrânia e a Crimeia foi anexada, Prigozhin sentiu a necessidade de criar uma milícia privada para proteger os interesses russos na Ucrânia. Desde aí que desempenha um papel de liderança no grupo Wagner e nunca se tornou muito claro qual é a relação entre esta organização paramilitar e o Kremlin. Houve sempre muitas dúvidas sobre se a presidência russa patrocinava ou não o grupo Wagner, e esta organização chegou a lutar em várias partes do globo, não só na Ucrânia, como também na República Centro-Africana, na Síria, no Sudão. E se houvesse uma ligação com o Kremlin, seria uma intervenção de um Estado noutro país.

Portanto, nada disso é assumido, essa ligação. Mesmo no caso da Ucrânia?

Mesmo no caso da Ucrânia.

E Prigozhin disse algo que possa ter incomodado Putin?

Sim, Prigozhin, contrariamente a Kadyrov, já criticou diretamente Putin. Os meios de comunicação sociais do Ocidente já noticiaram que Prigozhin chegou a confrontar Putin pelos insucessos na Ucrânia.

Но крышились они, и поэтому общество должно относиться к ним с глубочайшим уважением.

Mas, tal como Kadyrov, apesar de esta notícia ter saído para fora, Prigozhin direciona mais as críticas para Shoigu, para o ministro da Defesa. Esse é também o seu principal alvo e contrariamente a Kadyrov, há vários especialistas que veem um desejo de Prigozhin em chegar à pasta da Defesa, em assumir o controle da pasta da Defesa.

Já voltamos à conversa com o jornalista José Carlos Duarte. Vamos já perceber como todas estas personagens encaixam na história do dia de hoje. Vamos tentar perceber até onde pode Putin esticar a corda entre os aliados que tem no Kremlin, numa altura em que a guerra não está a correr bem a Moscovo. A reforma do Estado para nós não é uma folha de PowerPoint. Será necessário reformar Portugal? Será que é possível reformar Portugal? E por que continuamos a reformar tão pouco? António Carrapatoso vai responder a estas e outras perguntas no novo curso da Academia Observador. E até traz uma folha de PowerPoint. Academia Observador. Grandes cursos a pequenos preços. Estamos de regresso à história do dia e à conversa com o jornalista do Observador, José Carlos Duarte. José Carlos, Dmitry Peskov é o porta-voz do Kremlin e, por regra, só o ouvimos em declarações por telefone. Falavas aí das críticas que Prigozhin por vezes faz a Putin e à essa espécie de tensão, por vezes, entre o Kremlin e o grupo Wagner. Mas Peskov, o porta-voz de Putin, tenta, por telefone, como sempre, desmentir essa ideia.

Что касается всех конфликтов, то, конечно, как всегда это бывает, это главным образом продукция всех вот этих вот информационных.

Porém, José Carlos, nestas declarações em que Peskov tenta deitar alguma água na fervura e dizer que está tudo bem, que está tudo tranquilo, também diz que às vezes as farpas vêm dos amigos.

Sim, as declarações de Peskov foram bivalentes. Por um lado, ele diz que os combatentes do grupo Wagner são heróis, têm um papel importante no conflito da Ucrânia, mas por outro, acaba por dar a entender que as maiores facadas nas costas vêm dos amigos e não tanto dos inimigos. Portanto, Peskov tenta não se comprometer, mas que deixa aqui uma farpa a Prigozhin, eu acho que é um facto.

E já percebemos que com o Kadyrov, estes dois homens são muito importantes para a máquina de guerra russa. De vez em quando, parecem então sair do guião. No Kremlin há também alguma voz dissonante ou alguém que manifeste em algum local, nem que seja nas redes sociais, alguma posição menos alinhada com Vladimir Putin?

Do que sai cá para fora, não se tem conhecimento de ninguém que possa criticar ou mesmo confrontar Vladimir Putin. Existem opositores ao presidente russo, mas que estão Ou presos ou fora do país.

Precisamente, Zé Carlos, estás a falar da oposição, estás a falar de homens como Alexei Navalny, que a oposição continua manietada?

Sim, a oposição na Rússia é praticamente inexistente. Navalny está detido numa cela em Moscovo e há alguma oposição, mas está fora da Rússia. Nomeadamente em novembro, houve um grupo de dissidentes políticos que se reuniu na Polónia, encabeçado por Ilya Ponomarev, que estão a tentar organizar uma resistência ao atual regime russo. Mas obviamente que fora do país não é fácil organizar uma resistência com capacidade para confrontar Putin.

José Carlos Duarte, todo este enquadramento para chegarmos aqui ao ponto desta história do dia e àquele raspanete que ouvimos no arranque do episódio. Aquele raspanete é sinal de que Putin está a sentir necessidade de se afirmar porque sente que alguma coisa não está bem ou que o chão lhe está a fugir debaixo dos pés?

Sim, há alguns especialistas que defendem que realmente aquela manifestação, aquela reprimenda, foi ensaiada exatamente para mandar uma mensagem não só para dentro do Kremlin, como também para fora, porque o vídeo foi divulgado nas redes sociais e até na agência de notícias russa, que é estatal. Logo, Putin poderá estar aqui a mandar uma mensagem, a dar uma espécie de murro na mesa, que ele continua a ser o líder e que, obviamente, não quer ter contestação num futuro próximo.

Porque quem manda é ele e como explicavas, nada daquilo acontece por acaso. Quer dizer, não vemos aquelas imagens na televisão russa por acaso. Putin quer mesmo dizer alguma coisa, tanto a chefias militares como a responsáveis políticos, é isso que estás a dizer?

Sim. Putin poderá estar aqui a mandar uma mensagem, ainda para mais com a nomeação do novo comandante das tropas russas na Ucrânia, que a sua posição, as suas decisões na guerra, serão para manter e que ele é que tem o controle e não terceiros, como o caso do líder do grupo Wagner. Ele é que mantém o controle, ele é que está à frente e não são os outros.

E ele é que é o presidente.

Exatamente, ele é que é o presidente. É uma questão de autoridade, é uma questão de impor a sua autoridade perante outras pessoas que já estão a tentar morder os calcanhares.

E há alguma indicação do interior do Kremlin sobre até onde Putin poderá esticar esta corda a nível interno, ou seja, até onde poderá levar esta afirmação de poder, se isso poderá causar algum desconforto ou não?

Eu julgo que não. Eu acho que atualmente não há ninguém que seja capaz de contestar o seu poder. Prigozhin num futuro próximo, e se a guerra correr bem, poderá usar esse trunfo para tentar ofuscar o presidente russo. Mas por agora não há ninguém com capacidade, a oposição está muito pouco organizada, falta união, portanto, não julgo que haja alguém que seja capaz de confrontar neste momento Vladimir Putin.

Zé Carlos, estavas aí a falar e eu estava a lembrar-me de Júlio César, que era um comandante, um general romano, que tinha as suas legiões, as suas tropas, e quando é chamado a Roma, ordenam-lhe que deixe as tropas para lá do Rubicão, do rio Rubicão. Mas Júlio César não cumpriu essa ordem, entrou em Roma com as suas tropas e assumiu ele o poder. Poderá haver aqui algum paralelo com esse senhor Prigozhin, do grupo Wagner?

Pelo menos por agora não parece, mas num futuro próximo, se ganhar legitimidade no campo de batalha, pode ser que isso possa vir a acontecer e ele tornar-se um futuro sucessor de Vladimir Putin.

E Zé Carlos, há alguma hipótese de uma insurreição no Kremlin?

Essa hipótese é remota, mas pode existir. Eu para elaborar o artigo para "O Observador", eu falei com um analista político russo, Mikhail Troitsky, que considera que pode haver um conjunto de circunstâncias que podem levar a essa tal insurreição. Mas para isso o especialista aponta apenas dois cenários: Putin cometer um erro clamoroso ou então, caso haja uma demonstração total de um fracasso. Ele antevê que isso poderá tornar-se num sério desafio ao seu poder.

Obrigado, Zé Carlos.

Obrigado.

José Carlos Duarte é jornalista do Observador e acompanha a guerra desde o início. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.