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Olá, sejam muito bem-vindos. Já sabe, esta é a história das histórias. Estava à espera de ouvir o Jorge Adolfo Marques e vai ouvir. Eu sou o João Paulo Secador. Estou aqui apenas para introduzir esta conversa que, no fundo, começou ontem, Jorge. Nós ontem já falamos deste filme do capitão Almeida Moreira, esse filme de 1930, encomendado pela Comissão de Iniciativa e Turismo de Viseu. Falamos ontem da primeira parte, desta Viseu mais antigo, que este filme de 40 minutos mostra. Este filme que foi mostrado depois nos anos 30 em Viseu e noutras cidades. Hoje vamos continuar a refletir em torno deste filme Viseu, do capitão Almeida Moreira, e vamos avançar na idade e falar então de Viseu moderno. Olá, Jorge. Bem-vindo. Vamos a isso.
Olá. Ontem começamos a falar um bocadinho do Viseu antigo.
Do Viseu antigo.
Retratado no filme do capitão Almeida Moreira. Um homem extraordinário, que dedicou a sua vida à defesa da história da cidade, da região, do seu património, mas também a pensar no futuro. Ele era um homem do futuro, era um homem com visão. Porque é importante também dizer, ontem por acaso não referi isso, que estas comissões tinham um propósito, era a promoção do turismo. Ou seja, eles estavam a pensar no futuro.
Exatamente.
Se nós pensarmos, o que é que Portugal produz de muito importante e que tem um peso grande na economia? É o turismo.
É o turismo.
É a chamada indústria do turismo.
Hoje cada vez mais.
Exatamente. E o capitão Almeida Moreira era um homem que estava, digamos, na vanguarda de muitos outros homens e mulheres, que na altura mais homens que mulheres, temos que ter em consideração o tipo de sociedade em que ele vive, mas que pensavam precisamente nesta valorização do património, das paisagens, das belezas naturais, e eram homens que conheciam muito também o que se fazia no exterior. Ora, o filme do capitão Almeida Moreira, ontem falámos um bocadinho da parte do Viseu antigo. Do Viseu que ele também conhecia muito bem, porque aliás, referi que ele foi o primeiro diretor do Museu de Grão Vasco, criado em 1916, portanto, ainda no período da República. Importa também dizer que estas comissões de iniciativa do turismo vêm da Primeira República e continuam depois do 28 de maio de 1926, continuam a existir ainda durante alguns anos, depois vão ser extintas e vão passar a ser as Comissões Municipais de Turismo que vão assumir esse papel. Mas, no que diz respeito à segunda parte do filme do capitão Almeida Moreira, é muito interessante pelo seguinte: porque a cidade de Viseu, e mesmo quem a conhece, quem a visita hoje, e que vem para o centro da cidade. Há duas áreas no centro da cidade, há o chamado centro histórico.
Exatamente.
O centro histórico, ali à volta da Sé e aquelas ruas todas.
Aquela acrópole, digamos assim. Exato.
Exatamente. A acrópole visense, que tem lá a Igreja dos Terceiros, perdão, a Igreja da Misericórdia e em frente a Sé.
A Sé, e ao lado o palácio.
Exatamente.
O atual museu.
E depois há ainda, digamos, no centro da cidade, há aquela área toda ali perto da Câmara Municipal. O Rossio e aquelas ruas que saem ou desaguam no Rossio, em frente à Câmara. Portanto, e toda essa área, se as pessoas repararem bem, quem visita, até é uma área muito bonita, porque é muito jardinada, uma área muito agradável, pedonal, tem uma série de ruas que são só para peões.
Ali é tudo bonito, o piso, os candeeiros estão todos arranjados.
Sim.
Os jardins. É muito merecedor de atenção.
Aliás, João, na linha da ideia, precisamente, dessas comissões de iniciativa e turismo, que foram criadas.
Ainda bem. É boa a ideia.
A ideia de criar uma cidade que as pessoas pudessem vivê-la.
Viver e orgulhar-se, claro.
E há um aspeto que também, um slogan que é lançado pro ar pelo capitão Francisco de Almeida Moreira, que é o da Cidade Jardim, Viseu, Cidade Jardim.
Ok, boa, vem daí.
Viseu, Cidade Jardim. E é curioso que ainda hoje as pessoas que vêm a Viseu acham que é uma cidade muito bonita.
Sim.
Sem desprimor para as outras. Mas é uma cidade muito bonita e que é muito jardinada, tem muitos jardins, é muito verde. A verdade é que ao longo das décadas, isto desde o tempo, pelo menos, do capitão, tem havido sempre alguma preocupação por parte de todos os autarcas que estiveram à frente dos destinos municipais com este aspeto.
E ainda bem que houve mesmo outros programas, Jorge, o programa Polis, por exemplo, fez muito para manter aquela beleza e as fontes.
Exato.
O que acho graça é que tu hoje, para mim, acho mais divertido é que hoje vais falar da segunda parte do filme, da modernidade, e é um filme que estreou há 100 anos.
É um filme que estreou há quase 100 anos.
É, em 1930. Exato. É tão engraçado.
É um jovem e moderno filme com 100 anos.
Mas de fato é uma bonita cidade e portanto ainda bem que esse esforço continua. Mas diz lá, o que é que a gente espera da segunda parte deste filme?
Na segunda parte deste filme, que o capitão intitula de Viseu Moderno, ele apresenta logo o fórum da cidade. Enfim, eu utilizo aqui o termo romano, o centro cívico e administrativo.
Com mor que é o que és.
Cívico e administrativo e até econômico, porque tem muitos bancos. Bancos em termos financeiros. Também tem banquinhos para as pessoas sentarem. Mas o centro financeiro da cidade, que é aquele o Rossio. Praça da República, mas vulgarmente toda a gente conhece por Rossio.
Exatamente.
E, portanto, ele começa por ali. E depois é interessante, porque toda aquela área que eu referi há pouco, aquelas ruas que saem do Rossio, aquela zona foi toda urbanizada a partir de um plano de urbanização e de modernização da cidade, estabelecido pela Câmara Municipal em 1876. Portanto, repara Quase 50 anos antes.
Exatamente.
Quase 50 anos antes.
Tinha o capitão Almeida Moreira três anos.
Era o capitão Almeida Moreira. Um miúdo pequeno.
Exatamente.
Quando a Câmara decide modernizar a cidade. Porque o que era a cidade até 1876, fundamentalmente? Era aquilo que nós chamamos o centro histórico. Era o que estava dentro da muralha afoncina da cidade. Era o tal casco velho, era a Rua Direita, que atravessava a cidade de lés a lés, mas era uma cidade fechada, em torno da Sé.
A Rua Direita é como se fosse o Cardos Máximos, não?
Exatamente.
Como deveria ser.
Claro. Quando em 1876 se projeta a um plano de urbanização, há uma área muito importante que é precisamente para o lado do Convento de Maçorim, que é a tal igreja que está ao lado da Câmara, a Igreja dos Terceiros. Portanto, toda essa área, é aí que nós vamos encontrar, hoje, a esta distância, uma espécie de um segundo centro histórico.
Ok. Sim.
Um centro histórico onde se implantou a modernidade.
Exatamente.
Temos que ter em consideração, 1876, a época. Estamos ali no Fontismo.
Exatamente.
O Fontismo, as máquinas, a ideia de abrir estradas largas.
Os comboios.
Comboio.
Exatamente.
Os mercados melhores, digamos, a higiene, a iluminação pública.
Exatamente.
Portanto, tudo isso vai estar presente.
Chegou a modernidade à cidade.
Chegou a modernidade. E é esse território que o Almeida Moreira vai filmar. Mas o que é interessante é que ele começa por filmar a Praça da República, portanto o Rossio, com os calhambeques lá à volta, que eram os táxis da altura, tal como hoje os táxis estacionam ali, junto ao passeio na praça. Agora vamos recuar a 1930, eram os carros de 1930. Aqueles carros que nós costumamos ver nos filmes do Al Capone e do Charlot.
Exato.
Esses carros antigos que nós encontramos no Museu do Caramulo, por exemplo.
Exatamente.
Um bom sítio para os rever.
Exato.
Depois temos uma coisa muito interessante, o Almeida Moreira filma o Hotel Portugal, que era dos irmãos Casimiro, que eram os famosos toureiros vizinhenses, que no início do século triunfaram nas grandes praças de touros da Península Ibérica e penso que para além da Península Ibérica, mesmo na América Latina. Aliás, um desses Casimiros é pai, precisamente, de uma grande atriz.
Mirita Casimiro, é?
A Mirita Casimiro.
Pronto, já sei, que é o nome aqui do teatro, aqui no Estoril.
Exatamente. Mirita Casimiro, que vai ser artista protagonista do "Maria Papoila", um filme de 1937, do Leitão Barros. Com o António Silva. Enfim, Mirita Casimiro, que foi casada com o Vasco Santana.
Exatamente. Sim, curioso.
E que depois acabou o casamento de forma bastante atribulada. Mas pronto, isso são notas para outro dia.
Exato.
Portanto, o Almeida Moreira filma esta zona da cidade. O que está a ser construído é engraçado. Ele filma muito os hotéis, o Hotel Portugal, o Hotel Avenida, a Pensão André, um novo hotel que estava a ser construído e que hoje existe o tal edifício, mas já não é hotel nenhum. Depois os jardins, nomeadamente o Jardim das Mães, que é o Jardim Major Teles.
Aquele que vem a descer para o Rossio, exatamente.
E há aqui um aspecto muito engraçado: é que ele filma a parede desse jardim que dá para o Rossio, com a balaustrada que foi colocada por iniciativa, precisamente, da Comissão de Iniciativa e Turismo, mas a parede não tem lá os azulejos que se encontram lá agora.
Aqueles do Rossio famosos, que é um ex-libris da cidade.
Por quê? Porque esses azulejos, nós iremos falar neles no outro programa.
Amanhã, sim.
Esses azulejos foram colocados no ano a seguir. E este filme é de 1930 e os azulejos são de 1931.
Ok.
E portanto, é muito engraçado, o filme está ali no momento em que há esta melhoria do centro da cidade.
Sim.
Ele filma esta modernidade. Por exemplo, filma o Banco de Portugal, que está precisamente ali em frente à Câmara Municipal, enfim, junto à chamada Rua Formosa, que era talvez a artéria principal da cidade na altura, e que esse edifício do Banco de Portugal, que é um edifício que foi projetado e construído ali durante os anos 20 e nos anos 30, está ainda com os andaimes, enfim, uns andaimes não tão modernos como os atuais. O projeto é do João de Moura Dessa, mas lá está, um edifício que hoje é uma marca ali no centro da cidade.
Exatamente.
E portanto, toda essa nova área da cidade, essa área moderna, que ele filma, é para dar esse ar de modernidade. Ainda nesta segunda parte, ele acrescenta um outro elemento de modernidade que é muito interessante. Ele como era professor de Educação Física do Liceu de Viseu, filma os alunos a fazer ginástica no Fontelo. Filma os alunos a fazer ginástica no liceu, filma o Estádio Municipal de Viseu, que hoje joga lá o Académico de Viseu e sempre jogou. O Estádio Municipal, com alunos a dar saltos em altura. Portanto, ele valoriza muito este aspecto da promoção da educação física, a sua veia militar. Mas promove-se muito hoje o desporto.
Exatamente.
Porque é muito importante. E depois ainda filma uma série de outros aspectos aqui da cidade e até dos arredores, que ele considera também muito significativos, nomeadamente, o comboio da Linha do Dão. Faz lembrar aquele célebre filme, um dos primeiros filmes.
Que é o comboio que vinha contra a câmera, que as pessoas assustavam-se muito. Quando apareceram os primeiros cinemas.
Os irmãos Lumière filmam o comboio e as pessoas encolhem-se dentro da sala porque pensam que vão ser colhidas pelo comboio.
A ilusão era total.
Ora, neste filme temos exatamente uma imagem muito semelhante com o comboio da Linha do Dão, hoje uma ecopista, pedal, ciclovia, a famosa do Dão, mas que ele também vai lá filmar porque é um aspecto de modernidade.
Muito bem. Por estarmos nesses dois dias e esta homenagem, de facto, a este filme, "Viseu", do capitão Almeida Moreira, que estreou em 1930, vai fazer 100 anos. Um grande filme com o Viseu antigo e o Viseu moderno, neste moderno que vai fazer em 2030, 100 anos. Mas de facto é uma grande encomenda desta Comissão de Iniciativa e Turismo e que fica para a história e para a cidade, uma cidade tão bonita. Muito bem, Jorge, nós estamos conversados por hoje. Amanhã vamos continuar a falar de Viseu, que é muito bom, e vamos falar então finalmente das panelas de leite no rissol, que hoje mencionamos. Então, Jorge, boa viagem. Até amanhã.
Um abraço.