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Olá, boa tarde. Sejam muito bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e em Viseu está Alberto Correia, que é investigador e historiador de toda esta região centro e que sabe tanto sobre toda esta zona. Vamos falar de Vildemoinhos. Vamos falar de tapeçarias antigas, uma arte eventualmente perdida. Vamos a isso, Alberto. Bem-vindo.
"Para cada povo, a arte é a segurança da tradição, o refúgio das consciências, o mais puro reflexo da imagem benigna da pátria." Isto escreveu Ramalho Ortigão. A pequena frase que, ao jeito de exórdio, encima o presente texto, abria, vai muito tempo, o modesto folheto que dava notícia dos concorrentes presentes na exposição artística ou industrial realizada no Museu, agora Nacional, de Grão Vasco, em 1921, por ocasião do primeiro Congresso Beirão, que em Viseu tivera lugar nesse mesmo ano. No âmbito do alargado mostruário, onde se ofereciam os bordados, a louça preta, a cestaria e a obra de vim como manifestação dos ofícios mais tarde ditos artesanais, assinalavam-se no item pequenas indústrias os nomes de Maria Cadeias de São Salvador, uma aldeia vizinha, Maria da Conceição Cadeias, Alzira Cadeias, Ana de Jesus e Isabel de Jesus, de Vildemoinhos, sendo de crer que os trabalhos pelas mesmas apresentados respeitassem a tapeçaria e a tecelagem de colchas corrente em ambas as povoações, provavelmente migrantes as duas técnicas de Vildemoinhos para São Salvador, como crê o historiador José Coelho, e no-lo conta nas memórias de Viseu, Arredores, monografia sua publicada em Viseu em 1941. José Coelho, que in loco, como ele diz na obra citada, fizera um inquérito em 27 de agosto de 1938, diz que encontrou ali três tecedeiras de colchas e tapetes de lã, uma indústria que ele chama interessante, útil e rendosa, que merece ser acarinhada e de largo futuro, desde que praticada em larga escala e devidamente orientada por peritos de especialidade. Tal não veio a acontecer, mesmo quando vastos dinheiros da Europa sustentavam aprendizagens que intentavam fazer ressurgir, renovando, sem dúvida, os ancestrais ofícios que nem os museus locais têm sabido preservar na sua inteira dimensão de estudo e de registo. Sem matérias-primas produzidas no lugar, que não é propício para uma pastorícia de longo alcance, a lã utilizada para a tecelagem teria de ser adquirida mais longe, bastando-lhes, inicialmente, para a urdidura da teia, o fio de linho de produção local, mais tarde substituído pelo algodão ou com o mesmo emparecerando, bastando-lhes para outro efeito, o decorativo. Os ingredientes locais tradicionalmente usados na popular tintagem, antes que as anilinas os suplantassem mais tarde. Dias inteiros no tear, quantas vezes as horas se estenderiam pelos serões fora e deste modo se satisfazia um mercado alargado e uma periferia abrangente, respondendo a encomendas de uma burguesia endinheirada ou às solicitações de lavradores abonados que punham honra no dote da filha casadeira. Colchas e tapetes eram normalmente tecidos nos teares da vivência doméstica com a lã branca ou natural, a que se acrescentavam os elementos decorativos vindos de uma gramática tradicional que mantinha a constância da cor verde e vermelha de um tom vivo que alegrava a obra feita. Não era extensa a gama de padrões que as tecedeiras combinavam a seu gosto, quer no grande corpo central das colchas, quer no dos tapetes ou então nas cercaduras da obra produzida, fosse esta de feição retangular ou quadrada. Mais frequentemente se usavam motivos florais de um apertado leque, todavia, introduziram-se também elementos de natureza geométrica que se combinavam em graciosas superfícies dispostas por distintas ortografias. Um particular cuidado se manifestava com as cercaduras, onde, fortemente recorrente, surge uma rosácea de oito pontas que, multiplicada, se anima graças ao movimento de uma linha ondulante que gera, envolvendo as aves, um capcioso movimento que quebra qualquer monotonia. Pena que nenhum museu tenha guardado meia dúzia destes panos de singular invenção. Que tempo ainda aí é, todavia.
São sempre bons estes seus alertas, Alberto. Vê se alguém pega nisto e consegue dar espaço e dar tempo a estas artes e ofícios e estes mosteiros. Muita coisa se tem feito, mas de facto ainda há, e as suas crónicas de hoje são a prova disso, ainda há muito por fazer, o que também é bom pra mexer com as novas gerações.
Há coleções particulares e familiares que têm.
Alguns exemplares bons e que vão mantendo, guardando. Muito bem. Então, pra esta semana estamos conversados. Marcamos encontro pra semana. Alberto, bem-haja por mais estas lembranças e mais estas crónicas. Um bom fim de semana.
E até pra semana.